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As melhores entrevistas do Rascunho vol.1 – Luís Henrique Pellanda (org.)

Postado às 18:00 do dia 14/08/12

Já que Luís Henrique Pellanda (1973) está em fase de pré-lançamento do volume 2As Melhores Entrevistas do Rascunho, aproveito para citar as melhores partes das melhores entrevistas que foram selecionadas para o primeiro volume, publicado em 2010.

É preciso dizer que ganhei o livro num sorteio que o Rascunho realizou pelo Twitter, junto com uma assinatura de seis meses deste que é o jornal literário mais emblemático da atual fase da literatura brasileira. No prefácio da seleção, Luís Henrique disse que não fez parte da moçada que fundou o jornal, lá em meados de fevereiro de 2000, no Bar do Pudim. Pouco importa: não poderiam ter encontrado melhor par de olhos para revirar os arquivos do Rascunho em busca de entrevistas memoráveis. Acostumado a trazer Curitiba como tema de crônicas, o organizador, que vai trabalhar pisando as mal ajambradas calçadas de petit pavet da Boca Maldita, consegue mostrar a leitores nacionais que, se esta terrinha tem lá suas manias de ostracismo, contagia todo um país com sua persistente paixão pela literatura nacional.

Curta as entrevistas e já agende o lançamento do volume 2 em Curitiba, previsto para o dia 4 de setembro, na Livraria Arte & Letra.

 

 

da entrevista com Altair Martins

“Lecionar é falar com paredes, recitar poemas para os ventiladores e fingir que avaliamos alguém. Nas reuniões de pais, falamos de pedagogias superiormente modernas. Como diz o Coivara [personagem de um livro do autor], ‘só falta piscarmos o olho’.” (p. 17)

– Deve existir alguma coisa errada na narrativa que se acostumou a fazer sobre a educação brasileira: em meio a tantos professores frustrados, o que vejo são, aluno após aluno, muitas memórias de quanto os professores foram importantes em suas vidas. Converse com qualquer pessoa, qualquer: certamente ela terá uma história bacana sobre algum professor. Que a educação no Brasil poderia ser melhor – sobretudo agora que superou, em grande parte, o problema de ser restrita e escassa –, não se discute. Mas que nós, alunos, sejamos todos uns basbacados com pais bestificados… hum, tenho lá minhas dúvidas. Também sou professora e a sala de aula é como qualquer outro ambiente: há os que se importam, há os que pouco importam.

Crime e castigo está dentro de quase todos os livros sobre algum crime.” (p. 19)

– Ai, Harold Bloom deveria ouvir isso.

“Escrevi o livro sozinho, absolutamente sozinho, como quase tudo que venho fazendo. Sou meio samambaia: minha produção é solitária e silenciosa.” (p. 19)

– Não é possível ouvir um escritor se comparar a uma samambaia e ficar desinteressado por sua obra.

“Sempre pequei pelo excesso, pela ousadia, e nunca pela covardia. Prefiro uma frase rica em meio a um ramalhete de coisas tortas do que qualquer coisa com cheiro de plástico. Já disseram que sou verborrágico. É verdade. Mas a crítica literária no Brasil é a constatação do que sobrou, nunca do que faltou.” (p. 21)

– Do mesmo jeito que todas as novas cantoras querem ser Elis Regina, todo novo escritor quer ser Graciliano. Adoro quando surge alguém que não quer.

 

 

da entrevista com Bernardo Carvalho

“Todo mundo quer saber o que leva os escritores a escrever, mas ninguém faz essa pergunta aos médicos, aos economistas, aos políticos, aos engenheiros, aos cientistas. Em parte, é natural, porque a inutilidade da literatura incomoda as pessoas.” (p. 28)

– Ah, Bernardo, o povo pergunta, sim; a gente é que ainda fica espantando de ouvir a pergunta; eles, não.

“O máximo que posso dizer para tentar responder à sua pergunta é um truísmo: que fico mal se não escrevo. E que me faz bem escrever. Ou que escrevo para criar um mundo em que a utilidade não seja uma exigência. Um mundo em que eu caiba. Mas, com isso, eu já estaria tentando atribuir uma função à literatura, e esvaziando o que há nela de mais libertário e surpreendente, que é não precisar de nenhuma razão.” (p. 29)

– Não disse? Quem não se contenta com o truísmo somos nós. Um médico quer ajudar pessoas, um economista quer deixar sua marca no mundo, um político quer poder, um engenheiro quer realizar, um cientista quer descobrir. Escritor quer escrever. É muito simples.

“Acredito que a originalidade passa por uma construção inovadora da linguagem, por mais imperceptível que ela seja. Você pode fazer isso com metáforas ou sem metáforas. Depende do caso. Você pode criar novas imagens ou usar as de sempre, de forma mais inusitada. (…) Tento evitar as metáforas desgastadas sempre que possível, criar uma linguagem aparentemente simples, discreta e direta, substantiva, embora por meio de uma sintaxe labiríntica. Tento fazer o leitor ver o livro inteiro como uma grande metáfora que ainda não foi dita, que não se diz, que se revela ao final, no conjunto, por não ter sido expressa por metáforas.” (p. 39)

– Uma declaração metaforicamente labiríntica.

 

 

da entrevista com Cristovão Tezza

“Mas como nunca fui precoce, confesso que minha paixão pelos livros – e daí quase que simultaneamente pela escrita – nasceu mais da infelicidade do adolescente que da felicidade da criança.” (p. 45)

– O Tezza é um dos escritores que mais dessacralizam a pessoa por trás de ofício tão sacro. Isso é muito simpático. A gente já vai logo querendo ficar perto dele pra ouvir mais. E ele faz assim em toda santa entrevista: nada de louros pra cima de moi. A gente até fica duvidando que possa existir alguém tão desalumbrado e tão bacana ao mesmo tempo.

“Quando começo afinal a escrever, já tenho o livro inteiro na memória – ou, melhor dizendo, o fantasma de um livro, uma mera sequência de fatos.” (p. 49)

– Vi num catálogo o lançamento de um romance psicografado de Dostoieviski. Acho que a descrição “o fantasma de um livro” se encaixaria bem na sinopse, não?

“Já é lugar-comum falar assim, mas, de fato, o autor é a pessoa menos indicada para falar de sua obra.” (p. 50)

– Discordo. O Tezza é muito modesto.

“Ficando na literatura, que é meu terreno, eu diria que Curitiba tem uma vitalidade extraordinária – talvez intensidade seja a palavra certa – , ainda que, como tantos outros centros do país, tenha dificuldade para se mostrar, para sair da concha, para aparecer.” (p. 57)

– Acredito que o Rascunho é suficiente para, sozinho, fazer com que mostremos nossas asinhas ao Brasil inteiro.

“A ficção é minha linguagem justamente por minha incapacidade de falar de outra forma; a ficção é a negação, por princípio, de uma última palavra sobre o que quer que seja.” (p. 62)

– Lá vem o Tezza se dessacralizando de novo…

“Escrever é um risco – podemos simplesmente escutar o silêncio de volta. E a arte está em não se envenenar por isso…” (p. 63)

– O artista fiel a si mesmo.

 

 

da entrevista com Elvira Vigna

“Acho que homens héteros brancos de classe média têm muito pouco a dizer.” (p. 68)

– Quando li a entrevista de Elvira, concluí que foi, de longe, a mais impactante de todo o livro – ainda mais por ela ser a única mulher na tropa. Mas eu tinha que colocar sua afirmação à prova e parti para uma cruzada de leituras femininas, que ainda empreendo. Toda vez que me dirijo à BPP, sempre trago, forçosamente, uma autora moderna para ler. De Elvira, li o conto I+sil+d=inha, inserido na coletânea de escritoras do Luiz Ruffato. Minha conclusão é que, sejam homens, sejam mulheres, poucas pessoas têm realmente com o que dizer enquanto ficarem se martirizando em estetizar o “falso dilema entre ficção e realidade”, tão em voga na literatura brasileira de hoje. Quando se dão a contar estórias, surgem novidades. Elvira, que aparece no livro depois do Tezza, faz-lhe um contraponto interessante: este se nega a dar a última palavra, aquela a produz aos borbotões.

“Sou uma firme defensora de que se deve poder trepar com quem quiser – ou puder. O que trouxe a banalização do sexo foi o capitalismo. Poder trepar não quer dizer precisar trepar. Precisar trepar, e mais e mais (e precisar comprar e mais e mais), é uma deturpação capitalista.” (p. 72)

– Tem como não amá-la?

“O leitor precisa ter uma grande presença no livro, não importa que tamanho ele tenha na vida real. E para que isso aconteça, não é pescar um assunto em um catálogo – ‘Ahn, acho que vou fazer um livro que fale da dificuldade de aprender matemática na escola…” – , mas falar do que é importante para você, o escritor. Aí você garante a presença do leitor, ao oferecer a sua.” (p. 73)

– Elvira falava sobre as diferenças entre escrever literatura para crianças e para adultos. Eu, admiradora confessa de Jo Rowling, lembro de uma declaração dela em que disse que as crianças não devem ser poupadas de bons temas apenas porque são crianças. Por outro lado, o que Elvira diz remete a um tabu na profissão de escritor: escrever sob encomenda. Tem como um escritor criar importância em algo que, inicialmente, não lhe diz respeito? Eu tenho cá minha resposta; fica a pergunta pra sua própria reflexão.

“Eu tenho muita raiva do Fernando Henrique Cardoso, que foi quem abriu o setor, permitindo que o lixo internacional aportasse por aqui a preços baixos. Preços obtidos pela diluição, em escala, dos custos de propriedade intelectual, por exemplo.” (p. 73-74)

– Eu tenho esta diferença com Elvira: que bom que abriram.

“A mulher é anacrônica, não é contemporânea. Ela ama o homem. Hoje, quem você conhece que ama alguém? A tragédia contemporânea é o não amar. Só há uma busca por momentos agradáveis. E parciais. Todos estamos sempre apenas parcialmente presentes nas situações que buscamos.” (p. 76)

– Um budista diria que o contemporâneo é in; o extemporâneo é out e o anacrônico é que é o uó.

“Ao ser infiel, a pessoa adquire um poder muito grande sobre o traído. Você não só faz o outro de babaca, como o torna um babaca real. Você, ao traí-lo, o olha com um olhar superior, de quem sabe o que está acontecendo, enquanto o outro não sabe de nada. Esse desbalanceamento é completamente antagônico a uma situação amorosa, em que há necessidade de um compartilhamento mútuo, de uma equalização emocional para que aconteça a troca. Com traição, o que existe é narcisismo – que pode ser muito gratificante, mas não é amor.” (p. 77)

– Ah, as dificuldades de não se trair ao capitalismo! Ah, as dificuldades de não se trair ao machismo! A História carece de exemplos onde o amor livre não tenha produzido vítimas.

 

 

da entrevista com Fausto Wolff

“(…) outro dia, surpreendi Cláudia, minha secretária, no ato de jogar no lixo um velho tapete que fica em frente ao box do meu banheiro, a metro e meio do vaso sanitário. Em verdade, não é um tapete, é mais uma grossa toalha velha metida a veludo. Mandei-a recolocar o troço no lugar, pois ele é minha televisão. Sempre que olho para ele, graças às suas sombras e reentrâncias e à minha imaginação, vejo mundos fabulosos (…)” (p. 85)

– A capacidade que certas pessoas têm de se entreter durante a defecação é invejável. Fiquei sabendo que agora se leva o iPad pro banheiro. Surpreendente!

“E eu sempre levei a televisão muito a sério – o inimigo, a gente tem que levar a sério.” (p. 86)

– O último intelectual que ouvi falar bem de novela foi o professor João Cezar de Castro Rocha (UERJ). Sobre a atual Avenida Brasil, ele disse que se tratava de algo que estava mudando muitos paradigmas narrativos e ficou bastante descrente que, na sala, ninguém desse bola à trama.

“Eu não sei se o diploma [obrigatório de jornalismo] é uma coisa boa ou uma coisa ruim. Se o diploma é uma coisa boa, por que é que o Sarney escreve, por que é que o Ermírio de Moraes escreve? Se quem não tem o diploma não pode escrever, eles também não deveriam escrever; deveriam ser entrevistados. O problema do diploma é basicamente o seguinte: ele impediu que muitas pessoas inteligentes fossem para o jornalismo e permitiu que todos os idiotas do mundo – exatamente aqueles que não podiam se formar em qualquer outra faculdade – fossem para o jornalismo.” (p. 88)

– Saio em defesa dos jornalistas: ninguém tem culpa – o Sarney também está na ABL.

“Os cadernos culturais chegam a me dar nojo, porque falam mais em literatura estrangeira do que do pobre do escritor brasileiro, que precisa tanto disso. Eu, pelo menos, preciso.” (p. 88)

– Verdade, gente! Vamos ler os autores brasileiros. E comecemos por exigir prateleiras maiores destinadas a eles. É uma coisa triste que os títulos estrangeiros tenham mais espaço que os nacionais.

“A poesia é como um quadro: fala de inconsciente para inconsciente. É uma chave para decifrar uma linguagem esquecida como a dos sonhos. Todo idiota começa escrevendo um livro de poesias. E sou um idiota que esperou ficar velho para publicar seus poemas.” (p. 90)

– Sou amiga de um professor da UFPR que tem doutorado em João Cabral. Estudamos juntos na graduação e amamos juntos ler Baudelaire. Ele comenta que seus alunos lhe trazem poemas para ele avaliar. E você? – eu lhe pergunto. Mayra, ele diz,  nem eu me atrevo a escrever poesia, não tem como, né? Depois de Baudelaire não tem como.

“A arte que está preocupada em buscar novidade é uma arte burra. A arte tem que estar preocupada em ver, procurar, fuçar a verdade que a realidade encobre. A novidade é sempre burra.” (p. 92)

– É preciso considerar que os melhores saltos qualitativos na arte se deram graças a inovações tecnológicas. Ah, sim, também não dá pra esquecer do miconto que o Dalton escreveu (em Desgracida, 2010) sobre a unanimidade ser burra. Ele disse que essa frase tem aprovação unânime; logo, é burra.

“Minha pátria é Copacabana. Não acho que o Rio de Janeiro seja uma cidade violenta. Ao contrário, acho que o carioca é o mais cordial dos brasileiros. O povo brasileiro de um modo geral é extremamente cordial. Se você pegar o povo da Finlândia – onde praticamente não existem crimes – e deixá-lo sob a tutela de Fernando Henrique Cardoso, terá um bando de hunos.” (p. 93)

– Aos políticos brasileiros – aos de ontem e aos de hoje –, nenhum brasileiro, copacabanosense ou alhures, reage.

“Não há razão para escrevermos um livro se não o pretendermos grande.” (p. 94)

-De fato, senão seria diário.

“Continuei exercendo meu ofício, mas sem jamais perder de vista o fato de que escrever bem pode ser importante, mas não é essencial. Essencial é a sinceridade.” (p. 95)

– Por isso a crítica continua não entendendo o sucesso de O Alquimista, Harry Potter, Crepúsculo, Cinquenta Tons de Cinza

 

 

da entrevista com Fernando Monteiro

“Literatura é linguagem. E agora, mais do que nunca, estamos todos quase obrigados a escrever sobre a escrita – se aceitarmos que todas as ‘histórias’ parece que já foram contadas (e, em alguns casos, contadas de forma definitiva: quem escreveria sobre adultério melhor que Flaubert e Tolstói?)…” (p. 103)

– É muito fácil a gente se deixar levar pela opinião de escritores tão brilhantes. Mas, discordo: acho que, se já se contaram todas as histórias, também já se escreveu tudo, desde A Poética, que se tinha pra escrever sobre linguagem. Vamos lá! Sempre haverá necessidade de se escrever sobre adultério: a platéia muda, muda com ela a linguagem. Às vezes – mas só de vez em quando (e por isso entendo o Felipe Pena da Geração Subzero, sem desmerecer os críticos que selecionaram o vol. 9 da Revista Granta) – , tenho impressão que essa montoeira de metalinguagem na literatura brasileira atual é apenas vaidade mesmo. Sem ofensas: sou vaidosa eu também. Tampouco dramas! Todo bom livro, meta ou antimeta, se presta a ser lido numa sombra à beira da praia.

“Nunca dei minha cota de ‘Lampião/Lampiões’ à literatura nordestina, aumentando o acervo dessa espécie de Sicília fechada – ou ‘pátria basca’ – que é a minha região. Mas, há muito folclore em torno disso, e são alguns de nós (os nordestinos) que vestimos o gibão ou a roupa branca de algodãozinho (griffe Suassuna), para corresponder a qualquer coisa que se imagina que somos etc. O ‘folclore’ é uma boa almofada para nossas bundas, orgulhosas de um bandido de terceira como Lampião.” (p. 104)

– Corre pra cá, Leandro, vem escrever o Guia Politicamente Incorreto da Literatura Brasileira! Já te achei o primeiro capítulo: ‘A Griffe Suassuna’.

“Se o escritor não diz a que veio, o editor aparece com mil gracinhas.” (p. 109)

– Verdade! Mas suponho que haja um sem número de escritores estreantes ansiando por pelo menos, nem que seja, uma delazinhas.

“A leitura é uma dilatação da consciência, e responde por uma das razões mais fortes para se escrever e promover esse ‘dilatar da consciência’ do leitor e, também, do autor no processo de escrita. Fernando Sabino diz que o escritor escreve para aprender a escrever. (…) Ele chega a lamentar ter ‘aprendido demais’ o caminho da mina e ter perdido, por isso, a necessária inocência que talvez liquide, com o passar do tempo, inclusive o (precioso) ‘leitor’ remanescente no escritor.” (p. 113)

– A questão é a seguinte: cânones mesmo são aqueles escritores que conseguem apagar o escritor no escritor que lê.

 

 

da entrevista com João Gilberto Noll

“O que faço é uma tendência bastante atual de narrativa, essa narrativa não causal, essa narrativa não normativa. (…) Estamos intoxicados pela normatividade. Todo mundo sabe o melhor caminho para todo mundo, mas acho que a arte e a literatura têm que desestabilizar.” (p. 127)

– Todo mundo sabe o melhor caminho para a arte e a literatura.

 

 

da entrevista com João Ubaldo Ribeiro

“A língua, sob certo aspecto, também é descrita como a alma dos povos – e é realmente um patrimônio, um misterioso e riquíssimo patrimônio comum, porque é a maneira por meio da qual milhões de pessoas veem, explicam, percebem e interpretam a realidade. E quando se reconhece tudo isso, o trabalho com a língua, e principalmente da maneira apaixonada como eu trabalho, ou seja, quando a língua agradece, não pode haver momento mais desvanecedor para um escritor.” (p. 134)

– Gosto tanto dessa declaração do João Ubaldo. Acho muito lírico ele comparar um prêmio de literatura ao agradecimento da Língua.

“É porque a pessoa, quando escreve um romance, não pode transcender-se, não pode deixar de ser quem é. Então, de alguma maneira, escrever um romance é sempre falar de si mesmo. Mesmo que se trate de uma literatura que se pretenda objetiva.” (p. 140)

– Quando as cartas estão na mesa, é tão mais fácil gostar de um escritor. Puxando um gancho que eu trouxe pra entrevista do Cristovão Tezza, acho que os intelectuais deveriam, realmente, explorar as possibilidades estéticas dos romances psicografados. Como tanto choro e vela em torno das alteridades, não entendo como ainda não tenham se debruçado sobre eles.

“(…) o escritor, no fundo, é um maluco.” (p. 141)

– Aqui eu preciso parar e elogiar o trabalho do Pellanda como organizador do livro porque uma das coisas bacanas são os títulos de cada entrevista e as citações escolhidas para abri-las. No caso da entrevista com João Ubaldo, o título é “Maluco barroco” e a citação de abertura é “Alguma estatística por aí deve apontar que quem não lê é, em última análise, mais burro do que quem lê.” Pronto: todo o fino humor de João Ubaldo está nessas duas escolhas.

“Enfim, essa vida é curiosa. A gente levar a sério essa cosia de prêmios e assédios é, no mínimo, uma perda de tempo neurotizante, embora eu não possa condenar ninguém por fazer isso. Eu mesmo faço, apesar de criticar. A condição humana não é fácil.” (p. 146)

– O João Ubaldo é um querido. Enquanto o Tezza é fino em sua missão de modéstia intelectual, João Ubaldo é um escracho só. São dois escritores com ótimas personalidades!

“No tempo da cachaça, quando eu escrevia bebendo, era comum que escrevesse alguma coisa qualquer, que a achasse sublime e, no outro dia, visse que não passava de um delírio de bêbado chato. Então, o indispensável é que o sujeito se discipline e produza a porcaria dessa cota, chova ou faça sol, mesmo que ache que está fazendo merda. Você não pode desrespeitar a cota.” (p. 147)

– Essa coisa de cota é pra se levar a sério. Não é o primeiro escritor que diz que disciplina pra escrever é fundamental. Estabeleça uma cota diária de escrita, tanto quanto estabelece uma cota diária de chocolate ou de vinho. Um pouquinho por dia fortalece a saúde; muito, de uma vez só, detona.

“Acho até meio antipático de minha parte dizer isso, mas é sincero. Descubro poucas coisas novas que me deixam fascinado, que me chamam extraordinariamente a atenção. (…) O que está acontecendo é que não preciso mais ler. É um processo complexo. Não preciso mais ler muito para saber se um livro tem qualidade ou não.” (p. 148)

– Pode ser antipático na boca de um jovem universitário, mas na de João Ubaldo fica engraçado.

“(…) mas eu teria terror de ler se fosse para responder àquelas perguntas horrorosas que vêm no fim de certos livros de textos, em certas práticas escolares. Já pensou que tensão é você, em vez de se divertir lendo um livro, em vez de mergulhar na sua leitura, em vez de se entreter, em vez de se envolver com o livro de qualquer outra forma, ter que responder depois, no final, se aquilo se insere no contexto da pós-modernização do caralho a quatro?” (p. 153)

– Hahahaha! De fato. Só uma ressalva: a crítica não tem culpa de ser chata – críticos ideologizantes é que têm culpa de ter transformado a crítica num troço chato.

“Enfim, deve-se ler porque é burrice não ler. Deve-se ler porque alguma estatística por aí deve apontar que quem não lê é, em última análise, mais burro – não diria menos esperto, mas mais burro – do que quem lê. E desfruta menos a vida.” (p. 154)

– Tá aí a citação completa.

 

 

da entrevista com José Castello

“Ele [o arquiteto que narra o livro Fantasma] vive numa espécie de mundo virtual, um mundo que tem só superfície, em que as palavras, afinal, nada valem. As palavras, em vez de acalmá-lo, de lhe clarear as ideias, o atordoam. Meu arquiteto é um homem que ‘sofre’ das palavras como sofremos do estômago, ou dos dentes.” (p. 161)

– E depois dizem que o autor não é a pessoa mais indicada pra falar de seus livros…

“Isso acontece em Curitiba, com certa frequência: comemorar destruindo. É mesmo uma atitude muito intrigante, além de odiosa. Penso que a cidade, no geral, é complacente com ela, talvez porque, no fim das contas, ela sirva para emoldurar algo do machismo envergonhado que existe aqui.” (p. 165)

– José Castello comenta sobre o quebra-quebra “comemorativo” das torcidas curitibanas. Curitiba tem um troço esquisito mesmo, uma tensão punk-rock por baixo de todo seu zenzismo verde.

“Na verdade, vivemos um tempo em que sobra pouco espaço para a liberdade interior, para a liberdade individual – apesar de todas as garantias democráticas que, ainda bem, se consolidaram no continente.” (p. 166)

– Penso como ele, mas talvez discorde num ponto: a falta de liberdade interior que sentimos no Brasil é porque vivemos um período em que achamos que temos direito a tudo, sem obrigação a nada. Não há liberdade, hoje, sem a tranquila consciência da consciência tranquila.

“Cada escritor deve encontrar seu caminho pessoal. Só isso importa. Se esse caminho encontrado é ’bom’, ou é ‘ruim’, isso é um problema dos outros, mas não deve ser um problema do escritor.” (p. 168)

– Se não fosse José Castello, a frase poderia aparecer num manual de auto-ajuda. (O que confirma minha tese de que há muita coisa boa em manuais de auto-ajuda.)

“Não se trata bem de um conflito entre o novo e antigo, mas entre a superfície maquiada, recauchutada, e os seus intestinos moles e doentes.” (p. 170)

– A frase descreve o choque que existe entre a Curitiba cidade-modelo, na superfície, e a Curitiba dos excluídos, em suas entranhas. Nunca vi descrição mais plástica que essa.

“Porque o repórter é, ou deveria ser isto: um domador de verdades.” (p. 171)

– Bela imagem.

 

 

da entrevista com Luiz Ruffato

“A literatura que se deixa cavalgar por uma ideologia, ou por uma causa, vira panfleto, desanda.” (p. 181)

– É porque, pra ler ideologia, um manifesto basta.

 

 

da entrevista com Marco Sabino

“(…) a psicanálise é uma aventura intelectual das mais interessantes, porque seu método implica a construção de uma narrativa pelo paciente, da qual o analista é o autor coadjuvante.” (p. 194)

– Um desmembramento possível dessa ideia é a vertente da “biblioterapia”. Já li um livro sobre isso, preciso resenhá-lo.

“A pressa na literatura só leva à má literatura. O desespero, nesses casos, fica reservado ao pobre do leitor.” (p. 195)

– Pode ser, hahaha, pode ser. Sabino estreou na literatura com 42 anos. A literatura é a salvação cronológica dos perdidos na vida.

 

 

da entrevista com Milton Hatoum

“Quando o tempo passa e nossas memórias começam a perder um contorno nítido, o espaço da invenção cresce.” (p. 205)

– É por isso que não me interesso pela biografia de um Justin Bieber ou Adele. Segui-los pelo twitter já dá conta de suas biografias.

“Tem que ter um tempo de reflexão para escrever. E parece que está faltando isso ao nosso mundo. Há um pedido abominável de urgência e pressa na literatura. (…) Às vezes, você não está escrevendo, mas está ali matutando. Eu gostaria de passar o dia todo lendo e escrevendo. Não quero sofrer para escrever.” (p. 212)

– O pior de começar a escrever é não ter tempo para ler.

“Acho que o mundo está enlouquecendo por causa dessa coisa do consumo. Eu posso viver com pouco. Não preciso de uma fortuna. Materialmente, não quero muito. Espiritualmente, queria tudo.” (p. 214)

– Milton yogi.

“Muita coisa se deixa levar pelo imprevisível, mas alguém está sempre de olho nas coisas inesperadas. Alguém de carne e osso, pois não é preciso mistificar o trabalho literário. Faz tempo que a obstinação substituiu as musas e os oráculos.” (p. 222)

– Os místicos ainda haverão de criar a literatura quântica, anotem.

 

 

da entrevista de Nelson de Oliveira

“Dois terços delas não resistem sequer à literatura mais condescendente. Não sei onde está escrito que a literatura feminina tem de ser confessional, derramada e cheia de autocomiseração, mas a maioria das contistas segue à risca esse preceito.” (p. 234)

– Uma confissão: não tinha grifado nada na entrevista de Nelson de Oliveira. Mas, por condescendência, pincei o trecho acima, senão ele seria o único entrevistado fora desta resenha. Que bom que há um gênero condescendente. Aliás, convenhamos: em que época a literatura não foi condescendente? não foi confessional? Um pouco de condescendência, por gentileza?

 

 

da entrevista com Sérgio Sant´Anna

“Eu lia, por exemplo, Guimarães Rosa, que é, provavelmente, a melhor coisa escrita no Brasil até hoje. Mas não há como se continuar Guimarães Rosa; é um universo que se abriu e se fechou ali mesmo. E, ao mesmo tempo, eu lia Clarice Lispector – um dos grandes saltos da literatura brasileira – , que escreveu uma obra de importância tão grande que é uma condenação, para qualquer pessoa, tentar seguir o caminho clariciano.” (p. 243)

– Concordo, Sergio. Mas creio que as tentativas mais frustradas da literatura ocorrem quando se quer imitar Machado de Assis, porque acham que é fácil, enquanto, com Guimarães e Clarice, acham que é difícil.

“As novas gerações literárias não esperam que as velhas lhes tragam alguma coisa, embora possa haver esse diálogo.” (p. 245)

– Eu queria dizer que sim, que esperam; mas não.

“Um pai, se for esperto, recebe muita coisa de seu filho.” (p. 253)

– Esperteza é ouvir, bem mais que falar.

 

 

da entrevista com Wilson Martins

“A vida contemporânea é onipresente no espírito das pessoas. Essa obsessão pelo futebol… Temos um presidente da República cujo horizonte mental é o gol. Ele só pensa em metáforas futebolísticas e em exemplos tirados desse esporte. É o mundo em que ele vive.” (p. 263)

– A coisa mais irritante a respeito do futebol no Brasil é que, mesmo em dia de Olimpíadas, a TV para pra transmitir uma porcaria de jogo de time rebaixado. Com tanta coisa diferente pra se ver, esgrima, hipismo, arremesso de dardo, levantamento de peso, salto ornamental e o povo só sabe ver futebol. É como ganhar uma viagem de volta ao mundo e querer gastá-la trocando por um churassco com toda a vizinhança. É muita falta de curiosidade ou muito medo de que os ratos façam a festa. Tá loco, meu!

“Então, essa coisa vaga que nós chamamos de ‘cultura geral’ talvez seja a ferramenta mais importante do crítico. Ele tem que ser um leitor onívoro. Incansável. Eu leio tudo, inclusive os livros ruins, ao contrário do que pensam os autores. Eu os leio do começo ao fim, morrendo de raiva, mais leio, porque é uma questão de honestidade intelectual.” (p. 267)

– Desde que li essa declaração do Wilson Martins, comecei caçar os livros ruins que ele leu e estão no acervo da BPP. Pena que ele não fazia anotações à mão nas suas páginas.

“Eu, por exemplo, no decorrer do meu trabalho, muitas vezes nem sei o que é que vai sair dele. De pensar é que vão nascendo os pensamentos. Isso me lembra aquela anedota a respeito de Einstein. Um sujeito encontrou o cientista e disse: ‘Professor, o senhor, decerto, sempre leva consigo algum caderninho onde anotas as ideias que vai tendo’. E ele: ‘Meu filho, até hoje eu só tive uma ideia’ (risos). A ideia, às vezes, aparece espontaneamente. Tem esse lado. O trabalho intelectual se desenvolve por si mesmo ou a partir dele mesmo.” (p. 268)

– Lição nº1: sempre admire alguém que usa o espaço de uma entrevista para contar piada. Não são todos que conseguem.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

PELLANDA, Luís Henrique (org.) As melhores entrevistas do Rascunho vol.1. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.

 

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