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A um passo – Elvira Vigna

Postado às 13:00 do dia 27/08/12

O texto da orelha do livro diz:

A um passo recusa-se, ainda, ao que comumente se espera de um romance: ele pode ser lido tanto como uma narrativa sequencial, composta de capítulos curtos e concentrados, quanto como um conjunto de contos avulsos que se articulam num jogo entre o sucessivo e o simultâneo, onde cada peça se basta e se encadeia às demais, abrindo várias entradas e saídas no texto.”

Foi optando pela segunda maneira que li A Um Passo, romance publicado em 2004 pela carioca Elvira Vigna (1947), que também possui outros sete livros adultos e já foi autora de livros infantis, além de ensaios e traduções.

Para testar a teoria da autora da orelha, Maria Esther Maciel – que o livro poderia ser lido como contos – , abri primeiramente o 5º capítulo. Então li de 5 em 5 capítulos, até o 85. Voltei ao capítulo 2 e passei a ler de 2 e 2, pulando, evidentemente, os capítulos com dezenas cheias (10, 20, etc) por já os ter lido anteriormente. A experiência foi bizarra, mas os temas de Elvira e sua escrita também o são – estávamos empatadas.

Nessa altura, eu mais ou menos entendi o enredo da trama: tinha um assassinato, dois amantes estavam envolvidos, havia um casal gay, um caso de pedofilia. Quando eu deveria ter lido o capítulo 88, não li: não queria saber o final do livro. Por isso, voltei ao capítulo 1 e li todos os que faltavam: 1, 3, 7, 9, 11 e assim por diante, até chegar ao 88 e, depois dele, ao posfácio. Ah, finalmente as coisas fizeram mais sentido: tratava-se da história de vingança que uma menina do interior perpretava contra o antigo professor que abusava dela. Os demais envolvidos no crime (tinha havido crime?), eram apenas outras peças num tabuleiro de xadrez, funcionais, mas não responsáveis pelo xeque-mate. Este, o xeque-mate, só pude entender mesmo quando, lidas todas as páginas, reli aqueles capítulos múltiplos de 5, para terminar a leitura com uma certeza: Elvira não dá certezas e pra gostar do que se lê, tem que se gostar do estilo e dos temas, sempre aflitivos.

Mas acho que Maria Esther errou: mesmo na “dicção babélica” de Elvira, mesmo na ordem elíptica do romance, deve-se começar por uma das pontas – talvez a autora conte com este nosso hábito – o da linearidade – para dar conta da vida e das vidas que ela cria.

Abaixo transcrevo as melhores partes:

 

 

Enfado

“Não é só a bebida, o pó, o fumo, a vida inteira e mais uma porra de dia seguinte que sempre vem. Trata-se de fenômeno mais geral que atinge mesmo os sóbrios, os babacas, os que nunca pensam na vida, a humanidade inteira cada vez menos disponível para complicações.” (p. 16-17)

 

 

Morte/Vida

“Um fim. Fins são bons. Fim só acontece em ficção, nada na realidade tem fim, portanto um fim, quando acontece, significa que tudo que veio antes era ficção e é bom pensar a própria vida como uma bela e compreensível ficção.” (p. 28)

 

 

Abaixo da linha do Equador

“A sombra de um telhado oferece uma linha inclinada na paisagem. Outras inclinações, hesitantes, ficam por conta de postes que deviam ser cartesianos mas não o são, pois Descartes nos trópicos entorta. A culpa nem é de eventuais desastres de carro nas bases enferrujadas, mas da própria colocação deles, os noventa graus habituais sendo calculados no olho, um torto, o outro fechado, a ponta da língua de fora.” (p. 33)

– “pois Descartes nos trópicos entorta” é uma boa frase, não é? E não é que imaginamos mesmo o peão medindo a inclinação do poste fazendo a careta contra o sol que lhe bate nos olhos?

 

 

Interiorano

“Porque nestas cidadezinhas tudo é marrom, o marrom do solo subindo pelas pernas, pele das pessoas, pelas paredes das casas e tomando alento nos cantos das sarjetas, e os cachorros vadios e magros também são marrom, os pés dos meninos e os meninos e os calçõezinhos rasgados dos meninos, é tudo marrom.” (p. 34)

– Em Curitiba é o cinza que se tinta, mas não que nem São Paulo, pelo concreto. O cinza vem de lá, do céu que deveria ser azul no verão.

 

 

Complicações

“ ‘O que é?’

‘Não, nada, estou procurando uma coisa que eu perdi e que eu sei que não está aqui.’

Uma dessas coisas que se inventa para depois poder ter com o quê afligir na vida.” (p. 85)

– Lembra que as pessoas não têm disposição pra complicações? Pelo contrário! Viva a sarna pra se coçar, gente!

 

 

Urbe

“Ia ser domingo, o que se faz em um domingo. Haverá o barulho de um conserto ali na esquina, mesmo domingo, pois é fase de verbas. Quando as verbas acabam, interrompem, e por longos meses ficam os buracos transformados em lagos malcheirosos, e seus operários se sentam agachados na porta dos tabiques de madeira especialmente construídos para eles, não mais operários mas vizinhos, absorvidos pelo bairro. Mas agora não. Daqui a pouco haverá um silvo, a sirene avisando do começo da obra, e operários, ainda sob a luz bruxuleante dos lampiões feitos com querosene e latas vazias, passarão de lá para cá, com pressa, sem se falarem. E eles levarão, na cabeça e caindo por sobre seus ombros nus, sacos de estopa para proteção, como um capuz. E andarão para lá e para cá, um pouco curvados, sem se falarem, monges medievais a construir, não a unicidade espiritual do universo mas a perenidade universal das ações que se repetem. Como dízimas periódicas, obras de rua ou madrugadas.” (p. 94)

– Quando Elvira dá pra descrever o normal, é ótima.

 

 

A cidade da infância

“E percebe que é para isso que voltou, para ter certeza de que partiu.” (p. 117)

 

 

Calor

“(…) a chave caindo no meio de outros pontos brilhantes presos no asfalto, outras chaves, moedinhas que perdem valor a cada ano, tampas de garrafa, tudo semi-afundado no asfalto porque nos dias quentes não são só as coisas de metal que afundam, é tudo, o pé das pessoas, a vontade delas, em uma areia movediça, um pântano que inclui até o ar.” (p. 128)

– Apesar de vivermos num país sem invernos, o que ocorre que os efeitos do calor quase nunca são explorados nas tramas? Acho que precisa ser um escritor escrevendo fora do ar-condicionado para fazê-lo, como fazia Balzac, só que em temperatura inversa, em sua água-furtada.

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

VIGNA, Elvira. A um passo. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2004.

 

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