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Comer, rezar e amar – Elizabeth Gilbert

Postado às 20:00 do dia 16/07/12

(Este comentário foi publicado em meu site Casa Máy em 06/09/10. Para fotos e videos mencionados, acesse a postagem original)

 

O Capítulo “Rezar” de Comer, Rezar e Amar de Elizabeth Gilbert

 

Emprestei de uma amiga o livro para ler. Compartilhamos, eu e ela – falo de minha amiga, não da escritora – o mesmo gosto pela literatura e pelo yoga. Mas, por que não? São pontos em comum também entre mim e Elizabeth Gilbert.

Então, iniciei a leitura, curiosa de saber o que tanto tem num livro que acabou virando filme com Julia Roberts.

Primeiro capítulo, Itália. Arrasto-me pelas páginas, talvez porque realmente lhe falte um enredo, além de muita pizza. Para dificultar, não encontro pontos de identificação com a história da autora, porque ela ama italiano (eu, francês); ela come um monte de carne (eu, nenhuma); ela não quer filhos (eu tenho dois); ela se divorciou (eu estou casada há quase 15 anos); e ela é magra, alta e loira (eu sou, bem, está minha foto aí em cima pra saber como sou…).

Depois de quase cinco dias tentando entender por que tanto auê em cima do livro além do fato da escritora escrever como fala, numa tagalerice pontuadíssima, chego a escrever no meu Facebook que o livro não anda, que não dou conta de passar os quatro meses na Itália com ela.

Quase querendo desistir da leitura, finalmente chego à segunda parte, Índia, para ver se aqui me rendo ao prazer de ler, já que até agora tinha sido apenas o dela de comer.

Índia. Outros quinhentos, como se diz.

A seção “Rezar” de “Comer Rezar Amar” é muito mais interessante que a anterior. Leio-a numa sentada, noite adentro, com meu marido dormindo ao lado e eu apertando os olhos para enxergar com uma daquelas luzinhas portáteis.

Ela começa contando como chegou ao Ashram de sua guru na Índia e inicia sua jornada recitando Om Namah Shivaya. O nome da guru, que ela faz questão de não mencionar no livro num acesso de pudor mal-compreendido por mim, é Gurumayi Chidvilasananda, da tradição Siddha Yoga de Swami Muktananda. (Veja as fotos de ambos abaixo, mestre e discípula.)

Então Elizabeth Gilbert começa a descrever suas agruras iniciais com a prática exaustiva da meditação. A dificuldade de permanecer sentada sem ter dores nas costas; a força extrema de fazer a mente silenciar; a irritação que o mantra Sri Guru Gita* lhe causava toda manhã; e como o seva yoga lhe trouxe libertação e felicidade.

Todos os conceitos básicos do yoga estão lá, neste pequeno capítulo de seu livro, num relato sincero de como é extenuante, para nós, ocidentais, praticarmos imaginando-nos indianos hindus.

Em primeiro lugar, não nos damos bem com gurus. De um modo geral, temos a experiência de que são falsos, ou são farsantes – e isso já nos coloca em desvantagem no caminho da iluminação yogi, já que um guru é fundamental para levar luz às trevas de nossas mentes.

Depois, há a prática do silêncio e da disciplina no yoga, coisas a que não somos absolutamente acostumados. No Brasil, só se pratica disciplina para torcer toda quarta e domingo para um time de futebol; e nada, muito menos a alegria de uma prática espiritual, pode ser levada no silêncio.

Aqui, expressar-se é fazer barulho – no yoga, expressar-se é praticar em silêncio, pois o que quereríamos expressar, senão através do silêncio que é onde se revela Deus?

Todas estas implicações filosóficas estão descritas nas 92 páginas dedicadas ao yoga devocional no livro de Liz Gilbert.

Ainda há boas relações que a autora faz entre o que aprendia no yoga com o que já havia estudado de místicos ocidentais, como Santo Agostinho, Santa Tereza D´Ávila e – por que não? -, Goethe. Ela também relaciona sua experiência no ashram com palestra que viu com Thich Nhat Hanh e muitas outras citações do budismo.

Mas o que realmente me cativou à leitura foi uma bela frase com que Elizabeth descreve a meditação. Com esta frase – uma construção perfeita de uma escritora sobre sua prática de yoga – eu me convenci da popularidade de seu livro e abaixei a guarda para o restante da leitura. Veja:

“A meditação representa, ao mesmo tempo, a âncora e as asas do ioga.” (pg. 139)

Não concorda que é de uma beleza literária?

Quando estou lendo um livro, eu fico procurando pela frase perfeita, como a autora ficou procurando por uma palavra que a definisse e que, no caso, foi antevasin, que significa “aquele que mora na fronteira”. Acho que esta é a frase perfeita da seção “Rezar” indiana do livro.

Acho que é a frase que traz credibilidade à narrativa, como nos traz credibilidade ouvir, da boca de uma incrédula nova yorkina, que é possível encher-se tanto de graça ao ponto de querer abraçar e beijar uma árvore. Se ela o fez, não deve haver nada de mal em fazer também.

Om Namah Shivaya.

Mayra.

 

* A respeito do mantra Guru Gita com o qual se irrita tremendamente Elizabeth Gilbert durante sua estada no ashram, fui procurá-lo na web e achei este video com um trecho cantado dele.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

GILBERT, Elizabeth. Comer, rezar, amar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

 

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