“Irmão Rico, Irmã Rica” e as nossas equivocadas relações entre dinheiro e espiritualidade

Agora, nas livrarias, está na moda um tipo de literatura que é a da autoeducação financeira. São livros que ensinam como controlar as finanças, como investir na bolsa, como guardar 1 milhão de reais, como traçar estratégias financeiras inteligentes.

Eu já folheei muitos destes livros, como aquele que mostra o quanto um casal pôde economizar para a casa própria deixando de tomar cafezinhos na rua. Mas não fiquei motivada a ler nenhum deles realmente, porque eu nunca tinha sentindo tanta vontade de guardar dinheiro de fato.

Até que fiz um treinamento no Sebrae – o Empretec – e percebi que minha relação com dinheiro é no mínimo confusa. E, pior, que costumo trabalhar para empatar resultados, sobretudo porque não quero me confrontar com eles. Foi um baque!

Como apoio, juntei-me a duas outras amigas “empretecas” e montamos nosso próprio Clube do Dinheiro, nos moldes do Clube do Dinheiro das Smart Cookies, que dá nome ao livro homônimo que – este sim, eu comprei como parte de meu próprio programa de autoeducação financeira.

As Smart Cookies originais, que escreveram o livro Clube do Dinheiro

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Talvez a lição mais importante do Clube do Dinheiro seja que se deve falar aberta e francamente sobre ele, se você quiser saber exatamente para onde está escoando o seu. Então, em nosso Clube, analisamos as planilhas de ganhos e gastos umas das outras e tiramos valiosas lições delas.

Mas uma coisa que não aparece no livro – e que é comum a várias amigas empresárias minhas – é que “não sabemos cobrar”. Todas, incluindo eu mesma, dizemos que temos dificuldade em precificar corretamente nossos serviços e produtos de acordo com o que valemos.

Fiquei refletindo sobre isso e notei que muitas de nós têm em comum negócios ligados ao bem-estar das pessoas. E, se queremos fazer o bem, certamente passa pela nossa cabeça que devemos, em certa medida, agir de forma altruísta com o quanto cobramos dos outros, porque, afinal, nosso trabalho reflete nossa busca pela espiritualidade. E espiritualidade tem a ver com desapego, certo?

Falando sobre estas aflições a uma amiga minha, ela me deu o livro Irmão Rico, Irmã Rica para ler. Foi o livro mais relevelador que já li até hoje sobre a relação que fazemos entre dinheiro e espiritualidade. E, certamente, foi a conversa mais aberta e franca de uma monja querendo ganhar dinheiro e um capitalista querendo encontrar Deus.

Capa do livro Irmão Rico, Irmã Rica de Robert e Emi Kiyosaki

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Robert Kiyosaki, coautor do livro, é um capitalista norte-americano, veterano da Guerra do Vietnã, que tem como missão na vida ajudar outras pessoas a enriquecer.

A coautora, sua irmã Barbara Emi Kiyosaki, é monja ordenada pelo Dalai Lama com o nome de Tenzin Kacho e lutou contra a Guerra do Vietnã buscando o caminho da espiritualidade, do budismo e da ajuda ao próximo. Sua meta em vida é iluminação.

A ideia de escreverem o livro juntos foi para tornar Tenzin rica. Por quê? Porque ela teve câncer e é cardíaca e descobriu que sua vida  espiritual não a preparou para as contas do hospital e da velhice. O reencontro dos dois, apesar de terem trilhado caminhos tão diferentes, se deu num momento em que Robert, milionário, descobriu que seu dinheiro vinha do trabalho infantil na China – o que o levou a refletir que deveria fechar seu negócio e buscar algo que fosse trazer o bem para as pessoas.

Os relatos de como Robert foi descobrindo uma vida espiritual através do dinheiro não são tão comoventes quantos os relatos de como Tenzin foi descobrindo que abraçou um estilo de vida onde dinheiro não era importante apenas para ser bem aceita em seu meio budista.

Chega um momento no livro em que ela diz que percebeu que o voto que fizera de ter uma vida simples não era o mesmo que ter voto de pobreza. Ela conta como descobriu que esperar que outros cuidassem de suas necessidades materiais era o oposto de sua missão de ajudar as pessoas e como isso a impulsionou a ser mas diligente em prover seu próprio sustento, de acordo como sua vontade de permanecer saudável. Ela diz:

[…] Como monja, viver abaixo do que ganho parece ser bem “adequado”. Há diferença entre “viver abaixo do que se ganha” e “viver adequadamente”. Abaixo do que ganho me coloca em risco financeiro e físico. (pg. 170)

Depois da leitura deste livro, percebi que muitos fazemos associações equivocadas entre dinheiro e espiritualidade. Alguns mantêm uma relação de desapego extremo com o dinheiro, tornando-se perigosamente dependentes da ajuda do governo ou de outras pessoas, comprometendo, assim, sua liberdade. Outros, se tornam místicos com o dinheiro e acham que seu trabalho, por ser nobre, voltado para o bem, em algum momento irá lhes reverter um bom karma, que serão as benesses financeiras e/ou a iluminação.

O que o Irmão Rico, Irmã Rica mostra é que, em se tratando de dinheiro, há apenas duas verdades: primeiro, o dinheiro que pensamos ser suficiente para vivermos bem, frequentemente é menos do que de fato precisamos; e, segundo, que educação financeira é a chave para ganhar este dinheiro suficiente, ao invés de muito trabalho, orações ou meditações ou bom karma.

Agora eu comprei o Pai Rico, Pai Pobre de Robert e espero, com ele, educar-me melhor em termos financeiros. Com minhas amigas, descobri que o meu suficiente – como previra Robert – é mais do que tenho hoje; e, com Tenzin, descobri que a espiritualidade requer uma relação madura com o dinheiro, inclusive sabendo cobrar pelos mesmos serviços que muitas pessoas, por opção pessoal ou por voto, resolveram não cobrar ou cobrar simbolicamente.

Namaste, Mayra.

 

OBS:

Para acessar o site das Smart Cookies em inglês.

Para acessar o site da The Rich Dad Company de Robert Kiyosaki.

10 comentários em ““Irmão Rico, Irmã Rica” e as nossas equivocadas relações entre dinheiro e espiritualidade”

  1. Mayra,
    Concordo muito com o que vc escreveu. Sim, acho que existe quase um sentimento de culpa em ” cobrar” pelos servicos que sao voltados para espiritualidade.
    Mas certa vez fui a um medico, que provavelmente tambem se incomodava muito em passar ” valores” aos seus pacientes e ele me encaminhou ao seu ” administrador” (que nao era a secretaria) o qual me passou valores, formas de pagamentos, e outras questoes, digamos, orcamentarias.
    E analisando isso tudo, acho que eh necessario ter tal separacao. Do profissional (terapeuta, professor ou mestre espiritual) e da administracao do seus servicos. Desta forma, cada um faz sua parte e foca no seu trabalho. Considerando que o administrador fique responsavel por entender de mercado (preco, produto, ponto, promocoes (?)), contabilidade, mkt,pessoas,facilities, customer care, etc. Por menor que seja o estabelecimento eh essencial para a organizacao e a saude do negocio, sim, porque eh um negocio. Visa o bem-estar, a evelucao pessoal das pessoas, o bem geral, mas para o profissional, seja ele quem for, o resultado final desta conta precisa ser positivo!
    Bjs,
    Julienne

  2. Querida Mayra, muito pertinente sua questão!
    Particularmente sempre fui muito contida com relação a dinheiro, poupando e aplicando com moderação e muita cautela.
    Neste percurso, minha vida mudou e posicionei minhas energias numa busca mais altruísta com menos apego. Logo me dei conta do engano que essa nova ilusão me levou a crer. Percebi que para oferecer meu “produto altruísta” precisava sobreviver no mundo capitalista e materialista. Assim, retornei ao meu trabalho anterior, “menos altruísta”, realizando que este sim possibilitaria minha ajuda para com a comunidade. Neste sentido, compreendi que o desapegar deve ser mais amplo do que simplesmente não ter. Deve significar não depender sua felicidade do que se tem, mas viver de forma módica com o que se tem. O desapegar-se não deve ser de forma genérica e sem discernimento, mas desapegar-se todos os dias do que não o serve neste caminho de bem-estar e saúde. Cobrar pelo produto que se oferece é uma forma de sobreviver neste mundo real do dinheiro. Há outras formas de oferecer produtos com preços simbólicos ou de graça. Penso que é preciso olhar a realidade e compreendê-la. Aceitar que somos seres viventes nesta sociedade capitalista, sem super-valorizar o capital, e sim, o real valor dele.

    Obrigada por me fazer refletir sobre o assunto!
    Beijo querida!
    Lili

  3. Ma, eu achei bastante interessante este livro pois ele também me trouxe uma perspectiva interrssantissima: Deus, o Absoluto, a energia Cosmica ou como quer que vc o perceba não como desapego total e, sim, como abundância. Foi uma lição que esperei muito tempo, vivendo algumas crises existenciais. Super recomendo os pensamentos do livro!

  4. Oi Mayra,

    Fantástico relato. Eu passo justamente por uma situação complicada. Venho realizando um trabalho através do meu site Bom Dia HOJE, há 7 anos, gratuitamente. Faço palestras na mesma linha que escrevo no site. Porém com uma dificuldade enorme de estabelecer preços, muitas vezes as faço sem cobrar nada. Porèm hoje sinto na pele, problemas financeiros, por causa destas atitudes, altruitas. Estou reformulando minhas próprias estratégias, para que venha obter melhor condição financeira com o que o site poderá me render e quanto cobrar por palestras.
    Lendo este artigo, posso lhe dizer que cairam algumas fichas. Como já havia lido Pai Rico, Pai Pobre, agora fiquei interessado em ler Irmão Rico, Irmã Rica… Agradeço pela luz.

    Um carinhoso abraço e Tenha um Bom Dia HOJE!

    Sigmar

    • Oi, Sigmar. Agradeço sua postagem. Quando pensei em escrever sobre este tema, “dinheiro”, fiquei um pouco reticente, porque dinheiro, no mundo das pessoas ligadas à espiritualidade, às vezes é um tabu. Mas procuro trazer pro meu site o que passa no meu coração, porque acredito que descobrir que outras pessoas experenciam e pensam como você é a primeira ajuda que podemos receber para elucidar nossas questões. Um super abraço pra você!

    • Oi, Luciana. Super agradeço o comentário. Como disse, estou numa jornada de autoeducação financeira. Agora estou lendo outro livro sobre o assunto “A energia do dinheiro” de Glória Maria Garcia Pereira. Estou curtindo. Depois que terminar, posto aqui algumas linhas. Um grande abraço, Mayra.

  5. Oi Mayra!
    Adorei o seu artigo e a sua abordagem. Senti há algum tempo que esta questão é confusa para muita gente e temos continuamente tentado conquistar o equilíbrio neste setor, pois trata-se da cura da abundância.
    Muitas vezes a análise dos dois opostos: nada cobrar por razões altruístas e cobrar o valor do resultado, deixa a situação mais confusa. É impossível remunerar um terapeuta, um médico, um instrutor de Yoga pelo que obtivemos de benefícios, pois é impossível avaliar economicamente o preço do equilíbrio que foi conquistado, da saúde, da alegria, do bem-estar.
    Descobri um meio que ajuda a solucionar uma parte da dificuldade prática: qual é o valor do seu tempo? Considere tanto o tempo de uma hora e meia de atendimento (por exemplo) e o tempo que foi investido para ter o conhecimento daquela área, para poder prestar o atendimento. Ajuda a compreender o que está sendo trocado, em um nível objetivo.
    Infelizmente esqueci a fonte onde li sobre esta questão do tempo, se encontrar, volto aqui para deixar.
    Vou comprar este livro! Grata!
    beijos

  6. Olha, entrei no seu site procurando uma coisa e acabei, de certa forma, encontrando caminho para uma resposta que não sai da minha cabeça. Materialismo x Espiritualidade. Obrigada pelas ótimas dicas de leitura. Namastê pra vc tbm! 🙂

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