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Alice e Ulisses – Ana Maria Machado

Postado às 22:22 do dia 15/07/12

Ana Maria Machado (1941) é a segunda das duas autoras brasileiras que ganhou o importante prêmio Hans Christian Andersen Awards (2000), considerado o Nobel da literatura infantil. Num país onde a literatura ficcional “séria” é majoritariamente de publicados homens brancos de classe média, Ana Maria vinga todo um gênero: além desse prêmio, já ganhou o Machado de Assis (2001), pela ABL – aliás, é a segunda mulher presidente da ABL –, um Jabuti de literatura infantil (1978) e já vendeu 19 milhões de exemplares em todo o mundo. A revista Harper´s Bazaar Brasil de maio/12 falou sobre a reedição de 20 títulos de sua obra pela editora Alfaguara até 2013:

A escritora Ana Maria Machado se sente como se tivesse duas filhas, uma linda e outra inteligente, e as pessoas só prestassem atenção na linda. “Eu diria: ‘Ei, por que você não olha para ela [a inteligente] também? Ela é ótima. Não se trata de carência, e sim de amor materno.” É com essa metáfora que Ana Maria (…) distingue duas faces de sua obra: a literatura infanto-juvenil e a adulta.

Por isso, atendi seu apelo: fui ler a filha inteligente. Escolhi Alice e Ulisses, publicado pela em 1983 pela Nova Fronteira, seu primeiro romance adulto. O exemplar que tive em mãos era de 1988, da Francisco Alves Editora, integrante do Programa Salas de Leitura/Bibliotecas Escolares, com distribuição gratuita pelo Instituto Nacional do Livro. Lembremos que, no Brasil, o governo foi e continua sendo o maior comprador de literatura. Fora essa curiosidade, outra é a capa do exemplar, com uma foto de Ana Maria novinha, magrinha, um cabelão à la Caetano Veloso lindo. Exemplar adorável: não fosse eu cidadã muito da certinha, surrupiava-o da Biblioteca Pública do Paraná.

Bem, o romance Alice e Ulisses é uma fábula de amor moderno, escrita em grandes blocos de parágrafos, com a fluência de quem, em 1983 – se não me enganei nas contas –, já tinha escrito 23 livros infantis. Como não poderia deixar de ser, a Alice remete à mesma de Lewis Carroll, e o Ulisses aos dois, o da Odisseia e o de Joyce.

O que ocorre na história? Alice e Ulisses se conhecem num coquetel, ela, mais nova; ele, mais velho – e apaixonam-se ali mesmo, naquela noite, aliás, naquela primeira cumprimentada de mãos, e têm um caso. Como ele é casado e ela é separada, há complicações previsíveis e um desenlace igualmente previsível. Então, cadê a graça do romance?

A graça está na fada madrinha: a narradora. Não, não está no livro que o narrador seja mulher, nem estou confundindo autora com narrador. É que a história só pode mesmo ter sido contada por uma fada (e não um fado) madrinha. Ela tem aquela cordialidade que concede um final feliz à princesa, mas não antes que ela passe por maus bocados, e tem aquela cumplicidade com a ética, que enxerga o certo dentro do limite da capacidade de cada um. Por isso, afirmo: é narradora e fada-madrinha.

Leia, leia mesmo, e fique com saudades de TV Mulher e Malu Mulher.

Abaixo estão as minhas melhores partes.

 

da cena do encontro entre Alice e Ulisses

“Mas só mesmo porque achava coquetel um pé no saco. Ficava sempre querendo fugir dos chatos e conversar um pouquinho mais com quem interessava, não sabia dar as rodadinhas para trocar de par na hora certa, esquecia de pegar guardanapo de papel para limpar a mão que ia ficando engordurada de croquete, e quando o garçom surgia com a folhinha salvadora, nunca tinha dedo sobrando, estava sempre ocupada com copo, salgadinho, tudo que disfarçasse as mãos, para elas não ficarem tão esquerdas e narigudas em movimento.” (p. 10)

– Acho genial essa descrição do comportamento de Alice no coquetel, porque marca uma primeira característica dos contos de gatas borralheiras: elas nunca se acham lá grandes coisas, mas o príncipe, quando a vê, identifica a maravilha que ela é. Leia abaixo como Ulisses a vê e concorde comigo:

“Prestava atenção era na voz dela. O canto das sereias devia ser assim. Não era só um timbre agradável, uma modulação harmoniosa. Eram as qualidades não auditivas que o envolviam. Uma voz quente, macia, temperada. Dava vontade de pegar.” (p. 17-18)

– Alice tinha sido casada com crítico de cinema e Ulisses é cineasta. Em alguns momentos no começo da história eles citam filmes. Num desses momentos, Ulisses testa o conhecimento da cinéfila Alice. A reação dele é otimamente descrita, naquele tom de fada marinha que antevê os sofrimentos de um e de outro porque sabe que isso não é o que atrapalha a história, mas o que a deixa justamente mais colorida:

“Ela riu, mostrando parte da gengiva superior. Em outra pessoa, talvez ela achasse feio. Achou lindo. E achou que ela estava mostrando mais, rindo da piada em si e da alusão ao Billy Wilder. Resolveu testar:

– Como é mesmo que esse filme chamava em português?

Nem precisou explicar. Resposta imediata:

– ‘Quanto mais quente, melhor.’

Deus do céu, porra, estava fodido. Uma mulher que punha ele nesse estado, deixava de garganta seca e olho ardendo dess amaneira, tinha a voz mais quente que ele já ouvira, andava como uma égua puro-sangue, tinha uma conversa que todo mundo ficava em volta querendo ouvir, e ainda conhecia cinema daquele jeito… “ (p. 37-38)

– Todas querem ser princesas. E uma princesa só se faz aos olhos do príncipe. Mas não se engane,  fábula é moderna e ela declara:

“Eu sou Alice. Esperar em Ítaca não está com nada. Eu quero é ir por aí.” (p. 113)

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

MACHADO, Ana Maria. Alice e Ulisses. Rio de Janeiro: Livraria Franciso Alves Editora, 1988.

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