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Quando tudo se desfaz – Pema Chödrön

Postado às 14:49 do dia 24/06/13

Depois do bum do yoga no Brasil, praticantes e professores têm se voltado para o budismo. Continuam praticando asanas, pranayamas, meditação e ahimsa, mas têm lido muito mais sobre a vida e ensinamentos de Buda que de Krishna.

Isso tem algumas razões. A primeira é que há alguns professores de yoga, que dão cursos de formação, que são budistas. A segunda é que há muitos mais livros traduzidos para o português sobre budismo que sobre o hinduísmo. Finalmente, o budismo, em comparação àquele, é menos festivo, menos esfuziante, menos colorido. Vivemos uma era complicada, triste até. E como a monja Pema Chödrön indica, Quando Tudo se Desfaz são orientações para tempos difíceis.

É assim que este livro, junto com Sorria para o Medo, escrito pelo mestre de Pema – Chögyam Trungpa – constituem duas das obras mais festejadas de modernos mestres da linhagem budista Kagyü. Linhagem, aliás, que foi transmitida por Trungpa de uma maneira única, ensinando ao indisciplinado temperamento ocidental as verdades do Dharma e do Samsara.

Quando Tudo se Desfaz: Orientações para Tempos Difíceis parte da dificuldade que a autora teve quando se separou do marido para descrever sua busca pelo autoconhecimento, amparada nas lições de seu mestre e da meditação Shambala. É escrito de uma forma leve, despretensiosa, com algumas tiradas de bom humor, mas naquele tom elegante, contido, circunspecto e compassivo dos monges budistas.

Há lições sobre o medo (claro!), sobre desapego, modéstia, boa vontade e meditação sentada. Para alguns leitores, Quando Tudo se Desfaz se tornará livro de cabeceira. Para outros, será mais um bom livro, daqueles que nos ajudam a seguir em frente.

Tenha uma amostra com as citações abaixo.

 

 

Metáforas

“Iniciar uma jornada espiritual é como entrar em um barquinho muito pequeno e sair pelo mundo em busca de terras desconhecidas. Com a prática vem a inspiração mas, cedo ou tarde, encontraremos também o medo.” (p. 1)

– Uma das melhores coisas que o budismo produz são imagens para transmitir ensinamentos. Não vejo uma tão boa para explicar o ímpeto com que nos atiramos ao autoconhecimento quanto essa. Acho que o ocidental fica encarcerado nos dogmas do cristianismo até que percebe ideias mais realistas. Então ele se atira com tudo nessas ideias novas, porque está sufocado com tanta pressão a respeito do que tem que ser ou deixar de ser para entrar no Céu. No afã de conhecer outra abordagem, se aventura do mar com o que tem: sua pouca disciplina, sua autoconhecimento ralinho, seu físico acostumado ao conforto, seu temperamento imediatista – e isso tudo constitui o barquinho pequeno citado pela Pema. É claro que ficará com medo, porque esta jornada de fincar o pé na realidade – a proposta do budismo – é cheia de tempestades.

“Quando iniciamos nossa exploração, temos todo tipo de ideal e expectativa. Procuramos respostas que satisfaçam anseios muito antigos e a última coisa que queremos é um reencontro com o bicho-papão.” (p. 2)

– São por comentários espontâneos assim que Pema é uma monja querida. Bicho-papão, lamento dizer, existe, e ele espreita aquele que medita. Oxi se espreita.

“A palavra desejo inclui aquela qualidade de vício que já mencionamos, nossa tendência a nos apegarmos a algo porque queremos encontrar uma maneira de deixar tudo bem, Isso decorre de nunca termos crescido. Ainda queremos ir para a casa, abrir a geladeira e encontrá-la cheia de nossas guloseimas favoritas.” (p. 62)

– Sacou. Somos todos criancinhas mimadas e assustadas.

“A verdade, dizia um antigo mestre chinês, não é nem isso nem aquilo. É como um cão diante de uma tigela de gordura fervente. Ele não pode desistir dela porque é saborosa demais e não pode lambê-la porque está quente demais.” (p. 126)

– Não sei se o verbo correto não seria “não quer desistir dela”… Mas, enfim, a gente apenas pode pretender tanger a verdade.

 

 

Autoconhecimento

“A verdade é que, a partir do momento em que realmente iniciamos esse processo, nós nos tornamos cada vez mais modestos.” (p. 3)

– Queria demais acreditar que isso ocorre 100%. Mas a primeira decepção que temos é essa: no mundo dos buscadores de autoconhecimento, raríssimos são os modestos. Você vai se deparar com mais vaidade, acredite, que no meio artístico. Aí sim, depois de uns bons anos, depois de ter levado bastante chute no traseiro (e dado outros tantos), a vida te amansa e as coisas começam melhorar.

“Relacionar-se honestamente com a qualidade imediata de nossa experiência, com respeito suficiente para não julgá-la, é uma jornada para toda a vida.” (p. 35)

– Entendeu, né? Tooooda vida.

“Contentamento é sinônimo de solidão, de solidão tranquila, de acomodar-se na solidão refrescante.” (p. 60)

– Preciso de um guru pra me explicar melhor esse ponto. Hummm… Vou tentar: sinônimo de solidão porque, se fosse bem exultante, feneceria?

“De algum modo, nesse processo de tentar negar que tudo está sempre em mudança, perdemos nossa percepção do sagrado da vida. Temos uma tendência a esquecer que fazemos parte do esquema natural das coisas.” (p. 65)

– No cristianismo, somos educados a pensar que há um grande projeto que nos foi destinado. Acho o budismo de uma modéstia acachapante.

“A ausência de ego é um estado mental que implica total confiança no sagrado do mundo.” (p. 66)

– Que ensinamento fundamental.

“A honestidade, sem bondade, humor e boa vontade, pode ser simplesmente mesquinha.” (p. 81-82)

– Também pode ser vaidade.

  “Para pôr um fim às guerras é preciso deixar de odiar o inimigo.” (p. 119)

– Perfeito!

“Entretanto, você já deve ter percebido que frequentemente existe uma divergência irritante, se não deprimente entre nossas ideias e boas intenções e as reações que temos diante dos detalhes mais básicos das situações da vida real.” (p. 122)

– Hahaha! Sabe que nunca tinha reparado? 😉

 

 

Medo

“Mais cedo ou mais tarde compreendemos que, embora não possamos fazer com que o medo seja agradável, é ele que acabará por nos colocar diante de todos os ensinamentos que algum dia lemos ou ouvimos.

Portanto, considere-se com sorte na próxima vez em que encontrar o medo, pois é nesse ponto que entra a coragem. Geralmente pensamos que as pessoas corajosas não sentem medo, mas a verdade é que elas estão familiarizadas com ele.” (p. 5)

– Esse parágrafo me faz pensar no mito de Quíron, que representa todos os terapeutas. Quíron, um centauro, foi aquele que curava a ferida de todos, mas nunca conseguia curar a própria. Acho que com o medo é assim: tem dias que ele te vence, mas você lembra que, em outros dias, foi você quem o venceu. Cito também aquele filme maravilhoso, Uma Mente Brilhante, sobre a vida do matemático John Nash, que por anos teve alucinações e só tarde na vida, quando já era uma pessoa famosa, foi diagnosticado como psicótico. A última cena do filme ilustra bem o ponto de Pema. Nash acaba de ganhar um Nobel e está recebendo os cumprimentos de amigos. Então seu olhar fica perdido e sua esposa lhe pergunta se está tudo bem. Nesse momento, sabemos que ele está tendo alucinações. Ele também sabe que está tendo alucinações, mas a decisão de não embarcar nelas é que o mantém lúcido. Ou seja, ele nunca se curou, apenas se acostumou a estar doente. Lição muito profunda.

“Como dizia Shunryu Susuki Roshi, mestre Zen – viver é como entrar em um barco prestes a sair para o mar e afundar.” (p. 46)

– Medo de novo, né?

“Na verdade, temos o direito a algo melhor, àquilo que é nosso estado de direito inato, ao caminho do meio – um estado mental aberto onde é possível relaxar no paradoxo e na ambiguidade,” (p. 57)

– Acho fabuloso esse conceito.

“Não há ponto de referência no caminho do meio.” (p. 56)

– Mas a gente se acostuma.

“Quando nos protegemos do sofrimento, achamos que estamos sendo bondoso conosco mesmos. A verdade é que apenas nos tornamos mais amedrontados, endurecidos e alienados.” (p. 93)

– Novamente, acostuma-se.

 

 

O que vem depois do fundo do poço

“Há, com certeza, uma qualidade delicada e vibrante quando experimentamos não ter nenhuma base.” (p. 9)

– Pior que é verdade. Sabe quando se tem aquele lampejo de humor e tudo à sua volta está horrível? É bem essa a qualidade vibrante.

“Quando tudo se desintegra, somos submetidos a uma espécie de teste, e também a um certo processo de cura.” (p. 9)

– So true.

“Ficar nesse desequilíbrio – com o coração partido, o estômago apertado, o sentimento de desesperança e o desejo de vingança – é o caminho do verdadeiro despertar.” (p. 12)

– Antes que acusem o livro de ser sick lit, não é preciso passar por tudo isso sozinho: peça ajuda ou pague por ajuda. Muitas vezes, psicoterapeutas são mais importantes que amigos bem intencionados.

“Atingir o limite não é encontrar um obstáculo ou uma punição, mas uma saída em direção à sanidade e incondicional bondade dos seres humanos.” (p. 17)

– A cura do budismo sempre são generosas doses de realidade.

“A morte e a desesperança fornecem a motivação correta para viver a vida com mais discernimento e compaixão.” (p. 47)

– Também sinto assim.

“Frequentemente, diz-se que a paz é a quarta marca da existência. Não se trata da paz em oposição à guerra, mas do bem-estar que surge quando vemos os infinitos pares de opostos como complementares.” (p. 69)

– É a lição da aceitação.

“Os ensinamentos budistas são dirigidos às pessoas que não têm muito tempo a perder. Isso inclui todos nós, quer saibamos ou não. Do ponto de vista dos ensinamentos, achar que ainda temos muito tempo e que podemos deixar essas coisas para depois constitui o maior dos mitos, a grande loucura e o pior veneno.” (p. 137)

– Concordo, concordo, concordo.

“Quando compreendemos que o caminho é o objetivo, surge uma sensação de viabilidade.” (p. 156)

– Claro!

“Afinal, como disse Ösel Tendzin, todos vêm para o Dharma pelos motivos errados – é o caminho que nos corrige.” (p. 159)

– Ou seja, toda motivação é válida. Não nos culpemos de termos entrado com o pé esquerdo.

 

 

Meditação

“Não nos sentamos em meditação para nos tornarmos bons meditadores. Sentamos em meditação para estarmos mais despertos na vida.” (p. 17)

“Anos mais tarde, [Rinpoche] usou uma analogia bem-humorada, ao comparar a meditação a uma pessoa fantasiada segurando uma colher cheia de água. É possível estar tranquilamente sentado ali, vestindo uma roupagem rebuscada e, ainda assim, estar bastante atento à colher de água que se tem nas mãos.” (p. 21)

“Portanto, como meditadores, também podemos parar de lutar contra nossos pensamentos e perceber que honestidade e senso de humor são muito mais inspiradores e úteis do que qualquer tipo de solene esforço religioso contra ou a favor de algo.” (p. 24)

– Quem medita aprende a rir.

“O próximo passo consiste em conter-se. A atenção plena é a base, conter-se é o caminho. […] [Conter-se] É a prática de não preencher imediatamente o espaço apenas porque surgiu uma lacuna.” (p. 35)

– Não é um ensinamento que rompe paradigmas?! Mais outros iguais:

“Conter-se – não reagir por hábito ou impulso – relaciona-se com deixar de lado a disposição para a distração.” (p. 36)

“Simplesmente parar, em vez de preencher imediatamente o espaço, representa uma experiência transformadora.” (p. 38)

“Quando somos capazes de estar bem ali sem dizer: ‘Eu definitivamente concordo com isso’ ou ‘eu definitivamente não concordo com isso’, mas apenas estando ali muito diretamente, encontramos a riqueza fundamental por toda parte.” (p. 107)

– Acho todas lições valiosíssimas, mas não sei como decidir sem concordar/discordar. Alguém me ajuda entender esse ponto?

“Se realmente soubéssemos quanto sofrimento nossa tentativa de evitar a dor e buscar o prazer traz ao planeta como um todo – como essa atitude nos torna infelizes e interrompe a ligação com nosso coração e inteligência fundamentais – sairíamos correndo e praticaríamos meditação como se a casa estivesse pegando fogo. Praticaríamos como se uma enorme cobra tivesse acabado de cair em cima de nós – não pensaríamos que temos tempo de sobra e que podemos deixar esse assunto para mais tarde.” (p. 113)

  – A Pema não é uma excelente comunicadora?

“A meditação é, provavelmente, a única atividade que não acrescenta nada ao cenário.” (p. 113)

– Preciso conversar com meu amigos que são professores budistas, mas entendo que, para o equilíbrio da vida, devemos gastar metade do tempo acrescentando, metade do tempo não acrescentando nada, porque acrescentar é o par oposto de não acrescentar. É que nem dormir e ficar acordado: não tem como só dormir ou só ficar acordado.

 

 

Que se desfaça

“Ficaremos dando voltas inúteis com nossos pensamentos se acreditarmos em sua solidez.” (p. 24)

“O que torna maitri [conceito budista traduzido por Pema como bondade amorosa] uma abordagem tão diferente é o fato de não estarmos tentando resolver um problema. Não estamos lutando para afastar a dor ou para nos tornarmos uma pessoa melhor. Na verdade, estamos desistindo completamente de ter controle e deixando que os conceitos e ideais desmoronem.” (p. 28-29)

– Para esta receita, pegue um medroso. Você perceberá que, ao cozinhá-lo, ele adquire a textura de um controlador. Todo medroso é um controlador, já sabia disso, não? Em seguida, em vez de lhe pôr tempero, deixe-o cozinhando apenas em água. Nada de sal, nada de pimenta, nada de cheiro-verde ou alho, que isso disfarçará sua total insipidez. Depois de mais ou menos 40 anos, desligue o fogo, escorra a água e coloque o medroso pra resfriar em temperatura ambiente. Basta servir. A carne não é saborosa, mas é muito nutritiva. Na verdade, poderá nutri-lo pelo resto de sua vida. Entendeu o que quer dizer “deixando que os conceitos e ideais desmoronem”? Punk-rock, meu amigo! O que nos nutre é a inanição.

“Há um ensinamento sobre os três tipos de despertar: despertar do sonho do sono normal, despertar, ao morrer, do sonho da vida e despertar, em plena iluminação, do sonho da ilusão.” (p. 31)

– Novamente, doses generosas de realidade.

“Esse é um ponto importante, pois representa o início do início. Sem desistir da esperança – de que há um lugar melhor para estar, de que há alguém melhor para ser – nunca relaxaremos onde estamos ou naquilo que somos!” (p. 41)

– Caso tenha lido sem prestar atenção, vou citar de novo: “Esse é um ponto importante, pois representa o início do início. Sem desistir da esperança – de que há um lugar melhor para estar, de que há alguém melhor para ser – nunca relaxaremos onde estamos ou naquilo que somos!” (p. 41)

“Não-teísmo é perceber, finalmente, que não existe babá com quem contar. Você consegue uma babá ótima e, então, ela se vai. Não-teísmo é compreender que não são apenas as babás que vêm e vão. A vida toda é assim. Essa é a verdade, e a verdade incomoda.

Para aqueles que desejam agarrar-se a algo, a vida é ainda mais difícil. Sob esse ponto de vista, o teísmo é um vício. Somos viciados em esperança – esperança de que a dúvida e o mistério se dissipem. Essa dependência tem um doloroso efeito sobre a sociedade: uma sociedade baseada em muitas pessoas viciadas em conseguir um apoio para si mesmas não é um lugar compassivo.” (p. 43)

– Fique com dor no estômago. Ficou também?

“Permitir que as coisas se dissolvam é, às vezes, chamado de desapego.” (p. 54)

– Meo Deos, como gostei dessa definição!

“O ego pode ser definido como aquilo que encobre a bondade fundamental.” (p. 66)

– Olhemos para nós e para os outros enxergando além do ego.

 

   

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

 

CHODRON, Pema. Quando tudo se desfaz: orientações para tempos difíceis. Trad. Helenice Gouvêa. Rio de Janeiro: Gryphus, 2008

 

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