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Instruções à Cortázar – Carlyle Popp (coord)

Postado às 18:15 do dia 09/05/14

Deste livro sei a história toda. Senta que vou contar:

Primeiro se reuniram em minha casa 5 amigos, que se conheceram na oficina de criação literária que a Biblioteca Pública do Paraná (BPP) promoveu com o escritor (na época ainda não era imortal) Antônio Torres. Éramos eu, Nando São Luiz, Izabela Robell, Andressa Barichello e José Tucón. Então houve uma oficina com André Sant´Anna, da qual Andressa e Tucón participaram, e ficaram conhecendo Carlyle Popp. Tucón perguntou se Carlyle não queria participar de nosso grupo. Descreveu o sujeito como um advogado que já fazia oficinas e escrevia bem. Topamos. Tínhamos feito apenas um encontro juntos, ainda era época de receber novos membros.

No dia em que Carlyle tocou a campainha de casa, surgiu um atarefado advogado com terno e gravata claros, iPad a tiracolo e um conto sobre podofilia – sim, podo, com “o”. Recebeu bem as críticas, não se acanhou de pegar água na geladeira, café na térmica, estava dentro, portanto. Lá pelo terceiro encontro, eu, Iza, Carlyle, Nando e Andressa fizemos a oficina com Antonio Carlos Viana, também pela BPP. Um dos exercícios era escrever algo à maneira do “Instruções para Chorar” de Julio Cortázar. Entre os presentes, um ótimo texto apareceu, “Instruções para esquecer um grande amor”, de Giovanna Lima. Antes disso ainda teríamos eu, Nando e Iza nos encontrado numa oficina com Marcelino Freire, e ela procurava mais alguém que pudesse participar de nosso grupo. Pegou amizade com Giovanna através do Facebook e perguntou se a aceitaríamos nos encontros. Na reunião seguinte, depois de se perder usando GPS, Gio surgiu em casa, look alternativo, texto sobre lesbianismo. Pronto: éramos uma família literária. Mas ainda nos faltava um nome, sobretudo pra nos acharmos no meio dos vários contatos no Whatsapp. Os cinco primeiros acharam justo que fosse Monk, em homenagem a Antonio Torres, que nos fez escutar Thelonius Monk nos intervalos de sua oficina.

Talvez lá pela sexta reunião, depois que estava claro que sexo, taras e perversões diversas – com exceção da ficção científica de Tucón – nortearia a tônica de nossos textos, Carlyle dispara um email convidando-nos a contribuir com um conto para coletânea que homenagearia os 100 anos de nascimento e 30 do falecimento de Cortázar. Mas disparou do jeito lá dele, com pompa e circunstância, individualmente, sem que tivéssemos noção de que vários colegas estavam sendo convidados. Aí o projeto tomou forma. Tínhamos uma editora, a Juruá, um orçamento pra bancar a impressão, autores estreantes, outros já publicados topando o projeto. Levantamos nomes de autores veteranos que poderiam gostar de participar da antologia e três deles, com muito carinho, contribuíram: Antonio Carlos Vianna, quem nos inspirou em sua oficina, trouxe “Instruções para Morar em Curitiba”; Antonio Torres, então já eleito pra Academia Brasileira de Letras, com “Blues para Cortázar”; e João Anzanello Carrascoza, com quem eu já tinha feito oficina e de cuja obra sou absolutamente fã, com “Instruções para Observar Humanos”. De todos nós, possivelmente são esses três, junto com Carlyle, os que mais leram e amaram Cortázar; o contato com seus textos trouxe a carga afetiva que um livro-homenagem requeria.

Da primeira reunião ao lançamento do livro, no último dia 06 de maio, em Curitiba, se passou – se muito – uns 3 meses. A noite foi de puro amor, pois estávamos todos exultantes. Afinal, não é sempre que se encontra uma família literária e se estreia com a companhia de três estupendos autores, como Torres, Viana e Carrascoza. A mim, ficou a mais profunda sensação de gratidão. Como disse, estou felizinha felizinha da silva do-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó!

Abaixo a lista dos autores e o nome de seus textos e algumas melhores partes. Ficaremos prosos e formosos se ler o livro e nos contar o que achou.

 

Instruções para picar uma cebola – Andressa Barichello

Instruções para morar em Curitiba – Antonio Carlos Viana

Penalty: instruções ao goleiro – Carlyle Popp

Instruções para ter boas lembranças da vida – Eduardo Bettega

Instruções para fritar ovo – Gabriel Marins

Instruções para esquecer um grande amor – Giovanna Lima

Instruções para sonhar – Isabel Furini

Instruções para lavar lençol – Izabela Loures

Instruções para observar humanos – João Anzanello Carrascoza

www.instruçõesoparavenderlivros.com.br – José Tucón

Instruções para receita de falaz plumitivo – Lindsey Gracia Colle

Instruções para visitar recém-nascido – Majeda Popp

Instruções para dizer adeus – Marina Carraro

Instruções para ganhar um melhor amigo – Mayra Corrêa e Castro

Instruções para lavar as mãos – Monica Kukulka

Instruções sobre horas – Nando São Luiz

Instruções para a última madrugada antes do fim do mundo – Otto Leopoldo Winck

Posfácio: Blues para Cortázar – Antônio Torres

 

PS: Recentemente, um  novo membro aderiu ao Monk: uma garrafa de Dimple. Aceitamos porque nos disseram que seus conselhos nos fariam escrever melhor.

 

 

Esta estranha cidade em que habitamos

“Tema sobretudo as enormes lagartas que surgem ao longe, coleantes, nas longilíneas avenidas, como destemidos tanques de guerra, de onde você sempre saltará como se tivesse saído de uma aula de contorcionismo.” (p. 22, do conto Instruções para morar em Curitiba)

“Quem disse que o sol desponta sobre Curitiba (ou Buenos Aires, ou Paris, ou Manágua), depois de uma noite de farra e risos e lágrimas, seria mais luminoso, mais feérico, mais literário?” (p. 89, do conto Instruções para a última madrugada antes do fim do mundo)

 

Não é o que parece

“Pegue-a pelos longos cabelos verdes […]” (p. 19, do conto Instruções para picar uma cebola)

“Algumas pessoas evitam fritar ovos para fugirem de um antigo dilema: gema mole ou gema dura.” (p. 37, do conto Instruções para fritar ovo)

“Não se aproxime muito dos humanos. Embora pareçam dóceis, podem inesperadamente lançar poemas sujos nos visitantes.” (p. 56, do conto Instruções para observar humanos)

“No entanto, sabemos muito bem que as mãos são cegas. Resta-nos pensar: ‘Lavar ou não lavar as mãos, que consequências trarão?” (p. 81, do conto Instruções para lavar as mãos)

 

É exatamente o que parece

“E quanto mais a idade avança, mais a pessoa aproveita as suas lembranças.” (p. 33, do conto Instruções para ter boas lembranças da vida)

“O primeiro passo para esquecer um grande amor é dizer não ao álcool.” (p. 39, do conto Instruções para esquecer um grande amor)

“Para entender melhor o que digo, acesse:

<www.meinkampf.com/auschwitztreblinkadachauchucrutsdehansvonkipermachenputz>.

<www.milhaodeamigos.com/abaixoassinado.contrabiografias?/compreessaideia!>.

<www.oncologiagraficaaoalcancedetodos.com.br>.

<www.poeascartasdamesa.com.br>.

www.souumbosta.com/naochegoalugarnenhum#naovejonadadebom?soueternoperdedor.” (p. 59-60, do conto www.instruçõesoparavenderlivros.com.br)

“Sogras são um caso a parte.” (p. 71, do conto Instruções para visitar recém-nascido)

“Deve-se treinar o próprio tamanho. Usar estratégias para aumentar seu diâmetro. Sentir-se maior, mais seguro, de forma que sua estrutura física preencha toda a meta. Incremente sua envergadura. Ser visto como merecedor dos desafios da vida, como maior do que se é, facilita o sucesso e aumenta sua estatura.” (p. 25, do conto: Penalty: instruções ao goleiro)

“Não é o relógio. Não é o sol. Houve sim um instante em que se acreditou estar nas contas do rosário a relação entre ser e estar, que nada mais é do que a gramatura ideal do que chamam tempo.” (p. 83, do conto Instruções sobre horas)

 

Aquilo que amamos se desfaz

“ […] e este mundo pode perdoar tudo: corrupção, mentiras, sorvete de morango sem morango, mas não perdoará nunca um sonhador.” (p. 44, do conto Instruções para sonhar)

“Sem escovar os dentes, olhos mais para orientais do que para ocidentais, botão de gás, fósforo, chaleira, filtro, pó, bule. Café.” (p. 50, do conto Instruções para lavar lençol)

“Dissolva uma pausa em uma porção de papel virgem, aos poucos acrescente tinta azul, ou a gosto, podendo ser vermelha para dar um sabor mais ferruginoso, verde, se for servir ao ar livre, ou ainda preta, se for uma reunião à luz de velas que poderá varar a noite.” (p. 65, do conto Instruções para receita de falaz plumitivo)

“A postura se ereta lhe influirá positivamente sob a pressão que vem do insuportável azul do céu.” (p. 74, do conto Instruções para dizer adeus)

 

Aquilo que amamos fica

“Júlio Cortázar não chegou a vê-los. Ele morreu em 1984. E perdeu dois bons momentos de jazz no cinema. Mas muitos de seus leitores ainda continuam por aqui. Nem que seja para ouvir um blues em sua homenagem.” (p. 84, do Posfácio: Blues para Cortázar)

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro © 2014

 

POPP, Carlyle (coordenador). Instruções à Cortázar: homenagem de cronópios, famas e esperanças. Curitiba: Juruá, 2014.

 

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