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Viagem ao mundo do chá – Ina Gracindo

Postado às 14:00 do dia 20/09/13

Grata surpresa abrir o livro e descobrir que a autora, que traz receitas tradicionais de petiscos para se comer com chá, é vegetariana. Chef formada pelo Cordon Vert School, é autora de mais dois livros de gastronomia: Rota do Oriente (2012), em que fala sobre a comida numa viagem que fez a Israel, e Da Colheita para a Mesa (2011), em que traz receitas vegetarianas com ingredientes que variam de acordo com as estações.

Viagem ao Mundo do Chá é, sobretudo, um livro simpático, embora seja mal editado. Partindo de uma viagem que fez a Londres e a algumas cidades chinesas, Ina descreve a história do chá em vários lugares do mundo, os tipos de beneficiamento que as folhas e brotos recebem, e a maneira como o chá é tomado nas tradições chinesa, japonesa e inglesa. Mas o livro vai e volta, mistura diário de viagem com informações técnicas e poderia ser mais bem organizado.

De qualquer forma, é um livro bacaninha pros chazeiros convictos. Pra mim, que sou vegetariana, dar de cara com receitinhas sem carne foi muito legal, pois todo santo livro de culinária tem lá seus quilos de tripas e sangue.

Abaixo catei umas curiosidades sobre o chá. Ah, sim, talvez você não seja iniciado, então convém esclarecer: chama-se chá apenas a infusão em água das folhas de Camellia sinensis ou de Camellia assamica, os famosos chás verde, preto (vermelho), amarelo, branco e azul-esverdeado. Chá de hortelã, boldo, carqueja, camomila, espinheira-santa, anis, jasmim, maçã com canela, funcho, melissa, capim-limão e até o nosso mate são mais propriamente chamados de infusões ou tisanas.

Dito isso, vamos aos melhores trechos.

 

 

O zen do chá

“Quando o chá representa mais do que uma bebida e a cerimônia é absorvida e praticada de forma a promover a harmonia entre a humanidade e a natureza, a disciplina da mente e a quietude do coração, a arte do chá torna-se chaísmo.” (p. 28)

– Comparativamente, nunca ouvi falar de vinhoísmo, embora todos conheçamos o alcoolismo.

“Quando jovem, o estudante Seno Rikyu partiu em busca do mestre Takeno Joo para aprender a arte do chadô. Takeno Joo pediu a Seno Rikuy que primeiramente varresse o jardim para depois conversarem sobre seu desejo de iniciação. Seno Rikyu varreu o jardim até que o lugar lhe pareceu perfeitamente limpo e, ao terminar, lançou-lhe um olhar demorado. O jardim tinha ficado imaculado, limpo e simetricamente arrumado. Seno Rikuy balançou uma cerejeira em floração e flores e folhas caíram cobrindo o chão, e, assim, foi aceito como discípulo de Takeno Joo e, desde então, é reverenciado como aquele que entendeu a essência do wabi-sabi, a  arte da imperfeição.” (p. 74)

– Três coisas: 1) o nome certo do cara é Rikyu: o livro traz trocado duas vezes o “y” e o “u” neste parágrafo; 2) chadô é o caminho do chá. Dá pra ler mais sobre isso na Wikipedia; e 3) detesto charadinhas de mestres. Desconfio que, na maior parte do tempo, nem eles sabem o que deveriam estar ensinando. No yoga, essas charadinhas ridículas têm o nome pomposo de Shiva Leela, brincadeiras de Shiva. Tá, beleza, mas o brinquedo em questão c´est moi?! Tô foríssima!

“Na Coreia, os principais focos da cerimônia são relaxamento e naturalidade. Durante seu preparo, as tigelas são aquecidas para receber o chá-verde, que é derramado a certa altura, criando bolhas na superfície. Diz-se que, quanto mais bolhas surgem, maior a sorte de quem bebê-lo.” (p. 136)

– Aí, pra não depender da sorte, chega o brasileiro e inventa o mate batido no liquidificador, transbordando de espuma.

“As primeiras xícaras a chegarem a Londres foram importadas da China por volta de 1700, eram sem asas e desacompanhadas de pires, como se usava na Ásia. Alça e pires só apareceram na Inglaterra em 1750, as asas foram concebidas por Robert Adams, e as xícaras, fabricadas por Josiah Wedgwood. Depois de anos de mãos e dedos queimados, os britânicos agradeceram o invento que foi sendo aprimorado ao longo do tempo.” (p. 178)

– Nota bene: só queimavam os dedinhos porque não faziam nada com eles, como cozinhar, carpir, lavar, colher. Aristocracia não tem calos na mão, gentem.

 

 

Cafeína

“Outra versão atribui a descoberta do chá ao monge Bodidharma, que empreendeu uma viagem da Índia até a China para levar seus ensinamentos do zen-budismo aos chineses. À sua espera em Cantão (Guangzhou), o imperador Liang Wu Ti lhe ofereceu refúgio em uma caverna de meditação próxima à capital do império, e ali Bodidharma fez votos de meditar ininterruptamente por nove anos. Mas, passados alguns, ele adormeceu durante uma meditação e, para evitar dormir outra vez durante suas práticas, cortou as próprias pálpebras, que ao caírem no solo fizeram brotar a primeira moita de Camellia sinensis, cujas folhas têm o formato de olhos oblíquos como os olhos chineses.” (p. 51)

– Que história mais fofa. Falando em “olhos oblíquos”, pensei: vai ver que o café, muito mais matreiro que o chá, floresceu no Brasil graças às lágrimas vertidas por Capitu, que tinha olhos de ressaca. 😉

 

 

Chazinho lôco de caro

“Uma árvore típica produz em torno de 3 mil folhas anualmente, o que significa aproximadamente 500 gramas de chá comercializado em sua forma original, na forma de blends ou acrescidos de flavorizantes.” (p. 83)

– O drama no preço do chá de qualidade é que, além da colheita ser manual ou apenas parcialmente mecanizada, só se usam os brotos acrescidos de 2 folhazinhas. Todo o resto fica na árvore. Taí um troço tão caro quanto óleo essencial destilado de plantas.

“Uma curiosidade ligada ao comércio entre a Holanda e a China é que, no início, os holandeses trocavam chá por folhas de louro cultivadas em território holandês que eram usadas pelos chineses como infusão. Cada 1,5 quilo de chá era trocado por 500 gramas de louro, mas a demanda foi tal que terminou por exaurir as plantações de louro holandesas, ao mesmo tempo em que os chineses perderam o interesse pela bebida sem jamais saber que uma das propriedades da folha é de estimular o crescimento capilar.” (p. 145-146)

– Não é de hoje que chineses vendem barato e são um grande mercado consumidor capaz de esgotar as reservas do planeta.

“Entre os relatos de Mme. de Sévigné consta que foi uma mulher francesa, a marquesa de Sablière, quem passou a usar leite para preservar suas xícaras das manchas deixadas pelo chá. Um toque logo adotado pelos ingleses que, na época de Luís XVI, encantados, seguiam à risca os modismos franceses.” (p. 147)

– O chá é caro, mas a minha porcelana francesa! Céus!

“Produtos altamente tóxicos como carbonato de cobre e o cromato de chumbo eram usados para dar cor a chá-verde já desbotado pelo uso, e faziam passar despercebido o esterco de cabra acrescido à mistura e considerado ingrediente inofensivo.” (p. 163)

– Pense bem: produto caro tem que ser caro. Nunca compre produto caro por uma pechincha, sob risco de comer esterco de cabra.

“A porcelana completava mais de mil anos na China quando aportou na costa inglesa e causou sensação.” (p. 175)

– O povo fica atônito com o poder da China atual, mas, people, a China sempre esteve à frente.

 

 

Recitações a respeito do chá

– Ina colecionou, para cada capítulo, citações adoráveis sobre o chá. Estou re-citando minhas favoritas abaixo:

‘Le premier verre est aussi doux que la vie,/ le deuxième est aussi fort que l´amour,/ le troisième est aussi amer que la mort.’ – Provérbio Argelino

‘O primeiro copo é tão doce como a vida,/  o segundo é tão forte quanto o amor,/ o terceiro é tão amargo como a morte.’” (p. 139)

“ ‘Çaysiz sohbet, aysiz gok yuzu gibidir.’ – Provérbio turco.

‘Conversas sem chá são como noite sem lua.’” (p. 141)

 

 

Chá no Brasil

“No Rio de Janeiro, existiam 42 lojas e armazéns dedicados à venda de chá, além das confeitarias que serviam o chá da tarde, as concorridas Lalet e a Cavé. ‘Quem vem de lá lê; quem vem de cá vê’ era um versinho da época indicando a proximidade das duas casas de chá no elegante centro do Rio de Janeiro.” (p. 151)

– O versinho até dá marcha de carnaval, dá não?

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

GRACINDO, Ina. Viagem ao mundo do chá. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013, 1ª edição.

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