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Como escrevo? – José Domingos de Brito (org.)

Postado às 11:01 do dia 11/12/12

Não há leitores que se cansem de perguntar “como vocês escrevem?” a escritores que estão sempre enfastiados de lhes responder.

Pode ser tietagem, curiosidade mórbida, interesse genuíno ou apenas falta de criatividade, mas se um autor é colocado diante de um leitor, a pergunta surge.

José Domingos de Brito, bibliotecário, reuniu depoimentos de 103 escritores e escritoras no volume Como Escrevo?, publicado em 2006. Estão lá, em ordem alfabética, prêmios Nobel, como José Saramago, Ernest Hemingway, T. S. Eliot e Octavio Paz; toda a gangue latino-americana que vai de Adolfo Bioy Casares, passando por Jorge Luis Borges a Julio Cortázar; os clássicos, como Émile Zola e Julio Verne; os estadunidenses William Faulkner, Henry Miller, Truman Capote e Philip Roth; os nossos brazucas de várias gerações, como Alceu Amoroso Lima, Ariano Suassuna, Dalton Trevisan (um achado, já que o homem não concede entrevistas), Sérgio Sant´Anna, Paulo Coelho, Daniel Piza; e, sempre em minoria gloriosa, 11 escritoras: Agustina Bessa-Luís, Ana Maria Machado, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Isabel Allende, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Olga Savary, Rachel de Queiroz e Simone de Beauvoir

Melhor que os depoimentos colecionados por José Domingos são os verbetes comentados, um manual vapt-vupt do que importa conhecer de cada autor e autora citados, e a bibliografia resenhada sobre como escrever, que vai de 1851, com um texto de Schopenhauer, a 2005, com um texto de Raimundo Carrero.

Abaixo transcrevi as melhores partes, agrupando os depoimentos por temas. Não há regras para escrever, exceto uma: usam-se as mãos (há uma exceção; leia até o final pra descobrir).

 

 

Enquanto o livro não é escrito

“Às vezes faço anotações. Mas essa é uma fraqueza. É melhor não anotar nada. A ideia verdadeira persegue o escritor. Este, aliás, é um bom teste: não escrever de imediato. Se a ideia for boa, legítima, ela reaparece sempre. Não há como esquecê-la, como livrar-se dela. Porque, na verdade, não é tu que tens a ideia. A ideia é que te tem…” (de Moacyr Scliar, 162)

“Escrevo de quatro a cinco horas por dia. E me preparo tomando três litros de água, fazendo uma hora de ginástica e caminhando 20 minutos por dia. Cheguei à conclusão de que literatura exige preparo de atleta. Escrever não é apenas um ato intelectual: é físico também. Com essa preparação, estou pronto para enfrentar uma maratona literária de cinco horas, sem nada me doendo.” (de Roberto Drummond, p. 177)

 

 

Corrigir e corrigir e corrigir

“A primeira página é sempre a melhor de todas, porque foi corrigida muitas vezes.” (de Adolfo Bioy Casares, p. 25)

“Feita a frase, corrijo-a, deixo-a bem apurada e aplico-a a um sentimento, a uma paisagem, a um tipo. Depois, acomodo-a a uma história… O leitor não conhece essas ginásticas de trampolineiro. Supõe a criação enorme, descendo para a exiguidade da palavra.” (de Amadeu de Queiroz, p. 37-38)

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam primeiro com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-nos novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra lima e dão mais uma torcida e mais outra. Torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita pra enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (de Graciliano Ramos, p. 109)

“Então reescrevo várias vezes e levo tempo trabalhando no livro… Só termino quando sei que ou acabo com o livro ou ele acaba comigo.” (de Mario Vargas Llosa, p. 160)

 

 

Pausas necessárias

“Sei que certos escritores franceses trabalham durante todo o dia. Isso me parece prejudicial. Deve esquecer-se durante uma boa parte do dia de que se é escritor.” (de Alberto Moravia, p. 30)

“A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte.” (de Ernest Hemingway, p. 88)

“Às vezes escrevo seguidamente, sem parar. Depois faço pausas, aí entro novamente. É aquilo que o Eclesiastes dizia: Tudo depende do tempo e do acaso. Muitas vezes estou cansada, porque fui a uma festa ou a um compromisso, mas me dá aquela vontade desesperada de escrever. Então eu deixo tudo e lá vou. Eu sei que é preciso pegar aquele instante quente, como no amor. Acho que escrever é um ato de amor. E o amor não pode ser adiado.” (de Lygia Fagundes Telles, p. 149)

“Sinto, não raro, que eu desejaria prosseguir, mas quando examino, no dia seguinte, o que produzi após três horas de trabalho, nunca acho a coisa satisfatória. É muito melhor parar e pensar em algo inteiramente diferente.” (de T.S. Eliot, p. 186)

 

 

O segredo é alma do negócio

“Jamais falo sobre a história que estou elaborando. Acho que quem diz que está escrevendo perde a obrigação de passar para o papel.” (de Antônio Torres, p. 51)

 

 

Quem manda nesta joça

“Comigo não tem essas coisa de dizer que o personagem, no meio do livro, tomou força, me pegou pelo pescoço e dominou a cena.” (de Autran Dourado, p. 57)

 

 

Não me venha com nove horas

“Não há uma única maneira – existe tanta tolice dita a esse respeito. Você é quem você é, não Fitzgerald ou Thomas Wolfe. Escreve-se sentado e escrevendo.” (de Bernard Malamud, p. 59)

“Não creio na inspiração, é uma palavra que detesto. Só existe nas cartas de amor, aos quinze anos. Creio na disciplina, às oito da manhã, com minha caneta, até a uma da tarde e depois, até a noite, trabalhando.” (de Carlos Fuentes, p. 69)

“Escrever é um hábito e eu gosto de escrever trancado.” (de João Ubaldo Ribeiro, p. 123)

“Vejam, o que há de formidável em tudo isso é que quando se está realmente necessitado de dinheiro e se acha que escrever é uma questão de ganhá-lo para poder viver, luta-se desesperadamente e se consegue.” (de Lawrence Durrell, p. 143)

“A poesia não é inspiração pura, é trabalho; não é só ficar esperando que o santo baixe, é preciso puxar o santo pelos pés e isso dá trabalho; esse é o trabalho poético…” (de Mario Quintana, p. 158)

“Então eu sigo uma única disciplina: uma vez que começo, termino.” (de Paulo Coelho, p. 172)

 

 

É que baixa o santo e eu escrevo

“Você espera pela inspiração, quaisquer que sejam as circunstâncias. Essa é uma palavra que os românticos exploravam muito. Meus camaradas marxistas têm dificuldade em aceitá-la, mas não importa o nome que se dê a isso, estou convencido de que há um estado de espírito especial em que você consegue escrever com grande facilidade e as coisas simplesmente fluem.” (de Gabriel Garcia Márquez, p. 103)

“Em torno do meu trabalho há rituais. No meu escritório sempre há flores. E nunca deixo de acender uma vela quando começo a escrever, porque sinto que assim chamo a inspiração. Como não uso relógio, uso a vela para marcar o tempo. Ela dura entre 6 e 7 horas – então é isso o que vou escrever durante o dia. Acabou a vela, acabou o trabalho.” (de Isabel Allende, p. 117)

“Ultimamente estou exigindo um certo método porque se eu for buscar apenas os instantes em que estiver, digamos, inspirada, esses instantes são muitos raros.” (de Lygia Fagundes Telles, p. 149)

“Mas quando um poema nasce inteiro é fantástico, é o grande orgasmo.” (de Olga Savary, p. 168)

 

 

Drogas lícitas e ilícitas

“Vivo um processo de escritura poética absolutamente ritualístico, em que o álcool e a música funcionam como elementos de expansão de percepção, abrindo caminhos para as visitações do inesperado.” (de Floriano Martins, p. 98)

“ – Precisa de excitantes?

– Não. Mas adoro o fumo e o álcool. Não, porém, especialmente para produzir. Produzo com eles e sem eles. Isto é: jamais me aconteceu de produzir sem fumo, e desconfio que ele me fará uma falta enorme. Mas falta como qualquer cacoete e não como excitante.” (Mário de Andrade em resposta a uma pergunta, p. 157)

“Quanto a excitante para escrever, preciso de apenas um: a certeza de que me pagarão.” (de Orígenes Lessa, p. 169)

“Sou um escritor essencialmente horizontal. Não consigo pensar a menos que esteja deitado na cama ou num sofá, com cigarros e café ao alcance da mão. Preciso estar soltando fumaça e sorvendo café. À medida que a tarde avança, passo do café para chá de hortelã, de xerez para martinis.” (de Truman Capote, p. 188)

“Nunca escrevo quando estou bêbado. Porque alguém precisaria de auxílio. A Musa é uma moça alegre que não gosta de ser cortejada com brutalidade ou grosseria.” (de W.H. Auden, p. 194)

 

 

A angústia da influência

“A crise no romance francês, de que tanta gente fala, será solucionada tão pronto nossos jovens escritores consigam libertar-se da ideia ingênua de que Joyce, Kafka e Faulkner são detentores das Tábuas da Lei da técnica da literatura de ficção.” (de François Mauriac, p. 100)

 

 

À mão

“Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.” (de Manoel de Barros, p. 151)

“Meu esquema é flexível, mas sou bastante exigente quanto a meus instrumentos de trabalho: fichas de cartolina com pauta e lápis bem apontados, macios, com borracha.” (de Vladimir Nabokov, p. 193)

 

 

Afinal, é pra quem pode

“Não escrevo meus livros. Eu os dito para minha secretária. Posso ditar cinquenta página por dia se for o caso. Por isso, poderia facilmente fazer dois a três livros por ano. Mas não faço. Escrevo um a cada dois anos para manter o padrão.” (de Sidney Sheldon, p. 182)

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

BRITO, José Domingos de (organização). Como escrevo?. São Paulo: Novera Editora, 2006.

 

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