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O cérebro de Buda – Rick Hanson e Richard Mendius

Postado às 01:21 do dia 14/09/12

Se Buda foi o mestre da felicidade, o cérebro dele deve ter feito coisas extraordinárias em favor de sua mente. Essa é a hipótese dos autores, Rick Hanson, neuropsicólogo e professor de meditação, e Richard Mendius, neurologista, ambos sócios do Instituto Wellspring de Neurociência e Saber Contemplativo nos Estados Unidos.

Praticantes de meditação budista, eles querem mostrar como as funções neurais fundamentais de regulação, aprendizado e seleção se relacionam com os três pilares do caminho do despertar, que são a virtude, a atenção plena e a sabedoria, para produzir um cérebro que molde uma mente mais feliz. Como os autores explicam, eles querem explorar a interseção de três campos do conhecimento – a psicologia, a neurologia e a prática contemplativa – para encontrar a chave para a felicidade, o amor e a sabedoria na vida diária.

Bem explicadinho, de linguagem simples, cheio de esquemas e resumos, o livro é para aqueles que, céticos sobre os benefícios das práticas contemplativas, precisam do aval da ciência para aceitar e compreender com a razão o que seu coração possivelmente já sabe: admirar-se pela beleza que existe nas pequenas coisas traz ondas de bem-estar à vida. Professores de yoga também aproveitarão o livro, sobretudo quando derem aulas de formação ou workshops que enfoquem os benefícios da respiração, dos exercícios de concentração e meditação. Muitos alunos querem entender, intelectivamente, as sensações que a prática lhes traz e o livro poderá ajudá-los. Nele, você conhecerá a bioquímica do sofrimento, mas também a bioquímica da equanimidade.

Não é uma leitura muito diferente da de Eckhart Tolle (que vai mais pra física e psicologia), ou de Bruce H. Lipton (que vai mais pra biologia), de Lynne McTaggart (que vai mais pra matemática e física) ou mesmo de Amit Goswami (que vai mais pra física e hinduísmo). Mas tem um charme próprio: é de uma inteligência serena e discreta, como tudo que afinal sai da boca de praticantes do budismo. E vai mais pra medicina.

Abaixo trago algumas citações interessantes com comentários.

 

 

Relação mente e cérebro

“Quando a mente se transforma, o mesmo ocorre com o cérebro.” (p. 19)

“O cérebro é o principal modelador e modificador da mente.” (p. 21)

“Ninguém sabe exatamente como o cérebro gera a mente, ou de que modo (…) a mente usa o cérebro para formar a mente.” (p. 24)

– Existe um capítulo inteiro, o primeiro, para explicar as relações entre mente e cérebro, sobretudo para garantir que a gente entenda que não há nada certo nessa área. Uma característica destes livros que misturam ciência e espiritualidade é o cuidado com a informação, senão os autores seriam reputados como charlatões. Até que esse perigo esteja afastado, temos que tolerar um pouco de blá-blá-blá.

 

 

Metáforas para o cérebro

“O cérebro regula a si – e a outros sistemas físicos – pela combinação de atividades excitantes e inibidoras: sinal verde e sinal vermelho.” (p. 28)

– Não é uma boa metáfora essa do sinal verde, sinal vermelho? Fica muito fácil compreender.

“O cérebro é como velcro para experiência ruins e como teflon para as boas – mesmo que a maior parte das experiências seja neutra ou positiva.” (p. 56)

– Segundo os autores, não adianta afastar as experiências ruins. Como a poeira invisível que vai se aderindo ao velcro até deixá-lo bem sujo, as experiências ruins simplesmente se aderem ao cérebro, porque elas reforçam nossas habilidades para sobreviver bem mais que as boas.

“Se o seu corpo tivesse um departamento de incêndio, seria o sistema nervoso parassimpático.” (p. 96)

– Departamento para apagar o fogo, ok, e não para criá-lo.

“Relacionamentos mais complexos requerem cérebros mais complexos”. (p. 139)

É claro que neurociência evolucionária se refere à evolução do córtex nos primatas, que são espécies sociais. Mas você pode usar a afirmação para fazer piada da razão por que insiste manter relacionamentos difíceis! 🙂

 

 

Memória

“O cérebro reconstrói memórias implícitas e explícitas com base em suas características-chave, contando com sua capacidade de simulação para preencher os detalhes faltantes.” (p. 86)

– Ah, turma, isso os escritores já sabem: não há distinção entre ficção e realidade. Toda memória é ficcional.

 

 

O caminho do despertar

“Quando você parte a caminho do despertar, começa de onde quer que esteja.” (p. 29)

– Gostei demais dessa frase, demais mesmo. Há 12 anos convivendo e trabalhando com pessoas que buscam um modo de vida onde o autoconhecimento e a espiritualidade são importantes, já vi muito preconceito com relação ao que você deve fazer se quiser desenvolver-se: deve parar de comer carne, deve parar de fumar, deve parar de usar carro, deve parar de comer refinados, deve, deve, deve. Esqueça tudo: faça o que estiver ao seu alcance fazer. O ótimo é inimigo do bom.

“Cultivar o próprio desenvolvimento não significa ser egoísta. Na verdade, é um grande presente para outras pessoas.” (p. 32)

– Alguma coisa acontece de errado no caminho do despertar pros autores escreverem essa frase. O que é? As pessoas se afastam. Encontre uma nova filosofia, um mestre, uma religião, qualquer coisa que o retire do almoço de domingo com a família, e o chamarão de egoísta. Hoje acredito que uma fase de egoísmo é parte inevitável de todo caminho do despertar. Não que tenha que ser assim, mas acaba acontecendo. Dói, claro; traz desavenças, traz; mas não sei o que fazer que é assim mesmo que ocorre. No fim das contas, em alguma momento, o coração serena e a gente volta a almoçar com a família aos domingos.

“Por ter uma carga emocional maior do que a autoestima, [a autocompaixão] tem mais poder de reduzir o impacto de situações difíceis, preservando o amor-próprio e construindo resiliência.” (p. 61)

– Os autores diferenciam autocompaixão de autopiedade: esta não ajuda em nada, aquela faz com que você queira melhorar. Criar autocompaixão é central, segundo o livro, para criar condições cerebrais de felicidade e aí eles ensinam um pouco de PNL: relembre o sentimento de compaixão que recebe de alguém ou que tenha por alguém, inunde-se com esta sensação e coloque sua mão sobre o rosto ou peito. Eles ensinam ancorar a sensação.

“Como diz o ditado: a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Se alguém for capaz de se manter presente diante de qualquer coisa que venha à consciência (…), sem criar uma nova reação, quebrará a cadeia do sofrimento no mesmo instante.” (p. 77)

– Aqui está a essência da Gita.

“Mas há dois pontos importantes a serem abordados antes da exploração de métodos específicos para nos sentirmos mais seguros. Primeiro: em nossa realidade não existe essa história de segurança absoluta. (…) Reconhecer essa verdade é sinal de sabedoria, e aceitá-la e seguir em frente com a própria vida é revigorante. Segundo: para algumas pessoas, sobretudo as que passaram por algum trauma, reduzir a ansiedade pode parecer ameaçador, pois baixar a guarda faz com que se sintam vulneráveis.” (p. 104)

– Isso me lembra aquela advertência quando damos curso de formação a novos professores de yoga e aromaterapeutas: não estimule uma catarse se não puder ampará-la.

“Equanimidade não é apatia nem indiferença: a pessoa está cordialmente engajada com o mundo, mas não perturbada por ele.” (p. 126)

– No yoga, no budismo, a gente ouve muito a palavra equanimidade. Não se trata de troço fácil, já vou avisando: é manter-se sereno diante do caos, manter-se ativo diante da passividade. Leia mais sobre equanimidade, a conversa fica boa:

“Quando somos equânimes, não nos prendemos às experiências boas nem às ruins. Em vez disso, criamos um espaço em torno das experiências – um protetor entre n[os e as sensações associadas a elas. Esse estado de ser não está baseado no controle pré-frontal padrão das emoções, em que há inibição e comando da atividade límbica. Na verdade, com equanimidade, o sistema límbico pode disparar como bem entender. (…) Esse é um comportamento muito incomum para o cérebro, que é projetado pela evolução para responder a sinais límbicos (…)” (p. 128)

– Como criar um cérebro equânime? Os autores explicam no livro, difícil é pôr em prática, pois nos exige boa e forte vontade.

“Se alguém é capaz de quebrar a ligação entre as sensações e o desejo incontrolável – se pode conviver com o que é prazeroso sem correr atrás dele, com o desagradável sem resistir a ele e com o neutro sem ignorá-lo – , é sinal de que quebrou a cadeia do sofrimento, pelo menos por um tempo.” (p. 130)

– Não falei que era difícil? Fora que fica muito difícil a gente acreditar que isso não seja um comportamento apático.

“Considere renunciar a ser especial – e até importante e admirado. A renúncia é a antítese do apego, e, portanto, um caminho radical para a felicidade.” (p. 235)

– Se você sonha com a época em que o ser humano renunciará ao seu eu, você precisa ler o conto Caixa Preta de Jennifer Egan, em que uma espiã leva a cabo sua missão apenas pelo prazer que o anonimato lhe dá.

“A consciência requer uma subjetividade, mas não necessita de um sujeito.” (p. 226)

– Os autores concluem o livro com uma discussão sobre as bases neurológicas do eu. Na verdade, as bases que evidenciam que o eu não existe; que, afinal das contas, ele é impermanente mesmo, como já tinha ensinado Buda. Muito interessante a discussão. Vale a pena ler.

 

 

Sofrimento

“Os reguladores dos sistemas de sua vida, desde o aspecto molecular até o interpessoal, devem ficar tentando impor uma condição estável em processos inerentemente instáveis.” (p. 47)

“(…) o cérebro é construído mais para recuar do que para ir em frente. Isso porque são as experiências negativas, e não as positivas, que normalmente têm mais impacto na sobrevivência.” (p. 54)

– Ah, tá. “Programados para sofrer” é o titulo do filme que me vem à mente.

“No budismo, o sofrimento é considerado o resultado do anseio expresso por meio dos Três Venenos: ganância, ódio e ilusão. (…) A ganância é uma necessidade extrema de agarrar as oportunidades; o ódio, a aversão a obstáculos – ambos envolvem o desejo compulsivo por mais prazer e menos sofrimento. A ilusão é um apego à ignorância a respeito de como as coisas são de fato (…).” (p. 57-58)

– Os autores formulam, no livro, o que chamam de lei das pequenas coisas. Ela postula que, embora os Três Venenos deixem vestígios de sofrimento na mente e no cérebro, muitos pequenos momentos de prática de atenção plena, virtude e sabedoria acabam por sobrepujá-los.

“O sofrimento não é abstrato ou conceitual. É corporificado: é sentido no corpo e age por meio de mecanismos corporais.” (p. 67)

– A gente se acostumou a achar que determinados sintomas têm origem psicológica. De certa maneira isso deturpou a consciência que temos de doença, porque passamos a acreditar que esse tipo de sintoma é imaginário. Não há nada imaginário no corpo, nem na mente, nem no cérebro. Tudo é absolutamente real, ainda que tenha sido uma realidade que construímos segundo a interpretação dos estímulos. Consegui explicar?

“Ficar perturbado com os pensamentos alheios é como aborrecer-se com os borrifos de uma cachoeira.” (p. 180)

– Concordo, mas preciso acrescentar que o único jeito de não se aborrecer é se afastar da cachoeira. Não tem outro e, às vezes, talvez não queiramos ou não possamos nos afastar…

“Como dizem nos programas de doze passos, o ressentimento é um veneno que eu tomo, com a esperança de que o outro morra. (p. 183)

– Captou a mensagem?!

 

 

Exercícios para a felicidade

“O tratamento não é suprimir as experiências negativas; quando elas acontecem, acontecem. Em vez disso, deve-se cultivar as vivências positivas e, acima de tudo, assimilá-las e absorvê-las de modo que se tornem parte permanente do ser.” (p. 84)

– Como assimilá-las? A resposta dos autores é: 1) transforme fatos positivos em experiências positivas, ou seja, quando vir algo que o agrada, traga o fato à consciência; 2) deixe que a sensação agradável dure o máximo de tempo possível; 3) imagine que essa experiência se entranha em seu corpo e em sua mente. A ideia – isso é importante, preste atenção – , não fazer com que só busquemos experiência agradáveis, porque elas se esgotam e isso acabará sendo uma fonte de frustração; a ideia é interiorizar a sensação para que ela esteja disponível dentro de nós ao invés de fora. É uma boa sacada, não é? Só isso já valeu o livro.

“Quando duas coisas são retidas na mente ao mesmo tempo, cria-se uma ligação entre elas. É por isso que conversar sobre coisas difíceis com alguém que nos apoia faz tão bem: lembranças e sentimento dolorosos são imbuídos de aconchego, do alento e da intimidade que um tem com o outro.” (p. 86)

– Nossa, nunca tinha olhado a amizade e as terapias em grupo sob esse ponto de vista neuronal!

“Os lábios são dotados de fibras parassimpáticas; tocá-los, portanto, estimula o SNP [sistema nervoso parassimpático]. Esse ato também pode evocar a sensação calmante de estar comendo ou de quando era amamentado.” (p. 98)

– Comer relaxa, mas beijo na boca também, povo!

“Identifique amigos e parentes que se preocupem com você e passe mais tempo com eles.” (p. 105)

– Parece óbvio, mas a realidade é que a gente vive acendendo vela pra mau defunto.

“Como reforço, é possível descrever verbalmente para si o que se está sentindo, para melhorar a regulação do sistema límbico pelo lobo frontal.” (p. 106)

– Recentemente os jornais mostraram o video de uma moça que quebrou o tornozelo numa trilha num parque norte-americano. Esperando pela ajuda do namorado, no escuro, ela se lembrou de usar a câmera de seu celular para fazer um video de como se sentia. O que ela fez foi exatamente isso: regulou o límbico pelo lobo frontal.

“Reconheça a natureza fugaz das recompensas e que elas geralmente não são tão incríveis como parecem. Perceba também que as experiências dolorosas são passageiras e nem sempre tão terríveis. Nem o prazer nem a dor merecem sua reivindicação ou identificação.” (p. 131)

– Ou seja, meu amigo, viva no córtex pré-frontal.

“Reserve um período do dia – mesmo que só um minuto – para, conscientemente, livrar-se de inclinações contra a favor de alguma coisa.” (p. 133)

– Gostei disso.

“Tenha intenção consciente de ser empático.

(…)

Note os movimentos, a postura, os gestos e as ações de outra pessoa. (A ideia é energizar as funções de espelhamento perceptivo-moto de seu cérebro, e não analisar sua linguagem corporal.)”(p. 156)

– Adorei isso. Quando tivermos dificuldade de ser empáticos, podemos adotar a linguagem corporal do outro. Vivas aos neurônios-espelhos!

“Entretanto, sendo virtuoso unilateralmente, você se direciona direto para seu próprio egoísmo esclarecido, não importa se o outro está cooperando ou não.” (p. 162-163)

“Se ter compaixão é desejar que os seres não sofram, ter bondade é querer que sejam felizes. A compaixão é, acima de tudo, uma reação ao sofrimento, mas a bondade é manifestada em qualquer situação, mesmo quando os outros estão bem.” (p. 173)

– Ah, turma, esse é um ensinamento precioso: se você quer espalhar bondade, faça-a de graça.

 

 

Medite

“A atenção é como um holofote, e tudo o que ilumina é captado pela mente e molda o cérebro. Portanto, desenvolver maior controle sobre a atenção é provavelmente a maneira mais genuína de reconfigurar o cérebro e, por conseguinte, a mente.” (p. 193)

– Olhe só, há muitas maneiras de treinar a atenção. Não existe só recitar o mantra OM, ou só focar na respiração, ou só olhar para uma vela. Uma boa sacada do livro é aceitar que a bioquímica do cérebro nunca quer serenar – somos dependentes de dopamina. Partir desse princípio, os autores elencam várias maneiras de adaptar exercícios de atenção à sua personalidade.

“Sentar-se numa postura ereta proporciona uma resposta interna à formação reticular – uma malha de fibras nervosas no tronco cerebral envolvida com a vigília e a percepção – , avisando que você precisa manter-se vigilante e alerta.” (p. 201)

– Tá vendo por que meditação se faz sentado com a espinha ereta? Tá aí a explicação neurológica. Não acredite se o ensinarem a meditar deitado. Não funciona. Meditação deitado tem outro nome: relaxamento ou soneca.

“A concentração que você adquire com a meditação pega o holofote da atenção e o transforma em um feixe de laser.” (p. 207)

– Preciso revelar uma coisa: o autor do livro, Rick Hanson, é doido por O Senhor dos Anéis e acho que é doido por Star Wars também. Aposto que, quando escreveu o parágrafo acima, ele estava pensando do sabre de luz dos Jedis, que só podem ser manipulados depois de um longo treino de atenção.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

HANSON, Rick e MENDIUS, Richard. O cérebro de Buda: neurociência prática para a felicidade. São Paulo: Alaúde Editorial, 2012.

 

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