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O livro do chá – Kakuzo Okakura

Postado às 00:38 do dia 11/11/13

Vamos lá: você ama chás, conhece as principais variedades, existe uma marca gourmet frequentando sua chaleira e já leu um ou outro livro sobre o tema. Mas o seu interesse mesmo é gastronômico – se o chá é ou não usado em rituais, isso não lhe chama atenção. Então por que você deveria ler O Livro do Chá, de Kakuzo Okakura, um clássico com mais de cem anos (1906) que fala basicamente dos princípios estéticos e filosóficos que cercam o chaísmo japonês? Há raras fotos, nenhuma ficha técnica sobre Camellia sinensis nenhuma e um monte, um monte de discurso. Por que ler?

A resposta é bem simples: todo mundo que gosta de chá tem temperamento contemplativo – ah, tem, não vem com essa, tem sim! E O Livro do Chá vai lhe dar insights bacanas sobre a vida. Pronto, por essa razão deve ler.

Antes de citar as melhores partes, umas informações: o livro foi prefaciado e posfaciado por um mestre de cerimônia do chá que deve ser bem famoso – Hounsai Genshitsu Sen (1923) – e fez questão de nos dar a importância da obra de Kakuzo. Sem Hounsai, nós, leitores do século XXI, possivelmente leríamos o livro sem tanta veneração. Ele explica que Kakuzo lançou o livro numa época em que o Japão sofria amargamente diante do avanço das nações ocidentais. Com ele, o autor teve a intenção não apenas de expor o Chado –  o “caminho do chá”, expresso pela cerimônia do chá japonesa – , como mostrar que, sim, os japoneses tinham muito a ensinar às novas potências econômicas. Para isso, o autor preferiu escrever o original em inglês, opção que muitos professores do Oriente, inclusive os que vieram difundir o budismo na mesma época, adotaram também.

Agora, sim, as melhores partes.

 

 

Chaísmo

“Chaísmo’ é um culto que se fundamenta na veneração da beleza em meio à sordidez dos acontecimentos diários. Incute a pureza e a harmonia, o mistério da caridade mútua, o romantismo da ordem social. É essencialmente a veneração do imperfeito, uma tentativa singela de conquistar o possível em meio a esta coisa impossível que conhecemos como vida.” (p. 29)

– Pense naquela melodia “é na boquinha da garrafa, na boquinha da garrafa”. Pensou? Então, o chaísmo é diametralmente oposto.

“No líquido ambarino contido em porcelana marfínea, o iniciado é capaz de tocar a doce reticência de Confúcio, a malícia de Lao-tsé e o aroma etéreo do próprio Sakyamuni.” (pg. 31)

– Iniciação é sempre isso: enxergar o extraordinário onde os não-iniciado veem apenas o ordinário.

“Pois o ‘chaísmo’ é a arte de esconder a beleza para que você possa descobri-la, de sugerir o que você não ousa revelar. É o nobre segredo e rir de si mesmo, de maneira calma porém consumada; é o próprio humor – o sorriso da filosofia.” (p. 37-38)

– Sorriso da filosofia é muito bom!

“Confúcio disse que ‘o homem não se esconde’. Talvez nos revelemos em demasia nas pequenas coisas por termos tão pouco das grandes para ocultar.” (p. 42)

– Sorria filosoficamente ao ler isso.

“Para nós, o chá tornou-se mais que uma idealização da forma de beber; é um religião da arte da vida. A bebida passou a ser uma desculpa para o culto à pureza e ao requinte, uma função sagrada na qual anfitrião e conviva se uniam para produzir, para essa ocasião, a máxima bem-aventurança mundana.” (p. 51)

– Somente bebedores de sobriedade poderiam ter chegado a essa conclusão. Amantes de vinho veriam coisas bem diferentes.

“Chaísmo é taoísmo disfarçado.” (p. 52)

– O tao está em tudo.

 

 

Meu reino por uma xícara de chá

“Mas quando consideramos quão pequena é afinal a xícara do prazer humano, quão rápido ela transborda de lágrimas, quão fácil se esgota em nossa sede insaciável por infinitude, deixando apenas borra, não deveríamos nos censurar por darmos tanta importância à xícara de chá.” (p. 31)

– Entendeu a sofisticação da coisa? Não é um exagero ritualizar o chá.

“Curiosamente, a humanidade tem até agora se encontrado numa xícara de chá.” (p. 35)

– No Brasil, tomamos cafezinho, mas não representamos o mundo. O mundo consome chá, a primeira bebida mais difundida depois da água.

“Este [o chá] não tem a arrogância do vinho, a autoconsciência do café, nem a frívola inocência do cacau.” (p. 37)

– Perdão vinho, perdão café, perdão chocolate. Prefiro chá.

“Enquanto isso, vamos tomar um gole de chá. O fulgor vespertino ilumina bambus, fontes borbulham com alegria, e o sussurrar dos pinheiros se faz ouvir em nossa chaleira. Vamos sonhar com o efêmero, e demoremo-nos um pouco mais na formosa tolice das coisas.” (p. 39)

– Lindo.

 

 

Lições de vida

“Aqueles capazes de sentir em si mesmos a pequenez das coisas grandiosas tendem a ignorar nos outros a grandiosidade das pequenas coisas.” (pg. 31)

– Então! A sombra que você no outro é a sua.

“Somos maus porque temos assustadora autoconsciência. Nunca perdoamos os outros por saber que nós mesmos erramos. Cuidamos da consciência porque tememos dizer a verdade aos outros; refugiamo-nos no orgulho porque tememos dizer a verdade a nós mesmos. Como pode alguém ser sério com o mundo quando o próprio mundo é tão ridículo!” (p. 57)

– Não tenho certeza se foi bem traduzido, mas dá pra captar a ideia. A tentativa de ser bom é basicamente porque sabemos que somos maus.

“Mas a amizade de um déspota é sempre uma honraria perigosa.” (p. 110)

– Pena que a diplomacia no atual governo do Brasil não entenda isso…

 

 

Oriente-se

“Infelizmente, porém, a atitude ocidental e é desfavorável à compreensão do Oriente.” (p. 33)

– Era em 1906, é ainda hoje; mas o contrário também ocorre, convenhamos.

“Impeçamos os continentes de se lançarem epigramas reciprocamente, e nos tornemos mais tristes e experientes pelo ganho mútuo de metade de um hemisfério.” (p. 34)

– Tá aí um apelo infrutífero, porque os os ocidentais não vão entende essa de ficar mais tristes e experientes.

“Para um japonês, habituado à simplicidade em matéria de ornamentação assim como à frequente mudança de métodos decorativos, o interior ocidental permanentemente repleto de uma vasta série de pinturas, estátuas e bricabraques dá a impressão de mera e vulgar ostentação de riqueza.” (p. 79)

– Kakuzo diz que o ambiente do chá deve demonstrar “refinada pobreza”.

“Quantas vezes nos sentamos a uma mesa de banquete e contemplamos, com um secreto sobressalto prejudicial à nossa digestão, a representação da fartura nas paredes da sala de jantar.” (p. 81)

– Foi o brasileiro que inventou o restaurante por quilo, não foi?

 

 

Esteticismo

“Nas artes, a vaidade, tanto da parte do artista quanto do público, é igualmente fatal para a compreensão.” (p. 88)

– Bingo!

 

 

Flores

“No tremular cinzento de uma madrugada de primavera, quando pássaros sussurram em misteriosa cadência no arvoredo, você nunca sentiu que eles falam de flores aos companheiros? Para a humanidade, a apreciação das flores foi sem dúvida contemporânea dos poemas de amor.” (p. 93)

– Gentem, esse Kakuzo é o máximo!

“Na alegria e na tristeza, flores são nossas amigas constantes. Comemos, bebemos, cantamos, dançamos e flertamos com elas. Casamo-nos e batizamos com flores. Não ousamos morrer sem elas. Cultuamos com lírios, meditamos com lótus, investimos em formação de batalha com rosas e crisântemos. Tentamos até falar a língua das flores. Como poderíamos viver sem elas? Aterroriza-nos imaginar um mundo sem a sua presença.” (p. 93-94)

– De fato, é atemorizante.

“Nada é mais penoso do que ver uma flor murcha jogada impiedosamente sobre um monte de estrume.” (p. 97)

– Bom, estrume a gente não conserva em casa, mas sempre que doeu a alma jogar flores murchas no lixo…

“A única flor que sabemos ter asas é a borboleta […]” (p. 97)

– Que fofo!

“Repararam como, ano a ano, as flores silvestres vêm se tornando mais raras? Pode ser que seus sábios lhes disseram para partir até que os homens se tornem mais humanos. Talvez tenham migrado para o céu.” (p. 97)

– A agricultura orgânica de flores é um pedido de clemência à Natureza. Tomara que nos escute.

“O amante ideal de flores é aquele que as visita em seus refúgios naturais […]” (p. 99)

– Repare que ele usou o verbo visitar, não o verbo colher.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

OKAKURA, Kakuzo. O livro do chá. Prefácio e posfácio de Hounsai Genshitsu Sen. Tradução Leiko Gotoda. São Paulo: Estação Liberdade, 2008.

 

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