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O sonho de Mendeleiev – Paul Strathern

Postado às 00:00 do dia 01/11/13

O livro tem uma pegada de humor bem sedutora: unindo pistas que levaram a química ser o que é, encontrando-as na filosofia, passando pela alquimia, até chegar na matemática e física, o autor sempre insere uma fofoca no meio: Mendeleiev cortava o cabelo apenas uma vez por ano com um tosquiador de ovelhas, Tales de Mileto ganhou dinheiro prensando azeitonas, Avicena era um beberrão, Tomás de Aquino praticou clandestinamente a alquimia, Paracelso bebia de maneira espetacular – o que tornava ainda mais perigosa a espada que ele carregava pra baixo e pra cima, onde quer que estivesse, até mesmo na cama – , Galileu vivia atolado em dívidas, em parte suas, em parte de uma mãe exigente, Robert Boyle e Isaac Newton eram religiosos fanáticos, além deste último possuir nada menos que 38 livros de alquimia na biblioteca. E, a melhor de todas, Descartes jamais se levantava antes do meio-dia – ele gostava de ficar na cama coçando o saco pensando.

Dando a seu livro o subtítulo A verdadeira história da química, a intenção do autor, que tem outros volumes publicados na mesma linha sobre filosofia e ciência, é mostrar que a química só poderia ter nascido depois que se abandonasse por vez a ideia clássica dos quatro elementos (água, ar, fogo e éter) até se chegar à Tabela Periódica, que Paul classifica como sendo o marco de que a química alcançara a maioridade. Essa jornada de 2,5 mil anos, da Grécia antiga até dia de 17 de fevereiro de 1869 – data da descoberta, por Mendeleiev, de que os elementos poderiam ser dispostos conforme seu peso atômico – é recheada de ilusões, dramas pessoais, convicções incongruentes e avanços que, se levados a cabo por homens geniais, também foi limitada pela cultura e tecnologia de seu tempo.

Se você for daqueles leitores que amam detalhes e não se perdem em datas, irá gostar o livro. Ele é bem bom no começo, fica um pouco chato no meio – sobretudo quando é preciso entender como a filosofia mudou do misticismo pro naturalismo mecânico – e volta a ficar interessante no final. Como pesquisa, é uma fonte inesgotável; como lazer, é um lazer meio nerd. Mas, puxa, nerds também se divertem – e a leitura dele lhe trará bons momentos.

Abaixo selecionei algumas coisas interessantes pra citar.

 

 

Primeiro, a filosofia

“Uma vez tendo descoberto o pensamento filosófico, parece que os gregos rapidamente o praticaram até quase os seus limites.” (p. 25)

– Foi um contraponto cultural: muita guerra (ação) e muita filosofia (não-ação). Toda sociedade encontra meios pra manter sua homeostase.

“[…] há uma propensão universal à supersimplificação. Presumimos nas coisas maior ordem do que de fato existe. Da mesma maneira, ocorrências espetaculares ou sensacionais, que podem de fato não ser representativas, tendem a influenciar nosso julgamento mais do que a s rotineiras.” (p. 130)

– Se não fosse assim não haveria jornalismo. (Em tempo: a citação saiu do capítulo sobre o pensamento indutivo de Francis Bacon.)

 

 

Keep Calm & Love Chemistry

– A melhor citação de todo o livro é justamente a citação que abre o livro, tida a Johann Joachim Becher, em Physica Subterrenea, de 1667. Define o espírito da história que Paul quer contar:

“Os químicos são uma estranha classe de mortais, impelidos por um impulso quase insano de procurar seus prazeres em meio a fumaça e vapor, fuligem e chamas, venenos e pobreza, e no entanto, entre todos esses males, tenho a impressão de viver tão agradavelmente que preferiria morrer a trocar de lugar com o rei da Pérsia.”

“[…] a ciência é capaz de inspirar emoções poéticas, filosóficas e até religiosas no praticante, quando provavelmente estas não têm lugar na ciência efetiva.” (p. 98)

– Sim, a ciência fornece epifanias.

“De fato, o físico quântico do século XX Richard Feynman afirmou que se a raça humana fosse aniquilada e pudesse transmitir uma única sentença de conhecimento científico, ela começaria com as palavras: ‘Todas as coisas são feitas de átomos…’ “ (p. 210-211)

– E a sua, qual seria? Pergunta boa pra se fazer a diversos cientistas, não acha?

 

 

De gênios e de nerds

“A distinção entre a genialidade e disparate é por vezes tênue como uma hóstia – uma barreira facilmente transcendida pelo charlatão verdadeiramente convincente que, de quando em quando, consegue convencer até a si mesmo.” (p. 23)

– No comments, please.

“Depois de Copérnico, Darwin e Freud, nossa ideia de nós mesmos é fundamentalmente diferente daquela de Platão e seus contemporâneos.” (p. 27)

– Nunca tinha pensando em Freud como um nerd, mas ele era.

“O terceiro do triunvirato grego de filósofos foi Aristóteles, que foi discípulo de Platão. Enquanto Sócrates fora ‘o chato de Atenas’ e Platão ‘o filósofo dos filósofos’, Aristóteles foi o primeiro gênio universal.” (p. 27)

– Aposto que Sócrates nem se mexeu em sua tumba.

“Num certo estágio, toda ciência requer um gênio da classificação que permita sua compartimentação em vários campos, de tal modo que estes possam avançar de suas próprias maneiras distintas.” (p. 44)

– Virginianos e almas 4 de numerologia, congratulai-vos!

“Um médico deve sair à procura de velhas comadres, ciganos, feiticeiros, tribos nômades, velhos ladrões e proscritos dessa espécie e aprender com eles. Um médico deve ser um viajante… Conhecimento é experiência.” (p. 68)

– Frase escrita por Paracelso. Gênio é gênio e está demonstrado.

“Mesmo em sua alquimia, porém, Paracelso foi capaz de manter uma atitude extremamente científico-química. Em sua visão, o universo fora criado por um químico superior.” (p. 86)

– A gene sempre puxa a sardinha pro lado da gente. Escritores dizem que Deus é o maior dos poetas; maçons O chamam de o Grande Arquiteto; músicos falam que o universo é música; e os ateus dizem que Deus é a maior piada de todos os tempos.

“Paracelso sofria havia muito de delírios divinos e acreditava ser o único a compreender a Bíblia. Mas, afora isso, dava pouca atenção à religião convencional. Sua alquimia era a sua religião e sua metafísica incoerente supria sua teologia.” (p. 87)

– De gênio e louco…

“Não foi culpa de Aristóteles que sua filosofia se transformasse na sagrada escritura.” (p. 110)

– A “angústia da influência” existe em todas as áreas, caro Harold Bloom.

“Quando Galileu apontou seu telescópio para o céu noturno, toda a estrutura do universo se transformou perante seus olhos. As coisas nunca mais poderiam se as mesmas.” (p. 118)

– Tecnologia – isso faz a ciência avançar.

“Enquanto Copérnico iniciou a revolução científica, Bacon desencadeou a revolução mental que haveria de acompanhá-la.” (p. 135)

– E reputar tais feitos a duas únicas pessoas é uma supersimplificação.

“A ideia de Bacon de que a ciência iria melhorar o mundo estava muito à frente de seu tempo.” (p. 136)

– Ah, e não venha dizer que não melhorou!

“Pelo menos metade da vida intelectual de Newton foi desperdiçada em investigações não científicas.” (p. 159)

– Desperdiçada do ponto de vista de quem, ô Paul cara-pálida?! Possivelmente pra ele foi importante.

“[Karl] Scheele foi talvez o descobridor científico mais azarado de todos os tempos. Durante sua vida relativamente curta, desempenhou um papel capital na descoberta de mais elementos que qualquer outro cientista antes ou depois. No entanto, no caso de todos os sete elementos que descobriu, seu papel foi eclipsado, ou contestado, ou ignorado.” (p. 167)

– Citá-lo neste blog é, de certa maneira, corrigir essa sua sorte.

“Com a Tabela Periódica, a química chegou à maturidade. Como os axiomas da geometria, da física newtoniana e da biologia darwiniana, a química tinha agora uma ideia central sobre a qual todo um novo corpo de ciência podia ser construído. Mendeleiev classificara os tijolos do universo.” (p. 251)

– Fala sério, temos que soltar rojões!

 

 

Vil metal

“Uma aspiração central da alquimia surgiu então. O que se buscava não era sabedoria espiritual nem técnica química – a meta era ouro puro. Parecia não haver nenhuma esperança para a ciência aqui. No entanto, ironicamente, uma ciência embrionária começou de fato a emergir.” (p. 33)

– Ah, sim, esqueci de dizer: o livro destrói tudo que a gente achava de lindo e misterioso e místico nos alquimistas. De acordo com as pesquisas e fontes que Paul Strathern consultou, os caras só se importavam com ouro. Mas quero dizer uma segunda coisa: homeostase. Muita materialidade traz do outro lado muita espiritualidade. Vai ver foi isso.

“Sob muitos aspectos a alquimia era feita para a mente medieval. Nela a metafísica e o mundo estavam inextricavelmente confundidos: metais inferiores transmutados em ouro; os apetites da carne transmutados nos esforços do espírito. Mas ela era perigosa também: levar a natureza ignóbil à perfeição dourada, criar ordem a partir do caos. Essa era a província de Deus – e mesmo tentar fazer papel de Deus era blasfêmia.” (p. 50-51)

– Por que a ambição, motor de tudo que existe, estaria de fora da alquimia?

“Como o unicórnio, a pedra filosofal tinha toda sorte de qualidades notáveis – exceto existência.” (p. 55)

– Mas que ela apareceu na mão de Harry Potter, isso ela apareceu!

“Não era mais difícil explicar a transformação aparente de carne podre em vermes, ou de lagartas em borboletas, sementes em árvores frondosas? Ali havia realmente transmutação. Comparada a isso, a transmutação de um metal em ouro por evolução era um processo simples, facilmente crível.” (p. 57)

– É, de fato, assim realmente faz sentido. Dia desses eu li num jornal londrino que descobriram ouro nas folhas de eucalipto. Parece que essas árvores, quando absorvem nutrientes da terra – e por terem raízes muito longas – acabam absorvendo ouro e, como a substância lhes é tóxica, elas dão um jeito de mandá-la pras folhas, que cairão. Depois dessa, tô concordando demais com qualquer coisa impossível.

 

 

O parto da ciência

“Somente quando Galileu combinou a matemática e a física foi possível conceber a noção de força mensurável. E com isso a ciência moderna nasceu.” (p. 114)

– Não tem jeito, a matemática é mãe de tudo. Como não a amar, como não a odiar?

“Para estabelecer os elementos da ciência moderna, o que podia ser pensado claramente tinha de ser separado do que não podia. Galileu restringiu a ciência à pergunta: ‘O que acontece?’ Ignorou a pergunta concomitante da ciência: ‘O que é isso?’ A física pode operar sem esta última pergunta, mas ela é uma percepção central da química.” (p. 118-119)

– Galileu entendeu uma lição profunda: cada macaco no seu galho.

“Antes que a química pudesse avançar, os homens tinham de entender, através da física, o que era a ciência.” (p. 119)

– Será que estamos na época em que, antes de entendermos o que é a espiritualidade, devemos entender o que é a bioquímica e a física quântica?

“Enquanto Galileu buscou um método de experimentação, Descartes buscou um método de pensamento. O que era possível – em contraposição ao que era certo. Ambos estavam atacando o mesmo problema (verdade científica), mas a partir de ângulos opostos (prática/teoria).”

– Descartes tá tão fora de moda hoje em dia, coitado… E Galileu nunca deixou de ser simpático.

“Uma nova teoria científica triunfa não convencendo suas oponentes e fazendo-as ver a luz, mas porque suas oponentes acabam morrendo.” (p. 208)

– Frase de Max Planck lamentando que nem sempre a ciência avança por méritos próprios, mas porque defensores de ideias bestas morrem.

“Ciência é o que funciona, não uma explicação filosófica do mundo.” (p. 214)

– Em última análise, a ciência não é capaz de explicar o mundo.

“A alquimia fez muito pela química durante um tempo em que a ciência avançava a passo de tartaruga, embora a bruxaria hoje seja considerada risível.” (p. 214)

– Risível pra quem, cara-pálida? Tem muita gente construindo conhecimento moderno em saúde com essas risibilidades.

 

 

De marketing e patentes

“Quase todas essas descobertas foram atribuídas a outros, que chegaram a elas independentemente mais tarde. Mas foram estes últimos que as introduziram no domínio público, onde puderam contribuir para novos avanços em seu campo. Descobertas são para todos, ou para nada.” (p. 192)

– Que invenções e inovações podem surgir de forma independente, porém ao mesmo tempo em partes distintas do planeta, todo mundo sabe. Mas levar o crédito pela belezura, só quem puser a boca no trombone primeiro.

 

 

Assunto fora da matéria

“A era elisabetana foi a primeira hora de grandeza na história da Inglaterra. País essencialmente provinciano, na periferia da Europa, o papel anterior da Inglaterra nos negócios internacionais havia sido em grande parte o de importunar os franceses.” (p. 125)

– Outro best seller no mercado: “Guia politicamente incorreto da Inglaterra”.

– Apenas pra ficar registrado: Paul, lembrando que a alquimia deu as bases pro advento da química, chama a numerologia de a alquimia da matemática. Ele quis dizer uma coisa, mas os iniciados em numerologia aqui percebem que, sem querer, ele disse outra.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

STRATHERN, Paul. O sonho de Mendeleiev: a verdadeira história da química. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

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