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Mademoiselle Chanel e o Cheiro do Amor – Michelle Marly

Postado às 17:17 do dia 24/02/20

Lendas para um perfume lendário. Então, que importa acrescentar um romance inteiro à história, ainda que escrito com bases em pesquisas? Esta é a proposta deste livro que narra como Coco Chanel teria criado seu icônico perfume, o Nº5, depois que perdeu o grande amor de sua vida, Boy Chapel. Assim, como a própria orelha de capa informa, a história começa onde o filme Coco Antes de Chanel (2009) termina.

 

Minha recomendação é que você leia primeiro este romance e apenas depois o livro O Segredo do Chanel Nº 5, de Tilar J. Mazzeo, que narra a história do perfume de um ponto de vista mais jornalístico. O risco de você não ler o livro de Tilar é ficar com um monte de histórias sobre como o perfume teria nascido, como era Coco, como foram seus relacionamentos, coisas que não corresponderam à realidade. Aliás, tenho minhas dúvidas se o romance se sustentaria caso a personagem por trás dele não tivesse sido de carne e osso e não tivesse se chamado Gabrielle Chanel. A romancista criou uma Coco choramingona, insegura, cheia de clichês sobre amor, abusando demais do que podemos imaginar tenha sido o conflito da estilista com seu passado de menina órfã em Aubezine. Os diálogos e os pensamentos colocados na cabeça de Coco são dignos de novelas para meninas-moças do século XIX. A personagem não contém nuances imprevisíveis, não tem nenhuma dimensão oculta, sequer profundidade, e realmente só persisti na leitura por 1) honestidade intelectual, como diria Wilson Martins, e 2) por curiosidade em torno de personagens que sabemos reais.

Um pouco de alívio tive ao final do romance, quando Marly coloca alguns apontamentos da pesquisa sobre fatos que ela romanceou da vida de amigos próximos de Chanel: Misia, Diaghilev, Stravinsky, Dimitri, Maria Pavlovna, François Coty, Picasso e Cocteau. Isso trouxe mais de credibilidade à sua escrita. De toda forma, penso que a autora tenha escrito o livro sob a angústia da influência com o filme estrelado por Audrey Tatou, e passou longe de pontos sombrios na vida de Coco, não os dramáticos de sua infância e nem da morte de Boy, mas aqueles criados por ela mesma, como sua briga com os Wertheimer. O romance ficou muito açucarado, quase juvenil, e isso considerando que fala de um período que ficou conhecido como Roaring 20s, uma época cheia de excessos e decadência. A autora preferiu focar num tema mais polido, como a fuga da família imperial da Rússia depois da revolução bolchevique. Enfim, foram as escolhas dela.

Finalmente, simplesmente não cola que Coco tenha criado o Chanel Nº5 como um tributo a Boy Chapel. Pra mim, este é o pior defeito do livro, ainda mais sendo o argumento principal dele. Outro defeito difícil de engolir foi a autora ter colocado Coco Chanel aprendendo a cheirar grãos de café pra limpar o olfato com François Coty, quando sabemos que esta coisa de café começou no Brasil. Além disso, perfumistas não cheiram café pra “limpar” o olfato: cheiram, se for o caso, a própria pele.

De toda forma, se for uma pessoa que lê tudo que aparece sobre Chanel, como eu, vá lá, compre o livro, quem sabe você o consuma em três tardes inteiras. Caso acompanhar a leitura com uma xícara de chá, dispense o açúcar – o livro já o contém demais.

Não tenho nenhuma melhor parte pra citar.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar, por favor, cite a fonte. É algo simpático e eu fico agradecida.)

MARLY, Michelle. Mademoiselle Chanel e o cheiro do amor. Tradução Claudia Abeling. São Paulo: Tordesilhas, 2018.

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