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Essências e Alquimia – Mandy Aftel

Postado às 13:11 do dia 13/07/12

Aqui está um clássico da arte de criar perfumes botânicos naturais. Mandy Aftel (1948, Estados Unidos), sua autora, é perfumista à moda antiga, trabalhando apenas com matéria-prima natural, comercializando  perfumes feitos de forma artesanal em embalagens que vão de 8 ml a 1 ml. Ainda assim, na contramão da indústria da perfumaria, Mandy conseguiu ser nomeada em 2011 para o FiFi Awards, que é uma espécie de Oscar do setor, e este livro seu, Essências e Alquimia, ganhou o prêmio Richard B. Solomon, em 2001, concedido pelo The Sense of Smell Institute, organização patrocinada por corporações de fragrâncias e cosméticos para desenvolver pesquisas científicas na área. Não é pouco na carreira de uma mulher que continua mantendo seu estúdio em Berkeley, na Califórnia (Estados Unidos), enquanto as grandes casas têm sedes nos cinco continentes.

Essências e Alquimia (2001) foi o primeiro livro escrito por Mandy (os outros foram Scents & Sensibilities e Aroma, sem tradução no Brasil) e o mais traduzido: há versões em grego, alemão, espanhol, chinês, italiano e sueco. É uma espécie de bíblia para perfumistas artesanais porque traz desde a história da perfumaria, até fichas técnicas das principais matérias-primas, concluindo com a informação mais valiosa, que é como combinar as essências para formar acordes e perfumes.

Não tem como selecionar as melhores partes de um livro que é inteiro, ele todo, fundamental. O que trago aqui são apenas algumas curiosidades. Se você é perfumista ou aromaterapeuta, este é um livro de cabeceira. Não deixe de comprá-lo.

 

 

Sobre perfumes

“Perfume – o casamento inebriante e impalpável das essências das ervas e das especiarias, plantas e flores, córtex animal e árvore – é a máquina que move o universo.” (p. 9)

– É assim mesmo, de forma triunfal, que Mandy abre seu livro. Não é exagero: vivemos de ar, não existe ar inodoro; logo, vivemos de cheiros.

“O perfume não era somente um produto, mas um modo de ser no mundo que por séculos preservou uma aura de magia e mistério.” (p. 10)

– É muito difícil, para nós, entender como o perfume pode ser um modo de vida. Constance Classen, no magistral livro Aroma, Uma História Cultural dos Odores, relata a relação instrínseca que certas tribos ao redor do planeta têm com o cheiro, como organizam seu dia a dia e como percebem as pessoas e a paisagem que os cerca através dos aromas. Para dar um exemplo, numa determinada tribo, as horas do dia não são divididas pela intensidade da luz, como nos habituamos no Ocidente, mas pelos aromas que vão se percebendo no ar. É disso que Mandy fala: um modo de ser perfume.

“[O perfume] É também, parodoxalmente, um produto essencialmente sem valor, tem uma única função: proporcionar prazer.” (p. 24)

– No século XIX, muitos da burguesia achavam ridícula a ideia de gastar dinheiro com perfume, o que consideravam, literalmente, fazer o dinheiro evaporar. Já ouvi algumas pessoas que dizem que não suportam gastar dinheiro com algo que não é material, como uma peça de teatro ou um filme, porque elas pagam e não ficam com nada de concreto para segurar nas mãos depois. É isto: o perfume, por ser imaterial, não tem valor nenhum.

“Sem palavras, o perfume nos coloca em contato com essa maneira de experimentar a mudança e tempo.” (p. 83)

– Sim, mudança porque o aroma evolui conforme as notas vão evaporando e tempo porque há que se construir um perfume que dure, que tenha alguma fixação.

“Mais da metade do que somos, como sabemos, é formado por água, e o banho é um lembrete de que em hipótese alguma somos tão sólidos e imutáveis quanto pensamos.” (p. 180)

– Por que Mandy começa a falar do banho aqui? Porque é uma excelente oportunidade de perfurmar-se! Olhe que frase maravilhosasobre tomar uma ducha e tomar um banho de banheira:

“Se chuveiros são prosa, banheiras são poesia.” (p. 181)

– Ah, esta mulher é genial!

“Somente à noite podemos sentir o perfume da água claramente. O sol tem odor demais para permitir que a água iluminada por ele nos deixe sentir o seu.” (p. 182)

– O ritual do banho deve ser feito, portanto, à noite.

“Tudo o que é sagrado nos humanos parece estar pungentemente sugerido no perfume.” (p. 189)

– Para explicar a citação acima, trago a citação abaixo:

“Por trás de todos esses costumes [usar perfumes em rituais religiosos], está a ideia de que o puro de espírito aspira a tornar-se espírito puro – literalmente, tornar-se aroma.” (p. 196)

 

 

Essências sintéticas x essências naturais

“Eles [os sintéticos] promoveram o crescimento do perfume como grande indústria produzindo artigos com marcas, e seu declínio como ofício praticado por artesãos.” (p. 12)

– A indústria de perfumaria usa matéria-prima natural, sim, muito obrigada; mas é pouco. A dificuldade de fazer perfume com fragrantes naturais é, muito mais que preço exorbitante, a falta de padronização. Essências naturais dão safra, como uvas dão vinhos bons e vinhos ruins. Não é possível garantir que um perfume terá sempre o mesmo cheiro trabalhando-se com matéria-prima natural.

“E embora as escolas de perfumaria se concentrem nos ingredientes sintéticos, a perfumaria natural é especialmente adequada para estudos domésticos.” (p. 15)

– O que acho libertador na perfumaria natural é você poder criar um aroma todo seu. Veja:

“O estudo e a prática da perfumaria são especialmente capazes de satisfazer a fome de autenticidade que hoje parece mais acentuada do que nunca.” (p. 15)

 

“Eles [perfumes sintéticos] são estáticos; não se misturam à química corporal de quem os usa, nem se transformam na pele. O que você cheira é o que você leva.” (p. 49)

– No curso de Perfumaria Botânica Natural na Nexus Academy, tive uma discussão sobre esse tópico com minha tutora Ane Walsh: não concordo em absoluto com a afirmação de Mandy de que os sintéticos não reagem ao corpo, da mesma forma que não concordo que os naturais reagem de qualquer forma. Não chegamos à conclusão nenhuma. Parece que o nível de reação de um perfume com a pele  – no sentido do aroma que evoluirá em contato com ela – depende muito mais da força e tenácia de um fragrante, independentemente dele ser sintético ou natural, que do fato dele ser sintético ou natural.

“Perfumes naturais se transformam  na pele, mudando em função do tempo e especialmente em resposta à química corporal”. (p. 49)

– Pois é, é com isso que não concordo, que seja exclusivo das essências naturais. Acho que ocorre também nos sintéticos e acho que não ocorre de forma acentuada nem com um nem com outro.

“Perfumes naturais não podem ser completamente reduzidos a uma fórmula, porque as essências básicas das quais são compostos contêm traços de outros elementos que não podem ser capturados em fórmula.” (p. 49-50)

– Com isso eu concordo 100% e ainda conto um “causo”. Quando eu estreava nesta coisa de criar perfumes para ambientes, deparei-me, claro, com a questão do preço: meus clientes adoravam os aromas que eu criava para seus ambientes, mas não podiam manter a compra ao longo do tempo. Então, na minha ingenuidade, encaminhei uma solicitação ao perfumista Jean-Luc Morineau, a quem eu tinha conhecido num curso, para saber se seria possível fazer o contra-tipo de minhas sinergias de óleos essenciais. Aí eu soube que não seria possível ou seria absurdamente caro. Não há como sintetizar todos os componentes-traços dos óleos essenciais.

“Somente a natureza pode criar o aroma do jasmim ao cair da noite.” (p. 55)

– É uma citação famosa de Mandy Aftel e soa como mantra aos perfumistas naturais. Daí nossa reverência à natureza.

“Gosto da descrição que um poeta indiano faz de uma rosa, como sendo ‘um livro de centenas de pétalas que se desdobram’.” (p. 105)

– Quem, por favor, souber que poeta indiano é esse, me conte.

“O indol não pode ser sintetizado com sucesso. Pode aproximar-se, mas a perda de suas sutilezas naturais extingue o efeito sinérgico que ele consegue alcançar.” (p. 106)

– O indol é um dos componentes mágicos do jasmim, da angélica e do néroli. Por que é mágico? Porque também está presente nas fezes humanas. Veja que mais Mandy fala sobre o indol. Foi apenas depois deste parágrafo que compreendi a natureza dessa molécula:

“Mas como elemento de uma essência natural entrelaçada a outras essências numa fragrância intricada, o indol se encontra na fronteira fina entre o provocante e o repulsivo, e compõe um erotismo genuíno.” (p. 107)

 

“Geralmente os derivados de substâncias exóticas – semente de ambreta, algália, absinto, champó, patchouli, gengibre, âmbar cinzento, conhaque, almíscar – recompensam a imaginação do perfumista como nenhum outro óleo.” (p. 152)

– Verdade verdadeira: é muito difícil um perfume natural render tudo que nossa imaginação imagina.

 

 

A arte da perfumaria natural

“Sendo um processo espiritual e estético, a arte da perfumaria é ao mesmo tempo sagrada e carnal, arcaica e moderna, tangível e intangível, profunda e superficial.” (p. 15)

– O que está ocorrendo no mundo em relação à perfumaria natural é o que ocorreu em relação à culinária: estamos descobrindo que podemos trazer alquimia para dentro de nossas vidas se cozinharmos nós mesmos as receitas mais incríveis e fizermos nós mesmos os perfumes mais surpreendentes. Daqui uns anos, será comum vermos cursos de perfumaria, como hoje é comum escolas de gastronomias voltadas àqueles que não querem trabalhar na área, mas apenas serem chefs pra si próprios e familiares. Todos temos sede de alquimia, porque:

“Estar imerso no mundo dos aromas, ainda que temporariamente, é mudar seu estado de consciência e despertar para um momento mais completo.” (p. 16)

– Está cético? Há várias pesquisas que mostram como determinados aromas modificam a frequência vibracional do cérebro, podendo produzir de ondas beta a alfa. Ah, por favor, é brincadeirinha que você esteja cético, não é?

“Assim como outros esforços criativos, ele é intensamente solitário.” (p. 50)

– Escrever, criar perfumes, ler – tudo que gosto é solitário. Afi.

“Em outras palavras, todas as buscas alquímicas significam uma tentativa de criar algo novo e lindo no mundo, através de um processo que não pode ser reduzido à química.” (p. 51)

– Gosto de pensar que criamos algo de lindo para o mundo. Mas o lindo não pode agredi-lo, e a perfumaria natural também tem seu quinhão de sustentabilidade a ser aprendido.

“As essências naturais são os átomos da perfumaria (…)” (p. 54)

– A palavra átomo evoca mais que simplesmente uma indústria: evoca uma física e até uma metafísica.

“Em alquimia, cada essência se divide em duas partes: seiva (ou suco) e mistério. A seiva é o aspecto físico, o material aromático por assim dizer. O mistério, a parte perfeita de cada substância ali contida, é formado por sua virtude, natureza e qualidade essencial.” (p. 55)

– Quão bonita não é a imagem de que cada gota de óleo essencial é feita de átomos e mistério? Se levarmos em conta sempre o mistério, religaremo-nos.

“E os perfumistas, que não só experimentam as essências, mas também as manipulam, participam de tradições ancestrais de filosofia, medicina e alquimia. Trabalhar com os produtos de algumas das mais evocativas criações da natureza – espíritos em todos os sentidos da palavra – é uma forma poderosa de transcender o ordinário.” (p. 56)

– É por uma visão como essa que Mandy Aftel é festejada no mundo todo. Houve um tempo em que cada faculdade ensinava o lado sacro daquela profissão, a que tradições ela se ligava. Hoje esse estudo é matéria optativa. Pena.

“O primeiro passo na fabricação de perfume é conhecer o repertório de essências.” (p. 54)

– Em outros termos, temos que montar uma biblioteca olfativa na nossa cabeça, citar os cheiros como como citaríamos obras de livros famosos numa prateleira.

“Um perfumista que não gosta de patchouli ou algália é como um pintor que não gosta de verde ou amarelo.” (p. 77-78)

– É o que sempre digo às minhas alunas: depois de um tempo, não existe cheiro ruim; tudo passa a ser, no mínimo, interessante. E sobre a algália, antes que acusem meu vegetarianismo de fajuto, eu digo: gostar é diferente de decidir usar. Consciência é a decisão que tomamos com relação àquilo de que gostamos.

“Como os processos criativos na arte e na alquimia, a composição do perfume depende, intimamente, tanto do talento e da intuição, quanto do conhecimento e da prática.” (p. 159)

– Por isso, estudamos para depois não estudar mais.

“Fazer perfume é experimentar, não analisar.” (p. 160)

– Como um escritor reescreve dezenas de vezes uma mesma frase, um perfumista cria dezenas de vezes o mesmo perfume.

 

 

Olfato

“Impressões olfativas são o meio-termo entre a imprecisão do tato e do paladar e a riqueza e variedade da visão e da audição.” (p. 22)

– Não sei se concordo muito com esta afirmação. O olfato é o sentido impreciso por excelência, mais que o paladar e certamente muito mais que o tato. Talvez o que ela queira dizer é que conseguimos descrever os aromas de forma um pouco mais precisa que texturas e gostos. Mas se ela está se referindo a isso, certamente reflete muito mais a experiência dela que das pessoas que não trabalham com cheiros.

“Tal precisão é, entretanto, um ideal, não uma realidade; nenhuma essência pode ser descrita tão claramente a ponto de permitir que o leitor identifique com certeza uma amostra de material sem rótulo.” (p. 65)

– Isso nos liberta daquela tensão de não conseguir descrever precisamente um odorante. Além do mais, existem pesquisas que mostram que a capacidade de sentir determinados odorantes é geneticamente determinada. Fique tranquilo se tudo que você consegue falar sobre o aroma da maçã é que se parece com o aroma de maçã. Um perfumista profissional acrescentaria talvez mais 5 ou 4 adjetivos somente.

“Até as plantas têm uma sexualidade baseada em fragrância.” (p. 167)

– Pode apostar!

“O odor de nossa espécie, no que ela tem de mais animal, está no centro do que é erótico.” (p. 169)

– Pode apostar de novo!

“Não há dúvidas de que aromas corporais tipicamente impronunciáveis são a pedra fundamental da excitação olfativa.” (p. 172)

– Não me pergunte quais são: estão todos elencados no livro. Vá lê-lo. Isto é um blog que eu escrevo com meus filhos de 8 e 6 anos de idade ao lado. ;P

“O erotismo, como o próprio perfume, é uma realidade construída. As mulheres não querem cheirar como flores; elas querem que seus perfumes irradiem uma aura sexualmente sedutora. Portanto, o perfume vedadeiramente afrodisíaco é aquele que deflagra a memória inconsciente de nossa natureza animal em toda a sua manifestação erótica.” (p. 174)

– Uau, nocaute! Como já disse em alguma outra resenha: não existe aquele troço de ir em sex shop e comprar um perfume infalível. O infalível varia para cada um. Aguente mais este golpe:

“(…) o poder do contexto, que é o afrodisíaco máximo.” (p. 175)

– Postei essa frase no meu facebook dedicando-a a aromaterapeuta baiana Telma Insuela que, numa palestra sobre óleos essenciais afrodisíacos, ainda acrescentou alegria e beijo na boca na lista dos super afrodisíacos. Muito bom!

 

 

História da perfumaria

“O uso estético da fragrância atingiu seu clímax durante o auge do Império Romano.” (p. 26)

“Mas o perfume assim como o conhecemos hoje não poderia ter tomado forma sem a alquimia (…)” (p. 27)

– Dois assuntos importantes nesse tópico: Roma e Alquimia. Roma, porque criou o comércio de fragrâncias, especiarias e plantas medicinais ao longo dos territórios que ia conquistando, e a Alquimia porque trouxe ao ocidente o conhecimento que os árabes desenvolveram sobre o uso de plantas.

“Basicamente, os alquimistas acreditavam que o trabalho deles era inspiração divina e só poderia se realizado com ajuda divina. Não era uma ‘profissão’ no sentido corriqueiro; era um chamado. Aqueles que recebiam o chamado compreenderiam as metáforas e as expressariam, por sua vez, em suas próprias ideias.” (p. 29)

– É nessa tradição de chamado que se coloca Mandy Aftel. Ah, tá bem: colocamo-nos. #prontofalei

“A filosofia da alquimia expressava a convicção de que o brilho da divindade – a quinta essentia – poderia ser descoberto na matéria.” (p. 29)

– Através do processo de destilação da matéria, chegava-se à quintessência. Vem daí o hábito de chamar os extratos de plantas oriundos da destilação por óleos essenciais.

“Somente os perfumistas herdaram os dois aspectos da tradição alquímica.” (p. 32)

– Que vem a ser o espiritual e o material, a fé a ciência. Da alquimia se derivou a química, mas ela é apenas ciência. Também se derivou a filosofia, mas ela não é ciência. A perfumaria é, a um só tempo, filosofia e ciência. Isso que Mandy quis dizer.

“A combinação de misturas para lenços aromatizados também era considerada uma arte refinada.” (p. 39)

– Conhecemos que a perfumaria tomou força, sobretudo na França, com a indústria de luvas: havia a necessidade de perfumá-la, para que o cheiro do couro desaparecesse.

“Mas foi somente na última década do século XIX e nas duas primeiras do século XX que a composição do perfume começou a adquirir atitude, criatividade e status de uma verdadeira forma de arte.” (p. 42)

– Uma das razões para o Chanel nº 5 ter feito tanto sucesso é por ter sido um dos primeiros perfumes que não quis imitar a natureza, mas recriá-la. O briefing era para que o perfume cheirasse a flor, mas a nenhuma em específico. A respeito disso, Mandy cita o historiador Joseph Stephan Jellinek:

“A harmonia sofisticada da criação artística havia substituído a harmonia simples da natureza.” (p. 42)

 

“Os óleos essenciais são a maior categoria de materiais odoríferos, e a mais largamente disponível, graças à enorme popularidade da aromaterapia.” (p. 60)

– É curioso como, nessa frase, Mandy inverte a ordem cronológica dos fatos: primeiro houve a perfumaria, depois houve a aromaterapia, embora a perfumaria seja uma evolução do conhecimento ancestral dos efeitos de plantas medicinais e a aromaterapia tenha se desenvolvido graças aos avanços que a perfumaria fez nas técnicas de extração de aromas. As histórias da perfumaria e da aromaterapia se confundem mesmo. Mas, voltando ao curioso, Mandy abre a possibilidade para que, não fosse a popularidade da aromaterapia, perfumistas artesanais continuariam a usar fragrantes extraídos com solventes ou por expressão, em vez da quantidade que usam daqueles extraídos por destilação tradicional.

 

 

Construindo o perfume

“Trabalhar com elas provoca a sensação de contatar o desconhecido, como um mergulho nas profundezas. Muitas delas não podem ser misturadas em sua forma não adulterada; primeiramente elas devem ser iluminadas, e tornadas fluidas através de aquecimento.” (p. 79)

– Mandy fala das notas básicas e é lindo como fala. As notas básicas são o Id da perfumaria, na minha opinião. As notas de topo eu considero que são o Superego, e as médias, o Ego.

“Fixação é um dos grandes desafios que o perfumista natural tem de encarar.” (p. 80)

“O fixador ideal é aquele que prolonga os diversos níveis de evaporação dos constituintes do perfume.” (p. 80)

– Para deixar claro: não existe fixador sem cheiro, ou seja, não existe uma substância sem cheiro que funcione como uma nanopartícula que engloba todas as notas de um perfume e as libera gradativamente como se fossem princípios ativos em cosméticos que agem à noite. Não existe. O que existe são odorantes de baixa volatilidade. É assim na indústria de sintéticos, é assim na perfumaria natural. A questão é que, com sintéticos, mesmo as notas de topo e médias evaporam menos rápido, por isso o perfume, como um todo, dura mais; e há notas de base manufaturadas que emprestam cheiros que absolutamente não existem como matéria-prima natural. Por isso que a fixação, em perfumaria natural, é um desafio: porque há poucas notas básicas naturais.

“Um perfume que desaparece rápido demais é um perfume mal-elaborado: precisa não de fixação, mas de reestruturação.” (p. 83)

– Essa deve ser, com alta probabilidade, uma das melhores frases do livro. Perceba que até mesmo uma Eau de Cologne tem fixação e a fórmula básica existe há séculos e nunca precisou ser reestruturada.

“Criar a fixação de um perfume tem certa mágica inerente a ele, exigindo a orquestração de forças invisíveis. Há um paradoxo em se fixar algo que é, no íntimo, a essência da mudança.” (p. 83)

– Gosto demais dessas reflexões que Mandy faz sobre seu ofício. Mais uma reflexão belamente escrita:

“(…) elas [as notas de coração] são tranquilamente integradas na fragrância que evolui, expandindo-a não através da imposição de sua vontade, mas permitindo que sua personalidade seja subordinada a um todo maior.” (p. 109)

– Perfumaria, assim, é poesia. O resto é tubo de ensaio.

“Sendo o mais altamente volátil ingrediente de perfumes, as notas fortes [de topo] são o menos material, transitando entre o mundo físico e metafísico.” (p. 125)

“Elas [as notas fortes] controlam o misterioso processo de difusão – a disseminação de moléculas até que a fragrância seja igualmente distribuída dentro do espaço disponível. Um perfume difuso é o que rapidamente se torna aparente no ar.” (p. 125)

– Mandy prefere chamar as notas de topo, de saída, como notas fortes. Isso pode nos trazer alguma confusão porque, via de regra, são as notas de base que nos parecem mais fortes, no sentido de mais tenazes.

“Mas, ao passo que a nota forte marca o final da jornada que é produzir um perfume, também anuncia o começo da jornada que é cheirá-lo.” (p. 126)

– Uma coisa idiota que eu fazia antes de estudar perfumaria é começar a montar o perfume pelas notas de topo e só por último chegar às de base. É justamente o contrário. Não sei por que a gente não pensa e faz associações: passei anos dizendo aos meus alunos de yoga que uma postura deve ser construída como uma casa, de baixo para cima, dos pés para cima. Por que não atinei que em perfumaria é o mesmo? É muita distração, tá louco!

“As fugitivas e evanescentes notas fortes são as últimas a serem adicionadas à mistura. Como convidados atrasados, precisam se adequar aos elementos já escolhidos para evitar conflitos. Por temperamento, isso é fácil para a maioria delas, exceto para as com odor muito intenso.” (p. 134)

– Essas que chegam por último e querem sentar na primeira fila são: o petitgrain, a pimenta-do-reino. É muito engraçado pensar nas notas altas como convidados atrasados.

“Se as notas de coração são o namoro e as notas básicas são um casamento longo, as notas fortes são um caso por uma só noite.” (p. 135)

– Acho essa definição ótima!

“Não há nada mais simples e misterioso do que a visão de uma gota de camomila azul-índigo seguindo seu caminho através de um béquer de álcool cristalino de perfume, como um escritor de céus num universo paralelo.” (p. 142)

– Depois dessa frase, Mandy não precisava ter escrito mais nada. É lirismo puro. Amém.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

AFTEL, Mandy. Essências e alquimia: um livro sobre perfumes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

 

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