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101 Canções que Tocaram o Brasil – Nelson Motta

Postado às 08:00 do dia 20/01/20

Listas são ingratas – sempre se esquece de algo. Listas de músicas preferidas, são mais ingratas ainda, sobretudo se você for uma referência na área como Nelson Motta e souber que qualquer esquecimento pode gerar um desafeto. A saída deste craque, de quem sou fãzoca, foi usar a cronologia: amealhou 101 canções importantes de 1899 (Ô, abre alas, de Chiquinha Gonzada) a 2003 (À procura da batida perfeita, de Marcelo D2 e Davi Corcos). Mas quem se importa com uma lista quando o que se quer mesmo é ler o que Nelson escreve sobre as curiosidades, os bastidores, as fofocas e o contexto de famosas músicas brasileiras?

O único defeito deste livro delicioso é o riocentrismo. Perdoável, por óbvio, sendo a cidade do Rio de Janeiro o nascedouro de pelo menos dois gêneros que são a cara de nosso país: o samba e a bossa-nova. Desculpável, sendo o Rio de Janeiro, por bastante tempo (até que a locomotiva paulistana o ultrapasse na segunda metade do século XX), a capital cultural do Brasil. Mas quando a lista se aproxima dos anos 1980, época de explosão do rock brasileiro, em que São Paulo foi expressivo, já estamos no último quinto da lista, sobrando pouco espaço pra falar do que o país pós-redemocratizado ouviu. O autor corrige parcialmente este deslize no posfácio, relembrando uma infinitude de nomes de músicas que ficaram de fora, como Ritchie, que eu achei um sacrilégio não comparecer com sua Menina Veneno na lista oficial. E como pensar numa lista de canções deixando de incluir sertanejos e axé music? De toda forma, que isso não seja um desestímulo à leitura do livro, porque tudo que o Nelson conta, conta gostoso. No final, a leitura de 101 Canções que Tocaram o Brasil nos ensina de nossa cultura, de nossa história política, de nossas desigualdades sociais e dos esforços que sempre foram feitos pra que tenhamos um Brasil mais justo.

Outro ponto forte do livro, claro, são as imagens. Cada canção tem uma imagem. E se você nunca leu algo como Chega de Saudade, de Ruy Castro, ou O Poeta da Paixão, de José Castello, aqui está uma boa introdução a discografias-biografias. Da bossa-nova estão no livro todas as fotos mais icônicas, como a do Tom Jobim jovem, lindo, de pernas cruzadas tocando violão, que ilustra a canção Desafinado, ou aquela da “pirâmide” com Ary Barroso, Tom, Bôscoli e Carlinhos Lyra, ilustrando a canção Pra machucar meu coração, que sempre me deu vergonha alheia porque atrás dos moços está uma moça cutucando o rosto com a mão. Mas há fotos pra todos os gostos: da velha guarda do samba, passando pela Jovem Guarda, por fotos dos Festivais da Canção, da Tropicália, da MPB e do rock brasileiro de primeira e segunda gerações.

Ler este livro é também ficar com saudade – ou ficar no mínimo nostálgico. Pra mim, que tinha 10 anos quando Cazuza e Frejat disseram que era Pro dia nascer feliz, é saudade mesmo que bate, além de sorrisos marotos, como quando ouvi Inútil pela primeira vez no programa de auditório do Silvo Santos, ou quando ouvi ao vivo Renato Russo em São José dos Campos, cidade onde cresci, tocando pra pouco mais de uma quadra de vôlei cheia antes da Legião se tornar uma das bandas mais amadas de minha geração. Nesta época, quando a gente começa ouvir música pra valer, dos 10 aos mais ou menos 23 anos, qualquer música nos traz recordações suspirantes. Somos incrivelmente jovens, incrivelmente esperançosos, incrivelmente sem muitas preocupações financeiras, e amamos muito. Como uma música ouvida nesta época da vida pode não nos trazer aquela saudadezinha boa?

Um complemento ao livro – mas isso fica por sua conta fazer – seria criar um playlist com as 101 canções do Nelson Motta, e ir ouvindo à medida que se lê. Várias vezes abri o You Tube pra caçar as músicas mais antigas que não conhecia ou das quais tinha me esquecido. O livro fica bem mais saboroso. Ou, com sorte, você pode desengavetar alguns LPs ou CDs pra tocá-los. LPs, os antigos que ouvi muito, entre eles Rita Lee (1980) e Saúde (1981), já não tenho mais nenhum. Dei todos meus LPs, no início dos anos 1990, pro meu cunhado; ele, por sua vez, passou a alguém. Mas CDs ainda tenho muitos, uma pequena coleção de bossa-nova e rock nacional, inclusive com algumas raridades. Reluto me desfazer deles, porque pegar um CD nas mãos é conservar memórias de um jeito físico que Spotify nenhum consegue fazer.

Vá lá. Compre o livro, leia, cante baixinho, emocione-se. É o que a música sempre nos traz.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2020

(Se compartilhar, por favor, cite a fonte. É algo simpático e eu fico agradecida.)

 

MOTTA, Nelson. 101 canções que tocaram o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2016.

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