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Suave é a noite – F. Scott Fitzgerald

Postado às 17:53 do dia 06/07/14

Tem livros que amamos simplesmente porque seus títulos soam bem: “Suave é a noite” [“Tender is the night”] é simplesmente perfeito, não é? Lançado em capítulos em 1934, foi o último romance de Fitzgerald (1896-1940) antes de sua morte precoce devido a consequências do alcoolismo. É um livro com vários lances autobiográficos, que também foram usados por sua esposa, Zelda Sayre (1900-1948), para escrever Esta valsa é minha, relançado neste ano pela Cia. das Letras.
A história foi transformada em filme em 1962 e ganhou Oscar de melhor canção. Por isso, o enredo é mais que conhecido: um talentoso psiquiatra casa com sua paciente trilhardária e vê seu gênio afundar em festas, drinques, viagens pela Europa e traiçõezinhas mil. Incapaz de se corromper totalmente pelo dinheiro dela, ele se transforma na sombra do que poderia ter sido, e acaba encarnando a dualidade de uma época – e de uma América – que não sabia ainda se seria tutora ou dominatrix do mundo.
É um livro sombrio, mas tampouco li algo, em Fitzgerald, que não o seja. Adiante de toda purpurina, sempre encontramos a ressaca do dia seguinte. A mágica é que não existe comiseração, tampouco heróis. Existe apenas a consciência de que o destino brilha para uns, e por isso, não é capaz de brilhar para todos.
Abaixo alguns trechos exemplares. Espero que goste.

Beleza, saúde e juventude

“Mas o olhar de qualquer pessoa se voltaria imediatamente para a filha, que tinha mãos encantadoras e faces lindamente rosadas, com o excitante colorido das crianças, após o banho frio da tarde.” (p. 8)

– Na década de 1920, mais que em qualquer outra até então, a ciência fazia descobertas incríveis em medicina preventiva e as pessoas começaram a se preocupar em praticar exercícios, tomar sol e tomar banho. Foi quando iniciou uma ode à juventude, sobretudo porque, dos que restaram dela após o término da Primeira Guerra, havia que se festejá-los.

“A mulher que a reconhecera não era judia, apesar do nome. Era uma dessas idosas ‘camaradonas’, preservadas para a geração seguinte, graças a uma boa digestão e imunidade aos aborrecimentos.” (p. 11)

– Ah como eu queria imunidade aos aborrecimentos.

“De novo Brady a olhou de cima a baixo e, nesse momento, qualquer coisa em Rosemary se sentiu atraída por ele. Não era ‘gostar’, nada tinha de parecido com a espontânea admiração que sentira pelo homem da praia, naquela manhã. Foi como um estalido. Ele a desejava e, até o ponto em que suas emoções de virgem lhe permitiam, ela pensou com equanimidade na rendição.” (p. 28)

– “Emoções de virgem” é muito bom, embora torne Rosemary um tanto quanto patética.

“Era divertido gastar, naquele dia ensolarado, em cidade estrangeira, com corpos sadios que faziam o sangue lhes subir ao rosto, com braços sãos, pernas e tornozelos que elas estiravam com ar confiante, movimentando-se com a segurança de mulheres que se sabem admiradas pelos homens.” (p. 100)

– Gastar sempre é divertido. Em qualquer idade é divertido.

“A verdade é que, havia muitos meses, Dick se via naquele dilema dos moços, quando se deve decidir se vale ou não a pena morrer pelas coisas em que não mais acreditamos.” (p. 135)

– Volte uma resenha atrás, a de Paris não tem fim, e descubra como um jovem escritor, cujo ídolo era Hemingway, deixou a ardente poesia da juventude pela desilusão madura da prosa. Você vai entender um pouco mais sobre o caráter de Dick.

“Os cabelos de Nicole, penteados para trás das orelhas, tocavam-lhe os ombros de tal maneira que o rosto parecia apenas ter emergido dali, como se naquele momento exato ela tivesse saído de um bosque para um lugar enluarado. O desconhecido entregava-a ao mundo; Dick desejou que ela não tivesse nada atrás de si, não tivesse passado, que fosse apenas uma menina perdida, sem endereço, a não ser a noite de onde viera.” (p. 138)

– Ter como endereço o luar da noite…

“A moça de dezoito pode olhar para o homem de trinta e quatro através da névoa da adolescência; a moça de vinte e dois veria trinta e oito anos com grande clareza.” (p. 211)

– A frase não poderia ter sido melhor escrita. Mas, hoje, talvez tenhamos que empurrar as idades de ambos mais pra cima, porque todos amadurecem tão lentamente. A adolescência se prolonga até os vinte e dois.

“Os Divers eram mais velhos do que as outras pessoas do barco.” (p. 285)

– Você, que me lê e tem 20 anos; sei que é clichê, mas escute: quando eu tinha 20, também me disseram que um dia eu teria 40. Não acreditava.

“As mulheres atraentes de dezenove ou de vinte anos e nove anos são iguais, em matéria de confiança em si. Por outro lado, a exigente casa do vinte anos não faz o mundo girar à sua volta. A moça de dezenove anos prtence à idade da insolência e é comparável a um jovem cadete; a de vinte e nove assemelha-se a um lutador, ufano após o combate.
“Mas, se a moça de dezenove adquire a confiança em si pelo fato de lhe darem muita atenção, a mulher de vinte e nove alimenta-se de coisas mais sutis. Quando sente desejo, escolhe bem seus aperitivos; ou então, quando satisfeita, aprecia o caviar de uma força potencial. Felizmente, nenhuma delas prevê os anos seguintes, quando sua visão será muitas vezes obliterada pelo pânico, pelo medo de parar ou o medo de continuar. Mas, nas idades de dezenove ou de vinte e nove elas têm certeza de seu poder, não pensam em perigo.” (p.293-294)

– Uma questão para entender essa psicologia das idades femininas é que, à epoca e Fitzgerald, mulheres de 29 já tinham filhos com 10 anos de idade. Ou seja, já tinham passado pelo sufoco da maternidade e chegavam, senhoras de si, à maturidade que hoje só alcançamos aos 39.

Pracinhas vão à Rue Cambon comprar Chanel n.5

“Depois do almoço, sentiram-se deprimidas pela súbita sensação de monotonia que se abate sobre viajantes americanos, em calmos lugares estrangeiros. Nada há a estimulá-los, nenhuma voz os chama, nenhum fragmento de sua próprias ideias parte de repente de outra pessoa, e, sentindo falta do clamor do Empire, eles sentem que a vida não está ali continuando.” (p. 17)

– De duas uma: ou brasileiros aprenderam bem rápido com norte-americanos, ou sempre fomos aparentados, porque também desconheço colegas, quando em lugares que oferecem apenas contemplação, não fiquem entediados querendo um bar, música e cerveja. Mas, agora falando sobre a Geração Perdida e sobre os militares que chegram à Europa durante a Primeira Guerra, recomendo excelentes livros, alguns devidamente resenhados por aqui. Anote: O segredo do Chanel n.5, de Tillar J. Mazzeo, que vai mostrar como os dólares de final de guerra contribuíram pra fama ultramarina do perfume; Paris França, de Gertrude Stein, bem fininho, em que ela tece considerações bem humoradas, e também emocionadas, sobre a diferença entre estadunidenses e parisienses; Shakespeare and Company, de Sylvia Beach, em que ela conta como corrigiu as provas de Ulysses (Joyce) e o que foi manter a livraria na Paris do entre guerras. Finalmente, Paris é uma festa, de Hemingway, uma fofoca atrás da outra; e Casados com Paris, de Paula McLain, que dá a versão feminina dos porres de Hemingway e Cia.

“ – Que diferença poderia fazer o fato de eu ter tomado um ou dois copos?
“À medida que crescia a confiança em si, McKisco olhava para Abe com ressentimento.
“ – Que diferença poderia fazer? – repetiu.
“ – Se você não consegue ver, não adianta discutirmos.
“ – Não sabe que todo mundo passou a guerra toda embriagado?” (p. 54)

– Ops.

Enfim! The roaring 20’s

“ – Quero dar uma festa realmente . Estou falabdo sério. Uma reunião onde haja briga e sedução e pessoas sendo ofendidas e mulheres que desmaiam no banheiro. Espere e verá.” (p. 31)

– Quarenta anos depois, isso virou uma festa boa.

“Há algo de assustador numa pessoa que se libertou de todas as inibições, que é capaz de fazer qualquer coisa. Claro que mais tarde a fazemos pagar por seu momento de superioridade, seu dom de impressionar.” (p. 110)

– Sim, por isso que aos anos 20 se seguiu a Segunda Guerra; aos anos 70 se seguiu a Guerra Fria. Não suportamos por muito tempo a liberdade.

“Isto se daria a qualquer hora do dia, passeando pelo quarto com um tapete sobre os ombros, com a quietude do estudioso, que é o que mais se aproxima da paz celestial.” (p. 118)

– Também acho que as horas de estudo são o que mais se aproximam da paz celestial.

“Para Dick, os limites do ascetismo estavam marcados diferentemente – podia vê-los como meio para se conseguir um fim, até mesmo como conduzindo a uma glória que o próprio ascetismo daria; mas era duro ver uma pessoa resumir a vida a escala tão modesta.” (p. 135)

– Sim, todas as questões se resumem ao quanto de ambição que um indivíduo e uma época têm. Épocas pouco ambiciosas são as mais calmas.

“Outro elemento que marcou aquele verão para os Divers foi a fartura de dinheiro. Graças à venda de sua parte, na clínica, e a certos investimentos na América, havia tanto, agora, que só o trabalho de gastá-lo e de tomar conta dos bens já tomava tempo. O estilo em que viajavam era fabuloso” (p 259)

– Ai que delícia!

À la garçonne

“Fique você ferida (ou ele), o que acontecer não poderá prejudicá-la, minha filha, porque financeiramente você é um rapaz, não uma moça.” (p. 44)

– Querer imitar a independência masculina cortando o cabelo à la garçonne, tirando os espartilhos, encurtando a barra da saia, vestindo calças de montaria no campo nunca foi realmente suficiente. Ganhar o próprio dinheiro, isso sim, é suficiente.

“As três mulheres à mesa eram representantes do enorme fluxo de vida americana. […] A semelhança entre as três e a diferença entre elas e tantas outras americanas estavam no fato de se sentirem todas felizes num mundo de homens – conservavam sua individualidade através dos homens, e não fazendo-lhes oposição..” (p. 57)

– Não tenho certeza se houve um momento em que foi feita a oposição, talvez nos anos 1960-70, mas acho que não. Por mais combativo que tenha sido o feminismo, nunca foi nós contra eles, mas nós apesar, contudo, todavia, entretanto, para, per, perante, por, sem, sobre, sob, trás eles.

“Pôs o primeiro vestido esporte até os tornozelos que ela possuíra nos últimos anos e reverentemente fez o sinal da cruz com Chanel Dezesseis.” (p. 293)

– Não me recordo de haver um Chanel número 16.Há o famoso 5, um 18, 19 e um 22, mas não há um 16.

Honey sugar baby

“De novo disseram o nome um do outro, depois se agarraram, como se o balanço do carro os tivesse reunido. Os seios de Rosemary esmagaram-se no peito de Dick, sua boca tinha agora um novo calor, pertecendo a ambos. Com uma espécie de doloroso alívio, deixaram de pensar; deixaram de ver; apenas respiravam e se buscavam.” (p. 78)

– “Se buscavam” é muito erótico, não é? Adorei.

“Esta faceta de Dick, que parecia combinar com seu tipo irlandês, era a que Nicole menos conhecia. A moça temia-a, mas desejava explorá-la, era a parte mais masculina de Dick. Quanto à outra – a parte disciplinada, a expressão de deferência no olhar – não interessava a Nicole, como em geral não interessava à maioria das mulheres.” (p. 144)

– Depois de uns bons anos de convivência, a parte disciplinada se torna fundamental.

“ – Gosto de tudo, a seu respeito. – Hesitou, depois continuou: – Pensei que conhecesse seu rosto, mas vejo que há coisas em que eu não havia reparado. Quando foi que começou a ter olhos brancos de trapaceiro?” (p.294-295)

– Gentem! Então depois de olhos de cigana dissimulada temos os olhos branos de trapaceiro? Hahaha.

Modéstia

“À semelhança de muitos homens, ele descobrira que tinha apenas uma ou duas ideias e que sua pequena coleção de panfletos agora na quinquagésima edição alemã, continha o germe de tudo o que ele jamais viria a pensar ou saber.” (p.167)

– É uma m… esta sina de escritor de um livro só.

Eles lá

“A Inglaterra era como um homem rico que, após uma orgia desastrosa, procurasse dar compensação às pessoas de casa, conversando com cada uma em particular, podendo todos ver claramente que o homem estava apenas tentanto reaver o respeito próprio, a fim de recuperar o antigo prestígio.” (p. 198)

– Ah, então é assim que eles fazem?

“ – A questão é que não gosto de nada, aqui [Roma]. Gosto da França, onde todo mundo se julga um Napoleão; aqui todos se julgam um Cristo.” (p. 224)

– Sim, concordo, muito mais divertido.

“ – Mas o sentido é diferente. Em francês, uma pessoa pode ser heroica e valente com digndade, e você sabe disto. Mas, em inglês, não se pode ser heroico e valente sem se parecer um pouco absurdo, e você também sabe disto.” (p. 272)

– Do mesmo modo que dizem não ser possível filosofar em outra língua que não alemão, ou cantar rock em inglês e samba em português.

revisto por Mayra Corrêa e Castro © 2014

FITZGERALD, F. Scott. Suave é a noite. Tradução Lígia Junqueira. Rio de Janeiro: Record, Altaya, 1996. (Coleção Mestres da Literatura Contemporânea; 60)

Outros livros da Geração Perdida resenhados:
O grande Gatsby – Fitzgerald (clique aqui)
O velho e o mar – Hemingway (clique aqui)
Paris França – Gertrude Stein (clique aqui)

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