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Paixões – Rosa Montero

Postado às 20:46 do dia 28/03/13

Há dois estados emocionais em que se pode ler este livro que traz perfis de famosos casos de amor:  quando tudo estiver terminado entre vocês ou quando tudo estiver numa pasmaceira. Só não leia quando tudo estiver no auge. Escrito pela jornalista espanhola Rosa Montero (1951), o recado é de que o amor acaba, mesmo os mais tórridos. Não estrague seu prazer antes do tempo.

Paixões (1999), que traz como subtítulo Amores e Desamores que Mudaram a História, não entrega histórias que de fato a tenham mudado – exceto umas duas ou três em que o encontro de um homem com uma mulher desestruturou o poder estabelecido -, mas entrega horas de leitura prazerosa e fofocas gabaritadas.

Encomendados pelo jornal El País, a série de 18 artigos mostra como amaram e desamaram casais polêmicos do mundo da política e das artes, como o Duque e a Duquesa de Windsor, ou John Lennon e Yoko Ono. Juntados em livro, ganharam uma introdução caprichada em que Rosa tece algumas teorias sobre por que amamos amar, e um epílogo em que cita outros casos amorosos que deram o que falar, mas que ficaram de fora do volume. (Grande ausência, Lady Di e Dodi Fayed, falecidos 2 anos antes da publicação do livro em espanhol.)

Excelente livro para dar de presente, porque dificilmente não se gostará da leitura, seja homem ou mulher. Rosa é opinativa, não deixa barato quando não gosta da personagem, pesquisou quilos de jornais e livros antes de publicar os perfis, e é uma querida, daquela que se empolga com os leitores, que lhe mandaram feedbacks entusiasmados quando os retratos foram sendo publicados no jornal.

Outros livros conhecidos da jornalista, entre tantos que já escreveu e pelos quais recebeu prêmios, são A Louca da Casa (2003), romance, e História de Mulheres (1995). O História vai na mesma linha do biografismo de Paixões, trazendo o perfil de 15 extraordinárias mulheres, como Simone de Beauvoir e Frida Kahlo. Sempre é emocionante ouvir uma mulher falando de mulheres. E neste volume a tônica é a mesma: pesquisa, opinião, linguagem ágil e a empatia/simpatia por trajetórias que, se não são de gente comum, comuníssimas são.

Abaixo selecionei alguns trechos bacanas do Paixões. E pra você saber quais casos de amor foram retratdos por Rosa, segue a lista:

(1) Os Duques de Windsor; (2) Leon e Sônia Tolstói; (3) Joana, a Louca, e Felipe, o Belo; (4) Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas; (5) Liz Taylor e Richard Burton; (6) Evita e Juan Perón; (7) Robert Louis Stevenson e Fanny Vandergrift; (8) Arthur Rimbaud e Paul Verlaine; (9) Marco Antônio e Cleópatra; (10) Dashiell Hammett e Lillian Hellman; (11) Hernán Cortés e a Malinche; (12) Rainha Vitória e príncipe Albert; (13) John Lennon e Yoko Ono; (14) Mariano José de Larra e Dolores Armijo; (15) Lewis Carroll e Alice Liddell; (16) Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne; (17) Os Bórgia; e (18) Elisabeth da Áustria (Sissi) e Imperador Francisco José.

Preliminares

“Porque, como todos sabemos, dentro de nós há multidões.” (p. 11)

“Mas dizer que vamos falar de paixão não esclarece grande coisa:na realidade, não estamos fazendo nada mais que nomear o caos.” (p. 12) 

“Porque a paixão, e este é o segundo traço fundamental, é uma espécie de sonho que se deteriora em contato com a realidade.” (p. 13)

” ‘É que eu não aprendo’, se queixa o amante sofredor. E ele está certo, porque o amor permanece impermeável à experiência.” (p. 14)

Resfrega

de Os Duques de Windsor

“Há casais inconcebíveis que, de fato, só devem permanecer juntos pelos segredos da cama.” (p. 28)

“Às vezes a estupidez beira o heroísmo, e a patologia, a grandeza.” (p. 32)

 “No entanto, também parece evidente que a partir da abdicação Wallis começou a se apaixonar por Edward. A desistência de um trono é um presente demasiadamente exagerado para não provocar começão e sentimento de dívida.” (p. 34)

de Leon e Sônia Tolstoi

“No decorrer dessa mesma semana Tolstoi teve a cruel e original ideia de que a noiva lesse todos os seus diários íntimos, para saber com quem estava se casando. E a pobre Sônia, ainda uma menina, teve que engolir as escabrosas revelações de um senhor de 34 anos a quem mal conhecia. Ficou horrorizada, sobretudo as saber da existência da camponesa e do filho que Tolstoi tinha com ela.” (p. 38)

de Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas

“Em 1890, um gigantão corpulento e pálido entrou num café de Paris e se aproximou do maestro da pequena orquestra que animava o local: ‘Estou escrevendo uma obra sobre uma mulher que dança, de pés descalços, sobre o sangue do homem por quem estava desesperadamente apaixonada, e que ela matou’, explicou com refinada educação: ‘Vocês poderiam tocar alguma coisa que se adequasse a isso?’ Os músicos, ao fim e ao cabo parisienses do fim do século, acharam a solicitação normal e interpretaram uma peça tão terrível e agonizante que os frequentadores do café, espantados, interromperam suas conversas. O homenzarrão ouviu a tenebrosa melodia com visível satisfação e, ao final, voltou a seu quarto para continuar escrevendo. Tratava-se de Oscar Wilde, e a obra era Salomé.” (p. 55)

de Liz Taylor e Richard Burton

“Diz a lenda que, no dia em que Liz Taylor e Richard Burton rodaram sua primeira cena de amor em Cleópatra, o set se incendiou de puro desejo. (…) Nas semanas seguintes, quando gritavam ‘Corta!’ nas cenas de amor, Burton e Liz continuavam fundidos um no outro em um furioso abraço, como se nao existisse nada ao redor. ‘Vocês fazem com que eu me sinta um intruso’, queixou-se Mankiewicz, o diretor.” (p. 65)

“Liz tentou se suicidar, Sybil (esposa de Burton) tentou suicidar-se, Richard se suicidava um pouco todos os dias bebendo inacreditáveis quantidades de álcool. Há paixões assim, baseadas em sucessivos espasmos de carinho e de agressão. Na crispação e no êxtase contínuos.” (p. 69)

de Robert Louis Stevenson e Fanny Vandegrift

“[Fanny] Tinha problemas psicológicos. Stevenson também. Provavelmente esta fi uma das bases e sua mútua adoração: os abismos da mente podem ser muito sedutores, sobretudo para aquelas pessoas que estão situadas nos limites.” (p. 85)

de Marco Antônio e Cleópatra

“Ela [Cleópatra] entrou para a história pelas mãos de um gênio como Júlio César, mas sem dúvida era uma mulher extraordinária. (…) 

 “Ele [Marco Antônio], pelo contrário, entrou pra história graças a Cleópatra: sem a rainha do Egito, hoje não nos lembraríamos daquele romano ignorante.” (p. 106)

de Dashiell Hammett e Lillian Hellman

“Lillian era feia, muito feia, feiíssima.” (p. 114)

“Quanto a ele, havia nascido em 1894 e era bonito, muito bonito, belíssimo.” (p. 115)

de Rainha Vitória e Príncipe Albert

“Primeira grande surpresa: a rainha Vitória não era vitoriana (…) Para o bem ou para o mal, estava talhada em uma única peça: era uma gota minúscula de obsessão e fogo.” (p. 134)

de John Lennon e Yoko Ono

 “Então, em 1968, apareceu Maharishi Mahesh Yogi, um guru indiano, e num piscar de olhos os lisérgicos Beatles e tornaram seus seguidores a ponto de irem até a Índia atrás dele para praticar meditação. Poucos meses depois descobriram que o guru os enganava: dormia com suas seguidoras, aproveitava-se do dinheiro de seus fiéis.” (p. 148)

“Durante um breve período, enfim, parecia que sonhar era uma maneira de mudar o mundo.” (p. 150)

de Mariano Joséde Larra e Dolores Armijo

 “Algumas pessoas perdem o paraíso cedo, e depois o resto de suas vidas é decair.” (p. 155)

de Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne

“Todos levamos dentro de nós, à espreita, nossa própria possibilidade de perdição, o abismo íntimo no qual podemos despencar; e frequentemente a chave que abre a porta do fatídico poço é uma relação sentimental.” (p. 173)

“Quando uma pessoa se instala no sofrimento, alguma coisa impele a aumentar a dor, da mesma maneira que a língua cutuca uma e outra vez a pequena ferida de uma gengiva até transformá-la em chaga.” (p. 180)

 

 revisto por Mayra Corrêa e Castro (r) 2013


MONTERO, Rosa. Paixões. Tradução Maria Alzira Brum Lemos, Ari Roitman. Rio de Janeiro: PocketOutro, 2009.
Como o livro esta esgotado, você acabará encontrando-o apena em sebos.    

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