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Sorria para o medo – Chögyam Trungpa

Postado às 19:56 do dia 04/10/13

Breve nota: Chögyam Trungpa (1940-1987) nasceu no Tibete e já foi reconhecido como uma grande mestre reencarnado. Em 1959, para fugir da perseguição dos comunistas chineses, atravessou os Himalaias a pé e chegou à Índia, onde ficou durante anos. De lá foi pra Inglaterra, onde ensinou meditação e, quando se casou, foi para os Estados Unidos e aí permaneceu. Ele foi um dos primeiros mestres tibetanos a ensinar o budismo em inglês, fundou inúmeros centros, teve centenas de discípulos – entre eles, a famosa Pema Chödrön, autora de Quando Tudo se Desfaz  – e criou o programa Shambhala de meditação. Não foi pouco, ainda mais para uma curta vida.

Neste livro, organizado por Carolyn Rose Gimian, Chögyam usa a metáfora do guerreiro para mostrar como devemos enfrentar com coragem o medo. Contém alguns exemplos pessoais – que sempre ficam parecendo excessivamente cabotinos fora do círculo de admiração de um mestre – , e inúmeras historinhas edificantes. No final, a mensagem é pra que você medite. O medo sempre estará lá. A coragem pode ser adquirida – mas apenas se houver meditação.

Prefiro o livro de Pema: é mais carinhoso, mais real, mais próximo. Mas não sou discípula de Chögyam, então posso estar equivocada. Cabe a você decidir. Trouxe amostras que talvez o ajudem.

 

 

Crê em teu Mestre

“Começamos a perceber que o mestre não é apenas um posto de informação ou uma enciclopédia espiritual. O mestre genuíno desenvolveu certo tipo de poder, que expressa sua conexão com o mundo fenomênico. Não estamos falando de poderes mágicos. Ao contrário, estamos falando da força que surge quando nos conectamos à realidade, que é algo mito mais poderoso do que a fantasia.” (p. 19)

– Me desculpem a absoluta franqueza: a fantasia é o mestre.

“Também precisamos abandonar  a noção de um salvador divino, o que não tem nada a ver com qualquer religião que tenhamos, mas refere-se à ideia de alguém ou algo que irá nos salvar sem que precisemos passar por qualquer sofrimento.” (p. 5)

– Porrada!

 

 

Espelho espelho meu

“Se você tem medo de se enxergar, talvez utilize a espiritualidade ou a religião como uma forma de se olhar sem na verdade enxergar absolutamente nada sobre si.” (p. 3)

– Eis um guerreiro falando.

“Se desejamos ser vulneráveis, a partir dessa vulnerabilidade podemos também descobrir a invencibilidade. Não tendo nada a perder, não podemos ser derrotados. Não tendo nada a temer, não podemos ser dominados.” (p. XIV – escrito por Carolyn Rose Gimian)

– Ouvi isso de outra forma: nunca devemos nos preocupar com um problema. Quando há solução, ela será encontrada; quando não há, o problema nem existe.

“O caminho da coragem começa com a descoberta do medo.” (p. 61)

– Tão verdade.

“Não somos de todo deploráveis.” (p. 11)

– Ai como é bom ouvir isso.

“A evolução da condição de guerreiro começa a partir de uma ausência de preguiça. Em geral, somos muito preguiçosos para realizar uma jornada espiritual em nossas vidas. A preguiça aqui refere-se simplesmente ao fato de não querermos ser perturbados.” (p. 27)

– O budismo é assim mesmo: um tapa depois de outro.

“Para início de conversa, temos uma mente temerosa. Essa mente temerosa é a mentalidade daqueles que ainda têm prazer em hibernar no casulo do conforto.” (p. 37)

– Algo curioso da didática de Chögyam: ele abre todo capítulo dando um soco na cara da gente e depois usa as páginas restantes pra passar a mão na cabeça. É um estilo, mas há outros.

 

 

Tristeza feliz

– Um ponto bem interessante que Chögyam desenvolve é que uma pessoa que começa meditar acaba por encontrar um estado de espírito que ele chama de “plenitude terna e triste”. Parece forçado, mas até dá pra entender, porque todos já nos sentimos assim: é quando aceitamos, de coração, que a vida é uma merda e, ao aceitar isso, a vida começa a parecer ótima, porque é vida. Leia o trecho abaixo:

“Não descobrimos a coragem imediatamente; mas sim, para além da nossa inquietude, encontramos uma ternura oscilante. Ainda estamos trêmulos, mas trememos com a ternura e não com a perplexidade. Essa vulnerabilidade contém um elemento de tristeza, mas não no sentido de sentir-se mal consigo mesmo nem de sentir-se carente. Temos, ao contrário, uma sensação de plenitude que é terna e triste. […]

“[…] Também há um elemento de solidão, mas que, novamente, não é baseado na carência, na inadequação ou na rejeição. Pelo contrário, você percebe que só você consegue compreender a verdade da sua própria solidão, que é muito digna e autossuficiente. Você tem um coração pleno, você se sente só, mas não se sente particularmente mal em relação a isso. É como uma ilha no meio de um lago. A ilha é autossuficiente; por isso parece solitária no meio da água.” (p. 61)

“A única forma de relaxar consigo mesmo é abrir o coração”. (p. 7)

– Pois é.

“O sagrado surge quando nos tornamos amáveis conosco. Dessa forma, a irritação de estar consigo mesmo desaparece.” (p. 33)

– Pois é pois é.

“Ignorância é ignorar o presente.” (p. 45)

– Está circulando no facebook algo assim: depressão é excesso de passado e ansiedade é excesso de futuro. Saúde é presente.

“A dúvida é o primeiro obstáculo à coragem que precisa ser superado.” (p. 53)

– Não tem nem como ser de outro jeito.

“ […] a coragem é como um reservatório de confiança.”(p. 67)

– A PNL – Programação Neurolinguística quer pegar aquele episódio de confiança que ocorreu na sua vida e ancorá-lo, de modo que você o tenha sempre por perto. A PNL cria reservatórios. (Afinal, por que estou falando de PNL?!)

“A confiança, então, é estar disposto a correr um risco, sabendo que o que sobe cai, como se costuma dizer.” (p. 67)

– Pô, mas aí não é risco, é certeza. Não entendi esse exemplo: quer dizer que alguma vez pode não cair? Alguém me elucida, please.

“A coragem surge do medo. A lógica é bem simples. Você pode perguntar, por exemplo, por que alguém toma banho. Você toma banho porque se sente sujo. Não fica inspirado para tomar banho apenas por ter roupas limpas no armário. Podemos dizer que a bondade fundamental é como as roupas limpas em seu guarda-roupa. É ótimo saber que elas estão lá, mas não é sempre motivação suficiente para fazer com que você tome banho. A sujeira é o que realmente faz com que você tenha vontade de se lavar. Da mesma forma, a coragem surge do medo.” (p. 74)

– Simpática analogia, né não?

“Apreciar os detalhes da vida começa a abrir nossa vida, para que ela não seja mais apenas uma luta mas uma vida boa e alegre.” (p. 92)

– Momento hiper fofo do livro.

 

 

Quando lutar

“A condição de guerreiro se baseia na superação da covardia e da sensação que temos de estar feridos. Se nos sentimos fundamentalmente feridos, talvez tenhamos receio de que alguém venha a dar pontos para fechar nossas feridas. Ou talvez já tenhamos passado por isso, mas não ousamos deixar que alguém retire os pontos. A atitude do guerreiro é enfrentar todas essas situações de medo ou covardia. O objetivo geral da condição de guerreiro é não ter medo. Mas a base da condição de guerreiro é o próprio medo.” (p. 3)

– Vou dizer procê que a página 3 é a melhor do livro. Dá pra ler só ela se quiser. Tá tudo condensado em 3 parágrafos pauleiras.

“É importante ser pragmático, de imediato.” (p. 1)

– Muitas vezes desconfio que a única lição que querem nos passar é esta: aja.

“Para desenvolver a atitude não-violenta, você precisa antes de tudo ver que seus problemas na verdade não estão tentando destruir você.” (p. 44)

– Nada está – é o que ele quer dizer.

“Na tradição do guerreiro de Shambala, dizemos que só necessário matar um inimigo a cada mil anos.” (p. 64)

– Pra mim, é a frase mais importante do livro todo.

“Não ter medo é ter muita coragem. A concretização da coragem é a arte marcial genuína.” (p. 49)

– Os medrosos herdarão o reino de deus.

“O termo guerreiro refere-se à situação básica de ser um ser humano. A essência do guerreiro é a vivência ou bondade fundamental. Essa bondade destemida é livre de dúvida e supera qualquer atitude pervertida em relação à realidade.” (p. 53)

– Claro que se refere a uma situação a priori.

“Frequentemente, quando alguém nos diz para não ter medo, achamos que está dizendo para não ficarmos preocupados, que tudo vai ficar bem. A coragem incondicional, no entanto, é baseada apenas em estar desperto. Ao ter controle sobre a situação, a coragem torna-se incondicional pois você não está nem do lado do sucesso nem do lado do fracasso. O sucesso e o fracasso são a sua jornada.” (p. 71)

– Que troço bacana. Taqui a cabeça de um budista falando.

“O guerreiro é alguém que é corajoso o suficiente para viver em paz neste mundo.” (p. 120)

– O guerreiro é um cara foda, tá me entendendo?!

 

 

Meditare

“A disciplina da meditação é um treinamento do corpo e da mente. Na disciplina da meditação, mantemos ao mesmo tempo uma postura ereta constante, característica do corpo, e um modo de lidar com a maior profundidade de espaço ou experimentar uma ampla abertura, o que é trabalhar com nossa mente.” (p. 73)

– Um dos jeitos mais acessíveis de explicar por que se medita sentado está neste livro. Compre para ler.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

TRUNGPA, Chögyam. Sorria para o medo: o despertar do autêntico coração da coragem. Organizado por Carolyn Rose Gimian. Tradução Anna Olga Prudente de Oliveira. Rio de Janeiro: Gryphus, 2013.

 

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