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Crônicas para ler na escola – Carlos Heitor Cony

Postado às 10:00 do dia 02/02/13

A gente está tão acostumada a ler e ouvir Carlos Heitor Cony (1926) na grande mídia, que talvez nem desconfie de um detalhe saboroso em sua carreira de imortal da Academia Brasileira de Letras: ele esteve por trás de Dona Beija, novela que a finada TV Manchete exibiu em 1986 com Maitê Proença em papel homônimo. Qualquer pessoa que tenha tido a ideia de Dona Beija merece nossa admiração eterna. Eu tinha 13 anos de idade em 1986, e tudo que havia na TV passava na Globo. Até que nos vimos eu, minha mãe e minha avó pegando a estradinha Ubatuba-Caraguá para estacionar o carro no acostamento de um trecho onde era possível sintonizar a rádio que transmitia o áudio do episódio de Dona Beija daquela noite! É, meu caro, naqueles analógicos anos, esse era o jeito de não perder o capítulo de sexta-feira.

O que quero dizer é que a prosa de Carlos Heitor Cony tem a graça de quem adora tomar caldo-de-cana, com a sofisticação de quem o faz de um jeito diferente, misturando com lichia orgânica, por exemplo. Daí a editora Objetiva o arregimentou para a coleção Para Ler na Escola, que já teve outros escritores tarimbados, amealhando 49 crônicas cujo tema são, em grande parte, as memórias de infância e os assombros da terceira idade. Resultado: yammy!

A certa altura dos textos, Cony se desculpa de sua memória dar saltos, então aproveita e faz disso um método para o livro: episódios atuais o remetem para lembranças de quando sofria como garoto ou adolescente com dificuldades para se comunicar. Mas a graça que eu mencionava tem a ver com o fato de que, no alto dos seus 83 anos, quando escreveu Crônicas para Ler na Escola, Cony preferiu rir das desventuras com seu notebook, em vez de simplesmente abandoná-lo.

A seguir selecionei as partes que são as melhores pra mim.

 

 

Humor

“Ele conversou comigo mas não me convenceu. Achei um bocado difícil abolir a gravidade assim, sem mais nem menos, embora apreciasse o benefício resultante. O Paulo Francis, por exemplo, que andava pelos 60 e tantos anos, reclamava que ao tomar banho o sabonete sempre escorregava de suas mãos e era difícil resgatá-lo do ladrilho molhado, escorregadio como uma lesma oval e ensaboada. O bom Francis amaldiçoava a lei da gravidade com a mesma indignação do professor de arte acima citado.

Daí que estou pensando numa solução de meio-termo, acredito que mais viável do que a pura e simples abolição da gravidade. Seria o sabonete mágico. Uma luva na mão esquerda com um elemento metálico e, dentro de cada sabonete, outro elemento metálico. Poderíamos esfregar nosso corpo de alto a baixo, suas saliências e profundezas, sem necessidade de cairmos de cócoras e ficarmos catando o sabonete como certos goleiros catam seus frangos.” (de A tecnologia e o grito de Eureca, p. 35)

– Isso é muito engraçado. Tanta circunspecção pra ele acabar usando a palavra profundezas!

“Andei mais um pouco e vi um sujeito de seus 40 anos, até que razoavelmente bem-vestido, barba caprichada, não era uma mendigo em frangalhos. Gesticulava em todas as direções, dava bananas em todas as direções e xingava a mãe de todo mundo, incluindo a minha.” (de Camarão!, p. 81-82)

– Se você é da geração Y, talvez não saiba que gesto prosaico é esse, o dar uma banana. Veja no Google.

“A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicaram à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.

Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira.” (de Anatomia das segundas-feiras, p. 106)

– Cony foi entrevistado pelo jornalista Daniel Piza, e os melhores trechos do bate-papo saíram no livro Perfis & Entrevistas. Na resenha que fiz desse livro, catei uma frase lapidar de mau-humor  que o autor proferiu sobre a esquerda brasileira. Acesse a resenha para rir também.

 

 

Humor 2: cariocas

“O carioca é que nem os absorventes íntimos usados pelas mulheres naqueles dias: apesar de bem situados, não aproveitam o melhor da vida.” (de Teclas de acesso para entender o carioca (I), p. 127)

– Engraçado é que a piada (manjada) na boca do Cony parece menos boba.

“Os baianos têm vatapá, os mineiros têm os toucinhos, os gaúchos, o churrasco, cada brasileiro tem sua culinária folclórica. No Rio não há nada disso. Além das citadas coxinhas de galinha da Colombo, que o carioca reserva para os dias solenes (casamentos, batizados, aniversários especiais), do que ele gosta mesmo é de ovo frito. Sua comida é simples, sem elementos culturais, coisa rápida e alimentícia. A melhor é aquela que é paga pelos outros.” (de Teclas de acesso para entender o carioca (I), p. 128)

– Como é que pode, né, o local onde há os melhores restaurantes e lanchonetes natural raw gourmet do Brasil, também ser um local que surpreende pela quantidade de obesos na rua? Vai ver é essa tal comida alimentícia.

“Tirante mulher boa de bunda, ele [o carioca] não se deslumbra com nada.” (Teclas de acesso para entender o carioca (I), p. 128)

– Imagine na Copa!

 

 

Ofício: escrever

“E quando quisesse, poderia escrever o que sentia e até o que não sentia – escrever era coisa fabulosa. Melhor do que falar, porque quando se escreve é como se a gente falasse diversas vezes, primeiro consigo próprio, depois com os outros. Se houvesse outros.” (de O fogão e a chuva, p. 47)

– Detalhe inquietante haver outros.

 

 

Marcas na infância

“E aí está o problema que me ficou para o resto da vida: que pecados seriam esses de um menino de 7 anos? Muitos, sem dúvida. E hediondos. Sempre achei que é na infância que cometemos os piores pecados.” (de Confissões, p. 54)

– Sempre achei uma sacanagem fazer a primeira comunhão com tão pouca idade. Se o relacionamento com Jesus deve ser pra sempre, essa é uma decisão que a gente deveria tomar quando já pudesse responder por si próprio.

“O garoto jogava bola de gude sozinho, ou melhor, consigo mesmo, fazendo esforço para não roubar e não ser roubado. Em casos de dúvida, dava vantagem para o outro – que era ele próprio.” (de O gigante em coma, p. 77)

– Também fui criança quando não havia jogar contra o videogame. Eu era doida por buraco, e fazia minha mão esquerda jogar contra a direita. Não havia dificuldades, pois minha memória sempre foi uma lástima pra números. Cansei de dar cartas boas pra mão direita.

“Quando padre Cipriano mudava os paramentos na sacristia, colocando as casulas roxas no altar, as matas explodiam nas flores roxas que marcavam o topo das quaresmeiras. Era um mistério e, ao mesmo tempo, um deslumbramento. A natureza mandava na liturgia ou a liturgia é que mandava na natureza?” (de Heranças das Cinzas, p. 79-80)

– Como assombram a imaginação infantil! E depois vem o papa dizendo que Harry Potter corrompe espiritualidades imberbes.

 

 

A piora dos tempos

“Se tivéssemos galinhas em nossos apartamentos, talvez merecêssemos de volta o ladrão de antigamente. Sem galinhas para roubar, de que viveria um ladrão de galinhas?” (de Nostalgia das galinhas, p. 56)

– Permissão pra minha propaganda vegetariana: se nunca tivéssemos comido galinhas, teriam se criado os primeiros ladrões?

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

 

CONY, Carlos Heitor. Crônicas para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

Link para a versão e-book.

 

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