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Perfis e Entrevistas – Daniel Piza

Postado às 01:55 do dia 29/04/12

Acabei pegando este livro na prateleira de Comunicação da Fnac porque queria ler perfis biográficos e acabei não achando nada que me empolgasse muito. Este livro me pareceu bom e mais ou menos barato. A capa não anima, super mal feitinha, feinha; internamente não anima também, uma paginação esquisita, fontes “nada a ver”, mas havia lá  um perfil de João Cabral e um fictício de Oscar Wilde que me interessaram ler pra ver no que dava.

Li o livrinho num tapa. Aproveitei não muita coisa. Apreendi que este Daniel Piza é um jornalista dedicado, que parece entender do que fala, mas gosta muito de conversar com o seu entrevistado como se o seu leitor conhecesse dele o mesmo tanto que ele próprio estudou. Bem, enfim. Há leituras que nos fazem parecer mais ignorantes… não faz meu estilo, mas vamos lá.

Aqui seguem as minhas melhores partes:

Da entrevista de João Cabral:
“Para um poeta [que] tanto admirou as artes visuais, a perda desse sentido [visão] é a perda de qualquer sentido.” (p. 13)
– gostei muito da frase; se Daniel tivesse escolhido todo em vez de qualquer, eu teria gostado menos.

“Ao mesmo tempo eu não queria a rima clássica, parnasiana, que detestava porque faz o leitor ficar esperando a rima.” (p. 14-15)
– tão bom ouvir isto vindo da boca de João Cabral. É bem a sensação de quando a gente lê tentativas de poesias. Tenho um amigo dos tempos de faculdade, que hoje é professor na UFPR. Depois de ter feito seu mestrado e doutorado em João Cabral, diz que não se atreve a escrever poesia. Nem eu. Não tem como. A gente vai pra rima e acontece esta coisa besta de ficar à caça.

“Tenho medo da morte, mas sou materialista.” (p. 16)
– é João Cabral quem fala isto. Em sendo ele, a gente nem pode argumentar: – Mas não é justamente porque se é materialista?! Coisa pra se refletir depois…

“Mas para mim o maior poeta francês é Baudelaire. Está tudo ali.” (p. 17)
– tá vendo? Não dá pra gente se meter à besta de escrever poesia mesmo.

“Eu procuro escrever de forma mais racional possível, mas para me comunicar com o leitor não racionalmente. Se fosse para isso, escreveria equações matemáticas.” (p. 18)
– pra mim, foi a melhor parte da entrevista com Cabral.

Da entrevista com Carlos Heitor Cony:
“Olha, eu não sou nostálgico. O nostálgico sente falta do que teve. Eu sou melancólico, sinto falta do que não tive.” (p. 23)
– ele, eu e a torcida do Flamengo. (Bem, melhor não usar esta metáfora; não conheço de futebol e vai ver que o torcedor de Flamengo é nostálgico mesmo.)

“A esquerda é muito burra. Não sei se sou de esquerda. Se ser de esquerda é ter preocupação social, então eu sou de esquerda.” (p. 26)
– tenho tanta implicância com quem acha que direita = nazismo/fascismo; que direita = meu, meu, meu. Pena que não tem mais ninguém que diga que a esquerda é burra. Bem, eu digo, mas eu não sou ninguém.

“Não tem muito caráter, mas é bom sujeito.” (p. 27)
– fiquei contente que o Daniel insistiu numas duas ou três entrevistas em destrinchar o sucesso da crônica em relação ao conto no Brasil. Cony veio com esta explicação e ele acertou em cheio. Crônica é esta coisa besta que a gente gosta de ler. Caráter é esta coisa ridícula que brasileiro detesta ter, porque é mais bacana ser legal. Não haveria melhor definição. Vou pegar esta frase e dar para um europeu para ver se ele entende: não tem caráter, mas é um bom sujeito…

Da entrevista com John Updike:
“Acho que os brasileiros não são as pessoas certas para ler o livro.” (p. 65)
– só pela coragem de ter dito isto a respeito de um livro ambientado no Brasil já vale meu respeito. Adoro escritores que dizem o que pensam e ainda parecem simpáticos. Será que a editora puxou a orelha dele depois?

Da entrevista com Gay Talese:
“Se vejo um nome inventado numa narrativa de não-ficção, paro de ler. Preferiria ler ficção.” (p. 92)
– por isso Talese é o Sr. Credibilidade, né? Eu continuaria lendo na boa, se é que teria percebido… Sou 100% uma leitora de ficção.

Da entrevista com Iberê Camargo:
“O Brasil não anima ninguém.”(p. 98)
– dispensa comentários, embora Iberê tenha dado esta entrevista em 1993 e hoje todo mundo ache que estamos numa animação só. Nenhuma empresa parece mal enquanto vai bem.

Da entrevista com Stephen Jay Gould:
“É possível ser racional a ponto de ser realmente ecológico?
(Risos) Bem, ao menos temos a capacidade. Não é impossível. O problema não é que precisemos ser inteiramente racionais. Apenas precisamos ser não-nacionalistas; isso seria racional bastante.”
– que resposta admirável do S. J. Gould! Vou escrever e entregar pros meus amigos ativistas, porque muitos sofrem tentando ser coerentes.

revisto por Mayra Corrêa e Castro
 
PIZA, Daniel. Perfis & Entrevistas: escritores, artistas, cientistas. São Paulo: Contexto, 2004.

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