Casa Máy > As Melhores Partes - Posts > autoras > A assinatura de todas as coisas – Elizabeth Gilbert
Publicado seis anos após Comer, Rezar e Amar, A Assinatura de Todas as Coisas (2013) é o segundo romance de Elizabeth Gilbert (EUA, 1969). É monumental: 515 páginas, 123 anos de história e personagens que viveram além dos 80 anos de idade para testemunhar um mundo que tanto expandia as fronteiras físicas, quanto intelectuais.
Entre os anos de 1760 e 1883, Liz Gilbert situa a história de Alma Whittaker, filha de um marujo que fez fortuna com pirataria botânica e comércio de plantas, e que acabou escolhendo os Estados Unidos para viver. É lá, em meio a debates científicos acalorados e uma educação incomum para meninas de sua idade, que o temperamento de Alma foi construído. Ciência e paixão conduziram-na pela vida, tendo se tornado o braço número um da companhia internacional de exportação da família, exímia botânica taxonomista e defensora da razão. No entanto, diferentemente do pai, que viajou o mundo, mesmo a bordo do navio do lendário Capitão Cook, Alma nunca saíra da propriedade da família, até que uma decepção amorosa, na idade em que já teria que ter se curado delas – se as tivesse tido – a faz viajar 22 mil milhas para o Taiti, onde finalmente descobre a lei para o estudo que vinha fazendo há anos sobre musgos, e que viria a ser uma lei que, surpreendentemente, também estava sendo formulada por Darwin, a da evolução das espécies.
Este romance tinha tudo para ser um fracasso. Inicialmente, tem-se a impressão de se estar lendo Verne, pelo entusiasmo com a revolução científica e pela fé no temperamento industrial da burguesia como propulsor da civilização, mas então se tem a impressão de ler Balzac, pelo escrutínio da alma humana e suas motivações. No entanto, falta ao livro, pelo menos até a quarta parte (são 300 páginas até chegar lá!), uma ação tão empolgante quanto às dos romances do primeiro, e por outro lado se avoluma a preocupação com o tema do misticismo, algo incomum ao segundo. Nem Verne se preocupava em criar personagens complexos, nem Balzac dava a mínima para reflexões de como encontrar Deus. Elizabeth tanto teve a preocupação quanto as reflexões, que ocuparam muito tempo no livro, talvez mais do que a paciência de um leitor que nunca segurou um romance do século XVIII poderia ter. Mas a autora sabe escrever – e é inventiva. E fez a lição de casa pesquisando tanto sobre botânica e história natural quanto possível. Isso nos leva diligentemente às últimas 150 páginas, que fazem mais pelo êxito do volume que todas as anteriores, e nos indica que a autora não poderia tê-lo escrito de outra forma: se a protagonista só pôde decidir o que queria da vida a partir de seu quarto vintênio, nada mais adequado que o romance lhe fizesse companhia.
É desconcertante que Elizabeth, depois do estrondoso sucesso de Comer, Rezar e Amar, tenha adensado sua escrita para longe das memórias engraçadas e do choro auto-indulgente capazes de arregimentar tantos leitores quanto consumidores devotados ao leit motiv das gerações X e Y, o “eu mereço”. Alma Witthaker aceita o sofrimento sem que um mestre yogi lhe diga que isso a tornará iluminada, e aceita a falta do amor de um homem não porque, como nós, tivemos antepassadas sufragistas, queimaram sutiãs e tiveram direito à pílula anticoncepcional: ela aceita porque sabe que é feia, e inteligente demais, e reclusa. Ela aceita os fatos, em vez de lamentá-los. De duas formas, A Assinatura de Todas as Coisas é mais maduro: o é na escritura, e o é na temática. É também um livro feminista, sem a necessidade de dizê-lo. Elizabeth aceitou o risco de concebê-lo, e quase fracassou. Mas venceu. Venceu basicamente porque nós, leitores, assim como ela própria e Alma, queremos muito que o caráter humano, pelo menos uma única vez, saia vitorioso contra os defeitos da vida.
Revisto por Mayra Corrêa e Castro (C) 2016
Continuidade da resenha, em 12/fev/2025.
Em 2021, reli este romance porque eu havia comentado sobre ele com algumas pessoas e todos se animaram de ler junto. Então, organizei 4 lives quinzenais pra avançarmos juntos sobre os capítulos e, quer saber, achei o livro melhor ainda que dá primeira vez. (Veja as lives no Instagram aqui, aqui, aqui e aqui.). Hoje, data de aniversário de Charles Darwin, fui retomar a obra, pra postá-las nas redes sociais do As Melhores Partes, e percebi que não selecionei citações dele. Problema resolvido, elas seguem abaixo.
Sobrevivência
“Aprendeu a arrancar a casca desgastada de uma árvore velha ou a deixar que ela fosse totalmente abaixo, sem sentimentalismo ou remorso, para forçar que a vida voltasse a ela durante a dúzia de estações vindouras.” (p. 19)
– Ontem ainda lia uma postagem da Associação Francis Hallé pela Floresta Primária sobre a necessidade de se deixar árvores mortas, caídas, em uma floresta. Contrariamente ao suposto, retirá-las não torna uma floresta mais limpa, mas pobre; não favorece incêndios, mas os previne já que costuma armazenar muita água; e não é uma madeira desperdiçada porque abriga muitas espécies. Me parece o oposto desta passagem citada.
“Como Beatrix Whitaker dizia com frequência, qualquer criança com idade suficiente para andar, falar e raciocinar devia ser capaz – sem ajuda nenhuma – de se reconfortar por conta própria.” (p. 73)
– O livro claramente se passa no século XIX.
“Em todos os aspectos, musgos podiam ser vistos como simplórios, chatos, modestos, até mesmo primitivos. A erva mais simples brotando da calçada mais humilde da cidade parecia muito mais sofisticada, em comparação. Mas o que poucos entendiam e o que Alma aprendeu foi o seguinte: o musgo tinha uma força inconcebível.” (p. 180)
– A modéstia sempre forja um caráter estável.
“Gostaria de passar o resto dos meus dias num lugar tão silencioso – e trabalhar num ritmo tão lento – a ponto de conseguir me escutar vivendo.” (p. 224)
– Que frase ótima, me escutar vivendo.
“As estações passaram, porém de má vontade.” (p. 302)
– Imagino que ninguém envelheça com boa vontade.
“Nunca tinha visto crianças tão soltas (…) Eles eram pequenino lordes da liberdade, e muito alegres, aliás. Como uma mistura mítica de peixe, pássaro e macaco, pareciam se sentir igualmente á vontade na água, nas árvores e na terra.” (p. 379)
– E achávamos que liberdade era ir a pé pra escola.
Mundialismo
“Preferiria cortar o braço a morar de novo na Inglaterra. O continente não o atraía: a França era cheia de gente irritante; a Espanha era corrupta e instável; a Rússia, impossível; a Itália, absurda; a Alemanha, rígida; Portugal, decadente. A Holanda, embora bem-intencionada em relação a ele, era maçante.” (p. 51)
– Sempre apreciei a capacidade dos autores exporem as opiniões mais impopulares na boca de seus personagens e saírem ilesos.
“A mobília chegou direto do Seddon de Londres, as paredes eram cobertas de papel belga, os pratos eram de louça cantonesa, a adega era repleta de rum jamaicano e clarete francês, os lustres eram de vidro soprado à mão em Veneza e os lilases que cercavam a propriedade haviam florescido pela primeira vez no Império Otomano.” (p. 55)
– Agora que tudo vem da China, como ficaríamos ignorantes se não fossem os produtos alimentícios e óleos essenciais, únicos em que a denominação geográfica ainda realmente importa.
” ‘Não existe desculpa para um rapaz com saúde e inteligência neste país não ser próspero. (…)’ “ (p. 221)
– O país, no caso, EUA no século XIX. Ainda é assim.
Espírito industrial burguês
“O dinheiro o seguia por todos os lados como um cãozinho entusiasmado.” (p. 57)
– Tive dificuldade de visualizar a imagem – o dinheiro não costuma me seguir nem de modo tristonho. Hahaha!
“Alma percebeu que o pai era impaciente com os funcionários, com as visitas, com a esposa, com ela mesma e até com seus cavalos – mas com as plantas jamais perdia a cabeça. Era sempre benevolente e indulgente com as plantas.” (p. 64)
– Há brutamontes que se vergam a pequenos cãezinhos; outros, a plantas – e há mesmo aqueles que declamam versos de amor.
“Alma adorava botânica cada dia mais. Não era tanto a beleza das plantas que a atraía, mas a ordem mágica que havia nelas. Alma era uma menina dotada de um entusiasmo por sistemas, sequências, arquivamentos e indexações; a botânica lhe dava inúmeras oportunidades de se entregar a esses prazeres.” (p. 90)
– Também percebo a magia, mas meu entusiasmo é pelo que a botânica encerra de alteridade sobre nós.
“Mas Alma, agora com dezesseis anos, revelou-se eficiente e entusiástica quanto à missão de pôr ordem na biblioteca de White Acre. Tinha uma sólida compreensão histórica do que estava do que estava manuseando e era uma catalogadora febril, diligente. Alma também tinha força física suficiente para carregar os pesados engradados e caixotes. Ademais, o clima estava tão ruim em 1826 que pouco prazer poderia ser obtido ao ar livre, e também não havia muita utilidade em trabalhar no jardim. Felizmente, Alma passou a considerar sua tarefa na biblioteca uma espécie de jardinagem em ambiente fechado, com todas as satisfações concomitantes de labuta muscular e desdobramentos fascinantes.” (p. 99)
– Meus livros, minha jardinagem interna.
“Fazia pouco tempo que lançara um produto novo, ‘Comprimidos Vigorosos Garrick & Whittaker’ – uma mistura de casca jesuíta, resina de mirra, óleo de sassafrás e água destilada, que prometia curar qualquer moléstia humana, de febre terçã e brotoejas empoladas a mal-estar feminino. O produto era um tremendo sucesso. Os comprimidos eram de fabricação barata e geravam um lucro constante, principalmente no verão, quando as doenças e a febre irrompiam cidade afora e todas as famílias, ricas e pobres, vivam com medo da peste. Mães tentavam curar qualquer coisa com o comprimido.” (p. 184)
– Continua tentando, mas hoje com gotinhas…
“Os musgos escondem sua beleza com uma discrição elegante. Em comparação com os musgos, tudo o mais no mundo da botânica parece direto e óbvio demais. Entende o que estou dizendo? Já percebeu como as flores maiores e mais vistosas às vezes parecem umas tolas burras que não param de babar – o jeito como balançam de um lado para outro de boca aberta, como se estivessem pasmas e indefesas?” (p. 213)
– Concordo com o pasmas, discordo do indefesas… mas quem sou eu? Prefiro as coníferas a quaisquer outras.
” ‘Quem é mesmo esse indivíduo aí’, o pai indagou, olhando para o novo convidado.
” ‘É o sr. Ambroise Pike’, disse Alma. ‘Como um disse mais cedo, ele é naturalista e pintor e foi descoberto recentemente pelo George. Faz os retratos de orquídeas mais lindos que eu já vi na vida, pai.’
” ‘Você desenha orquídeas’, Henry interpelou o sr. Pike, no mesmo tom de voz que outro homem usaria para perguntar: ‘Você rouba viúvas?’ “ (p. 220)
– Jesus, quem compara pintar orquídeas a roubas viúvas?! É hilário.
” ‘Ora, Alma – do que você tem medo? Mostre um pouco da audácia de seu pai, menina! Vá em frente e seja um terror para o mundo! Faça o canil inteiro latir perante uma polêmica, se for preciso. (…)’ “ (p. 476)
– É tão poderosa a imagem de um canil latindo, e tão significativa neste parágrafo. Entretanto, que tristeza é comentá-la sabendo que as pessoas apenas terão como referência de canil um raivoso X espumando pra cancelar o adversário da vez.
A educação que se recebe em casa
“Seu mérito como anfitriã consiste em demonstrar os talentos dos convidados, e não exaltar os seus.” (p. 94)
– Se nem mais os jornalistas deixam seus entrevistados falarem, que dirá os anfitriões de hoje…
“É hábito dos jovens ser egoísta.” (p. 170)
– E também tolos, daquele tipo de tolice que é irmã de um deslumbramento da própria potência.
“Ela se sentiu livre ao despejar ideias de suas criptas há muito abundantes em pensamentos secretos. Existe um limite de tempo para manter seus entusiasmos trancafiados no coração antes de almejar dividi-los com uma alma afim, e Alma estava várias décadas atrasada na divisão de pensamentos.” (p. 213)
– Participo de um grupo no whatsapp de tradutores. Toda vez que um novo colega chega, alertam-no: “não se assuste”. Há um motivo: as mensagens são escritas a centenas em um único dia de trabalho. Desconfio que a gente, que tem um trabalho muito solitário e muito pensativo, precisa demais tirar de nossas criptas nossos pensamentos.
Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2025