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O Corpo e Seus Símbolos – Jean-Yves Leloup

Postado às 21:04 do dia 01/05/12

Tem gente que é fã de carteirinha, bandeira, camiseta e faixa do Jean-Yves Leloup. Este livro, O Corpo e Seus Símbolos, foi meu primeiro contato, assim, de livro-inteiro, com ele. O bom da gente ler direto da fonte é que podemos ter nossas primeiras e segundas impressões sem peias. Eu tive as minhas e curti, mas não fiquei hiper ultra super apaixonada. A verborragia do Rüdiger Dahlke em seus A Doença como Caminho, A Doença como Linguagem da Alma ou ainda no A Doença como Símbolo para falar sobre psicossomática faz mais meu estilo, embora eu tenha admirado a simplicidade e carinho que perpassam em cada página deste livro de Leloup.

Aqui vão as minhas melhores partes:

 

Anamnese

– O Conselho Federal de Medicina fica tão enlouquecido, no Brasil, com a reserva de mercado para seus membros que esquece que nem só de remédios e exames vivem as pessoas. Elas vivem de amor, de carinho, de sexo, de trabalho, de amigos, de inimigos, de saco-cheio, de humores, de meditações e orações. Embora eu ache que haja muitos médicos que, como disse uma vez Swami Sivananda, são como um deus na Terra – e isto no bom sentido! –, há outros, aquele tipo de profissional de quem não ficamos amigos, de quem não nos importamos saber se sai do consultório e vai para a casa; que não temos a curiosidade de saber sequer se são casados, divorciados ou se queriam ter feito outra coisa na vida; enfim, aqueles que os consideramos na mesma moesa, entende?

– Por esta razão que as pessoas procuram terapeutas. E não adianta coibir, não adianta proibir, nem adianta controlar: o exercício da terapia sempre existirá, porque humanos, quando ficam doentes, querem aquilo que a medicina dá, mas também aquilo que só de vez em quando ela dá: cumplicidade. Uma das coisas bonitas que Leloup fala na abertura de seu livro é sobre a anamnese essencial, um tipo de conversa com o paciente, que resgata a cumplicidade, esquematizada em três etapas: escuta física, escuta psicológica e escuta espiritual. Veja o que Leloup fala:

“A palavra anamnese deriva da palavra grega anamnésis, e significa recordação, lembrança. Platão já dizia que nada aprendemos e que apenas nos lembramos. Existe em nós uma memória essencial, a memória do ser verdadeiro que somos. Dessa maneira, denomino anamnese essencial a arte e a prática de lembrar-se do Ser, através das memórias do corpo físico e das marcas psicológicas deixadas neste corpo físico. Porque o corpo humano se recorda de todos os momentos que atravessou e viveu.” (p. 16)

“Assim, esta abordagem se dirige ao homen em sua inteireza. E o terapeuta, que acompanha este corpo que somos, não é apenas um médico, não é somente um psicólogo, não é somente um sacerdote. Mas deve manter unidas, ao mesmo tempo, a competência e a escuta destas três personalidades. Da mesma maneira ocorria entre os Terapeutas de Alexandria, que cuidavam do corpo, do psiquismo e também do ser espiritual. Trata-se, pois, de escutar cada uma das partes do nosso corpo, do ponto de vista físico, psicológico e espiritual.”

– Nunca ninguém disse que para ser terapeuta bastava fazer qualquer cursinho, percebe? Ou quem disse, disse sem conhecimento…

 

Simbolismo dos Joelhos

– Já tinha lido em alguns livros sobre a simbologia dos joelhos, mas esta de Leloup foi inédita para mim e me pareceu muito, mas muito pertinente. Veja que bacana o enfoque dele:

“Assim, ser filho, ser filha, é estar no colo, sobre os joelhos. E, de uma certa maneira, o menino ou a menina que não tiveram colo também não tiveram esta bênção, esta baraka, que lhes é comunicada pelo pai ou pela mãe. Esta força, esta energia de viver, talvez eles possam encontrá-la sobre os joelhos de uma outra pessoa. E nó, também, podemos dar colo para uma outra pessoa. Temos necessidade de dar e receber esta confirmação afetiva.” (p. 57)

– Percebe que abordagem sensível? Sempre nos habituamos a associar o joelho com uma “falha” na personalidade: a pessoa não se ajoelha para nada, é sempre muito orgulhosa, ou então não reverencia o que lhe acontece.  Não parece que toda a interpretação se fecha com este aspecto do “dar colo”? Pense você e me conte depois.

 

Simbolismo dos Genitais

– Leloup discorre longamente neste capítulo sobre a origem da palavra Amor e de outros termos associados a ele. Nesta passagem, traz uma reflexão muito singela sobre harmonia. Leia:

“A palavra Storgué pode se trraduzida como ternura e Harmonia que é uma palavra muito bonita para falar de amor. É uma maneira de harmonizar o seu ser com o ser do outro. Sri Aurobindo dizia que os problemas entre os seres humanos são problemas de ritmo. Nós não vivemos no mesmo ritmo. É uam experiência muito bela harmonizar sua respiração (seu Sopro) com a respiração do outro.

Esta harmonia entre duas pessoas tem como consequência uma cura da terra. Os antigos chineses diziam que, da harmonia entre o homem e a mulher, da harmonia entre dois seres, depende a harmonia do universo. Não estamos mais ao nível da necessidade, da paixão, nem mesmo do desejo. Estamos no mundo da harmonia e, pouco a pouco, nos aproximamos da compaixão.” (p. 80)

 

Simbologia do Sexo

– Gostei particularmente desta passagem do livro porque trouxe a dimensão da “palavra” ao ato sexual. Veja que interessante:

“Uma das reprovações que Jung fazia a Freud era a de não ter se apercebido da dimensão numinosa da sexualidade.[…]

Na tradição judaica, o sexo é algo sagrado quando acompanhado pela palavra. Nesta tradição há uma passagem do sexo à palavra. Quando se tem uma relação sexual com alguém a quem não se dirige a palavra, esta relação não é humana. Falta a palavra e é a palavra que dá o sentido. Que dá o sentido a este abraço. Para nossa vida prática, esta é uma indicação interessante.

Na tradição cristã, chama-se sacramento a um gesto que uma palavra acompanha. O sexo pode tornar-se um sacramento se é acompanhado por uma palavra de ternura, por uma palavra de amor. Se é acompanhado pelo coração e se o coração é acompanhado pela inteligência. Neste momento, o sexo se torna um ato realmente humano.” (p. 84)

 

Simbologia da Coluna Vertebral

– Nesta passagem, novamente Leloup traz um aspecto muito singelo sobre a figura do pai, do pai interno. Leia:

“É comum escutarmos que determinadas pessoas não têm coluna vertebral, que ela não tê, estrutura interior. Nestes casos, verificamos que a coluna vertebral tem ligação com a falta de um verdadeiro pai na vida dessas pessoas. Quando falo de pai, falo de uma palavra que nos estrutura. Todos nós temos necessidade de ternura, de sermos envolvidos pela mãe, e, ao mesmo tempo, temos necessidade de estrutura, da palavra que nos informa.” (p. 109)

– E agora veja que ensinamento valioso para todos nós que temos filhos e nos vemos aflitos com as decisões que tomamos para educá-los:

“O papel do pai é de dar sentido à lei. E a lei não diz a alguém ‘você deve’, mas ‘você pode’. Ser pai é ser capaz de dizer ‘você pode’ e de dar ao filho os meios de poder. Não guardá-los para si. Porque tanto o pai quanto a mãe às vezes impedem que o filho ‘possa’, que o filho seja capaz.” (p. 109)

– Dureza, né? A gente faz isso e nem se toca…

 

Sobre o diagnóstico

– Há alguns anos eu venho me consultando com uma médica formidável, uma homeopata que guardo com muito carinho no meu coração, pois é um ser que exerce a medicina de forma apaixonada e empática. Nossas consultas nunca duram menos de 60 minutos e conversamos trocando informações e impressões. Uma coisa que ela me ensinou – e a que eu não dava a menor importância – é de escolher bem o código SID que será colocado no recibo para pedir o reembolso da consulta ao plano de saúde. Código CID é o código da doença que “você tem” e que o médico suspeita para pedir um exame. Esta minha médica sempre me diz: “Não vamos dar nome àquilo que este nome não vale.” Leia o trecho abaixo de Leloup e veja se não existe razão mesmo neste cuidado:

“A leitura do nosso corpo é uma leitura infinita. Quando interpretamos o Livro do Corpo, podemos fazer uma leitura que nos mate. Vamos a um médico e saímos de lá com uma doença que não tínhamos antes. Por isso, o diagnóstico é tão importante, porque é uma informação que se imprime no corpo (grifo meu). Daí a importância de propor a um doente, a alguém que sofre, interpretações diferentes de seus sintomas. Não aprisioná-lo em seus sintomas. Dizer-lhe a verdade. Dizer-lhe, por exemplo, que ele tem os sintomas de um câncer, de uma doença grave, mas que não é somente um canceroso. Ele é uma pessoa que precisa enfrentar esta doença. E que pode fazer desta doença uma ocasião de consciência, de transformação.” (p. 114-115)

 

Sobre dar nomes aos bois.

– A última melhor parte que trago deste livro de Leloup aborda de novo a questão da palavra. Sinto muito se minhas melhores partes giram todas em torno desta questão, mas já mencionei aqui que sou linguista e o Verbo é mesmo uma obsessão. Vamos lá:

“ Há palavras que permanecem presas em nossa garganta e nos impedem de respirar, impedem que o coração se torne inteligente, impedem que a inteligência desça ao coração. Donde a importância de desnudar esta palavra que ficou presa em nossa garganta. […]

O papel da psicanálise é encontrar a palavra e o jeito de dizer esta palavra.[…]

E  o papel do terapeuta é o de convidar a pessoa a deixar sua palavra nascer. Não a palavra dos pais, não a palavra da sociedade, não a palavra herdada de todo um passado, não repetições, mas encontrar a sua própria palavra, encontrar o seu próprio nome. E conhecer, então, o seu próprio desejo.” (p. 118)

– Não é mesmo isto que perseguimos a vida toda? O nome certo das coisas?

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro

 

LELOUP, JEan-Yves. O corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial. Petrópolis: Vozes, 2011, 19ª edição.

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