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Feia de rosto – Arthur Miller

Postado às 11:00 do dia 06/12/12

Tendo sido casado, de forma desastrosa, com uma das mulheres mais lindas do mundo, Marilyn Monroe, Arthur Miller (1915-2005) escreveu a novela Feia de Rosto aos 77 anos de idade, décadas depois do falecimento dela. Ainda assim, as pessoas costumam associar o texto com a maturidade do autor no que se refere a entender como um casamento deveria funcionar.

A história narra a vida amorosa de uma mulher feia de rosto (e bonita de corpo), que, idosa, acorda ao lado do segundo marido, que era cego, morto em sua cama. O momento, que marca o final de sua luta em busca da beleza, serve de ensejo para que o narrador conte como foi seu primeiro casamento com um militante do Partido Comunista que acabou se alistando no Exército norte-americano para defender seu país contra Hitler e o contra o fascismo.

Graças à bela introdução à novela feita pelo jornalista Roberto Muggiati, somos situados sobre a questão política na vida de Miller, bem como de toda a sua geração, que viveu os extremos de um Estados Unidos preso entre a Depressão e o Macarthismo. Tudo isso serve como pano de fundo à Feia de Rosto, o que torna o texto saboroso, embora um pouco datado. Mas parece que não poderia ser diferente: Arthur Miller é uma das preciosidades da América e descobrir seu texto em meio a tanto lixo produzido e exportado por lá é como a própria trajetória dele, que descobriu um cérebro entre as curvas de Marilyn, e a beleza na insípida vida da personagem dessa novela.

 

 

Por quem nos apaixonamos

“Vencida pela fé abnegada dele ela ficava de alguma forma mais segura de si. Enfiando o braço sob o dele enquanto caminhava ela supunha que a maioria das pessoas casava não por um amor avassalador mas para encontrar justificativa uma na outra, e por que não?” (p. 64)

Feia de Rosto permite leituras em múltiplos níveis. O primeiro marido da mulher feia de rosto, Janice Sessions, é um militante do comunismo que teme o sexo. Ela, obviamente, não encontra a felicidade nos braços dele. Vem encontrá-la nos braços do segundo marido, um cego. É como se, depois que as utopias políticas se esfacelaram no pós-Guerra, pudéssemos ser felizes apenas à custa de fechar os olhos. Você pode ter amado o que lhe parecia certo e ideal e lindo, mas só será feliz quando amar a realidade. Essa me parece a mensagem do livro.

 

 

Desilusão

“Para ela, Stalin ter chegado ao ponto de ter contato com Hitler era como Deus fazer sexo, comer e peidar.” (p. 71)

– A melhor coisa que pode acontecer na vida de um ser humano é ele descobrir que deus transa, come e peida. Enquanto houver o sublime para nos cegar, não nos mobilizaremos por conta própria.

 

 

Casamento

“Entretanto, talvez fosse mais fácil para um casamento sustentar duas pessoas mentindo em vez de uma.” (p. 75)

– Pois é.

“Ela queria perguntar se ele era casado mas com certeza não poderia ser, não devia ser, alguma coisa nele era profundamente organizada e não refém de algo ou de alguém.” (p. 104)

– É uma visão bastante pessimista do casamento.

 

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

MILLER, Arthur. Feia de rosto. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009 (coleção Sabor literário)

 

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