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A história do mundo em 100 objetos – Neil MacGregor

Postado às 13:04 do dia 11/06/20

O British Museum reflete a grandiosidade do Império Britânico, quando ele se lançou ao mar e conquistou colônias, rotas comerciais e objetos dos povos com os quais se relacionou.

É sempre dicotômico meu sentimento em relação a museus, pois ao mesmo tempo eles guardam nossa história, mas também mostram que ela foi roubada de várias formas : acervos, muitas vezes, vêm de pilhagens de guerra ou de revoluções.

O mérito deste livro é que seu autor não esconde este lado B dos museus, pelo contrário. Se há um mote neste livro é que a história é feita de vencedores e perdedores, seja em um tempo distante, seja modernamente.

Uma história do mundo, não importa com qual quantidade de objetos for contada, obrigatoriamente será grande. De fato, o livro possui 784 páginas e, como é feito em papel couché de 115 g, pesa. Em compensação, as fotos dos objetos selecionados são lindas e de grande qualidade. Algumas foram fotografadas em mais de um ângulo, quando necessário.

O autor dividiu o livro – a história da humanidade – em vinte partes: a primeira, com objetos tão antigos quanto aqueles encontrados no sítio arqueológico de Olduvai, Tanzânia, com 2 milhões de anos, e a última, onde vemos a imagem de um cartão de crédito, um dos primeiros emitidos em país muçulmano, de 2009 d.C.. Nas páginas finais, há mapas mostrando os locais de cada objeto selecionado pra obra. Chamará atenção, a brasileiros, que nenhum objeto selecionado tenha vindo de nosso país, embora existam objetivos selecionados da América do Sul. Considerando que o acervo do British Museum é sobretudo o acervo de uma nação, talvez seja compreensível que uma área tão absolutamente grande dentro da América do Sul, como a nossa, não tenha sido contemplada: não fomos especialmente colonizados por britânicos.

Este é um dos poucos livros que li ao longo de anos; precisamente, 4. Gosto de pensar que é necessário tempo pra assimilar nosso próprio passado, e por isso demorei tanto. Como foi uma leitura lenta, lembro-me pouco do que exatamente me chamou atenção em uma citação ou outra que grifei. Temos uma mania irritante de achar que nosso tempo deixará marcas na história – assim como nossas anotações na lombada de livros deixará marcas em nossa memória. Não deixam. A história é implacável em deletar marcas. As que sobrevivem, entretanto, confirmam nosso anseio de permanência.

Confira as melhores partes.

 

Globalização

“As múmias, para nós, talvez sejam quintessencialmente egípcias, mas o que se sabe agora é que teria sido impossível prepará-las apenas com os recursos disponíveis no Egito.” (p. 33 – Múmia de Hornedjitef)

– Múmias, o autor relata, traziam materiais de locais a centenas de quilômetros do Egito, como do Mar Morto e do Líbano. Nossa era é chamada de globalizada, mas sempre existiram globetrotters.

“É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se o apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico.” (p. 97 – Etiqueta da sandália do rei Den)

– Desconfie de governantes que anseiam por inimigos externos, e até mesmo os forjam.

“Os chineses ainda sabem que os melhores presentes são aqueles que só o presenteador pode oferecer. Na época da dinastia Han, eram a seda e as taças de laca. Hoje, quando a China quer estabelecer relações de amizade, ainda dá o presente que ninguém pode imitar – é conhecido como Diplomacia dos Pandas.” (p. 257)

– Presentes de gregos fazem parte daquilo que apenas o presenteador pode oferecer?

“Tanto o olíbano quanto a mirra eram muito caros. Uma libra de olíbano, ou o equivalente a 453 gramas, custava o equivalente ao salário mensal de um trabalhador braçal romano, e a mesma quantidade de mirra custava duas vezes mais. Portanto, quando os reis magos levam incenso e mirra para o menino Jesus, estão levando não apenas presentes dignos de um deus, mas presentes tão valiosos quanto o terceiro, o ouro.” (p. 332 – Mão de bronze árabe)

– A melhor história que já ouvi sobre o significado dos presentes dos Reis Magos – e não sei se ela tem fundamento fático – me foi contada pela professora de história e aromaterapeuta Telma Insuela, Ela disse que os magos levaram 3 presentes pois não sabiam qual deles seria aceito, e aquele que fosse aceito relevaria quem seria o menino que nascia na manjedoura: se aceitasse mirra, seria um grande curador; se aceitasse ouro, seria um grande rei; se aceitasse olíbano, seria um grande sacerdote. Como todos foram aceitos, souberam que Jesus seria um grande rei e um grande sacerdote e um grande curador.

Um bebedor de chá convicto e assumido, que por vinte anos diluiu suas refeições apenas com a infusão dessa planta fascinante, cujo bule mal tem tempo de esfriar, que com o chá alegra suas noites, com o chá traz consolo para as madrugadas e com o chá saúde a manhã.” (p. 660, citação de Samuel Johnson, escritor inglês, em 1750 – Conjunto de chá do início da era vitoriana)

– Amém. #tealover

“No passado os governantes costumavam ignorar suas dívidas e deixar que os bancos falissem, mas hoje em dia parece mais difícil deixar que um banco feche as portas do que impedir que um governo caia.” (p. 713 – Cartão de crédito)

– Ninguém escreveu melhor sobre como nos rendemos aos bancos que Milton Friedam em Livres para Escolher.

 

A cada época sua tecnologia de ponta

“O que você leva quando viaja? A maioria de nós apresentaria uma longa lista que começa com escova de dentes e termina com excesso de bagagem. No entanto, durante a maior parte da história da humanidade, só havia uma coisa de fato necessária em uma viagem: uma machadinha de pedra. Ela era o canivete suíço da idade da pedra, uma peça essencial de tecnologia com múltiplos usos.” (p. 41 – Machadinha de Olduvai)

– Superestimamos nossas próprias criações, mas poucas mereceriam estar em um museu. Aquelas que garantem nossa subsistência, como esta machadinha que servia para arrancar a pele de um animal antes de comê-lo, merecem.

“A confiança é, evidentemente, um componente-chave de qualquer moeda – é necessário confiar em seu valor declarado e na garantia que isso implica. Foi Creso [550 a.C., Lídia, hoje oeste da Turquia] quem deu ao mundo sua primeira moeda corrente confiável. O padrão-ouro nasceu aqui. E a consequência foi uma enorme riqueza.” (p. 195 – Moeda de ouro de Creso)

– Eu teria muita curiosidade de saber como um museu guardaria uma criptomoeda pra posteridade…

“O celular, ou mais precisamente o smartphone, é um bom exemplo [de como objetos tecnológicos mudam a forma dos humanos se relacionarem]. É mais ou menos do mesmo tamanho de uma tabuleta de argila da Mesopotâmia – que veio a ser o primeiro instrumento para a humanidade se comunicar a distância – e é um aparelho que mudou nossa capacidade de escrever, transformando a linguagem do SMS na nova escrita cuneiforme.” (p. 719 – Lâmpada e carregador a energia solar)

– Adorei que ele comparou SMS à linguagem cuneiforme. Também já vi uma comparação dos emojis com a hieróglifos.

 

O mundão no qual vivemos

“É um desejo de penetrar no mundo e de se sentir quase à vontade nele, num nível mais profundo, e isso a rigor é um impulso muito religioso, estar à vontade no mundo. Às vezes tendemos a identificar a religião com não estar à vontade no mundo, como se a coisa real ficasse em outro lugar no Paraíso; mas, se examinarmos as origens religiosas e muitos dos principais temas das grandes religiões, o que se vê é justamente o contrário: trata-se de como viver aqui e agora, de como ser parte do fluxo da vida.” (p. 51 – Rena nadadora)

– No hinduísmo, o desenvolvimento do tantra nos ensina sobre “estar no mundo”.

“O tabaco fumado na época [200 a.C. – 100 d.C., região dos atuais EUA] era a Nicotina rustica, que causa um elevado estado de percepção e tem efeitos alucinógenos: levando em conta que o fumante estaria olhando nos olhos da criatura esculpida no cachimbo, pode-se imaginar que ele entrava numa espécie de estado de transcendência, no qual o animal adquiria vida.” (p. 276 – Cachimbo norte-americano em forma de lontra)

“Nenhuma advertência de saúde dos governantes de hoje pode sequer se comparar à verve do grande Counterblaste to Tobacco (Contra-ataque ao cigarro), publicado pelo rei James 1, em 1604, poucos meses depois de ele vir de Edimburgo para suceder à rainha Elizabeth. O rei recém-chegado denunciou o hábito de fumar como ´um costume asqueroso para os olhos, odioso para o nariz, danoso para o cérebro, perigoso para os pulmões e, na fétida fumaça negra que exala, bem semelhante à horrível fumaça estigial do abismo sem fundo´.” (p. 277 – Cachimbo norte-americano em forma de lontra)

– Foi inevitável: pensei num aparelho de vaping com cabeças de animais acopladas, e um Counterblaste to Vaping.

“As religiões que hoje sobrevivem são as que foram difundida e sustentadas pelo comércio e pelo poder. É um paradoxo profundo: o budismo, a religião fundada por um asceta que desprezava todas as formas de conforto e riqueza, floresceu graças ao comércio internacional de artigos de luxo. As mercadorias valiosas, como a seda, iam com os monges e missionários […]” (p. 305 – Buda sentada de Gandhara)

– Quem sabe, quando percebemos que as melhores realizações humanas surgem do paradoxo, acabe-se com este fetiche da coerência.

“No entanto, enquanto em Roma o cristianismo logo foi imposto como a religião exclusiva do império, para os reis Gupta [Índia, 300 d.C a 450 d.C.]o culto dos deuses hindus foi sempre apenas uma das muitas maneiras de apreender e abraçar o divino. Aquele mundo parece se sentir à vontade com a complexidade, satisfeito por viver com tantas verdades e, de fato, por proclamá-las todas como parte oficial do Estado.” (p. 311 – Moedas de ouro de Kumaragupta)

– A mim me agrada também conviver com todas as verdades.

“Há cerca de 1.700 anos havia muito mais religiões no mundo do que hoje – e muito mais deuses. Naquele tempo, os deuses tendiam a ter responsabilidades estritamente locais, não a abrangência mundial com a qual estamos acostumados agora.” (p. 329 – Mão de bronze árabe).

– Ou os devotos eram mais modestos, ou o divino é que era.

 

A escritura da história

“Temos uma tendência a achar que a escrita tem a ver com poesia, ficção ou história, o que chamamos de literatura. Contudo, no início a literatura era, na realidade, oral – decorada para ser recitada ou cantada. As pessoas escreviam o que não conseguiam aprender de cor, o que não podiam pôr em versos. Assim, praticamente em toda parte, parece que os primeiros escritos diziam respeito a manter registros, a contabilizar ou, como no caso desta pequena tabuleta, a contabilizar cerveja.” (p. 123 – Tabuleta de escrita primitiva)

– Nunca me acostumo à importância que humanos sempre deram a bebidas alcoólicas. Pelo livro Aroma, a História Cultural dos Odores, aprendi que a primeira greve estudantil de que se tem notícia ocorreu porque aumentaram o preço do vinho. Mas o que eu queria trazer aqui é outra reflexão: se relegamos ao escrito aquilo que não podemos aprender de cor, o que manteremos em nosso coração, sem registros (pra sabermos apenas de cor), nesta era do digital?

“O problema para a compreensão dos celtas antigos é que estamos diante de um esteriótipo grego do século V, agravado pelo esteriótipo britânico e irlandês que surge muito mais tarde, no século XIX. Os gregos criaram uma imagem dos ´keltoi´ como um povo bárbaro e violento. Essa antiga tipificação foi substituída, há uns duzentos anos, por uma imagem igualmente fabricada de uma identidade celta mística meditativa, muito distante da realidade gananciosa do mundo industrial anglo-saxão: a romantizada Renascença céltica, de Ossian e Yeats. No século XX, tal esteriótipo contribuiu muito para moldar a ideia de Irlanda. Desde então, sobretudo na Escócia e no País de Gales, ser celta adquiriu outras conotações de identidade nacional construídas.” (p. 216)

– Apropriamo-nos. De legítimo, em nós, acho que apenas até onde podemos nomear na árvore genealógica.

“Em geral, a reputação dos mortos é mais estável e fácil de administrar do que a dos vivos.”

Quanto mais democrática uma cultura, mais difícil apropriar-se de um líder do passado.” (p. 237 – Moeda com a cabeça de Alexandre)

– Nós adoramos a democracia, mas ela dá muito trabalho.

“Cada geração acha que inventou o sexo, mas nenhuma acreditou nisso com tanta convicção quanto os jovens dos anos 1960.” (p. 697 – No vilarejo tedioso de Hockney

– Qual será a convicção que teremos nestas primeiras décadas do século XXI? O século XX acreditou firmemente em ter criado, mais que as outras, a globalização. E agora, qual será a nova crença.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar ou citar, mencione a fonte. É simpático e eu agradeço.)

MACGREGOR, Neil. A história do mundo em 100 objetos. Tradução de Berilo Vargas, Ana Beatriz Rodrigues, Cláudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013, 1ª edição.

 

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