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O Fio de Ariadne – Sueli Pecci Passerini

Postado às 12:59 do dia 02/05/20

A contação de histórias é um dos pilares do ensino em escolas Waldorf. Este livro, publicado pela primeira vez em 1998, já está em sua quarta edição revista, que é de 2015. Mantém-se atual, portanto, e atualizado. A pergunta é por quê? Por que uma atividade tão ancestral quanto contar histórias ainda se mostra válida como recurso pedagógico para crianças e adolescentes?

A resposta já está inserida na pergunta: porque é ancestral, refletindo necessidades fundamentais para o nosso existir. Nós consumimos histórias. Nós também as produzimos. Talvez não seja coincidência que as democracias ocidentais vivenciem crises de representatividade depois que a internet e as redes sociais amplificaram histórias de todos os matizes, fazendo-nos ficar em dúvida sobre a verossimilhança e pertinência de tantas narrativas que, em vez de refletirem verdades universais, refletem apenas circunstâncias. Parece – e isso é um palpite apenas – que a falta de treino em histórias ancestrais tenha tornado as novas gerações menos treinadas para diferenciar o que é válido para o conjunto maior da experiência humana, daquilo que é válido para a visão de mundo de cada indivíduo. A consequência? Dificuldade para tomar decisões onde perder esteja em jogo, dificuldade para fazer trade off, já que em um mundo onde toda história é válida, nada parece poder ficar de fora.

Talvez valesse um estudo que acompanhasse crianças que fizeram um ciclo completo em escolas Waldorf para checar se se tornaram adultos mais tolerantes, mais seguros e mais empáticos. Considerando que a primeira escola Waldorf surgiu há um século, em 1919, encontrar gerações formadas nelas não deve ser tão difícil. Fica a sugestão.

Para quem não conhece a escola Waldorf, vale a pena contextualizar que são centros de educação para crianças e adolescentes que abrangem todo o ciclo básico, o que corresponde a nosso ensino Fundamental 1 e 2. A pedagogia Waldorf se fundamenta na Antroposofia de Rudolf Steiner, Considera que o ser humano se desenvolve em setênios até os 21 anos, quando desenvolverá aquilo que, na Antroposofia, é chamado de eu. Entre a idade de 3 anos, quando desperta a consciência do eu, até os 21 anos, quando o eu se estrutura, o ser humano passa por fases de desenvolvimentos nas quais três forças atuam: a força do querer, a força do sentir e a força do pensar. Inicialmente imerso numa consciência em que o eu e o mundo são únicos, gradativamente percebe que o eu e o mundo não estão unidos. Neste processo, sucessivamente os corpos físico, vital (etérico) e astral (alma) nascem e se desenvolvem, com predomínio de um ou outro em cada fase dos setênios. Como também estão em desenvolvimento as estruturas orgânicas e, com elas, a linguagem e o pensamento, cada fase é marcada pela prevalência de recursos pedagógicos adequados a cada uma delas: no primeiro setênio, privilegiam-se recursos que atendam às necessidades do desenvolvimento dos órgãos dos sentidos, e que ajudem a criança internalizar o conceito da reverência em um época em que ela aprende pela imitação; no segundo setênio, recursos que atendam às necessidades do desenvolvimento dos órgãos daquilo que é chamado sistema rítmico do corpo – pulmões e coração – é que precisam estar no centro da estratégia. É uma fase em que a criança internaliza o conceito de autoridade, preferencialmente autoridade com amor, a partir de exemplos; no terceiro setênio, dos 14 aos 21 anos, o adolescente adquire a capacidade de pensar de forma conceitual e abstrata, foca-se em recursos que atendam ao seu desenvolvimento intelectual e que permitam que ele internalize o conceito da integridade moral e do idealismo, num momento de maturação de órgãos sexuais e metabólicos.

De acordo com Steiner, os ciclos do desenvolvimento humano também são encontrados nos ciclos do desenvolvimento da humanidade. E histórias – ou estórias, se preferir – refletem esses estágios todos. Desta forma, o que a autora do livro propôs foi sistematizar a indicação de determinados tipos de histórias a cada fase do desenvolvimento, mostrando que contos de fadas, fábulas de animais, lendas de santos, histórias do Velho Testamento, mitos de Atlântida, Índia, Pérsia, Egito, Grécia e biografias de homens célebres na História, Ciências e Artes refletem os aprendizados que a criança e o adolescente, no nível de seu desenvolvimento pessoal, precisam adquirir, e que foram os mesmos aprendizados que a humanidade adquiriu em sua evolução.

Para tanto, a autora contou não apenas com sua própria vivência como professora Waldorf, mas também com entrevistas com outras professoras muito experientes. Este livro se insere no âmbito de estudos em psicologia, pois a autora, à época, era pós-graduanda no Instituto de Psicologia da USP/SP. Porém, evidentemente, serve à pedagogia, assim como a tutores que queiram, com mais assertividade, escolher histórias pra contar às crianças de quem cuidam. Acho legal contrapor este livro a um outro que li recentemente e cuja resenha está aqui no blog: O Cérebro no Mundo Digital, de Maryanne Wolf. Esses dois títulos não poderiam estar mais distantes na metodologia que empregaram pra chegar à mesma conclusão: leia pra crianças – ou seja: conte-lhes histórias. Não há, por enquanto, nenhuma razão pra crermos que o You Tube desempenha melhor este papel que nós, que uma contação de histórias, que um livro físico: o papel de tornar a criança autônoma enquanto ser que imagina, que sente, que pensa.

Abaixo trago a citação de algumas melhores partes. Não todas, apenas as mais curtas, pois o livro é muito rico em ensinamentos sobre Antroposofia, e isso requer leitura de cabo a rabo.

 

Imagino, então entendo

“Para o cientista Kepler, a imagem ou concepção arquetípica antecipa-se à consciente definição de uma lei natural. Em seu entender, as imagens conceituais e, portanto, simbólicas propiciam ou impulsionam a descoberta das leis naturais; segundo nos esclarece Nise da Silveira, ´foi a partir da imagem de Deus criador, imagem central e solar por excelência, que Kepler elaborou sua estrutura heliocêntrica do mundo.” (pag. 19)

– O que poderemos perder se perdermos a capacidade de imaginar?! A ode ao científico não pode ser um grito de guerra contra a imaginação.

 

Entendo, então sofro

“O ser humano anseia por conhecer a si mesmo e ao mundo que o rodeia; mas ao estudar, analisar e compreender esse mundo, ele o sente como separado de si, o que lhe pode provocar angústia e solidão.” (pag. 65)

– Você sabe que o preço que pagamos, enquanto humanidade, por querermos entender e dominar a natureza, a partir do Iluminismo, foi o de alimentar nossa sombra, né?

 

Tipologia de narrativas

“Sendo assim, o provérbio pode ser definido como a fábula sem sua parte narrativa, e a anedota como a narrativa sem a moralidade.” (pag. 73)

– Não é uma definição ótima?

“A lenda não possui o caráter de revelação sagrada que encontramos nos mitos.” (pag. 78)

– Então agora você já sabe se se trata de lenda ou mito.

 

Assista menos, ouça ou leia mais

“As vivências imagéticas não mais lidas ou ouvidas, não mais recriadas pela psique a partir do conteúdo da literatura universal, tornaram-nos mais pobres, desvitalizados, apáticos, insensíveis, porque separados da fonte de energia existente nas histórias cujas imagens são ricas em ideais.” (pag. 97)

– Sem comentários. Apenas releia e releia esta citação e o sentido dela ficará evidente por si mesmo. E não peça pra desenhar o sentido.

“Com o mesmo raciocínio são questionadas as ilustrações, os desenhos animados e os filmes, pois eles continuam a desenvolver o que já, em geral, está muito desenvolvido, ou seja, a capacidade perceptiva em detrimento da imaginativa.” (pag. 113)

– Perceber, sem imaginar, é viver apenas na superfície.

 

Sinto, então entendo

“(…) não basta transmitir informações às crianças; é preciso despertar ou criar nelas a capacidade de estabelecer empatia com os minerais, as plantas e animais, com as pessoas e consigo mesma, de modo que sua relação com a vida inclua o afetivo e não se restrinja apenas ao intelectual.” (pag. 98)

– Como seria possível despertar empatia sem o silêncio que ler proporciona? Quando se assiste, ainda mais em uma tela, o silêncio é preenchido por imagens que não são nossas. Quem consegue se apropriar do alheio sem tornar aquilo seu? Como tornar aquilo seu sem a imaginação? Como imaginar quando tudo já é dado?

 

Não edite a natureza humana, ou, como diria Pondé: “contra um mundo melhor”.

” ´[…] aquele que é capaz de unir e reconciliar os grandes contrastes nele próprio é capaz de alcançar força e grandeza. É perigoso mostrar aos homens o quanto eles se assemelham aos animais sem mostrar-lhes sua força espiritual. É igualmente perigoso deixá-los conscientes de sua superioridade sem também apontar suas maldades. ” (pag. 121, citado de F. Carlgren, Education towards freedom)

– Não costumo ser contra o politicamente correto, mas não acredito em um mundo onde tudo seja correto.

 

Final aberto

“No final [da contação de uma fábula] não proferimos a moral da história – isso fica à liberdade da criança. Na educação é fundamental esse aspecto, ou seja, não explicitar, não direcionar, não concluir a respeito do conteúdo que se transmite; portanto, mesmo as fábulas que historicamente trazem em sua redação final o que é denominado moral nunca são relatadas por nós às crianças.” (pag. 123)

– Desconheço maior louvor à liberdade que deixar que as pessoas pensem por si mesmas, decidam por si mesmas.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar, por favor, cite a fonte. É algo simpático e eu fico agradecida.)

 

PASSERINI, Sueli Pecci. O fio de Ariadne: um caminho para a narração de histórias. São Paulo: Antroposófica, 2011 – 4ª edição, 2015.

 

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