Casa Máy > As Melhores Partes - Posts > contos > Nós passaremos em branco – Luís Henrique Pellanda

< voltar

Nós passaremos em branco – Luís Henrique Pellanda

Postado às 17:00 do dia 20/09/12

Luís Henrique Pellanda tem nossa idade, 39; compartilha nosso perímetro urbano, 434.967 km2; e usa nosso CEP, um número entre 80.000-000 e 82.999-999. Sorte nossa! Por conta dessas semelhanças, ele assiste ao espetáculo humano que passa todos os dias em Curitiba e, se perdemos algo, ele não; Luís Henrique não perde nada.

Nós Passaremos em Branco (2011) é o título do livro que reúne crônicas que ele publicou entre 2010 e 2011 no site de que é coeditor, o Vida Breve. Curitibano de nascença e criação, jornalista, escritor e músico, o autor tem alguns temas constantes em seus textos: Curitiba e seus personagens anônimos, que via de regra são mendigos, crianças de rua, prostitutas, bêbados de todas as estirpes, velhos e velhas que brigam no meio da rua e mulheres gostosas que se exibem sem pudores pelo Centro de nossa cidade. Também tem um jeito de contar ao que assiste de um modo todo seu: o observador que não se choca com o que parece inverossímil, mas que tenta extrair da realidade algum lirismo, ainda que trágico ou, como acontece frequentemente, tragicômico.

Para quem adotou Curitiba como eu, as crônicas que falam diretamente dela têm mais sabor; são como aquelas histórias que queremos contar aos parentes que ficaram junto com a cidade que deixamos para trás e, quando nos veem, perguntam “então é verdade que Curitiba é boa mesmo?” Não sei, realmente não sei mais responder. A gente se acostuma com o que há de ruim e de bom numa cidade, mas entre tantos que a não suportam, conto-me entre os que lhe têm carinho – possivelmente mais uma semelhança com Pellanda.

Antes das melhores partes, quero fazer uma lista das crônicas imperdíveis, que acho que você deveria ler:
Conan, o Milagreiro porque você é de uma geração que amou Renato Russo, o último Jim Morrison que o século passado consentiu existir.
A Mesa Coletiva porque os restaurantes mais amados e odiados em Curitiba são os vegetarianos entupidos de gente.
Pinheirinhos d’ Alegria porque o judiciário, como não tem mais nada pra fazer na vida, está inventando de acabar com o Natal do Palácio Avenida.
Two Bananas porque o nosso biarticulado nos traz fama internacional.
Saudade das Noites de Pecado Puro (publicada no Vida Breve com o nome Rezo, Logo Existo) porque é bom lembrar como era bom ter 20 anos.
– O Sombra Amarrada, porque toda filosofia sobre nossa demente condição humana é necessária.

Agora sim, as melhores partes:

Vantagens

“– Melhor ser puta e aleijada do que ser puta, puta e só puta.
Pode ser, não possuo condições técnicas para julgar aquilo, o horror de ser tripla e exclusivamente puta.” (Todo homem é a própria caça: p. 17-18)

“Jim Morrison se foi em 1971, há quarenta anos, duas vezes duas décadas, e nos deixou uma única certeza: não há nenhuma vantagem prática em estar enterrado no Père Lachaise, ao lado de Balzac, Proust, Chopin, Camus e – ó esperança! – Kardec.” (Conan, o milagreiro: p. 35)

“Para a maioria dos diabos, o inferno é apenas uma espécie de cidade-dormitório. Um lugar distante e nada atraente aonde ir quando se faz necessário recuperar as energias. Assim, raros e bem infelizes são os diabos que trabalham por lá. O grosso mesmo vem bater ponto entre os humanos, desempenhando em nossas cidades diversas funções fundamentais, apesar de pouco nobres. (O diabo da Cruz Machado: p. 147)

– Uma coisa interessante no narrador das crônicas de Luís Henrique é que sua falta de pudor em falar de coisas despudoradas, como de bundas, putas, drogados, loucos, safados e moribundos, não nos choca. Duvido que chegue a causar simpatia; empatia, talvez, mas um tipo de empatia muito curitibana, que faz com que não nos envolvamos com a solução do sintoma, mas com a prevenção da causa. Curitibano não dá esmola em sinaleiro, dá pra entender o que quero dizer?

Medo de avião

“Viver demanda certa resignação; nesse sentido, morrer é menos chato, pois prescinde de nossa paciência. Até lá, espera-se – e é aí que moram o segredo e a aporrinhação. Na verdade, eu não ligo, sou dos fortes. Sento em frente ao monitor que anuncia as chegadas; as partidas não me interessam, não hoje.” (Volare: p. 19)

“No avião, a poltrona do corredor é sempre a mais generosa. Ao claustrofóbico, oferece espaço extra. Ao paranoico, facilita eventuais fugas. Ao priápico, permite que acompanhe mais de perto o vaivém das comissárias.” (Uma inferbe bandafusa: p. 131)

– Gostei tanto das crônicas ambientadas em aeroportos. Sou das que sentam no corredor, sou das que não veem problema nenhum em aplicar paciência infinita à vida. E o rebolado das aeromoças não me apetece, nem as calças apertadas dos mocinhos. Não acredito ser possível paquerar dentro de um voo.

Escrever

“Esta história é tão verdadeira que, para contá-la, serei forçado a mentir (…)” (O ônus: p. 23)

“Para Mencken, qualquer guri que de vez em quando não perpetrasse seus versinhos não passava de uma porta de MDF encharcada de hormônios. Assim como todo sapo já foi um girino, defendia, todo homem adulto já encarou, de peito aberto e molhado de lágrimas, o estágio lépido e larvar de poeta. (Eu e outros poetas: p. 65)

“Sejamos breves, pois o patético dispensa detalhamentos.” (Me publica ou te mato: p. 71)

“Três trabalhos péssimos. Mas por que os guardo? Não sei. Talvez para ter o que folhear quando essa bruxa histérica que é a ansiedade de publicar vier, mais uma vez, com seu hálito de cola, bater à porta do meu escritório.” (Me publica ou te mato: p. 72-73)

– Não conheci, quando adolescente, nenhum menino que escrevesse poesia: todos queriam fumar, ouvir heavy metal ou pilotar motos. Hoje, não fumam mais, continuam ouvindo heavy metal e suas esposas não deixam que tenham motos. Não é o caso do meu marido: ele pilota.

Curitiba

“O reduto que frequento é concorrido e recebe centenas de clientes contumazes, muitos deles, é claro, já conhecidos meus. O que não significa que conversemos, comamos juntos ou sequer perguntemos os nomes uns dos outros. (…) Curitibanos, entende?” (A mesa coletiva: p. 37)

“Quando amanhece, enfim, os curitibanos saem de suas tocas. Vão à padaria, ao trabalho, à escola. Caminham rápido, a cabeça baixa, temerosos de encontrar eventuais conhecidos, apavorados pela obrigação de cumprimentá-los, abraçar vizinhos, parentes, amigos ou quaisquer outras espécies de chatos também inventadas por Deus.” (O espalha-bundinhas: p. 179)

– Acredite: quando não está frio, quando não chove ou quando o céu não está nublado, o curitibano é bem diferente.

Comida vegetariana

“Almoço há quase dez anos no mesmo restaurante vegetariano. Não me dói nada. Prescindo do culto diário à carne não humana e posso passar até quinze dias sem me envolver intimamente com um filé.” (A mesa coletiva: p. 37)

“Serve-se de feijão, arroz, quibebe, apipim frito, macarrão, lasanha, sushi, tudo misturado.” (Anões filisteus: p. 62)

“No prato do cara, as mesmas folhas crespas que se amontoam no da garota, os mesmos bolinhos de soja, os cubos de tofu encharcados de shoyu e gengibre.” (Mastigando Beatriz: p. 127)

– A surpresa mais agradável do livro foi descobrir o Green Life em suas páginas! Em tempo: os sushis do Green Life são vegetarianos também.


revisto por Mayra Corrêa e Castro (C) 2012
PELLANDA, Luís Henrique. Nós passaremos em branco. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2011.
 

Posts Relacionados

Comentários

Assinar Newsletter