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A mãe que emprestava sonhos.

Postado às 13:01 do dia 01/06/12

Conto escrito por Mayra Corrêa e Castro

 

O filho vinha acordando com pesadelos. A mãe acudia:

– Foi pesadelo. Dorme.

O menino passou a acordar todas as noites. Ela teve uma ideia: ensiná-lo como não ter pesadelo.

– Junte os dedos assim. – O filho imitava. – Agora repita: “Não vou ter pesadelo”.

Da primeira vez, deu certo. O filho dormiu a noite toda. Deu certo na segunda vez, até que ele falou:

– Mãe, não tá dando certo. Continuo sonhando com lobisomem.

A mãe concluiu que tinha errado a técnica. Corrigindo, garantiu:

– Agora vai funcionar! – Juntou ela mesma os dedos polegar, indicador e médio, colocou a ponta dos três no centro da testa e disse: – Mamãe vai passar bons sonhos para o Luca. – Era Luca o nome de seu rebento. Encostando os dedos no centro na testa do filho, finalizou: – Tic, tic, tic.

O filho dormiu tranquilo. O mesmo aconteceu por noites seguidas. Aquilo tinha virado um hábito. Se a mãe esquecesse o “tic, tic”, o filho levantava vindo cobrá-la.

Certo dia, levando a ponta dos seus dedos à testa do filho, ele fez a pergunta:

– Mãe, você tá com este machucado na testa de tanto dar sonhos pra mim?

A mãe riu. Pareceu que seu filho a amava muito por se sentir tão preocupado.

– Não, Luca, este machucado foi mamãe que cutucou. – E foi se deitar rindo da imaginação das crianças.

Naquela noite, fazia muito calor. Ela dormiu mal, realmente mal. E teve pesadelos.

Na noite seguinte, o filho notou que o machucado da mãe ainda estava lá:

– Não sarou?

– Não, filho. Às vezes demora. – Nesta noite, ela teve novos pesadelos.

Ao cabo de um mês, como o filho a lembrasse do machucado que não sarava, ela ficou preocupada. Não dormia mais direito e o machucado tinha um aspecto grotesco. Para disfarçá-lo, havia deixado a franja crescer.

Luca percebia que sua mãe estava triste e quando vinha lhe dar boa noite, ela sempre brigava: – Preciso dormir!

O filho dirigia um olhar temeroso para a testa da mãe. Então resolveu: com toda a braveza de um menino que agora estava no 1º ano do ensino fundamental, disse à mãe:

– Hoje não precisa fazer “tic, tic”. – A mãe olhou desconfiada.

– Tem certeza? Depois não vai me acordar? – O moleque fez que sim.

Tereza dormiu; dormiu longas horas. Até sonhou que dormia.

O dia raiou. Tereza levantou da cama sentindo-se muito bem. Viu o filho:

– Bom dia! Dormiu bem?

– Não, mãe. Tive pesadelo. – Aflita, tomou Luca no colo.

– É por que não fiz o “tic, tic”? – Tereza estava cheia de culpa. Soltando-se dos braços da mãe, Luca respondeu:

– Eu que quis, mãe. Matei o lobisomem.

Indo se arrumar, Tereza tomou a escova para alisar a franja. Era uma hora difícil, pois mesmo um leve toque na ferida doía. Mas ela tinha feito a escova sem dor alguma. Por um breve momento, Tereza pensou se seria possível que…

Na escola, Luca preparava um cartão para o Dia das Mães. Ele tinha desenhado sua mãe e foi mostrar à professora.

– Luca – inquiriu a professora -, você desenhou sua mãe sem cabelo? – Ele levantou as sobrancelhas:

– Não é cabelo. É franja. Ela não tem mais franja.

 

Este conto foi enviado para o 4º Concurso de Contos das Livrarias Curitiba, edição 2012. Teve a limitação de 3 mil caracteres. Não foi selecionado.

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