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Rei do Cheiro – João Silvério Trevisan

Postado às 00:41 do dia 01/11/12

Prefiro não começar resenhas em tons pessoais, mas esse livro pede. Decepcionou-me completamente. Na verdade, acho que não prestei atenção nos textos da orelha e da contra-capa e comprei achando se tratar da história de um empresário que construía um império dentro do ramo da perfumaria. Moro em Curitiba, então me lembrei de Miguel Krieger, fundador d´O Boticário, e supus que a trama fosse por aí.

Como aromaterapeuta, esperava encontrar a história envolvente de como um zé-ninguém ergueu um império na perfumaria com doses generosas de business-thriller, algo no estilo O Imperador do Olfato (2006), livro de Chandler Burr que, como o escritor João Silvério (1944), também milita no movimento gay, e que narra a trajetória do biólogo Luca Turin em busca de uma nova teoria sobre a olfação.

Em vez disso, encontrei referências elementares sobre a indústria do cheiro e a história rasa de um executivo viciado em cocaína, mulheres, narcotráfico e corrupção que, por acaso, constrói uma fábrica de perfumes. Fosse ele dono de um rede de restaurantes, dono de um açougue ou de um lava-car daria na mesma – só se perderia a brincadeira com o título do livro. Além disso, o protagonista, o tal do Rei do Cheiro, é anacrônico como empresário de sucesso, óbvio em sua trajetória de vida, padecendo de infância, maturidade e fim previsíveis. Pra piorar, o livro se compõem de duas partes que não se conectam bem: a primeira, que conta o caso e ocaso do Rei do Cheiro, e a segunda, que narra o sequestro de centenas de reféns da alta burguesia e política paulistanas por bandidos do crime organizado à la Comando Vermelho. A relação de uma parte com a outra é que o Rei do Cheiro estava entre os reféns.

O livro quer denunciar a corrupção e impunidade no Brasil, mostrando que ela não escolhe lado – está na alta burguesia, está nas camadas mais desfavorecidas da sociedade. Quer, além disso, contar a história da corrupção através dos anos recentes de nossa história, desde a véspera do golpe militar até o estouro da denúncia do Mensalão. Para isso, João Silvério conta com alguns recursos que, no início do livro, são engraçadinhos mas, depois, ficam enfadonhos e nos dão a sensação de que ele precisou sustentar a fórmula para não perder a coerência, embora tenha perdido a graça. Um desses recursos é inserir em itálico trechos de canções e propagandas de rádio transmitidas nos anos 50 – quando o Rei do Cheiro ainda era um garoto –, até os anos 80/90 e 2000 – quando ele já era homem adulto fazendo dinheiro.

Na segunda metade do livro, ao estilo do Eles Eram Muitos Cavalos (2001) de Luiz Ruffato, João Silvério cria uma narrativa onde vários registros discursivos se mesclam. Para contar o desenlace do sequestro de ricaços e poderosos pelo crime organizado, ele escreve diálogos, transcreve o que seriam transmissões de rádio e TV, trechos de notícias na internet, continua com os itálicos que trazem trechos de música (só que agora as músicas sempre são raps da periferia) e vai alternando as vozes discursivas. Parece interessante no começo, depois cansa. Em alguns momentos, quando os reféns começam a acusar os esquemas corruptos uns dos outros, os diálogos que travam e as denúncias que fazem têm a sofisticação de alunos de 3º colegial que estão redigindo sobre o tema de alguma Campanha da Solidariedade. Enfim, li arrastando-me. Mas, ainda assim, consegui extrair algumas partes legais, inclusive dos tais recursos linguísticos que critiquei. Um entre eles, em especial, não cansou e teve efeito marcante na narrativa, para mostrar a quantidade de blá-blá-blá que existe em nosso país. Leia um parágrafo completo que exemplifica isso:

“ – Esta aqui é a fábrica de sabonetes em barra, recentemente inaugurada. Também nesta área apresentamos inovações nos componentes, substituindo qualquer resquício de gordura animal por óleo de palma. Isso é importante porque” (p. 97)

Não é bacana acabar assim, sem pontuação, bem no meio do que seria a parte importante? O Brasil é assim, meu amigo, paramos antes da parte importante. Agora preciso ler outros romances do autor, pois ele os tem, vários, inclusive premiados. Talvez eu tenha dado azar como o primeiro que li. Em literatura, a gente nunca deve ficar apenas na primeira impressão.

 

 

Vida louca vida

“A vida é louco zigue-zague cujo sentido não captamos. No lado zigue da vida, os homens lutam, atacam e se defendem. No lado zague, os homens cantam, divertem-se e iludem-se, buscando a qualquer custo a felicidade. Nós tentamos ser felizes amando. Mas ninguém entende patavina do amor.” (p. 15)

– Gostei bastante da sonoridade de “no lado zigue”, “no lado zague”. No livro, João Silvério fica o tempo todo mostrando o zague e o zigue das pessoas e das situações, mas a tônica de seus personagens não é amar, e sim enriquecer.

“Há aqui uma realidade eletrificada que emite descargas de morte pelo ar. Os corpos no chão formam um detalhe insignificante na tensão da cena. Ao fundo, pessoas gritam. Mas apenas aquelas que não perderam a fala, de tanto medo. Os tiros passam acima das cabeças, atropelam o tempo. Parecem milhares por segundo, durante minutos-hora. De vez em quando se ouvem choros infantis, em timbres de voz adulta, vindos de vários cantos.” (p. 283-284)

– Essa cena é do pior momento do sequestro que citei. Achei muito forte a última frase e consegui imaginar o tipo de choro que João Silvério descreve. Me pareceu terrível. É um momento bastante importante no desfecho do livro e imagino que não seja fácil descrever tiroteios. Por falar nisso, até hoje, as descrições de lutas que mais me impactaram foram as dos três romances de Bernard Cornwell sobre o Rei Arthur (O Inimigo de Deus, Excalibur e O Rei do Inverno). Frequentemente temos um imagem lírica do que seriam as lutas entre cavaleiros armados com lanças e espadas, mas Bernard desconstrói todo esse romantismo e mostra o lado cru, visceral e escatológico (nessa ordem) de uma refrega. As batalhas não são mais épicas, apenas tétricas.

 

 

Cheiro de santidade

“Ó, vou te dizer uma coisa, Japa. Você que gosta tanto da Bíblia, sabe melhor do que eu. Tudo o que é bom vem de Deus, certo? Não tem nada mais parecido com Deus do que perfume. Podes crer. Qualquer pobre põe um perfuminho e se sente poderoso. Se perfuma pra ter parte com Deus. Perfume é que nem milagre, cara. É coisa de Deus. Sacou? (p. 44)

– Não me canso de elogiar o livro Aroma, A História Cultural dos Odores, de Constance Classen. Ele traz um longo trecho que explica a relação do cheiro com a religião, mostrando que uma das coisas que o imaginário popular faz é associar catinga com demônio e perfume com santos e divindades. Depois essas associações se misturaram, quando passamos a considerar que perfumaria demais é disfarce de podridão.

“ – Eu quero esse jingle sem parar na rodoviária inteira e nos dois aeroportos. Tá cheio de marido que viaja pra cornear a mulher. Na volta ele lembra de levar um presentinho pra ela, de última hora. Pra isso, lá estamos nós de plantão, esperando bater a culpa no desgraçado. É coisa muito prática. Quero o clipe rodando sem parar. Tem que ser um verdadeiro massacre nos desgraçados. Mesmo que fique um pouco mais caro. Quero fazer muita grana ajudando o Brasil a cornear melhor.” (p. 69)

– A fala é do Rei do Cheiro à sua equipe de marketing, mostrando a estratégia para suas lojas de perfumes dentro de rodoviárias e aeroportos. Quando li, imediatamente lembrei um parágrafo no livro Mundo Perdido, de Patricia Melo, sobre academia de ginástica só existir porque mulher quer ficar gostosa pra chifrar marido. Esses dois livros, o de Patricia e o de João Silvério, guardam muita relação entre si: falam de bandidos – um deles, matador profissional, o outro, um colarinho-branco – e abordam o narcotráfico, a prostituição e a política brasileira. Entretanto, o livro de Patrícia tem elegância, um ritmo super controlado e um protagonista intrigante. Você quer ler porque lhe interessa o destino do protagonista. Já o protagonista de Silvério, pra mim tanto faz que fim ele leve.

“Você, Ruan, percebe a doçura do irmão e se abre para receber o seu amor. Com seu nariz de rei, absorve o cheiro da sopa que lhe chega no ar:

– Que perfume. Sabe, Carlito, sinto que tudo é perfume. Tenho tido cada vez mais essa sensação. Uma espécie de transe. Bendito seja, Carlito. Os cheiros, eu sinto os cheiros como perfume. Fazem parte da… bênção.

(…) Tanta bênção. Estamos rodeados de bênção por todos os lados, Carlito. Como é que eu vivi tanto tempo e não me dei conta? Morrer… A minha máquina começa a parar, peça por peça. O corpo se desliga de maneira perfeita. Não fabrica mais perfumes. A morte, Carlito, cancela os perfumes, mas não a bênção. Tenho esta convicção agora. A morte dá sentido a tanta bênção.” (p. 152-153)

– Gostei demais de definição de morte como o fim de perfumes, embora haja inúmeras referências do Paraíso ter aroma doce e o Inferno ter aroma enxofrado. De qualquer maneira, é uma bela sequência no livro, o único momento em que Ruan, o Rei do Cheiro, deixa de ser um personagem desinteressante.

 

 

Brasil, mostra a tua cara

“ – Chega dessa conversa de guerrilheiro de botequim, Niva. No governo você praticava o lema que é a mola mestra da esquerda: os fins justificam os meios. Você fazia isso nos tempos do movimento estudantil.

– Pois fique sabendo que eu não tenho vergonha nem do meu passado, nem do meu presente, Estêvão. Entre a lei e a coisa justa, eu sempre achei que é muito mais importante o justo. O que eu entender que não é crime, vou continuar fazendo.” (p. 243)

– Pronto, tá explicado porque lei é um troço difícil de pegar no Brasil. Oxalá a geração que não viveu durante a ditadura consiga se libertar desse paradigma lei x justiça e construa um país onde a justiça venha pelo cumprimento da lei.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

TREVISAN, João Silvério. Rei do cheiro. Rio de Janeiro: Record, 2009.

 

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