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Mil tsurus – Yasunari Kawabata

Postado às 17:49 do dia 22/04/14

Um livro escrito pelo Nobel Yasunari Kawabata (1899-1972) que tem interesse àqueles que apreciam o chá. Romance convencional na forma, na linguagem, mas com aquele conteúdo de taras sexuais atormentadas que encontrei também em Escândalo, de Shusako Endo. O romance contou com outras duas traduções para o português, chamando-se Nuvens de Pássaros Brancos (Brasil) e Chá e Amor (Portugal). Esta tradução, que vem pela Editora Estação Liberdade (2006), se mantém mais próxima do titulo original – Senbazuru (mil tsurus) – com a pronúncia da ave que é símbolo nacional no Japão, o grou. A preocupação de manter nomes no original segue por todo o restante da obra, não traduzindo nenhum dos utensílios da cerimônia do chá, pano de fundo do romance.

A história é simples, como é simples a cerimônia do chá. Porém tem várias sutilezas e um refinamento psicológico muito bem costurado – como também se apresenta a cerimônia. No final, é um triângulo amoroso que se repete de pai para filho e em que este, assim como Harry Potter sempre duvidou de sua bondade por ter sido tocado por Voldemort, duvida de suas intenções por ter, como o pai, descoberto uma mácula no passado.

Leia a história pra entrar no clima tenso de uma nação se reestruturando no pós guerra, quando a tradição do chá talvez fizesse mais sentido do que nunca de ser seguida por uma geração que, apesar de ter dormido nos mesmos abrigos antibombas que seus pais, nunca mais pôde mais sentir como eles.

Abaixo selecionei algumas passagens, inclusive pros apaixonados por chá

 

 

Artefatos do chá

“[…] Quantos mestres do chá devem ter cuidado de tal raridade durante todos esses séculos? Perto deles, que importância tem meu pai?

“Kikuji tentava afastar de sua mente a sórdida história que envolvia aquele chawan. O falecido Ota deixara-o de herança para sua esposa. A viúva presenteara o pai de Kikuji com ele. Depois de sua morte, Chikako apossara-se da peça. Nessa história, dois homens morreram e duas mulheres continuavam vivas, o que já era o bastante para classificar aquele chawan de peça da mais estranha sina.” (p. 32)

– Dizem que, quando um bule tem mais de cem anos, ele faz o chá de cor – então se obtém o melhor chá.

“ – As flores que colocarei não serão as tradicionais da cerimônia do chá. Parece-me triste ver um utensílio cerimonial afastar-se de sua função.

“ – Também eu penso em me afastar do chá.” (p. 89)

– Gosto particularmente da maneira como a palavra “chá” é utilizada, significando a totalidade da existência.

“ – Pretende realizar uma cerimônia?

“ – Não uma completa. É que eu acho uma pena não usá-lo como mizusashi, ao menos uma vez. Um utensílio de chá só mostra sua total beleza em conjunto com outros, não acha?” (p. 100)

– Numa cerimônia onde cada coisa e cada qual tem seu lugar preestabelecido, brincar de dar usos diferentes a certos utensílios mostra que as pessoas, nesta história como na história da vida, nem sempre desempenham os papéis esperados. No final, imperfeição e impermanência, objetivos perseguidos pelo chá, não se encontram senão na vida.

“ – Sua mãe usava as cerâmicas Raku em dias normais para servir chá, não é mesmo? Eram peças de Ryonyu, se não me engano.

“ – Sim. Mas ela dizia que não se devia servir o bancha ou o sencha naquelas cerâmicas. Sendo elas das cores preta e vermelha, não valorizavam a tonalidade desses chás. Para servir-se deles, preferia fazer uso do Shino.” (p. 124)

– Você nunca mais tomará um chá em qualquer caneca depois que perceber o quanto seu material pode desvirtuá-lo.

“ […] Ambos contemplavam o mizusashi de Shino. A peça, que servira de vaso de flores no altar da viúva Ota, agora era manipulada por Chikako. A filha que a herdara da mãe, por sua vez, a depositara nas mãos de Kikuji. O destino trilhado por aquele mizusachi parecia estranho, mas quiçá assim o fosse com todos os utensílios usados na cerimônia do chá.

“Durante os trezentos ou quatrocentos anos decorridos desde a sua criação, antes mesmo de a viúva se tornar proprietária dessa peça, quantas foram as mãos que nela tocaram?

“ – Colocado ao lado do ferro do braseiro ou da chaleira, a cerâmica Shino adquire ainda mais beleza – disse Kikuji para Fumiko. – Sem perder a imponência, é capaz de disputar com o metal.” (p. 129)

– Céus! Como estamos distantes dessa sensibilidade.

 

 

Flores

“Ao ficar só, avistou os botões de azaléia que brotavam no sopé da montanha. Foi o momento de respirar fundo.” (p. 35)

– Houve uma época em que havia mais azaleias plantadas no canteiro central entre as pistas da Avenida Visconde de Guarapuava, em Curitiba/PR. Naquele trânsito de um das principais artérias da cidade, elas eram um alívio.

“Kikuji passou por detrás dela, com o intuito de abrir a porta de vidro que dava para o quintal. Veio-lhe o suave aroma das peônias brancas dispostas no vaso sobre a mesa.” (p. 49)

– Não parece nada demais, um vaso com peônias brancas – mas até ser nomeado.

“Kikuji levantou-se e seguiu para a sala de estar, passando pelo corredor. Havia uma grande árvore de romã no quintal. Parou por uns instantes diante dela, tentando se acalmar.” (p. 64)

– Não temos mais como nos acalmar com árvores de romãs plantadas no quintal de nossas casas. Triste.

“ – Sua mãe era uma mulher muito gentil… Num mundo tão cruel com pessoas da natureza dela, sinto como se a última das flores tivesse murchado.” (p. 120)

– Flores: se não murchassem, não seriam apreciadas.

 

 

Deleites

“Ele não sabia que o prazer de uma mulher podia ser assim incessante, como a suave ondulação das águas do oceano.” (p. 41)

– Romântico.

“Não se tratava de pesadelos, antes, assemelhavam-se a um doce delírio que continuava a encantá-lo mesmo depois de desperto.” (p. 86)

– Isso recorda minha citação preferida de Shakespeare: “We are such stuff/ As dreams are made on; and our little life/ Is rounded with a sleep.” (The Tempest – A Tempestade)

 

 

Chaísmo

“Os mortos não impõem ética ou moral aos vivos.” (p. 91)

– Se você não se sentar com uma xícara de chá não alcançará esse ensinamento.

“Morrer é apenas uma forma de rejeitar a compreensão dos outros. Depois de morta, ninguém poderia perdoá-la.” (p. 95)

– Algo pra compreensão do livro: quatro anos após ter ganhado o Nobel de Literatura, o autor se suicidou. Era o único que restava de toda a sua família. E ainda mais: existe uma crença no Japão que, se se confeccionar mil grous de origami pensando no que se quer, aquilo é obtido.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro © 2014 tomando uma boa xícara de pu-erh

 

KAWABATA, Yasunari. Mil tsurus. Tradução Drik Sada. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

 

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