Casa Máy > As Melhores Partes - Posts > crônicas > Bula para uma vida inadequada – Yuri Al´Hanati

< voltar

Bula para uma vida inadequada – Yuri Al´Hanati

Postado às 19:49 do dia 27/01/20

Curitiba tem seus escritores, aliás como toda capital de Estado que preze pelo nome. Anos atrás, estávamos bem melhores na fita, com dinheiro chegando até nossa Biblioteca Pública, que sob a direção de Rogério Pereira trazia muitas oficinas e eventos com escritores festejados em Jabutis, Flips e até mesmo na Granta. À distância – e ela só parece grande porque o desinvestimento em produção cultural caiu vertiginosamente no nosso Estado e em nossa cidade – , parece que vivíamos uma primavera literária na cidade. Um dos pontos de encontro era a editora-livraria-cafeteria Arte & Letra, que por esta época funcionava nos fundos de uma galeria de arte com fachada de pedra, e era o café escondido mais gostoso da região. A Arte & Letra mudou então duas vezes, ainda é um point cult e cool, já ganhou prêmio local de melhor cafeteria, mas realmente aquela excitação literária de uns anos atrás passou, ou eu que estou sem tempo.

Tem uma galera, contudo, que continua escrevendo, publicando, cada vez melhor. Muitos, considero, alcançaram maturidade em seus gêneros, como é o caso de Luís Henrique Pellanda, um cronista elegante, com humor quase britânico, com temas que ficam entre o lirismo do dia a dia e a inevitável deterioração da vida. E tem Yuri Al´Hanati, jornalista de formação, cartunista, amante de vinhos e de literatura russa, um daqueles caras doces com visual de cara durão. Seu canal no You Tube, o Livrada!, tem como cenário de fundo uma estante de livros, e é sempre um pouco angustiador saber que eles vão ocupando todos os espaços que não temos em casa. Yuri nunca é muito óbvio em nada, e suas coberturas em vídeo da Flip sempre são as mais divertidas e interessantes. É um pouco irritante o quanto ele conhece de literatura, porque a gente sempre conhece menos. Mas ele também é daqueles caras educados e que não desdenham nem a ignorância nem o sofrimento alheios. Por isso, tudo que escreve parece tão autêntico. Fossem as crônicas de Bula para uma vida inadequada apenas referências de sua bagagem cultural, seria de um esnobismo intragável. Fossem apenas o desfilar de suas dores de jovem adulto, seria apenas um blogueiro contando o que faz, o que come, onde trabalha, quando chora, quando pouco sorri. Quem se interessa? Não é nada disso a coletânea e tenho certeza de que não é apenas o sucesso de seu canal que faz com que o livro venha figurando como mais vendido no site da editora Dublinense. É porque o livro é muito bacana.

A comparação que farei é inadequada, mas se a vida já o é, por que me omitir? Quando li este livro, me lembrei regularmente do filme Letra e Música (2007), que conta a história de como Drew Barrymore traz de volta ao sucesso a carreira do músico quarentão Hugh Grant. A história do filme não tem nada a ver com o Bula para uma Vida Inadequada, por isso a inadequação. O que me fez lembrar é algo que a personagem de Drew fala ao personagem de Hugh quando ele está compondo uma nova canção e, enferrujado, fica em dúvidas se ainda é capaz de criar sucessos. Ela responde que sim, que a canção que ele está compondo é boa pois tem muitas “surpresas melódicas”. Yuri escreve trazendo muitas surpresas linguísticas. Entretanto, pensando agora, talvez a atmosfera do filme, generosa e empática com o fracasso, nostálgica com o sucesso que achamos que teremos quando somos mais jovens, e esperançosa com os sonhos que ainda podemos concretizar, tenha me recordado um pouco os temas das crônicas. A vida é dura (o cara é durão), mas conhecer as próprias fraquezas, entendendo que são nossas e de todos, empresta à vida uma certa doçura (o cara é um doce).

Das crônicas, uma em especial quero mencionar, não porque eu acho a melhor do ponto de vista literário, mas porque trouxe um insight que me inspirou: Anatomia da Ansiedade. Ela descreve uma crise de pânico, a falta de ar característica e a loucura a que chegamos graças à nossa mente. Até que, em algum momento, nosso corpo toma as rédeas e devagar dissipa a crise, cônscio de que a mente sucumbiu. A frase que me inspirou, “Nos sentimos estúpidos, mas momentaneamente medicados pelo corpo” (p. 37) resume muitos anos de terapia, muitos anos de medicação psiquiátrica. Quando a li, fui um daqueles momentos que sentimos que escritores estão sempre muito à frente de nós pra explicar o que quer que seja, mesmo que seja algo com que lidemos profissionalmente (no meu caso, atendo pessoas com crises de pânico usando aromaterapia).

Yuri não sabe, mas peguei esta sua crônica e fiz uma citação dela na palestra que dei no congresso Conaroma Experience 2019 em Florianópolis. Sou-lhe muito grata por ter me inspirado pra esta palestra, na qual consegui cristalizar numa ideia (com começo, meio e fim) o que penso da psicoaromaterapia. Não tenho certeza se conseguiria se não tivesse lido o texto. Merci, mon cher!

Abaixo, algumas citações comentadas.

“Emprego, família, casa própria e algum livro do Baudelaire entre as estantes não é nenhum absurdo, pois.” (em O fracasso e a arte do fracassado, p. 16-17)

– Nunca foi. Também tenho Baudelaire em casa. Absurdo é você ter todos os russos 😛

“A cronista Marleth Silva disse uma vez que mudar de cidade é como trocar de pele. Especialmente, mudar para uma cidade maior traz a alegoria para mais perto da realidade. Ou pelo menos assim queremos: a vila-exoesqueleto que deixamos para trás ainda pode servir para o corpo dos que ficam, a incerteza de se estar grande para ela até o derradeiro mistério da saída. Do mesmo modo, voltar à cidade que um dia foi tão familiar quanto a própria vida causa um efeito contrário: experimentamos uma roupa que não cresceu como nós.” (em A velha pele, p. 113)

– Tenho certeza de que quando voltar à cidade onde cresceu você se lembrará de chamá-la exoesqueleto. A minhã não poderia, como a Parati de Yuri, pois já era bem maior. São José dos Campos, entretanto, é uma cidade que cresceu sem crescer, pois tudo que ocorre nela continua em função da Dutra: o anel viário é pra atravessar melhor a Dutra, os shoppings novos são à beira da Dutra, os bairros novos têm acesso à Dutra. São José é uma cidade onde as pessoas ficam pra passar de uma margem a outra da Dutra. E assim todo o Vale do Paraíba.

“Sei muito bem que estou longe de estar sozinho em meu gosto pela solidão e pelo silêncio. Somos muitos, e um dia seremos milhões. Se tudo der certo, jamais precisaremos nos unir para que ouçam nossas demandas sussurrantes. (em O som do silêncio, p. 148)

– Há dilemas impossíveis e lembro que um dos filósofos do liberalismo disse isso, não sei se Hume ou se Locke, ou qualquer outro que tenha se aventurado pela matemática. Dilemas impossíveis são não-dilemas, como quando anarcocapitalistas, no mundo atual, têm que fazer lobby pra diminuir a presença do Estado, ou quando veganos precisam comer o Rebel Whopper da Burger King pra que opções veganas não saiam do cardápio. Por isso gostei tanto deste trecho, que conversa  com a necessidade atual de minorias se fazerem representadas. As pessoas ainda não sabem, mas há minorias que preferem continuar assim, sem voz alguma. Deixe-as em paz.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar, por favor, cite a fonte. É algo simpático e eu fico agradecida.)

 

AL´HANATI, Yuri. Bula para uma vida inadequada. Porto Alegre: Dublinense, 2019.

 

Posts Relacionados

Comentários

Assinar Newsletter