Em 2019, ministrei uma palestra em Florianópolis em que postulei que a psicoaromaterapia envolve uma narrativa, uma narrativa suficiente pra agregar significado aos OEs inalados.

Esse assunto vem ocupando minhas reflexões desde então.
Quando a gente olha pro sofrimento psíquico, percebemos dois caminhos terapêuticos:
- o da substâncias, cujo exemplo mais lustroso é o da psicofarmacoterapia, que são os medicamentos usados na psiquiatria. Mas, na história, é possível enxergar que esse caminho já foi trilhado com o uso de ervas de poder e entorpecenes naturais, ritualísticos, em diversas práticas religiosas;
- o da fala, cujo representante é a psicologia com suas diversas técnicas psicoterapêuticas, mas cujo lugar já foi e ainda pode ser ocupado, muitas vezes, pela filosofia e pelo discurso religioso.
A cura pela fala é a cura do simbólico.
Um psiquiatra de quem gosto muito, Daniel Martins de Barros, escreveu um livro bem legal, que já resenhei no meu blog As Melhores Partes dos Livros que li, chamado Sofrimento Não é Doença. Tem um trecho que, quando li, fez muito sentido pra mim, pra como eu penso na psicoaromaterapia operando tanto na chave da cura pela fala, quanto pela substância. Leia a citação:
“Benzedeiras, curandeiros, líderes religiosos, médiuns, tarólogos e terapeutas de práticas integrativas são exemplos de agentes de cura que, embora exerçam ofícios não baseados em ciência, podem ajudar de uma forma bastante específica, já que as curas populares começam a fazer efeito antes mesmo de qualquer intervenção concreta. Pelo simples fato de criarem uma narrativa para o sofrimento, darem um nome ao problema e sugerirem a possibilidade de existir algum controle sobre ele, elas já trazem algum alívio.” (BARROS, 2025, p. 31)*
Agora, imagine que você está inalado um OE qualquer: um ylang-ylang, cujo simbolismo na tradição aromaterapêutica é a intimidade, o amor sensual, a tranquilidade dos corpos, o prazer. Daí você está ansioso, tenso. No nível da substância, os ésteres, álcoois e sesquiteroenos do ylang agirão como calmantes, mas a calma não responderá àquilo que o angustia: por que eu sofro?
Mas a informação olfativa do ylang, se apoiada na intervenção do aromaterapeuta, pode oferecer símbolos que conversarão com o tema do sofrimento seu. Assim, pouco a pouco, ancorando olfativamente a informação recebida, você poderá aprender um novo jeito de estar e ser diante do sofrimento. Isso traz muito alívio.
A psicoaromaterapia sem o aromaterapeuta fazendo essa intermediação entre a experiência olfativa e o simbólico da planta é apenas farmacoterapia inalatória. E, eu diria, até que pobre.
As pessoas talvez não desconfiem, mas o que está funcionando na psicoaromaterapia é quando a prática opera nas duas chaves, via aromaterapeuta: na da substância e na da fala, na do material e na do simbólico.
Ensaios clínicos para avaliar a ação psicofarmcológica dos OEs inalados podem atestar se são bons ou falhos na saúde mental. Contudo, apenas o relacionamento entre aromaterapeuta, planta e interagente avaliará se são bons também pra alma de quem sofre.
É sobre isso o meu novo vídeo no You Tube. Basta dar o play.
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Beijo de cheiro, Mayra.
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* BARROS, Daniel Martins de. Sofrimento não é doença: nem todas as dores precisam de remédio, mas todas merecem cuidado. Rio de Janeiro: Sextante, 2025. 176 p.


