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A arte de ter razão – Schopenhauer

Postado às 17:01 do dia 25/07/20

A única razão de eu aproximar Schopenhauer (1788-1860) e Isabel Losada, escritora britânica já traduzida em mais de 16 línguas mundo afora, é que o título de um livro desta – Por que ter razão seu eu posso ser feliz? – conversa ironicamente com a tese deste clássico de Schopenhauer, que eu subintitularia “Pra que ser feliz se eu posso ter razão?”.

Claro, estou invertendo o sentido que ele próprio dá à razão, entendida como lógica, ie, “ciência das leis do pensamento”, sentido que ele quer separar de dialética, que seria a arte de debater”. Pra que ser feliz se eu posso ter razão é sinônimo de “pra que ser feliz se eu posso lacrar com minha opinião”.

Debater é certamente a arte mais ingrata neste início de século XXI, pelo menos diante das plateias ultrassensíveis que nos seguem nas redes sociais. Uma total perda de tempo. O twitter sepultou a lógica, sepultou a dialética e erigiu o que Schopenhauer chamou de dialética erística, a “doutrina do modo de proceder da teimosia natural ao homem”.

Há algumas edições deste livro. A que li é esta, da Edipro, com tradução de dois especialistas em filosofia e letras: Érica Gonçalves de Castro e Guilherme Ignácio da Silva. Traz comentários de Guilherme Marconi Germer e eles nos situam, na linha do tempo e na linha das heranças intelectuais, sobre quem foi Schopenhauer.

Entre os 38 estratagemas que são propostos pra se vencer qualquer tipo de debate, mesmo não tendo razão, está aquele que talvez seja o mais conhecido, o argumento ad hominem: quando não pode refutar a mensagem, refute o mensageiro. Conhecemos demais isso no dia a dia, quando dissemos que, a priori, nenhuma ideia boa pode sair de uma pessoa ruim. O fato é que não debatemos ideias – nós gostamos, mesmo, é de debater pessoas. Talvez mudemos, à medida que as ideias liberais, que costumam ser mais tolerantes com o dissenso que as ideias coletivistas, nos ensinarem que o melhor antídoto contra ideias ruins é fazê-las circular livremente, pois somente assim poderão ser refutadas, em vez de aprisioná-las numa redoma de enunciados politicamente corretos, fazendo com que esta sombra aumente cada vez mais nos submundos do inconsciente das massas, até que ela cresça a tal ponto que engolirá toda sensatez ao redor.

Abaixo selecionei algumas citações. Os estratagemas em si careceriam de mais exemplos pra ficar palatáveis e certamente há edições comentadas ou aplicadas dos mesmos que os aproximarão do leitor. Por isso mesmo, gostei mais da apresentação do livro e dos próprios anexos escritos por Schopenhauer.

 

Perenidade

[Schopenhauer] preferia escrever para muitos a ensinar para poucos” (p. 12)

– Schopenhauer experimentou a docência e, diante de um convite para continuar lecionando, preferiu escrever, dado que a docência, para ele, estaria ligada demais a interesses políticos e eclesiásticos. Hoje, quando um curso online nosso atinge milhares de alunos, ao passo que um livro é capaz de atingir apenas uma centena (e isso numa edição vitoriosa!), achei muito curioso que fosse exatamente o contrário há quase 200 anos. Então me lembrei de como professores muito famosos, como Foucault e Eco, por exemplo, acabaram tendo suas lectures transcritas para livros, fazendo com que suas mensagens alcançassem bem mais pessoas que suas aulas puderam alcançar. Convenci-me: escrevemos pra muitos, ensinamos apenas a poucos.

“A escrita, portanto, é o puro protótipo do pensamento.” (Apresentação, apud Schopenhauer, 1851; p. 25)

– Não a escrita espasmódica das redes sociais, por favor. Esta é protótipo de tudo, menos do pensamento.

 

A sua opinião sinceramente não me interessa

“A opinião – distingue Sócrates, em A República – é uma ´faculdade equidistante do conhecimento e da ignorância´. Mais especificamente, se a ignorância tem por correlato o não-ser, e o conhecimento , o ser, a opinião se dirige àquilo que está entre ambos, isto é, o que é e não é, ao mesmo tempo. Por exemplo: a beleza – o sofista Hípias ensina que uma mulher bonita é a que melhor a define. Esse argumento pode convencer a maioria dos ouvintes, mas, ao olhar de Sócrates, recebe a seguinte refutação: se comparada a uma bela panela, de fato, a bela mulher é mais bela; se, porém comparada a uma bela deusa, é mais feia. Logo, uma bela mulher é bela e feia ao mesmo tempo, de modo que tê-la como a definição de beleza persuade aos amantes da opinião, mas não aos amantes da filosofia.” (Apresentação, p. 20)

– Você sabe que eu adoro o Pondé. Gosto de pensar que, lendo este parágrafo, ele diria que uma bela mulher persuade homens, sejam amantes da opinião ou da filosofia, tanto faz.

 

Fisioterapia do saber

“Assim como a medicina deve, primeiro, remover os elementos destrutivos de nosso corpo, para só depois recomendar a saúde, a instrução também deve, primeiro, eliminar a tolice da alma, isto é, a ilusão da onisciência, para só depois ensinar a verdade.” (Apresentação, p. 21)

– Eu adoraria que Bauman pudesse comentar este parágrafo, pois eu duvido que haja um só millenial por aí que sinta haver algum resquício de verdade na Verdade.

“O debate, enquanto conflito entre cabeças é, sem dúvida, de mútuo proveito, seja para a correção dos próprios pensamentos, ou ainda para a criação de novos pontos de vista. Mas é preciso que ambos os oponentes tenham relativamente o mesmo grau de erudição e inteligência. Se a primeira falta a um deles, este não compreenderá tudo, não estará no mesmo nível de seu oponente (au niveau). Se é a segunda que lhe falta, a consequente irritação o levará a desonestidades, a artimanhas e (ou) a grosserias.” (p. 73)

“Consequentemente, de cem pessoas, haverá uma ou duas com quem vale a pena disputar. As restantes, que falem o que bem entenderem, pois desipere est juris gentium (soar incompreensível é um direito internacional), e devemos nos lembrar do que diz Voltaire: “la paix vaut encore mieux que la vérité” (a paz ainda é melhor do que a verdade). E diz um ditado árabe: “Da árvore do silêncio pendem os frutos da paz.” (p. 72-73)

– Sabedoria, depois de uma certa idade, é o prêmio pelo conhecimento, mas só se desfrutará dela quando se abrir mão conhecimento… a fim de ter paz.

 

Pra que ser feliz se eu posso ter razão?

“Se o ser humano fosse amante da verdade antes de tudo, então, todos os diálogos seriam honestos. As pessoas de menor conhecimento se dirigiriam aos mais sábios apenas como aprendizes; e as incapazes de certas cognições nunca se aprofundariam nas conversas que pouco entendem. Contudo, como o homem é arrogante e vaidoso por natureza; como suas paixões determinam seu agir muito mais do que sua razão, é mesmo a regra que nos diálogos ele se comporte de modo desonesto e os encare como batalhas em que vencer é muito mais importante do que conhecer.” (Apresentação, p. 24)

– Quando Felipe Neto começa a se tornar o antípoda de outro guru que também costuma ter opinião sobre tudo, você acaba concordando com o diabo, de que a vaidade é realmente o pecado preferido.

“Qual origem desta atitude [de querer vencer um debate]? Da maldade natural do gênero humano. Sem ela, seríamos honestos desde o princípio; em qualquer debate, não teríamos outro objetivo que não o de trazer à tona a verdade, sem nos preocuparmos se esta corresponde à opinião que apresentamos de início aos outros. […] A vaidade inata, particularmente sensível à capacidade intelectual, não quer que aquilo que apresentamos de início se revele como falso, e o apresentado pelo oponente, como correto.” (p. 34)

[…] é exatamente o que ocorre em uma disputa: se dou razão ao oponente assim que ele parece tê-la, dificilmente ele fará o mesmo quando o caso se inverter […] sendo assim, tenho de fazer o mesmo. É fácil dizer que devemos perseguir apenas a verdade, sem preferência por uma proposição: no entanto, não podemos presumir que o outro fará o mesmo.” (Nota de rodapé 3, pg. 35)

– Vaidade e ressentimento, pecados preferidos.

“Em suma, pouquíssimos conseguem pensar, mas todos querem ter opiniões.” (p. 65)

– Só há uma coisa realmente pior que ter opiniões: estar convencido de que é seu direito tê-las.

“Assim que este estratagema for colocado em prática, tornará todos os outros dispensáveis: em vez de agir sobre o intelecto por meio de fundamentos, devemos agir sobre a vontade pelo intermédio de motivações, e o oponente, assim como os ouvintes, caso tenham o mesmo interesse que aquele, são imediatamente conquistados para nossa opinião, ainda que esta tenha sido emprestada do hospício: pois, em geral, alguns gramas de opinião pesam mais do que 50 quilos de entendimento e convicção.” (p. 69)

– Ayn Rand escreveu 1.168 páginas pra nos incutir a ideia do homem racional. Basta 1 linha de desejo pra subjugá-lo.

 

Licenciatura e bacharelado

“As pessoas comuns, ao contrário, nutrem profundo respeito por especialistas de quaisquer áreas. Elas ignoram que não se segue uma profissão por amor ao assunto, mas pelo que ele rende; e também que aquele que ensina um assunto raramente o conhece a fundo, pois, quem o estuda a fundo raramente tem tempo de sobra para ensiná-lo.” (p. 64)

– As pessoas gostam muito de dizer que ensinam uma profissão apenas aqueles que não foram bons o suficiente pra exercê-la. Evidentemente, podemos refutar isso de várias maneiras, e penso que seria possível fazê-lo, também, na época de Schopenhauer. Quando nossa política educacional criou esta ideia de separar os cursos de licenciatura dos de bacharelado, penso que tornou mais árdua a tarefa de valorizar a docência – e de demonstrar que quem ensina não é aquele que fracassou ao exercer uma profissão, mas aquele que obteve sucesso na profissão de ensinar.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar ou citar, mencione a fonte. É simpático e eu agradeço.)

 

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ter razão. Tradução Érica Gonçalves de Castro, Guilherme Ignácio da Silva. Apresentação Guilherme Marconi Germer. São Paulo: Edipro, 2019.

 

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