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Blended – Michael B. Horn e Heather Staker

Postado às 20:14 do dia 09/06/19

Balbúrdia, fim do Fundeb em 2020, fracasso no PISA, 2 milhões de crianças e adolescentes fora da escola… Parece que não sabemos – pior, parece que nem pretendemos fazer nossa lição de casa quando o assunto é educação. O velho mantra que deveria ter tirado o Brasil da situação grotesca de desigualdade e baixo desenvolvimento sociais – educação, educação, educação – está já com 25 anos de atraso. Com uma moeda sob controle desde 1994, nenhuma desculpa mais poderia ter sido dada. E, no entanto, tantas são.

O desafio educacional não é mazela exclusiva do lado de cá do Equador. Com honrosas exceções mundo afora, é global. Então vem a tecnologia, este nosso fetiche eterno, como porta-voz de soluções definitivas. Se estamos no século XXI, as salas de aulas parecem não ter saído do XIX, baseadas em exposições conteudísticas desconexas da realidade de crianças e adolescentes que acessam o mundo através da internet de seus celulares. Neste contexto surge o ensino híbrido – blended learning – como forma de trazer inovação a uma área carente delas.

O contexto da leitura deste livro foi uma enquete que fiz em meu Facebook: “Quem definia carga horária de uma disciplina, o professor ou o aluno?” Eu achava (ainda acho) que seria o professor e nisso boa parte das pessoas concordou comigo, embora aquelas opiniões de centro – “são ambos” – tenham aparecido. No entanto, uma colega levantou a voz pra dizer que era o aluno, e que eu deveria ler o livro Blended: Usando a Inovação Disruptiva para Aprimorar a Educação. Foi o que fiz, pois não desperdiço dicas de leituras.

A ideia central do ensino híbrido, que é o ensino que mistura estratégias tradicionais com estratégias online que permitem ao aluno estar no controle do seu ensino, é que ele representa uma inovação disruptiva em educação. E por quê? Porque 1) ele nasceu atendendo o público que não consome educação de qualidade: pessoas que estão nas parcelas com menos oportunidades na sociedade. Inovação disruptiva é aquela que atende um mercado que não consegue ser atendido pelas soluções usuais; e 2) ele nasceu colocando a aprendizagem centrada no estudante, por mais óbvio que isso possa parecer, pois a única razão do ensino são os alunos.

O livro então se desenvolve como um manual que visa ajudar gestores e professores a pensar nos fracassos que enfrentam em suas salas de aula, em suas escolas, e fazer a reflexão e o plano de ação necessários pra encará-los usando estratégias híbridas de ensino. O fracasso em oferecer educação de qualidade a estudantes de todos os estratos sociais, e sobretudo àqueles que estão mais na base da pirâmide, afetados pela vulnerabilidade de seu meio social e familiar, quando não, frequentemente, pela cor de sua pele, cria desafios às escolas que são de três níveis:

  • Personalizar o ensino, porque o modelo industrial de ensino já se provocou incapaz de criar aprendizado real;
  • Ampliar o acesso ao ensino, ainda mais quando estudantes olham para um mundo globalizado e se questionam: por que o local onde eu nasci deve limitar minhas ambições?; e
  • Controlar os custos da oferta de ensino, uma vez que todos os governos começam lidar com pressões orçamentárias cada vez maiores.

Quem não trabalhar com educação deve ficar entediado com a leitura após os capítulos iniciais, que é quando os autores Horn e Staker abordam mais teoricamente a inovação disruptiva e o ensino híbrido. Depois de apresentarem os temas, o livro segue trazendo exemplos de ensino híbrido ao redor do mundo, trazendo pro dia a dia escolar o que deve e o que não deve ser feito pra escolas adotarem-no: como deve ser a sala, como se deve lidar com professores que ficarão com medo de perder seus empregos, que tipo de software escolher, de hardware etc.

No entanto, tenho certeza de que fica bem claro, ao final da leitura, que distribuir tablets a alunos sem ter a menor estratégia do que fazer com eles não é a solução pra educação brasileira. A tecnologia não deve ser implantada apenas pra ser implantada: trará frustração, gastos desnecessários, e anos perdidos. Outro ponto fica bastante claro: não é mais possível não permitir que os alunos decidam como, quando e o quanto estudar – porém, não é uma opção abandonar alunos que se dão muito bem estudando como, quando e o quanto professores determinarem que estudem. O que leva à enquete que fiz em meu Facebook: quem define a carga horária de uma disciplina é o professor?

Após vencer as 292 páginas deste livro (e, na realidade, neste ano me matriculei numa pós-graduação em Educação e Novas Tecnologias), eu ainda penso que sim, que é o professor quem define a carga horária de uma disciplina. Se entendermos que carga horária é a quantidade de conteúdo que um professor disponibiliza ao aluno dentro da circunscrição de um projeto ou de uma disciplina, e que a carga horária se sustenta em cima de competências de aprendizado que o aluno deverá desenvolver, este balizamento sempre será dado externamente – pelo menos enquanto falarmos de crianças e adolescentes. Se um estudante desenvolver aquela carga horária em menos tempo ou em mais tempo, ele sempre terá consumido o que previamente foi estabelecido pra ele consumir. Deixar que o aluno aprenda em seu ritmo e com a metodologia que lhe for mais adequada não é sinônimo de ausência de controle sobre o tempo. Os adolescentes ainda precisam, numa certa idade, sair da fase escolar pra entrar na fase profissional. Este é um fato da vida. As pessoas entram na fase profissional de suas vidas sabendo ou não sabendo ler, sabendo ou não sabendo raciocinar, sabendo ou não sabendo interpretar e tirar conclusões. É melhor que entrem sabendo – ou o ensino híbrido será mais um fetiche, daqueles que encobrem a realidade da vida, daqueles que seduzem por nos fazer acreditar que a vida tem a obrigação de ser justa e fácil.

Ao final da leitura me vi pensando que a tecnologia sempre se apresentou à humanidade como uma solução. Se temos um problema, existe uma tecnologia pra ela. A roda, a ponte, o papel, a bomba hidráulica, o motor à combustão, o telefone, a internet. Tendemos a acreditar que usamos a tecnologia como solução. Mas e se a tecnologia for na verdade um desejo? E se a tecnologia não for necessária, mas nós é que tenhamos necessidade de tecnologia? Neste caso, estaríamos discutindo blended learning como uma resposta para a aprendizagem centrada no aluno? Pais ensinam filhos da forma mais analógica possível e são bastante exitosos em transformá-los em pessoas autônomas. Desconfio que o êxito esteja porque colocam os filhos no centro de todas as estratégias de que lançam mão (em vez de nas tecnologias de que dispõem). Quando temos a orientação certa, toda a tecnologia que desejamos é bem-vinda, e muitas vezes ela passa a ser essencial; porém, quando não temos a orientação certa, desejar tecnologias é apenas uma distração, com o risco de acharmos que ela é necessária.

Abaixo seguem citadas algumas melhores partes.

 

” Como Eric Hoffer comentou: ‘Em uma época de mudanças drásticas, são os que têm capacidade de aprender que herdam o futuro. Quanto aos que já aprenderam, estes descobrem-se equipados para viver em um mundo que não existe mais.” (p. xviii)

– Um alerta pra não ficarmos deprimidos ao ler isso: o mundo é muito vasto e muito díspar. Sempre haverá um lugar e uma situação onde o que você sabe poderá ser usado. Mas a tendência é que neste lugar e nesta situação você ganhe os piores salários.

“A maioria das crianças necessita de um lugar seguro fora de casa para estar durante o dia, enquanto seus pais estão ocupados. Na verdade, uma das principais funções que as escolas desempenham é puramente de custódia – cuidar das crianças e mantê-las seguras.” (p. 33)

– Quanto cinismo evitaríamos no debate sobre a educação salvar o mundo tendo isso em mente.

“A regra geral é que as pessoas projetam híbridos para tornar os clientes atuais mais felizes, não para servir àqueles cuja alternativa é nada. Esse é um dos sinais de certeza de que os híbridos são um tipo de inovação sustentada.”

“As inovações disruptivas bem-sucedidas não desafiam o sistema estabelecido; na verdade, elas encontram um mercado alternativo que as valorizem pelo que são.” (p. 72)

–  Quando comecei dar aulas de aromaterapia pela internet, as pessoas diziam que cursos online eram inferiores aos presenciais (não são, mas deixemos esta discussão de escanteio). O que eu lhes dizia é que, pra muitas pessoas que moram em cidades onde não há cursos de aromaterapia, a alternativa seria o online, ou nada. Hoje, curiosamente, as pessoas tratam cursos online de aromaterapia como o padrão e ouço pessoas se queixando de não haver cursos presenciais em suas cidades. Curioso, né?

“Como o ensino on-line ajuda os estudantes a saber, as escolas devem ser capazes de se focar, cada vez mais, em ajudar os estudantes a fazer e a ser.” (p. 80)

– Saber nunca basta. O que se faz com o que se sabe é que interessa. Mas entenda que não dá pra pular a etapa de saber. Hoje, tenho impressão de que muitos alunos acham que sabem o suficiente, quando sabem nem o começo. Um professor que negligencia a avaliação do quanto o aluno sabe no presente, automaticamente limita o quanto o aluno poderá fazer e ser no futuro.

“Visto que as circunstâncias e as necessidades de aprendizagem dos alunos são tão diferentes quanto eles próprios, não existe uma única definição para o professor ideal.” (p. 166)

– Por isso, nunca se sinta incapaz: você apenas não achou o professor certo pra você.

“O fracasso rápido é um sucesso; a equipe descobriu que a ideia não funcionaria antes de desperdiçar muito tempo e dinheiro implementando-a.”(p. 266)

– E aqui você se lembra de A Startup Enxuta, de Eric Ries. Vale a pena uma folheada.

“Inovação é um processo, não um evento.” (p. 269)

– Depois de tantos cases de marketing e estudos de caso, é incrível que ainda seja necessário explicar que sucesso é 90% transpiração e 10% inspiração.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2019

 

HORN, Michael B., STAKER, Heather. Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação. Tradução Maria Cristina Gularte Monteiro. Porto Alegre: Penso, 2015.

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