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O cavaleiro fantasma – Cornelia Funke

Postado às 14:44 do dia 19/09/13

Ah, deve ser difícil a vida de quem escreve ficção infantojuvenil depois de Harry Potter. Pra deixar claro que, sim, “tô sabendo que meu personagem vai prum colégio interno antigo”, Cornelia Funke coloca na boca dele a seguinte reflexão:

“Minha irmã de oito anos teria adorado trocar de lugar comigo. Desde que tinha lido Harry Potter, ela queria de todo jeito ir para um internato.” (p. 10)

Se o bruxo mais amado do mundo pairava como uma assombração diante da história de O Cavaleiro Fantasma, pronto, foi excomungado, e daí pra frente podemos nos entregar à leitura desde romance que conta a história de um menino de 11 anos que é mandando pra uma escola em Salisbury e lá topa com fantasmas querendo se vingar dos descendentes de sua família.

O roteiro é a coisa mais simples do mundo, tem o menininho, tem a mocinha esperta (Hermione), tem a vó bacana (Dumbledore. Putz, que piadinha involuntária eu fiz agora… so sorry) e tem as assombrações. No final, tudo é feliz. O selo Seguinte, inaugurado pela Companhia das Letras pra trazer o que eles chamam de o “melhor em aventura, romance e literatura pop, feito para jovens exigentes em busca de grandes histórias, narrativas inteligentes e muita diversão” entrega autores consagrados em seus livros, digamos, menos conhecidos. É o caso de Cornelia Funke (1958, Alemanha). Depois da ótima trilogia O Mundo de Tinta (2004-2008), ela vem escrevendo novas histórias. O Cavaleiro Fantasma é de 2011, mas não tem a criatividade dos anteriores. Acho que meu filho de 9 anos gostaria de ler, se não enjoasse antes; mas adultos dificilmente ficarão satisfeitos.

De qualquer forma, a capa do livro é bem bacana, em alto relevo com tinta prateada, e o recheio tem o mérito de falar de Stonehenge e o druidas, que é um assunto inesgotável em fascínio.

Consegui achar uns trechinhos bons. Veja lá.

 

 

Paisagens fantasmagóricas

“Atrás das portas pesadas o ar estava tão frio que senti arrepios, e a luz crepuscular entre as paredes pousou sobre meus ombros como um manto protetor (…)” (p. 43)

– Ficou bem escrito, mesmo que a gente torça o nariz pra “crepuscular”.

“Pois é, fantasmas não flutuam, eles andam, mesmo que isso pareça muito estranho, já que caminham alguns centímetros acima do chão.” (p. 127)

– Ah, cacilda, é um outro jeito de vê-los, se bem que a  cena em que Nick Quase Sem Cabeça aparece pela primeira vez no refeitório de Hogwarts tenha marcado para sempre o jeito como achamos que fantasmas se locomovem.

 

 

Sabedoria infantojuvenil

“Com onze anos já dá para saber muito bem aquilo que os adultos querem ouvir, e, admito, fiquei orgulhoso por minha história ter sido aceita com tapinhas nas costas solidários (do diretor da escola) e dois abraços encharcados de lágrimas (da sra. Cunningham e de Alma Popplewell).” (p. 54)

– Olhe só, menino, não é porque acreditamos em vocês que acreditamos de verdade em vocês, entendido?! Pais também sabem fingir.

“Pudim. Falar com a minha mãe… A vida realmente continuava.” (p. 63)

– Adultos também recobram a confiança na vida quando comem bem e têm colinho de mamãe.

“Aos onze anos não existe nada pior que amigos que gostem dos mesmos doces que você.” (p. 65)

-Nem aos 40, se bem que dividir um doce daqueles com um amigo nos deixa com menos culpa na consciência quando se é adulto.

“(…) e eu estava passando mal de tanto medo, como se tivesse comido três pratos daquela sopa de cogumelos horrível que nos serviam às quartas-feiras na escola.” (p. 93)

– Pelo amor de Deus! Alguém avisa a cantina que sopa de cogumelo não é realmente uma refeição?!

“Ella deixou bem claro que dali em diante precisaríamos resolver tudo sozinhos. Ele deu uma de quase pai responsável e tentou discutir. No final, porém, aceitou ao saber que dessa vez só iríamos encontrar um fantasma quase um palmo mais baixo que Ella.” (grifo meu, p. 126)

– Tipo assim, o único parágrafo do livro inteiro em que um moleque de 11 anos fala como um moleque de 11 anos é o trecho acima. Senti muito falta dessa desenvoltura com a linguagem no livro, coisa que o romance Cadê Você, Bernadette? (que eu já resenhei aqui) traz de sobra – o jeito especial dos teens falarem.

 

 

Horcruxes

“ – Na Idade Média – ele prosseguiu – , havia a crença de que quando um homem era enforcado poderia se livrar da danação eterna embebendo a casca de uma cebola em se próprio sangue e deixando-a soba  língua antes de ser pendurado. Acreditava-se que isso daria ao espírito uma espécie de capa que o protegeria do inferno e podia se reconstituir por sete vezes. Os carrascos tinham que olhar debaixo da língua dos condenados (…)” (p. 95)

– Negócio seguinte: ainda bem que Voldemort não usou esse expediente, senão não teríamos cenas tão maravilhosas quanto as de Ron e Neville matando as horcruxes.

 

 

May the force be with you

“Eu amava William Longspee,mas vira seu lado sombrio e já não tinha certeza de que a sua luz sempre fora forte.” (p. 120)

– Não sei se sou apenas eu, mas você não fica incomodado com a dublagem brasileira de Stars Wars chamar “dark side” de lado sombrio em vez de lado negro? Me conte preu saber.

 

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

FUNKE, Cornelia. O cavaleiro fantasma. Tradução Laura Rivas. São Paulo: Seguinte, 2013, 1ª edição.

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