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Coisas frágeis – Neil Gaiman

Postado às 20:55 do dia 22/11/12

Talvez você assista novela, esteja casado e no sábado vai comer pizza com as crianças. Chega seu aniversário e você fica emocionado por ter ganhado a biografia do Jimmy Page, porque seus melhores amigos se lembraram do quanto você gostava do Led nos tempos de faculdade. Sua filha, curiosa, agarra a biografia de suas mãos e quando olha a capa diz argh! Porque você ama seu sorrisinho, concorda que o livro que ela ganhou do One Direction é bem mais legal.

Meu amigo, se sua prateleira está causando reações repulsivas em DNAs mais jovens, você precisa imediatamente acrescentar-lhe um fator hype: Neil Gaiman.

A primeira vez em que ouvi falar de Neil Gaiman foi numa oficina de crítica literária em que me sentei ao lado de universitários de jornalismo. Eles falavam o tempo todo de fanfictions e de Sandman. Para mim, Sandman era apenas o nome de uma música do Metallica (Enter Sandman, 1990), uma das que meu irmão ouvia ininterruptamente no quarto, a portas fechadas, quando tínhamos lá nossos dezessete anos. (Aliás, o Metallica também lançou um biografia.)

Na segunda vez, eu estava no lançamento de um livro de contos. Reencontrei os mesmos universitários e eles falavam apaixonadamente da edição especial da Sandman. Então eu já sabia que se tratava de uma história em quadrinhos graphic novel, criada em 1988, que tinha sido lançada no Brasil, numa edição especial, há dois anos atrás. Mas o nome de seu autor ainda me escapava e perguntei: “É do Neil… Como é mesmo o nome todo?” A resposta que ouvi, espontânea, ipsis literis, foi “Neil Gaiman, ele é bem hype.” Ok, mensagem captada.

Aí, fuçando nos novos livros que a Biblioteca Pública do Paraná adquiriu, topei com este Coisas Frágeis do hypado Neil Gaiman. Emprestei na hora. 

Coisas Frágeis é um livro de contos que reúne parte das histórias compiladas no volume original Fragile Things, lançado em 2006 por um selo da HarperCollins. (No Brasil, a Editora Conrad resolveu dividir o livro original em dois volumes. O Coisas Frágeis 2 também está disponível na BPP.)

Ele traz nove contos de fantasia escritos aqui e ali por Gaiman ao longo de oito anos. Contos de fantasia para adultos, tá? São narrativas que misturam mitos, realismo mágico e um bela dose de humor macabro. Se você é um desavisado que abre o livro, Gaiman trata de socorrê-lo explicando, na Introdução, qual foi o impulso criativo por trás de cada conto. Não que isso acrescente informações vitais para a compreensão das histórias: falar de seu processo criativo, perceba, acrescenta fruição à leitura, além de ser um ingrediente explícito em prol da tietagem.

O conto que abre o livro, Um Estudo em Esmeralda, é a investigação de um crime contra um membro da realeza britânica em tom Sherlock Holmes. Diverte.

O segundo conto, A Vez de Outubro, é quando os meses do ano resolvem se reunir para contar histórias. Outubro é halloween e daí você já imagina a história que vem.

Lembranças e Tesouros, o terceiro da fila, fala sobre taras sexuais. É um conto interessante, que traz à baila o insaciável argumento das sociedades secretas.

O livro segue com Os fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch, contando o sumiço de uma mulher após a apresentação de um circo fantástico.

O Problema de Susan relata o encontro entre uma jornalista e uma professora que têm em comum a revolta contra a morte. Dispense-o.

Então surge o título Golias, uma história que Gaiman escreveu para o site da pré-estreia do filme Matrix e te faz pensar que a trilogia é muito, muito, mais muito boa mesmo e não cansamos de revê-la.

Finalmente, chegamos aos três últimos contos do livro e que são os melhores: Como Conversar com Garotas em Festas, muito curioso, hilário, non-sense, sobre E.T.s; O Pássaro do Sol, uma história “meiga” escrita por Gaiman como presente de aniversário a sua filha de 18 anos (minto, não é meiga, é asquerosa, e fala – de novo – de uma sociedade secreta que faz banquetes com animais exóticos); e O Monarca do Vale, que integra a reescrita que Gaiman fez em torno do mito do herói Beowulf do folclore escandinavo.  Bacana se você conhece a matriz folclórica, senão você fica meio perdido.

Aliás, creio que fiquei perdida na maior parte das histórias. Não acho que Coisas Frágeis – apesar de ser um livro legal – seja um boa porta de entrada para a obra de Neil Gaiman. Talvez seja mais fácil iniciar por um de seus romances, como Deuses Americanos ou Os Filhos de Anansi. Ler Coisas Frágeis é como ver O Cálice de Fogo de Harry Potter e depois dar com o Cedrico virado em vampiro no Crepúsculo: você saca a atmosfera das histórias, mas não entende a relação de uma com a outra (ó céus!).

 

Pra não ficar devendo, pincei trechos melhores:

 

Escrever

“Escrever é bem parecido com cozinhar. Algumas vezes o bolo não cresce, não importa o que você faça, e em outras fica mais gostoso do que você jamais poderia ter sonhado.” (Introdução, p. 14)

– Sempre tive curiosidade de perguntar a escritores consagrados se já serviram um bolo embatumado porque os convidados estavam sentados à mesa. O que você acha?

“Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e ideias – abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas – , e o que poderia ser mais frágil do que isso?” (Introdução, p. 19)

– Duvideodó que ele próprio acredite no que disse.

 

 

Homens

“Ele a pediu em casamento, também, e ela não lembra mais ao certo por que recusara, aliás, nem mesmo se recusara. Ele era um jovem agradável, e tirou o que restava da virgindade dela numa praia espanhola, numa noite quente de primavera. Ela estava com 20 anos e se achava tão velha…” (do conto O problema de Susan, p. 97)

– Não sei o que pensar sobre tirar o que resta da virgindade dela… Descriçãozinha escrota.

“Debaixo da brochura há um exemplar de capa dura, com sobrecapa, de um livro que, no sonho, ela sempre quis ler: Mary Poppins Traz a Aurora, que P. L. Travers nunca escreveu em vida.

Ela pega o volume, abre-o no meio e lê a história que está à sua espera: Jane e Michael seguem Mary Poppins em seu dia de folga, até o Céu, e encontram o menino Jesus, que ainda sente um pouco de medo de Mary Poppins porque ela já foi sua babá, e o Espírito Santo, que reclama que seu lençol nunca mais ficou tão branco depois que Mary Poppins foi embora, e Deus o Pai, que diz:

– Ninguém consegue obrigá-la a fazer nada. Ela não. Ela é Mary Poppins.

– Mas você é Deus – responde Jane. – Você criou tudo e todos. Todos têm que fazer o que você diz.

– Ela não – repete Deus o Pai, coçando sua barba dourada permeada de fios brancos. – Ela, eu não criei. Ela é Mary Poppins.” (do conto O problema de Susan, p. 101-102)

– Fuçando na internet, descobri um livro que discute as personagens femininas na obra de Neil Gaiman. Acho que o trecho acima dá a entender por quê. (Em tempo, apesar de eu ter achado o conto um lixo, foi o único do qual extraí mais de duas citações.)

 

 

Fim do Mundo

“ – Se sobrevivermos até lá. Outro ataque começou há 15 minutos. Arrasou a maior parte da Austrália. Calculamos que ainda seja só uma amostra do verdadeiro ataque.

– O que eles estão jogando? Bombas nucleares?

– Pedras.

– Pedras?

– Arrá. Pedras. Asteróides. Achamos que amanhã, a menos que nos rendamos, vão jogar a Lua em nós.” (do conto Golias, p. 112-113)

– Aguarde como termina no dia 21 de dezembro de 2012.

“ (…) sei que jamais vou esquecer aquele momento, ou a expressão no rosto de Stella quando ela viu Vic [o garoto com quem Stella ia dar uns amassos na festa] se afastando às pressas. Até depois de morto vou me lembrar.

Suas roupas estavam amarrotadas, sua maquiagem estava borrada, e seus olhos…

Nunca deixe um universo furioso. Aposto que um universo furioso olharia pra você com aqueles olhos.” (do conto Como conversar com garotas em festas, p. 131)

– Assim que li esse trecho, que acho genial, pensei na passagem da Bhagavad Gita em que Arjuna vislumbra tudo que existe, existiu ou existirá dentro de Krishna. Avatares podem ser E.T.s, hein! que tal?!

“Ele havia imaginado a Escócia como um lugar de paisagens lisas, com colinas verdejantes, mas ali, na Costa Norte, todas as coisas pareciam recortadas e protuberantes, até as nuvens cinzas que rasgavam o céu azul-claro. Era como se os ossos do mundo estivessem à mostra.” (do conto O monarca do vale, p. 165)

– Neil Gaiman deve ter gostado tanto de ter criado a descrição “ossos do mundo à mostra” para essa parte da Escócia que a cita na Introdução do livro. De fato. É boa. Bem condizente com um fim de mundo.

 

PS: Talvez isso o divirta: Neil Gaiman acabou de fazer 52 anos. Somos todos, ainda, hypes.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

GAIMAN, Neil. Coisas frágeis. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2008, 1ª reimpressão.

 

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