Casa Máy > As Melhores Partes - Posts > crítica literária > Paris não tem fim – Enrique Vilas-Matas

< voltar

Paris não tem fim – Enrique Vilas-Matas

Postado às 21:47 do dia 28/06/14

De uma chatice sem fim não fôssemos tão enlouquecidos por Hemingway. Meio ficção, meio autobiográfico, na vibe daquele autoelogio disfarçado de modéstia, o romance de Vila-Matas (1948, Espanha) narra a história de um aspirante a escritor que sai da casa dos pais, em Barcelona, no período final da ditadura de Franco, pra viver de mesada durante dois anos em Paris, onde escreve seu primeiro romance, A assassina ilustrada. Você terá que gostar muito da Geração Perdida e ser curioso a respeito de fofocas literárias pra curtir o livro. Senão, as folhas não lhe dirão absolutamente nada, exceto o nome de alguns cafés parisienses onde se podia encontrar les intello nos anos 1970.

O romance é montado em cima do sentimento de que o narrador, em vez de passar pela cidade muito pobre e muito feliz (como Hemingway e Cia.), viveu nela sentindo-se muito pobre e muito infeliz – mas não cola. Ninguém que ganhe mesada de papai pra viver, mesmo que numa água furtada, em Paris, é muito pobre; e ele não pareceu ser nem um tico infeliz. Confuso, talvez, infeliz não. Mas pedante com certeza.

O que realmente salva o romance é que amamos a personalidade de Hemingway e ela é aventada por toda a parte. No mais, uma discussãozinha irônica sobre o que seriam os mandamentos de um bom romance, entregue ao narrador por Marguerite Duras, traz um eventual charme à leitura insossa.

Enfim. É Enrique Vila-Matas, que, se você não sabia ainda, é chamado de “escritor de escritores”. Tem quem ame, tem quem fique com sono. Já ganhou trocentos prêmios, publicou trocentos livros – é um cara de peso. Mas este livro é levinho.

Apesar disso, rendeu ótimas citações. Estão abaixo.

 

 

Coisa a aspirante a escritor

“1. Problemas de estrutura. 2. Unidade e harmonia. 3. Trama e história. 4. O fator tempo. 5. Efeitos textuais. 6. Verossimilhança. 7. Técnica narrativa. 8. Personagens. 9. Diálogo 10. Cenários. 11. Estilo. 12. Experiência. 13. Registro linguístico.” (p. 28)

– Aí, meu chapa: teu romance tem tudo isso?

“Emoção e pensamento deveriam ser sempre inseparáveis, para que o leitor assista ao vivo à criação de um texto de pensamento comovido.

“Na juventude são raros os momentos em que alguém escreve com o pensamento comovido.” (p. 116)

– Sim, claro: ou se é racional demais, ou por demais emotivo. Juntar os dois quando se revisa um texto é lance pra gente que sabe rir com os próprios erros – e isso só se adquire na maturidade.

“Ninguém escapa a essa lei da vida poética tão demolidora, ninguém. Ou, melhor dizendo, dela escapa a imensa maioria da humanidade, todas essas pessoas transtornadas e achatadas pela tirania da realidade e que tiveram a duvidosa sorte de nunca haver feito distinção entre prosa e poesia.” (p. 221)

– Belo trecho. É, de fato, um lamento sincero.

“Havia que se esperar um autor desaparecer para que um biógrafo pudesse contar sua vida tal como a viveu e não tal como a contava ele mesmo?” (p. 223)

– Não no Brasil, meu caro: aqui, só como quiser contar a parentela herdeira.

 

 

Ironia, só que não

“A ironia me parece um poderoso artefato para desativar a realidade.” (p. 33)

– É, deve ser.

“Passei a pensar que ser antifranquista era muito pouca coisa e, sob influência das ideias situacionistas, com meu cachimbo e meis dois óculos falsos, comecei a passear pelo bairro convertido no protótipo do intelectual poético e secretamente revolucionário.” (p. 49)

– As figuras que mais que atraem são os empresários poéticos e escancaradamente revolucionários.

“Quando me perguntam se tenho os textos organizados na cabeça antes de escrevê-los ou se eles se desenvolvem surpreendendo a mim mesmo à medida que avançam, sempre respondo que na hora acontecem surpresas infinitas. E que por sorte é assim, porque a surpresa, o rumo repentino, a frase que se apresenta no momento preciso sem que se saiba de onde vem, são o dividendo inesperado, o fantástico empurrãozinho que mantém vivo um escritor.” (p. 166)

– Sim, a alegria de publicitário, a criação do slogan perfeito, o prazer de dar nome aos bois. Nomear é o prazer racional mais irracional que o ser humano desfruta.

“E dizia também outras coisas que esqueci ou, melhor dizendo, que não entendi, sem que isso me preocupasse tanto, pois me acostumara a não entender Lacan.” (p. 222)

– Lacan, a prova dos nove em todo curso de humanidades. Depois dele é que se definem os chatos, os normais, os entorpecidos e os que decidem ganhar dinheiro.

“Fiquei feliz da vida e dormi subitamente, como se a felicidade de não escrever tivesse a faculdade de deixar alguém adormecido.” (p. 225)

– Não é a felicidade de não escrever que ajuda dormir, mas a felicidade de não querer nada. É um momento O poder do agora na vida do narrador.

 

 

Paris

“Paris é fantástica entre outras coisas porque, diferentemente das, por exemplo, cidades alemãs ou espanholas, soube conservar durante séculos os nomes de muitas de suas ruas.” (p. 37)

– Concordo concordadíssimo. Um troço bossal no Brasil é dar nome de rua a político e a empresário. Mas, em favor do Brasil, há que se lembrar que franceses não atualizam nem sua ortografia quase medieval.

“Gosto muito de Paris porque não tem catedrais nem casas de Gaudí.” (p. 39)

– É sempre assim: nativos nunca fazem turismo no lugar de origem. Quem aguenta a quantidade de formas tubulares em Curitiba? Quem aguenta a montoeira de igrejas em Salvador? Ou a quantidade de shoppings em São Paulo? Ah, tá, foi mal: temos uma paciência infinita para visitar shoppings.

“Paris é uma cidade gris e chuvosa, mas, quando chega a primavera e se enchem os terraços e cantoras de rua que parecem sair de todos os cantos entoam La vie en rose, a cidade se converte no melhor lugar do mundo para, embora haja quem não queira e prefira a vida em negro, poder ser feliz.” (p. 69)

– É um frase meio truncada (pode ser a tradução), mas nos faz lembrar de Curitiba, outro lugar gris. Só que aqui as pessoas ficam felizes no outuno, quando passa o calor e o céu azul abriga amenos 15 graus.

“O que eu fazia, Deus meu, desesperado em Paris? Eu não podia ser mais imbecil.” (p. 71)

– Não dá pra discordar.

“Me senti mais sozinho e desamparado do que nunca. A lua, entrando pela pequena janela, refletia no espelho do quarto, sem dúvida colocado ali para criar a sensação falsa e muito parisiense de que aquele quarto era maior do que era.” (p. 120)

– Alguém mais pensou na Galeria dos Espelhos de Versailles?

“Em um primeiro momento pensei em pedir-lhe conselho sobre o que uma pessoa devia fazer para aproveitar o tempo em Paris, mas me pareceu uma idiotice perguntar algo cuja resposta não me interessava.” (p. 180)

– Ficamos aliviados que não tenha perguntado tal asneira.

 

 

Quero ser Ernest Malkovich

“O episódio Hemingway-Fitzgerald é um dos mais estrambóticos a povoar a história dos encontros e desamores entre dois escritores de talento. Em geral, nenhum dos dois pode aprender muito com o outro.” (p. 45-46)

– Páreo duro, hein? Mas acho que Fitzgerald tem mais talento literário, embora tenha sigo Hemingway quem ganhou o Nobel. Mas, também, Fitzgerald já estava morto há quase uma década quando O Velho e o mar foi publicado. O que não teria produzido se tivesse vivido mais vinte anos…

 

 

Mau humor francês

“Na volta [da China], Barthes publicou um célebre artigo no Le Monde, onde se mostrava decepcionado diante do que ouvira e vira. O chá chinês havia lhe parecido tão insosso quanto a paisagem.” (p. 70)

– Como comentário, uma citação esplêndida de Kakuzo Okakura, já anotada neste blog: “Este [o chá] não tem a arrogância do vinho, a autoconsciência do café, nem a frívola inocência do cacau.” Tá explicado porque Roland Barthes achou o chá chinês insosso. O cara é francês e a França não é exatamente conhecida por produzir nem os melhores cafés nem os melhores chocolates do mundo.

 

 

Outras paragens

“Chovia e o vento era muito forte, e nessa mistura violenta o ar de Nova York parecia um espelho destroçado.” (p. 93)

– É a única frase digna de Hemingway em todo o livro.

 

 

On philosophe au café

“E foi então que ela disse algo com a intenção de que chorasse. ‘Já sou tão velha quanto meu pai, que está morto.’ Decidi não retardar mais minha partida. Beijei cerimoniosamente sua mão e parti. Lembrei uma frase que ouvira minha mãe dizer muitas vezes: ‘Há que saber nadar só o bastante para se abster de salvar os outros’.” (p. 98)

– Pois então. A velhice nos faz ainda mais egoicos.

“Sem dúvida, é muito mais complicado ser jovem, embora isso não signifique de jeito nenhum que se deva andar desesperado. Na maturidade se conhece a ironia, sim. Mas já não se é jovem e a única possibilidade que resta de sê-lo um pouco consiste em resistir, não renunciar demais, com a passagem do tempo, àquela úmida imaginação do baú de Naeuphle-le-Château. Resta  somentes resistir, não ser como aqueles que, à medida que a intensidade de sua imaginação juvenil vai decaindo, se acomodam à realidade e se angustiam pelo resto da vida. Resta somente tratar de ser dos mais obstinados, manter a fé na imaginação durante mais tempo que os outros. Amadurecer com obstinação e resistência […]” (p. 104)

– O risco de postura semelhante sempre é o de virar um velho patético.

“O ideal, dizia a mim mesmo em muitas noites ao apagar a luz da sinistra água-furtada, seria conhecer uma mulher bela e inteligente que me ajudasse a triunfar, que fizesse valer aquilo de que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher. Como podia aspirar a encontrar um grande mulher, no entanto, se no fundo eu sabia perfeitamente que não era um grande homem?” (p. 164-165)

– Então, esta coisa de por trás de um grande homem, blá-blá-blá, sempre foi falado pras mulheres se contentarem com o segundo plano. Lean in, mulheres!

“Afinal, é uma questão de paciência, um dia serei um bom escritor. Mas também recordo que então entrei numa rede de perguntas: E por que diabos não sou agora mesmo o bom escritor que serei um dia? O que me falta para sê-lo? Vida e leituras? Falta isso? E se não chegar nunca a ser um bom escritor? O que serei então? Serei a vida toda um jovem sem experiência nem leituras, incapacitado para escrever bem? Poderei suportar isso?” (p. 194)

– Se este Paris não tem fim fosse autoajuda, todo seu auxílio estaria nessas reflexões. Qundo se tem um sonho estupidamente grandisoso, como ser um escritor famoso, e nunca se arrisca a sê-lo devido a zilhões de senões que vamos nos colocando um dia depois do outro, a única pergunta que realmente deve ser respondida é esta: posso suportar não tentar? Penso que a geração X fez as primeiras picadas, mas a geração Y terminou de cavar o caminho e hoje todos compreendem a urgência de não suportar. Por isso está tão, mas tão difícil contratar gerentes.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro © 2014

 

VILA-MATAS, Enrique. Paris não tem fim. Tradução Joca Reiners Terron. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

Comentários

Galeria de Fotos do Pinterest

Assinar Newsletter