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Pra que ter razão se eu posso ser feliz? – Isabel Losada

Postado às 15:00 do dia 24/07/12

Pense em Comer, Rezar, Amar de Liz Gilbert (1969). Pronto, pensou? Agora lembre que o livro de Liz tinha um projeto narrativo: viajar para Itália, Índia e Indonésia para esquecer um relacionamento. Lembrou? Agora, releia algumas páginas, podem ser as iniciais, e veja como o tom é verborrágico, melodramático e autoindulgente. Releu? Ótimo. Agora retire o projeto narrativo, retire a verborragia e melodrama, substitua a autora norte-americana por uma inglesa, resista a desejar sempre um final feliz, contente-se com um final possível, e você terá, em mãos, o Pra Que Ter Razão Se Eu Posso Ser Feliz?, de Isabel Losada. Com um detalhe que faz toda a diferença: o livro de Isabel é cinco anos anterior ao de Liz. Não disse que um é cópia do outro, mas um parece mais legítimo.

Isabel conta sua história de mãe solteira em busca de felicidade a qual, por acaso, passa pela necessidade de encontrar um homem a quem possa amar e ser amada. Sua história é muito peculiar: não conheceu o pai, teve familiares próximos, inclusive mãe, falecidos precocemente, cria uma filha sozinha, teve empregos temporários na TV – não como atriz, o que ela tentou ser, mas como pesquisadora na produção – e tinha uma amiga que a arrastava para todos aqueles workshops da Nova Era que prometem iluminação.

O romance – que ela prefere vender como não-ficção de auto-ajuda – começa como se nem ela mesma acreditasse na história que vai contar: o enredo é débil, a personagem é rasa, ela está com a vida estagnada mas não a ponto de se trancar no banheiro para chorar. Afinal, ela tem uma filha adolescente. Então ela começa frequentar workshops holísticos – e ela vai a todos de todos os tipos, acredite! Eu, como professora de yoga e de aromaterapia, conheço muitas pessoas que são EXATAMENTE como Isabel: participam de um workshop atrás do outro, sempre atrás de algo que lhes traga iluminação. Quem está de fora, vê apenas pessoas gastando dinheiro à toa. Quem está dentro, percebe pessoas perdidas, gastando dinheiro, mas sinceramente engajadas na busca espiritual. Isabel não parece muito engajada, no início, e o livro parece uma perda de tempo.

Até que ela frequenta um encontro para a manifestação da deusa – e as coisas começam a melhorar. É incrível, mas coloque sexo numa narrativa e ela se torna interessante. A de Isabel fica, fica muito interessante. Ela se desarma a partir daí – e desarma o leitor. Instala-se a empatia e começamos realmente a nos divertir e gostar de Isabel, embora ela seja meio maluquetes. Isabel frequenta, nesta ordem: um Seminário de Percepção; um retiro de Tai Chi Chuan; um retiro num convento; faz a leitura de seu mapa astrológico; participa de um Encontro com a Deusa; aprende sexo tântrico; frequenta reuniões tipo Alcoolico Anônimos para personalidades CoDa (codependentes); submete-se a terapia de irrigação do cólon; faz renascimento; faz terapia de regressão; então tem uma sessão de Rolfing, de massagem havaiana, lapidação com pedras e massagem esportiva; libera-se num Seminário de Raiva; vai conhecer PNL; e, finalmente, participa de um encontro sobre fadas. Tiros a esmos, correto? Correto, é isso mesmo – e é hilário, além de honesto.

Isabel nos conta o que vale ou não vale a pena nesses cursos todos e agora quero recomendar o livro a minhas amigas que ficam pulando de uma prática para outra. Não para que desistam – ou eu perco meu ganha-pão! – , mas para que percebam que, quando uma busca é legítima, ela serve de inspiração – embora não sirva para um roteiro de cinema.

Abaixo cito as melhores partes, com comentários.

 

 

Humor inglês

“Sou o resultado de um caso de amor que aconteceu em Paris. Parece que meu pai era um diplomata espanhol, e agora vocês já sabem dele tanto quanto eu.” (p. 09)

– É assim mesmo que Isabel fala de sua vida, desde o início, sem choro nem vela, no melhor estilo inglês.

“Sabia que tinha que fazer alguma coisa, e por isso resolvi adotar o sono como ocupação de tempo integral.” (p. 12)

– Sempre fico pasma com as condições de vida na Europa Ocidental: a mulher pode estar desempregada, mas continua tendo aquecimento em casa e pode ir para um café escrever Harry Potter.

“Ela sabia que, em vez de deixar os pratos no escorredor, eu tinha tempo de enxugá-los.” (p. 12-13)

– Nunca havia pensado que pode haver pessoas que não enxugam a louça porque não têm tempo. Achei que não enxugassem para que a louça não pegasse cheiro de pano.

“Eu tinha sido convertida pelo que se costuma chamar de ‘autoconhecimento’.” (p. 29)

– Isso é uma brincadeira, mas tem um lado bastante revelador: há pessoas que ficam tão obcecadas com autoconhecimento, que é como se estivessem vivendo numa seita restritiva, enquanto o autoconhecimento deveria ser, em tese, um processo de libertação e indepedência.

“À noite, nós nos reuníamos todos e nos sentávamos ao ar livre, bebendo litros de vinho. Para minha surpresa, o mestre não desaparecia para meditar. Pelo contrário, bebia mais vinho do que qualquer um de nós. Adoro os franceses.” (p. 36)

– Então agora você pode concluir duas coisas: não tenho mestres franceses ou não tenha vinhos franceses por perto quando se sentar ao lado de um mestre.

“Tive que admitir que provavelmente Deus existia.” (p. 44)

– Só duas pessoas podem dizer isso parecendo engraçado: Woody Allen e um inglês.

“Desci para assistir ao serviço religioso matinal na capela, onde encontrei uma centena de freiras que pareciam estar acordadas há horas. Elas cantavam, e que som etéreo elas produziam! Algum de vocês já tentou cantar às 6 da manhã? Todo mundo sabe que não é possível, o que prova que elas eram de fato anjos.” (p. 47)

– De fato, anjos, e também a rota de fuga para a família Von Trapp.

“Por que todo mundo quer saber o que faço? Será que não são capazes de se impressionar com a incrível entidade que está diante deles e desfrutar da minha presença? Vejam só, eu me esforço tanto para saber quem sou, e tudo o que elas querem saber é o que faço. É muito irritante.” (p. 53)

– Também acho muito irritante. Mas até Deus não tem o direito de Ser; vivem questionando se de fato ele É…

“Ou pelo menos talvez eu conseguisse pensar que sou uma mulher, em vez de uma espécie de conglomerado: disciplinadora, chefe de família, cozinheira, faz-tudo, pai prático e compreensivo. Sei que não estou sendo feminista, mas, do meu ponto de vista – por não ter tido um pai e tudo o mais – , nunca tive que lutar por igualdade.” (p. 61)

– Duas coisas: é muito engraçado pensarmos que somos um conglomerado. Nunca tinha usado esse termo para isto. Coisa dois: não entendo este medo das mulheres com relação ao feminismo. É um medo muito machista esse.

“Homens com um lado feminino superdesenvolvido sempre deixam crescer a barba. Isso não engana ninguém.” (p. 74)

– Concordo com ela que há muito mais homens com barba interessados em esoterismo e autoconhecimento que sem barba. Mas ela deveria conhecer a América Latina para ter outra opinião sobre o assunto.

“Tive seis filhos de seis homens diferentes. – Era um currículo impressionante por qualquer padrão.” (p. 76)

– Hahaha, se é!

“Aqui estou eu, cheia de conhecimento sobre sexo tântrico e sem ninguém com quem praticá-lo. Não há justiça nesta vida.” (p. 85)

– (2) Hahaha, se é!

“Todas as pessoas que têm um relacionamento parecem dar aos amigos solteiros o mesmo conselho: ‘Quando você parar de desejar alguém, uma pessoa vai aparecer.’

Isso cria um jogo mental interessante para o qual, a meu ver, a lobotomia frontal é a única solução. Tenho que deixar de desejar alguma coisa para tê-la.” (p. 85)

– Sim, sim, sim, também acho esse papo esotérico sem pé nem cabeça.

“Reprogramar um cérebro é um trabalho exaustivo.” (p. 118)

– Que o digam todos os que tentam emagrecer.

“Na semana seguinte, subi na minha bike sentindo-me extremamente vulnerável. É certo dizer que, se você pedalar usando um capacete, estará segura, mas não há proteção contra um renascimento.” (p. 118)

– Eu nunca fiz respiração do renascimento, mas todos que fazem dizem a mesma coisa. Acho que, depois de uma terapia muito forte, ninguém deveria ter permissão de dirigir.

“Vocês sabem que, a despeito de todos os workshops que fiz, não tenho consciência do inconsciente? Mas, apesar disso, acredito que ele possa me curar?” (p. 125)

– Sim, acredito, isso é um caso clássico de esquizofrenia.

“Se vocês quiserem parecer verdadeiramente entendidos nos círculos new age, podem dizer: ‘Sinto que todos nós temos a capacidade de mergulhar nesse vasto estrato coletivo do inconsciente que é um banco coletivo de lembranças de toda a humanidade’.” (p. 127)

– Isabel, isso se chama O Campo. Inconsciente coletivo é extremamente brega e demodé. Hoje as pessoas acessam O Campo.

 

 

Técnicas para o autodesenvolvimento

“’Se você me conhecesse melhor, não diria todas essas coisas boas.’ Como se conhecer os próprios defeitos anulasse a bondade.” (p. 24)

– Isabel participou de um Seminário de Percepção onde as pessoas tinham que dizer algo de bom sobre as outras e estavam proibidas responder com um “muito obrigado”. A lógica é que quando agradecemos um elogio, na  verdade estamos, implicitamente, escondendo os defeitos. Por isso, no seminário, ensinaram todos a não agradecer, apenas a dizer “eu sei”. E é bem isso mesmo. Quando a gente é elogiado, sempre acha que não merece.

“Procurar a beleza interior nas pessoas é um truque que pratico na vida diária. Com autoritários antipáticos, por exemplo. Vez ou outra, quando me pego pensando que uma pessoa é arrogante, olho de novo para ela e penso que sua beleza interior é querer ser amada e não saber como conseguir isso.” (p. 25)

– Esse é um bom truque. Meu marido, que é psicólogo e head hunter, sempre diz que devemos olhar para as pessoas como se fossem crianças de 6 anos pedindo alguma coisa. Via de regra, ele diz, matamos a charada. Outro truque bom é ver o que existe no outro que nos irrita e identificar o mesmo comportamento na gente.

“Um dos maiores perigos da terapia é o paciente pensar que seu sofrimento é único.” (p. 26)

– Terapias em grupo sempre são muito eficazes, não fosse a vergonha para descobrir que não somos os únicos.

“Ver alguém redescobrir a capacidade de brincar é como presenciar um milagre.” (p. 27)

– Verdade. Mas não serve brinquedinho do tipo moto, barco, videogame e bungee jump.

“O perdão deixou de ser uma virtude nobre e se tornou uma experiência.”(p. 28)

– Enquanto experiência, o perdão é um processo. Não é um puft; você acorda e, puft, perdoa.

“Tudo o eu tinha que fazer era me deixar levar. Foi pura felicidade.” (p. 38)

– A única coisa realmente que temos que aprender é deixar acontecer. Todas as filosofias usam nomes diferentes para essa mesma coisa.

“Há quem diga que levar a vida como se ela fosse durar para sempre é a maior pretensão humana.” (p. 40)

– Sentiu o soco no estômago? Também.

“Se me pego tendo pensamentos que não são meus, eu os reconheço. Para quem tem uma família amorosa nesta vida, é importante parar de se sentir desamado só porque um dia morreu sozinho.” (p. 141)

– Ela quis dizer “passou a viver sozinho”. Mas, sim, tem razão. Ter tido uma família é uma bênção.

“Se seu filho é adolescente, você precisa ser muito sutil. Na manhã de sexta-feira, minha filha saiu de casa correndo e voltou cinco minutos depois. Em vez de fazer o comentário habitual: ‘Ah, você esqueceu alguma coisa’, lembrei de dizer: ‘Ah, você lembrou de alguma coisa. Ótimo’. Ela sorriu: ‘É, lembrei deste livro’.” (p. 181)

– Entenderam? Serve também com marido, com namorado, com pai e com irmão. Não sei se serve com amigo gay – eles sempre têm uma memória irritante!

“Trata-se de outro exemplo da arrogância da cultura ocidental, afirmou William, com razão. Rejeitamos milhares de culturas clássicas, místicas e tribais que acreditam em espíritos, julgando que se trate de ilusões psicológicas. Acredito que a maioria das pessoas acredita que se trata de invenção, mas não tenho dificuldade de acreditar no mundo invisível.” (p. 200)

– Se a ciência ocidental caçasse provas para aquilo que desconhece em vez de para aquilo que conhece, nossa vida seria bem diferente, não? E se as culturas anteriores fossem, por premissa, consideradas mais desenvolvidas que nós, também. Imagine que diram, hoje, no Brasil, em campanha de eleição, que o comprometimento não é com a criação de um poder de compra comparado ao nível do primeiro-mundo, mas em atingir o mesmo grau de desenvolvimento espiritual das civilizações antigas. Pensou, hein?

“Eu esperava um mistério, mas a lição pode ser resumida em uma palavra: pausa. Todas aquelas pessoas tinham descoberto o benefício de parar por alguns minutos antes de iniciar uma atividade para se sintonizar com o ‘espírito’ da tarefa.” (p. 201)

– Tá vendo? O segredo que se aprende em qualquer workshop para expansão da consciência é: medite.

“Um espírito também pode ser visto como um modelo para todos os aspectos da vida. (…) a ciência contemporânea tem dificuldade de entender como as partículas e as ondas de energia se ligam para se tornar átomos coerentes. A substância que falta é o deva, ou espírito do átomo, que contém um padrão energético de como um átomo deve ser.” (p. 202)

– Não é uma explicação maravilhosa de simples?

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

LOSADA, Isabel. Pra que ter razão se eu posso ser feliz?: uma divertida jornada de iluminação e êxtase. São Paulo: Alaúde Editorial, 2012.

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