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1922, a semana que não terminou – Marcos Augusto Gonçalves

Postado às 13:26 do dia 18/09/12

A melhor maneira de aproveitar a leitura deste livro é ter em mente como o escritor quis escrevê-lo:

“(…) um relato jornalístico que procurasse inserir os personagens numa rede de relações capaz de relativizar ou transcender simplificações do tipo futuristas x passadistas, modernos x acadêmicos, mocinhos x bandidos.” (p. 340)

Isso o autor conseguiu, não há dúvida. Escrito com fragmentos e mais fragmentos de citações retiradas de jornais, transcrições de entrevistas e livros de memórias escritos após a semana ou por seus protagonistas, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves (1956) consegue não emitir nenhuma opinião sobre o que foi ou deixou de ser a Semana de Arte Moderna. Isso é bom, porque abre espaço para que você tire suas próprias conclusões e mostra como nosso Brasil já tem arquivo suficiente para resgatar a memória de eventos culturais tão significativos de nossa história – , mas é ruim, porque a leitura pode ser tornar maçante.

Vai ler, de cabo a rabo, este 1922, só quem é morto de saudades por não ter nascido para ser contemporâneo do Grupo dos Cinco (Tarsila, Anita, Mário e Oswald de Andrade e Menotti), ou quem é assumidamente paulistanólatra, ou quem der aulas de português no Ensino Médio e quiser apimentar o tópico do modernismo na literatura brasileira mostrando aos alunos com quantos Rio de Janeiros se faz uma Semana de Arte Moderna em São Paulo. Sim, porque, em se tratando do que aprendemos sobre o evento aos 16 ou 23 anos de idade, no colégio ou na faculdade de Letras, sabemos miseravelmente pouco sobre a Semana – e o livro resolve bem essa ignorância.

Eu não tenho como transcrever aqui as melhores partes, justamente pelo motivo que expliquei, porque o livro já é uma teia de citações. Eu estaria citando o citado. No entanto, quero transcrever o parágrafo que conta como foi a primeira fala de Oswald de Andrade na Semana, sob vaias acachapantes da audiência de burgueses no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald foi meu herói literário tupiniquim na adolescência. Junto com Oscar Wilde e Mario de Sá-Carneiro, formava o triunvirato dândi cujas palavras eu lia enquanto descobria, na vitrola, os vinis roubados à minha mãe de João Gilberto, Vinícius e Tom. Sempre achei a antropofagia muito chique!

“Ali estava, diante da audiência excitada, o rechonchudo provocador, que no domingo torpedeara, nas páginas do Jornal do Comércio, o mestre das naturezas-mortas Pedro Alexandrino e o inatacável compositor Carlos Gomes. Enfrentava a turba o bem-criado filho de d. Inês, o ex-repórter do Diário, fundador de O Pirralho e de Papel e Tinta, protagonista da paixão escandalosa pela bailarina adolescente, parceiro de Guilherme de Almeida, acompanhante de Isadora Duncan em São Paulo, viúvo, in extremis, da sedutora Deisi, o Miramar da garçonnière da Líbero Badaró e da praça da República, o dissidente do Trianon, o descobridor de talentos, que lançara Mário de Andrade e Victor Brecheret.” (p. 297)

Tem como não amar essa descrição?

 

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

 

GONÇALVEZ, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

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