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O filho eterno – Cristovão Tezza

Postado às 17:00 do dia 20/08/12

Você pode ler este premiadíssimo livro de Cristovão Tezza (1952) sob vários pontos de vista. No site do autor, que é catarinense mas foi criado e vive em Curitiba, estão lá várias resenhas e críticas do romance, daquela escrita por Miguel Sanches Neto pra Gazeta do Povo – que julgo uma das melhores – à de Fabricio Carpinejar pro Estadão. Todas falarão de pontos cruciais pra compreender melhor esta história que narra o processo em que se esforça, um pai, pra acomodar, em si, a ideia que tem de filho perfeito:

– Primeiro, a questão autobiográfica, um ponto-chave do romance. Tezza emprestou ao narrador do livro toda a sua vida – a carreira como professor universitário e candidato a escritor, e o filho Felipe, que é portador de Síndrome de Down, além de experiências da adolescência e juventude, como ter feito teatro e ter vivido na Europa;

– Segundo ponto, a questão das vozes: apesar de ter sido escrito com base em fatos reais, o livro é uma ficção e o autor já mencionou que a escolha de narrá-lo em terceira pessoa – chamando o narrador sempre pelo pronome “ele” – , trouxe liberdade para falar de coisas que ele mesmo não teria;

– Terceiro, o tom honesto e sem constrangimentos pra falar sobre um assunto marcado por desinformações, sentimentalismos, preconceitos e lugares-comuns como criar um filho que é Down;

– Quarto, a questão estilística, que é o quesito que consagra o romance à posição de obra-prima. Ante um filho que tem uma síndrome de origem genética, o autor contrapõe um narrador que é um autista sem causa nenhuma, que não sabe avaliar o mundo à volta senão de acordo com o que sente ou pensa: toda vez que a história parece avançar, o narrador volta a falar de si; quando a narrativa começa adquirir contornos objetivos, o tom volta a afundar em subjetividade. O autismo do narrador é tão absoluto que, num livro que se chama O Filho Eterno, houve uma mãe apenas para parir o bebê – e então ela desaparece – e tudo que volta a ser importante é apenas o pai.

Abaixo pincei alguns trechos que julgo bacanas. Não são as melhores partes do livro, porque O Filho Eterno tem esta qualidade de não poder ser dividido – outra questão estilística suprassumo: como na Síndrome de Down, em que o único tempo é o presente, não há um ápice no livro antes do qual a história está esquentando e depois do qual ela amorna: ele é inteiro e da página inicial à final bom.

 

 

O nascimento de um filho

“ (…)somos delicados demais para o nascimento e é preciso disfarçar todos os perigos desta vida (…)” (p. 11)

“Um filho é a ideia de um filho; uma mulher é a ideia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a ideia que fazemos dela; às vezes não.” (p. 14)

“O nascimento é uma brutalidade natural, a expulsão obscena da criança, o desmatelamento físico da mãe até o último limite da resistência, o peso e a fragilidade da carne viva.” (p. 24)

“Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão ‘para sempre’ – a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar.” (p. 30)

“Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.” (p. 32)

“Foi preciso que nascesse o seu filho para que, de um golpe só, ele percebesse a fissura medonha daquele otimismo cósmico que ele havia tomado de empréstimo de algum lugar como moldura estética da própria vida – tão lindo, tudo está em tudo, o tempo presente contido no tempo passado, a harmonia do espetáculo do universo como convidados de honra.” (p. 64)

“A primeira criança de um casamento é uma aporrinhação monumental – o intruso exige espaço e atenção, chora demais, não tem horário nem limites, praticamente nenhuma linguagem comum, não controla nada em seu corpo, que vive a borbulhar por conta própria, depende de uma quantidade de objetos (do berço à mamadeira, do funil de plástico às fraldas, milhares delas) até então desconhecidos pelos pais, drena as economias, o tempo, a paciência, instaura em torno de si o terror da fragilidade e da ignorância, e afasta, quase que aos pontapés, o pai da mãe.” (p. 73-74)

 

 

Teorias

“A gramática é uma abstração que aceita tudo.” (p. 12)

“Não cuspa para cima, que cai no olho, lembrou ele do dito popular, essa sabedoria calculista e pragmática, procurando sempre uma justiça secreta em todas as coisas, para fugir do peso terrível do acaso que nos define.” (p. 43)

“(…) como uma misteriosa compensação para afirmar a autoridade absoluta, a ausência ofensiva de pontualidade médica é a regra universal da classe, uma espécie de código a distanciá-los da condição humana mais terrena e miúda.” (p. 70)

“Mas a estatística, ele sabe, é uma mera regulamentação do caos realizada numa sala escura por funcionários de má vontade.” (p. 115)

“A ideia de que há pessoas muito diferentes no mundo e que necessitam menos de ciência, e mais da nossa compreensão generosa – um ideário que agora, do início do século XXI, começa a se estabelecer mais ou menos solidamente, parece – era uma utopia.” (p. 118)

“O dia que amanhece é um fenômeno da astronomia, não da metafísica.” (p. 128)

“A rotina é uma máquina extraordinária de estabilidade e a condição básica de maturidade emocional e social (…)” (p. 149)

“Para manter a alegria, entretanto, é preciso desenvolver algumas técnicas de ocultação da realidade, ou morreríamos todos.” (p. 155)

“Como se a educação fosse um processo inconsciente – o mais importante corre na sombra, antes da didática dos gestos, da omissão e da aura que nos discursos edificantes, lógicos e diretos.” (p. 163)

“Deus com certeza não é uma variável a considerar na medida das coisas, mas o Demônio tem uma presença tão viva na vida dos homens (…)” (p. 164)

 

 

Ser escritor

“Ele não é mais um poeta. Perdeu para sempre o sentimento do sublime, que, embora soe envelhecido, é o combustível necessário para escrever poesia.” (p. 16)

“(…) e finalmente sorri, voltando a escrever tão rápido, em linhas seguras e perfeitamente horizontais na folha amarela, sinal de que o texto, na sua cabala pessoal, está muito bom.” (p. 106)

“Seguindo o conselho de Hemingway em Paris é uma festa, que ele leu em Paris mesmo, percorrendo, caipira, os lugares especiais citados no livro, um por um, e gastando com parcimônia os marcos que ganhou na Alemanha (teriam de durar muito, ele sabia), ele sempre tenta interromper o texto que escreve num bom momento, com vontade de continuar imediatamente.” (p. 107)

“E acontece também no menino a atitude do ‘artista’, alguém que por conta própria se define como tal, o que é sempre um gesto potencialmente petulante; no mundo adulto, o pai sabe, definir-se ‘artista’ é quase que um bater de pé social, um forçar a porta de entrada para um éden libertário, onde não se prestam contas de nada – enfim, uma sombra do paraíso perdido.” (p. 212)

“(…) ao mesmo tempo por muitos anos teve vergonha de se afirmar, intransitivo, um ‘escritor’, e a angústia maior vinha do fato de, durante década e meia, não ter nada para colocar no lugar quando lhe perguntavam o que fazia na vida; dizer ‘eu escrevo’ seria confessar uma intimidade absurda, equivalente à da vida sexual ou à dos problemas de família, entregar o que se sonha no escuro, a massa disforme dos desejos (…) (p. 213)

 

 

Brasil, Curitiba

“Admirável mundo novo: todos aqueles bebês um ao lado do outro (…) agora para sempre condenados ao Brasil, e à língua portuguesa, que lhes emprestaria as palavras com as quais, algum dia, eles tentariam dizer quem eram, afinal, e para que estavam aqui, se é que uma pergunta pode fazer sentido.” (p. 19)

“(…) e o céu está maravilhosamente azul, o céu azul de Curitiba, que, quando acontece (ele se distrai), é um dos melhores do mundo (…)” (p. 36)

“Há como que um processo de emburrecimento geral, em que Estados funcionam irracionais como pessoas, e pessoas agem com a racionalidade de Estados.” (p. 140)

 

 

O problema é o pai

“Ele divaga, criando ele mesmo uma síndrome que cada vez será mais intensa em sua vida – a crescente incapacidade de concentração para ouvir alguém mais demoradamente: as pessoas deveriam falar por escrito, ele sonha.” (p. 90)

“Reflexo condicionado é o do pai – a todo instante que se lembra, estende o dedo para que o filho ali se agarre, sem pensar.” (p. 95)

“Autista, debruça-se sobre o novo romance que escreve já há alguns meses, Trapo, indiferente ao mundo, enquanto não consegue publicar o anterior.” (p. 115)

“Pensa também em como pode ser tentador o impulso de ele, o pai, se apoiar no filho para ali se destruir. Fazer do filho a sua desculpa, o altar da piedade alheia. Sim, é um bom rapaz. Tinha muito futuro. Pena o filho – acabou com ele. Dizer não – intuitivamente, dizer não.” (p. 118)

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

TEZZA, Cristovão. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2007 – 2ª edição.

 

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