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Por que virei à direita – J. P. Coutinho, L. F. Pondé e D. Rosenfield

Postado às 11:55 do dia 09/11/12

Mesmo que houvesse apenas bobagens escritas dentro deste livro, só por seu título já valeria a pena comprá-lo para exibi-lo – orgulhosa, rabugenta ou subversivamente – na estante principal de casa. Por Que Virei À Direita são os depoimentos de três intelectuais brasileiros sobre as razões que os levaram a optar pelo conservadorismo político depois de terem paquerado, namorado ou até tido um caso com as utopias revolucionárias de esquerda.

A tônica do livro é que se deve, em algum momento da vida, fazer a opção pelo bom, ao invés de pelo ótimo, que é inimigo daquele, além de ser, ele próprio, irrealizável. Partindo de duas constatações, que o ser humano é falho e que a vida é regida pelo acaso, os autores tecem, em prosa fluente, articulada, lúcida e deliciosamente mau-humorada (ou timidamente bem-humorada), argumentos que mostram por que valores associados à direita – em suma, a aceitação do capitalismo – possuem mais chances de dar às pessoas autossuficiência para serem felizes do que os ideais associados às utopias e políticas de esquerda.

O depoimento de João Pereira Coutinho (1976), o autor mais novo da tropa, jornalista e cientista político com carreira em Portugal, é o texto mais didático, em tom de ensaio. Contrapondo dois conceitos de Michael Oakeshott (filósofo e cientista político inglês falecido em 1990), a “política da fé” e a “política do ceticismo”, João Pereira mostra como o pensamento de direita é a afirmação da realidade e do comprometimento com a realidade, ao passo que o pensamento de esquerda é o comprometimento com um paraíso que, convenhamos, depois de milênios de história, está claro que não será alcançado na Terra. É preciso salientar que João Pereira não se diz conservador para todas as áreas da vida, mas apenas conservador no que tange à política. Ele se denomina um cético e um pluralista e alerta que utopias surgem também à direita, talvez ainda mais perniciosas que à esquerda. O texto de João Pereira é aquele que você lê para ter argumentos que o deixarão com orgulho de ter feito a opção pelo que é real, por olhar o mundo com maturidade.

Já o texto de Luiz Felipe Pondé (1959), filósofo egresso da USP e da Universidade Paris VIII, retoma alguns argumentos citados no texto de João Pereira, mas possui um tom mais biográfico. Luiz Felipe quer contar como se tornou um pessimista e mostrar que o pessimismo tem a ver com desacreditar da teoria de que o meio é 100% responsável pelas falhas de caráter do homem, e com a constatação de que um Estado que assume o papel de formador moral das pessoas acaba justamente por minar a democracia e a liberdade. Ele se classifica como um cético e um empirista à la iluminismo britânico. Cita até mesmo Nelson Rodrigues e, quando concorda com este que a maioria é burra, mostra-se o mais rabugento entre os três autores.

Finalmente, temos o texto de Denis Rosenfield, o que mais ansiava ler, porque era o único que prometia falar explicitamente sobre o Partido dos Trabalhadores. Analista político, professor universitário com carreira no Rio Grande do Sul, Denis mostra como o governo do PT em Porto Alegre criou o aparato que faria, anos depois, o país acreditar que este é um governo do povo para o povo. Sua narrativa talvez agrade aos mais ferrenhos opositores do governo, mas não será suficiente para convencer aqueles que só acreditam que o esquema do Mensalão existiu (existe) depois de verem provas. O ponto de Denis é a desilusão com o PT, a constatação de que é imoral agir de acordo com o máxima de que os fins justificam os meios. Por atacar diretamente o governo instituído, é o texto mais subversivo de todos.

Se você, como eu, nunca virou à direita porque nunca esteve à esquerda nem no centro, ler o livro será interessante, divertido, instrutivo. Se você jamais virará à direita, ler o livro será inútil, porque, possivelmente, você é daqueles que acham que o Mal se alinha com o conservadorismo de direita e o capitalismo. Aliás, esse é um tópico que os autores discutem, principalmente Luiz Felipe e Denis: que não existe um alinhamento absoluto entre capitalismo e maldade, entre comunismo ou socialismo e bondade. O que existe, e isso eles deixam claro, é uma humanidade imperfeita e um desejo que a atrapalha desde sempre: o querer ser perfeita.

Abaixo transcrevo algumas partes excelentes de um livro que é inteiro bacana.

 

 

Ilusões

“Virar à direita acontece nas melhores famílias. Aconteceu na minha. Eu tentei. Juro que tentei. Ser de esquerda tem as suas vantagens. Consola a alma e consola os outros. Os homens nasceram livres e, no entanto, encontram-se aprisionados em toda parte? Difícil resistir ao começo mais subversivo da filosofia política moderna.” (pg. 25, Coutinho)

“Regressar ao passado, regressar ao futuro: duas maneiras de recusar o presente e a complexidade que o define.

A mentalidade radical recusa essa complexidade; ou, alternativamente, converte a política numa forma de simplismo – a crença pueril de que as iniquidades que afligem os homens, hoje, serão removidas pela simples aplicação de um programa, de um manifesto, de uma dogmática qualquer, secular ou religiosa.” (p. 25, Coutinho)

“A utopia política é uma chantagem sobre o tempo presente com a alegada superioridade de um tempo passado – ou futuro.” (p. 30-31, Coutinho)

“Só fui ler Marx na universidade. E gostei. Não tenho dúvida de que a mercadoria causa impacto no modo de vida capitalista. O que não creio é que se possa criar um mundo diferente, porque entendo o capitalismo como uma forma de vida ajustada à miséria do desejo infinito do homem (nosso mal infinito).” (p. 56, Condé)

 

 

Choque de realidade

“Acredito mais na maldição do temperamento do que na autonomia das ideias; mais nos azares do cotidiano do que nas concepções racionais da vida. Sou um empirista assombrado pela hostilidade dos elementos naturais e pela vida – também pelo destino. A empiria em mim nasceu do medo do mundo e da percepção do fracasso inevitável do homem.” (p. 52, Condé)

“Sempre fui torturado pela percepção de que os homens são incapazes de enfrentar as próprias escolhas erradas.” (p. 52, Condé)

“Até hoje acho que o cemitério é o lugar por excelência da filosofia. Mais tarde, conheceria outros dois espaços apropriados à reflexão: o hospital e o necrotério.” (p. 53, Condé)

“Entretanto, a visão médica do homem – com sua fisiologia frágil, sua biologia condenada ao fracasso e seu destino patológico – me acompanha desde essa época como uma espécie de controle de qualidade de pensamento.” (p. 54, Condé)

“Estou convicto de que as paixões têm prevalência sobre a razão. As paixões, quando instaladas na alma (ou em qualquer conceito que tome seu lugar), geram desordenamento do intelecto e da vontade.” (p. 61, Condé)

“O homem da democracia lê pouco, é generalista, pergunta para a pessoa ao lado e adota como verdade o que a maioria diz, trocando o conhecimento pela opinião pública.” (p. 72, Condé)

 

 

Papel do Estado

“Não se trata, na melhor tradição libertária, de pretender a abolição do Estado – como se isso fosse possível ou até desejável. Trata-se apenas de o remeter para o seu papel mínimo, embora necessário na manutenção de uma ´ordem superficial´que respeite a verdade última do pluralismo: a ideia de que as sociedade são compostas por seres humanos distintos, que perseguem fins distintos de vida – por sua conta e risco. O Estado deve garantir uma proteção mínima para os perdedores momentâneos do jogo. Não deve viciar esse jogo.” (p. 46-47, Coutinho)

“O problema é que essa tradição em que o Estado é o elemento agregador e central da vida política dá sinais de esgotamento: a crise econômica e financeira que Portugal atravessa é também uma crise do seu Estado – da incapacidade deste de continuar a ser, como até aqui, o elemento agregador onicompetente da existência coletiva.” (p. 48, Coutinho)

“Uma das posições do pensamento conservador que mais me encantam é que, para ele, o problema do homem é sobretudo moral e só secundariamente político.” (p. 75, Condé)

– Em 1989, em Porto Alegre, por conta de uma reunião de Orçamento Participativo a que Denis Rosenfield assistiu na administração de Olívio Dutra:

“Naqueles dias, o PT mais ouvia do que domesticava.” (p. 84, Rosenfield)

“Foi a teleologia da esquerda que construiu a ideia de que o Estado é uma encarnação moral, tendo, em sua elaboração primeira, a tarefa de realizar o Bem maior na história, o que implica impor o primado do coletivo sobre o individual. Segundo essa concepção, cabe ao Estado determinar aquilo que é o bem de cada um, como se os indivíduos fossem incapazes de , racionalmente, escolher o que é melhor para si.” (p. 105, Rosenfield)

“O terreno é muito vezes pantanoso,e  as fronteiras são de difícil delimitação, pois, dependendo do que esteja em questão, há ou não a aquiescência dos indivíduos a um bem imposto pelo Estado. Por exemplo, quando o governo estabelece regras que ditam como deve ser o comportamento individual em relação à saúde, talvez as pessoas aceitem de bom grado essa diretriz, não se dando conta de que ela invade o que deveria ser uma prerrogativa estritamente individual.” (p. 108, Rosenfield)

– Eu PRECISO parar aqui e comentar com você o trecho acima. O perigo de um Estado bem-estarista é se arvorar de salvador em áreas onde o indivíduo deveria decidir. Hoje, na União Europeia, região que agrega inúmeras democracias bem-estaristas, modelo do qual se aproxima sem discernimento nenhum o governo federal petista, um crime está em vias de ser perpetrado contra a saúde de milhares de pessoas: a proibição do uso de ervas medicinais, fitoterápicos e óleos essenciais porque não há provas clássicas farmacêuticas de que esses remédios naturais, usados há séculos pelas tradições populares, façam de fato bem. Isso é um crime contra a liberdade de escolha e contra a saúde das pessoas. Eu não concordo que o Estado deva decidir por mim ou me assistir. Eu decido.

“O risco consiste em começar a apagar as fronteiras entre a democracia e a moralidade, com o Estado se elevando à posição daquele que sabe o que é melhor para o cidadão e destituindo-o de sua capacidade de discriminar racionalmente aquilo que é melhor para si.

Virar à esquerda pode ser aqui tentador, mas o perigo não cessa de ser maior. Cuidado com a sedução.” (p. 110, Rosenfield)

 

 

Virando à direita

“Virei à direita por gentileza. Ou talvez por humildade intelectual: a razão é um instrumento necessário para operarmos politicamente. Mas é um instrumento limitado. Porque nós somos limitados e, além disso, porque existem margens de imponderabilidade que destroçam as melhores intenções.” (p. 34, Coutinho)

“Tornei-me um conservador em política porque sou um empirista e um cético. Penso como um britânico. Sou, de certa maneira, um iluminista britânico. A esquerda é abstrata e mau-caráter porque nega a realidade histórica humana a fim de construir seu domínio sobre o mundo. Vende elogios ao homem para assim tê-lo como um retardado mental a seu serviço. A esquerda é puro marketing. No fundo, não passa de auto-ajuda.” (p. 81, Condé)

“Virar à direita significa aqui adotar um suave ceticismo, incomum em um ambiente de esquerda.” (p. 97, Rosenfield)

 

 

Polêmicas à parte

“Segundo Nelson [Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro], a democracia deu ao idiota a consciência de sua superioridade numérica. Antes, ele vivia sua vida besta; agora, sabe que manda.” (p. 71, Condé)

– Eu queria comentar: é iludido a pensar que manda por parte daqueles que não são nem um pouco idiotas.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

 

COUTINHO, João Pereira; PONDÉ, Luiz Felipe; e ROSENFIELD, Denis. Por que virei à direita. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

 

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