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Subliminar – Leonard Mlodinow

Postado às 08:59 do dia 02/03/20

Tá aqui um livro bacana, de um autor cientista que já escreveu outros best-sellers, sempre aproximando os achados de pesquisa de nossa vida cotidiana. Neste, Leonard aborda o inconsciente, mas não aquele (é ele mesmo quem avisa) divisado por Freud, mas aquele que imagens do cérebro e estudos em psicologia comportamental estão desvendando a menos tempo.

Se você já leu Rápido e Devagar de Daniel Kahneman talvez faça ideia do que estou dizendo: achamos que nossas decisões são super-hiper-mega racionais quando, na verdade, não são. Ocorre muita coisa “por baixo dos panos” e elas não são exatamente você desejar sua mãe ou ter inveja do pai.

O comportamento consciente pode ser motivações desconhecidas. Os aspectos explícitos da vida competem com os implícitos pra criar o que chamamos de experiência do mundo. A realidade é um certo tipo de ilusão.

Eu acho que a neurociência vem levado umas surras de mediocrização proporcionada pelo neuromarketing. Na questão do marketing sensorial, é praticamente seguro que você encontrará conceitos de neurociência aplicados a questões prosaicas como “como o copo importa pra percepção da qualidade do vinho”, “como o cheiro cítrico torna um detergente percebido como mais eficaz”, ou “como o som de uma bolha explodindo torna a experiência do Candy Crush irresistível”. Todas essas questões passam pela descoberta de que nossa percepção é criada de acordo com padrões que simplesmente julgaríamos ridículos se tivéssemos consciência deles. (Caso fique curioso sobre o que está por traz de nosso comportamento de compra, leia a resenha do livro A Lógica do Consumo, de Martin Lindstrom.)

Bom, mas o livro do Leonard não tem nada da baboseira espetaculosa. Pelo contrário, faz cientistas satisfeitos, leitores apaixonados e consumidores preparados. Leia abaixo algumas melhores partes escolhidas.

 

Consciência é fetiche

“Na verdade, como seres humanos, nossa tendência em acreditar nos comportamentos conscientes e motivados é tão forte que vemos consciência não só no nosso comportamento como também no reino animal.” (posição 147, edição do Kindle)

– Eu conheço o conceito – especismo. Sim, realmente parece especista não atribuir “intenção do espírito” a animais. Mas talvez seja especismo justamente escolher o atributo intenção, tão característico do comportamento humano, para atribui-lo a um animal. Por que intenção seria o suprassumo dos atributos pra dizer que animais são seres inteligentes em vez de algum que seja caracteristicamente animálico?

“O desafio enfrentado pela mente, e que corresponde ao inconsciente, é ser capaz de filtrar esse inventário de dados a fim de reter as partes que realmente nos interessam. Sem a filtragem, nós simplesmente nos perderíamos no lixo de dados.” (posição 1103, edição do Kindle)

– E quando entendemos após a filtragem ainda tem a etapa de vir à consciência já dá pra supor que consciência foi questão de sobrevivência, né?

“Mas se a inteligência humana evolui segundo objetivos sociais, nosso QI social deve ser a principal característica que nos diferencia de outros animais.” (posição 1507, edição do Kindle)

– Que nem Stefano Mancuso nem Peter Wohlleben leiam isso!

“O mero posicionamento de objetos em grupos pode afetar nosso julgamento desses objetos.” (posição 2685, edição do Kindle)

“[…] quando categorizamos, nós polarizamos.” (posição 2703, edição do Kindle)

“A mente inconsciente transforma diferenças difusas e nuances sutis em distinções nítidas.” (posição 2705, edição do Kindle)

– A polarização é uma espécie de sina à qual somos obrigados por nossos cérebros?

“É o simples ato de saber que você pertence a um grupo que aciona sua afinidade com ele.” (posição 3154, edição do Kindle)

– Tática de guerra cultural: coloque a pessoa dentro do seu grupo antes dos outros.

“Pesquisas sugerem que a hostilidade irrompe mais prontamente entre grupos que entre indivíduos.” (posição 3172, edição do Kindle)

– Eu realmente acho que as coisas azederam depois que surgiram os famigerados grupos em redes sociais.

 

Percepção é criação

“Tanto os aspectos explícitos da vida (neste caso, a bebida) quanto os aspectos implícitos indiretos (a marca) conspiram para criar nossa experiência mental (o gosto). A palavra-chave aqui é “criar”. Nosso cérebro não está apenas gravando um sabor ou qualquer outra experiência, ele está criando a experiência.” (posição 414, edição do Kindle)

– Você tem menos de 40 anos então não deve se lembrar de ter visto na televisão as propagandas Pepsi x Coca-cola. É delas que o autor fala. O que ocorria é o seguinte: em testes cegos, os consumidores preferiam o sabor da Pepsi, mas em testes abertos, o da Coca. Obviamente que a marca influenciava a escolha. O que Leonard traz como informação nova é a forma como a marca influencia: não se trata simplesmente da marca se sobrepor ao sabor: trata-se da marca efetivamente criar um sabor. O buraco é mais embaixo.

“Há séculos os filósofos debatem sobre a natureza da “realidade”, se o mundo que percebemos é real ou uma ilusão. Mas a neurociência moderna nos ensina que, de certa forma, todas as nossas percepções devem ser consideradas ilusões.” (posição 770, edição do Kindle)

– Mito da Caverna ao contrário. Lá dentro talvez seja o real; lá fora, só ilusão.

“De certa forma, todas as mentes humanas são como um cientista, criando um modelo do mundo ao redor, o mundo cotidiano que nosso cérebro detecta pelos sentidos. Assim como as teorias da gravidade, nosso modelo do mundo dos sentidos é uma aproximação, baseado em conceitos inventados pela mente.” (posição 862, edição do Kindle)

– Sabe que me dá um pouco de receio do que gente interesseira possa fazer com uma citação assim, sabia? Com a física quântica já deu no que deu, imagina que aval o parágrafo acima não dá pra auto-ajuda à la O Segredo. Imagine isso como argumento de terraplanistas ou criacionistas…

“Nos tempos modernos, o ponto de partida para a compreensão de como a memória funciona é a percepção de Münsterberg, de que a mente é continuamente bombardeada por uma quantidade de dados tão grande que não consegue lidar com tudo – os cerca de 11 milhões de bits por segundo que mencionei no capítulo anterior. Foi por isso que trocamos uma lembrança perfeita pela capacidade de assimilar e processar essa assustadora quantidade de informação.” (posição 1095, edição do Kindle)

– Se o nosso sistema sensorial envia 11 milhões de bits por segundo ao nosso cérebro, faz todo sentido que ele tenha dito: fodam-se os detalhes: fiquemos apenas com a impressão geral. Por isso nos lembramos tão mal e porcamente das coisas (e só piora).

“[…] nós investimos muito em nos sentir diferentes uns dos outros – e superiores –, não importa quão tênue seja a base de nosso senso de superioridade e independentemente do quanto de autossabotagem isso possa envolver.” (posição 3203, edição do Kindle)

– “A vaidade é, definitivamente, meu pecado predileto!” em O Advogado do Diabo.

“Nós escolhemos os fatos em que queremos acreditar. Escolhemos também nossos amigos, namorados e cônjuges não apenas por causa da forma como os percebemos, mas pelo modo como eles nos percebem.” (posição 4072, edição do Kindle)

– Pega mal pacas assumir que gostamos de quem gosta da gente, mas assim é.

 

O inconsciente no divã

“Os dois, Freud e Münsterberg, criaram teorias da mente e da memória que foram de grande importância, mas, infelizmente, um exerceu pouco impacto sobre o outro; Freud entendia muito melhor que Münsterberg o imenso poder do inconsciente, mas achava que a repressão, e não um ato dinâmico de criação por parte do inconsciente, era a razão das lacunas e imprecisões da nossa memória; Münsterberg entendia muito mais que Freud os mecanismos e as razões das perdas e distorções da memória – contudo, não fazia ideia de todos os processos inconscientes que os criavam.” (posição 1085, edição do Kindle)

– Recordo uma vez em que comentei sobre críticas que feministas, e que também Avery Gilbert fez a Freud. No grupo que ouvia minha aula, havia uma psicanalista. Pra quê, meu deus?! Ela tomou como ofensa pessoal minha à sua pessoa. Esteja prevenido: não se questiona Freud estando-se de fora do círculo freudiano.

“Com o advento da fMRI e a capacidade cada vez maior de os cientistas estudarem como diferentes estruturas do cérebro contribuem para a formação de pensamentos, sentimentos e comportamentos, as duas escolas que seguiram o behaviorismo começaram a juntar forças. Os psicólogos sociais perceberam que poderiam desemaranhar e validar suas teorias sobre os processos psicológicos conectando-os às suas fontes no cérebro. Os psicólogos cognitivos perceberam que poderiam rastrear as origens dos estados mentais. Também os neurocientistas, que se concentravam no cérebro físico, perceberam que poderiam entender melhor seu funcionamento se aprendessem mais sobre os estados mentais e processos psicológicos produzidos pelas diferentes estruturas. E assim surgiu o novo campo de neurociência cognitiva social, ou simplesmente neurociência social. É um ménage à trois, uma “relação a três”: psicologia social, psicologia cognitiva e neurociência.” (posição 1864, edição do Kindle)

– Graças a deus que deram um nome pronunciável pra este campo de estudos, porque pronunciar psiconeuroendocrinologia é dureza.

“Hoje os psicólogos sociais às vezes classificam nossa comunicação não verbal em três tipos básicos. Uma diz respeito aos movimentos do corpo: expressão facial, gestos, pose, movimento dos olhos. Outra é a chamada paralinguagem, que inclui a qualidade e o timbre da voz, o número e a duração de pausas e sons não verbais, como limpar a garganta ou dizer “hãhã”. E finalmente a proxenia, o uso do espaço pessoal.” (posição 2251, edição do Kindle)

– Se a comunicação não-verbal contribui tanto pra boa comunicação, por que – eu pergunto mil vezes! – por que as pessoas insistem tanto em discutir política em 240 caracteres?!

“A evolução não projetou o cérebro humano para entender a si mesmo com precisão, mas para nos ajudar a sobreviver.” (posição 3600, edição do Kindle)

– De onde se entende por que gente de Humanas sempre parece meio doida.

“Como enuncia o psicólogo Johathan Haidt, há duas maneiras de chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão acerca da qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo que tentam desacreditar as evidências em desacordo. A mente humana foi projetada para ser tanto cientista quanto advogado, tanto um buscador consciente da verdade objetiva quanto um advogado inconsciente e apaixonado por aquilo em que quer acreditar. Essas duas abordagens juntas competem para criar nossa visão de mundo.” (posição 3710, edição do Kindle)

– Num falei? É tudo gente meio doida.

“A ‘seta causal’ nos processos de pensamento humano tende de forma consistente a partir da crença para a evidência, não vice-versa.19 Podemos dizer que o cérebro é um bom cientista, mas é um advogado absolutamente brilhante. O resultado é que, na batalha para moldar uma visão coerente e convincente de nós mesmos e do resto do mundo, é o advogado apaixonado que costuma vencer o verdadeiro buscador da verdade.” (posição 3721, edição do Kindle)

– Nunca tive dúvidas disso. Por isso que fico brigando com meus amigos liberais que confiam em demasia na própria razão.

“No fim, sempre vamos achar que estamos lidando com fatos, embora na verdade estejamos lidando com a conclusão preferida.” (posição 3770, edição do Kindle)

– Que pareça ser assim, ok. Mas por que parece que hoje nós passamos a valorizar, cínica e hipocritamente, que seja assim?

 

Memórias proustianas

“A não ser que todos esses exemplos e estudos sejam apenas furos estatísticos estranhos, eles deveriam nos fazer pensar sobre nossas lembranças, em especial quando entram em conflito com as lembranças dos outros. Será que estamos ´sempre enganados, mas nunca em dúvida´?” (posição  1238, edição do Kindle)

– Depois deste livro, você ficará terrivelmente em dúvida se sua lembranças são verdadeiras, se as dos outros são verdadeiras, se daquela fila de delatores que foram premiados foram verdadeiras. De forma interessante, cada vez mais necessitamos menos recorrer à memória, porque tudo nosso fica registrado em vídeos, áudios. Ah, um passado que não pode mais ser reescrito – que lástima, não?!

 

Itens de fábrica

“Muito antes de conseguirmos verbalizar atração ou repulsa, já nos sentimos atraídos pelo bondoso e repelidos pelo malvado.” (posição 1414, edição do Kindle)

– Quem já me viu falando sobre o livro The Scent of Desire, de Rachel Herz, conhece as pesquisas que tentaram descobrir preferência e aversões olfativas inatas em bebês. Nenhuma foi descoberta, embora tenha sido descoberto que nascemos não gostando do amargo e gostando do doce (paladar). Estes estudos citados em Subliminar checaram se bebês, assistindo a teatrinhos onde há mocinhos e bandidos, criam antipatia pelos vilões. Curiosamente, sim. Preferirmos os bondosos parece ser um item de fábrica.

“É fascinante que a dor de uma topada no dedão e a de uma desfeita arrogante partilhem o mesmo espaço no nosso cérebro. O fato de elas serem companheiras de quarto deu uma ideia fantástica a alguns cientistas: será que analgésicos que reduzem a resposta do cérebro à dor física também aliviam uma dor social?” (posição 1452, edição do Kindle)

– Ao ler esta citação, você não pensou em Shirley Price e no livro Aromaterapia e as Emoções em que ela formula um método de psicoaromaterapia com base da ideia de que o princípio-ativo de um óleo essencial cura no emocional o mesmo que ele cura no orgânico? Assim, por exemplo, um óleo essencial anti-inflamatório cura a raiva, porque raiva é inflamação; um que seja anti-infeccioso cura ciúmes, porque ciúmes é como um vírus. Nossa, eu pensei muito! Mas, claro, é uma baita extrapolação.

“[…] cientistas descobriram uma curiosa relação entre o tamanho do cérebro e o tamanho dos grupos sociais entre mamíferos. Sendo mais exato, o tamanho do neocórtex de uma espécie – a parte do cérebro que evoluiu mais recentemente – como percentual do cérebro inteiro dessa espécie parece estar relacionado ao tamanho do grupo social em que os membros dessa espécie vivem.” (posição 1574, edição do Kindle)

– Tenho certeza de que, agora, descobrirão que milhares de amigos causa o efeito exatamente oposto no nosso cérebro: ele diminui. Só isso pode explicar porque temos ficado tão toscos depois de dar add em mais de 1000 pessoa no Facebook. (Em tempo, modelos matemáticos previram que o tamanho do neocórtex humano nos habilita a agrupamentos de cerca de 150 pessoas, mas isso em condições de vida tribal.)

“Nosso gênero Homo vem evoluindo há alguns milhões de anos. A evolução do cérebro acontece no decorrer de muitos milhares ou milhões de anos, mas nós vivemos numa sociedade civilizada há menos de 1% desse tempo. Isso significa que, embora possamos estar com a mente lotada de conhecimentos do século XXI, o órgão dentro do crânio ainda é um cérebro da Idade da Pedra. Costumamos nos ver como uma espécie civilizada, mas nosso cérebro está preparado para enfrentar os desafios de uma era anterior.” (posição 2336, edição do Kindle)

– E assim jaz qualquer teoria progressista em política social: o órgão dentro de nosso crânio ainda é um cérebro da Idade da Pedra. Isso explica muito, não explica?

“Essa constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estarmos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios, e a avaliarmos o trabalho e os produtos deles de maneira mais favorável do que faríamos em outras circunstâncias, mesmo quando pensamos que estamos tratando todo mundo de forma igualitária.” (posição 3072, edição do Kindle)

– Espero sinceramente que as pessoas não entendam isso como uma razão natural para corporativismos de todas as espécies.

“Em outras palavras, não trememos porque estamos zangados nem choramos porque nos sentimos tristes; nós tomamos ciência de que estamos zangados porque trememos, nos sentimos tristes porque choramos.” (posição 3351, edição do Kindle)

– É certamente um outro jeito de entender as coisas, não? E quem não chora nunca, nunca fica triste?

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar, por favor, cite a fonte. É algo simpático e eu fico agradecida.)

 

Mlodinow, Leonard. Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas. Tradução Claudio Carina. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. Edição do Kindle.

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