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Amor para corajosos – Luiz Felipe Pondé

Postado às 15:29 do dia 12/07/20

Mais um livro de Pondé que resenho, desta vez com filosofemas (ele diria “ensaios”) pro amor. Sobretudo o amor erótico. Suas problematizações partem da noção medieval de que o amor é uma doença da alma, como uma obsessão, que desorganiza vidas privadas e ameaça a vida comunitária. Depois da Idade Média, Pondé nos leva ao Romantismo, quando o amor se torna a resposta ao modo de vida burguês, predizível, limpinho e utilitário. E do Romantismo ele nos traz à atualidade, quando parece que existe um certo “medo de amar”, porque amar possui, bem provável, chance de fazer sofrer: basta que você não seja correspondido.

Alertas que nosso malvado favorito dá aos leitores é que o livro tratará do amor romântico hetossexual. Não por preconceito, mas por desconhecimento e experiência nula em amor homoafetivo. Mas que isso não signifique preconceito, homofobia, etc. É que se trata de um livro “escrito por um homem que gosta de mulheres”.

Seguem as melhores partes, com comentários.

 

Amor limpinho

A missão de uma vida honesta é não morrer de amor, mas, sim, de honestidade”. (p. 21)

– Uma vida honesta, Pondé adverte, não é de todo ruim. Talvez seja o que sobra.

“Narcisistas, mimados e ressentidos não são capazes de amar.” (p. 43)

– Na escala de A Era do Ressentimento, narcisistas, mimados e ressentidos são uma escala ascendente de defeituosos morais. A razão de poderem amar começa no egoísmo e termina na certeza de que o mundo lhes deve a felicidade.

“O amor seria uma doença de uma época não ´empoderada´, de sujeitos incapazes de exercer livremente a ´cidadania do desejo´.” (p. 44)

– Nós, cidadãos empoderados, perderemos a redenção da doença amorosa.

“A vida é uma forma de ´desperdício´de si mesma. Uma das manifestações da cultura do narcisismo é a recusa desse ´desperdício´.” (p. 45)

– Por isso que Domenico de Masi publicou pela primeira vez seu O Ócio Criativo em 1995, quando as pessoas ainda aceitavam a ideia de que podiam “desperdiçar” tempo. Hoje, ser criativo continua desejável, mas jamais a ociosidade.

“A vida é mais kantiana do que nossos arroubos gostariam que fosse.” (p. 60)

– É por isso que acho tão triste uma juventude estéril em arroubos, porque depois de nossos 20 anos, é nosso destino.

“Uma das desvantagens da felicidade é que ela tira de você o direito de ser vítima, e ser vítima é quase sempre um bom negócio quando a sociedade depende tanto de hábitos de infelicidade para manter as pessoas sorridentes.” (p. 94)

– Leve a questão ao seu psicoterapeuta, pois ele sabe: ganhos indiretos com a infelicidade: continuar sendo vítima.

“Somos um animal de rotinas, independentemente de estas serem de glória ou humilhação. Erra quem pensa que a humanidade ama a liberdade, a ousadia, a busca. A humanidade, na maior parte do tempo, ama a falta de opção que acomoda o sono.” (p. 96)

– Por esse motivo que, quando uma cidade reabre o comércio durante o vai e vem nesta pandemia de covid, o primeiro lugar que lote são os shoppings.

“O cinismo para com o amor é uma proteção dos incapazes de amar, diria Nelson Rodrigues.” (p. 113_

– Seria o cinismo uma proteção para incapazes de um modo geral? Estou aqui com A Coragem da Verdade para ler, depois conto.

“Afinal, haveria alguém hoje capaz de morrer de amor? É raro, mas o amor também é coisa rara.” (p. 118)

– Esta é uma das frases de que mais gostei em todo o livro.

“A emancipação feminina tornou o amor, do ponto de vista desses homens [heterossexuais das últimas décadas] , excessivamente caro e inseguro, e, por outro lado, tornou o sexo bastante barato e seguro.” (p. 128)

– Existe aquele filme, Sexo sem Compromisso (2011), com Ashton Kutcher e Natalie Portman. O maior perigo entre os dois era amar.

“Mas a covardia pode ser, às vezes, um modo de sobrevivência muito comum e seguro.” (p. 138)

– Quando nos ensinaram a calcular o risco em planilhas, perdemos o gosto por ele.

“Há um conforto no medo maior do que em qualquer outro afeto. Um vício. Ao servi-lo você pensa ganhar garantias contra o desconhecido, e quanto mais o serve, mais medo você tem de não servi-lo.” (p. 182)

– Um excelente antídoto à perda da felicidade é nunca tê-la; uma ótima proteção contra perigos é nunca se expor a eles.

 

 

Instalover

“Quem são esses contemporâneos? Gente afeita a modas de comportamento. Sentem aquilo que é legal postar.” (p. 44)

– E quando postam algo que possa mostrar que não são empoderados porcaria nenhuma, dão alerta de gatilhos. Uma geração que vive com filtros obviamente perdeu a capacidade de lidar com aquilo que lê.

“A ´criatividade´e a espontaneidade da vida nietzschiana não se encaixam no mundo contemporâneo (ao contrário do que os bobos pós-modernos pensam em seus delírios egoicos) em que todos querem garantias, direitos e seguros de saúde sólidos. Kant venceu a batalha pela ordem da vida no mundo moderno, mesmo que as lojas vendam estilos nietzschianos nas roupas.” (p. 61)

– Sabe “punk de vitrine”?

“A sensação de que a sua vida é uma engrenagem que você mesmo montou e que te esmaga é pior do que a sensação de que a engrenagem que te esmaga tenha sido criada por algo ou alguém que não foi você.” (p. 82)

– De certa maneira, quando as redes sociais mudam seus algoritmos, deletam contas, excluem seguidores, ela nos coloca no lugar de onde nunca deveríamos ter saído: de sujeitos de um destino, em vez de protagonistas.

 

 

A rebeldia do amor

“Os sentimentos se impõem como forma de autenticidade contra a instrumentalização de tudo, mesmo que seus heróis paguem com a própria morte.” (p. 35)

“O afeto é o lugar da verdade do sujeito e não sua capacidade de calcular a vida. Muito cálculo na vida implica dissolução da alma numa planilha de Excel.” (p. 36)

“Num mundo em que as pessoas devem ser starups existenciais contínuas, a ´opção´narcísica parece muito bem-vinda.” (p. 47)

Margareth Rago, historiadora de filósofa, professora aposentada pela UNICAMP/SP, tem uma boa palestra onde fala sobre o neoliberalismo e a visão de sermos nossas próprias empresas. Assista.

“A grande revolução na vida afetiva de um homem hoje é encontrar uma mulher que não compita com ele em tudo, que não cobre dele tudo, que não seja a eterna vítima de sua masculinidade, mas, sim, que deseje essa mesma masculinidade como forma de diferença irredutível para com sua própria natureza feminina.” (p. 68)

– A ver se superaremos todos o feminismo.

“Num mundo dominado pelo álcool gel como paradigma de vida segura, o amor é uma das maiores forças de rompimento com o medo.” (p. 109)

– Pra geração que viu o surgimento da AIDS, talvez seja difícil buscar no amor uma forma de vencer o medo…

“Não existe amor platônico, a não ser em pessoas doentes de alguma forma, pois o amor pede carne. É carnívoro como um predador pré-histórico.” (p. 120)

– O amor mira sua própria extinção.

“O ceticismo é sempre para poucos e sempre muito poucos. Chega-se ao ceticismo unicamente depois de muito sofrimento. O ceticismo é uma forma triste de amadurecimento. E amadurecimento é um conceito desconhecido para utópicos pós-modernos.” (p. 170)

É permitido tornar-se cético depois de muito sofrer de amor.

“Amor é graça, jamais imperativo. Felicidade acontece como milagre, mesmo que você tenha que lutar por esse milagre.” (p. 177)

– Concordo: amar e ser correspondido é bilhete premiado. Às vezes acontece cedo na vida, às vezes acontece tarde. Sempre parecerá mais sorte quando acontecer tarde.

“Eis uma das maiores tragédias do amor: ele não é garantia de uma vida feliz, tampouco amorosa.” (p. 182)

– Apenas muito recentemente as comédias românticas passaram a mostrar finais felizes sem amor.

“A morte do amor deixa você mais cético. E todo cético é um triste, mesmo que inteligente nessa tristeza. Resta-lhe o gozo do hábito. E o hábito é um dos amigos mais fiéis na vida.” (p. 183)

– Hábitos e livros são amigos fiéis. Uma vez ouvi Karnal dizer que sentia pena de quem não lia, pois teria uma velhice mais solitária.

 

 

Rapidinhas

“Principalmente, num mundo como o nosso, a rapidez é uma forma de elegância.” (p. 24)

– Não faça deduções precipatadas: nesta frase, Pondé se referia à leitura enfadonha de textos longos. Os deles serão curtos.

“Na pós-modernidade, a coerência pode ser uma forma de mentira social.” (p. 24)

“A contradição e a ambivalência são virtudes das almas sem medo de pensar.” (p. 24)

– Coerência, eu penso, é o refúgio de quem tem pouca imaginação.

“[…] o mimado é alguém que considera seus desejos um objetivo cósmico.” (p. 47)

“O ressentido é um irmão gêmeo do mimado. Mais marcado pelo rancor explícito do que o mimado, que parece mais fofo, o ressentido se move pelo ódio contínuo a quem é melhor do que ele.” (p. 47)

“[…] o ressentido é a versão dark do mimado” (p. 48)

Pode culpar o estado de bem-estar social pela escalada do narcisismo ao ressentimento. Acho que valerá a pena conhecer dois livros: Por que Virei à DireitaAyn Rand e os Devaneios do Coletivismo. Eles te darão a oportunidade de ficar menos ressentido, mas o tratamento é de choque, já alerto.

“A leitura estúpida hoje é mais comum do que jamais foi.” (p. 64)

– Quando houver leitura…

“Para além do eterno fetiche que é a ciência para nossa vibrante burguesia (afirmação do filósofo Adorno no século XX) […].” (p. 149)

– Eu adoro pensar na ideia da ciência como um fetiche. E acho que essa ideia cabe perfeitamente bem neste mundo pandêmico.

“Às vezes, é no quase silêncio do cotidiano que residem as formas mais sólidas de sanidade.” (p. 155)

– Existe um conto, lido sob a ótica da Antroposofia, que nos fala como desempenhar tarefas é salutogênico: Vasalisa. Baba Yaga é quem lhe ensina sobre o cotidiano e suas eternas e saudáveis obrigações.

“O egoísmo é a grande revolução moral do mundo moderno, ainda que mintam sobre isso, aliás, como sobre tudo o mais depois da Revolução Francesa.” (p. 159)

– Já citei Ayn Rand acima… Outro motivo pra conhecê-la. Ela tem uma visão bem peculiar sobre egoísmo.

“Com a ampliação da lomgevidade, virá o aprofundamento da solidão ´moralmente justificada´: filhos cansam e custam caro, pais cansam e duram muito.” (p. 159)

– Sobre a sociedade que criou a longevidade ao mesmo tempo que resolveu glorificar a juventude, recomendo que leia Você é Ansioso?, último livro do Pondé. Está resenhado aqui também.

“[…] onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza.” (p. 178)

– Triste uma sociedade que só consegue enxergar a vida pelo prisma da ciência, ou espera que a ciência diga o que é certo viver.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar ou citar, mencione a fonte. É simpático e eu agradeço.)

 

PONDÉ, Luiz Felipe. Amor para corajosos. São Paulo: Planeta do Brasil, 2017.

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