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Quando aquilo que comemos nos torna grupo minoritário

Postado às 03:20 do dia 26/04/08

Eu, meu marido e meus filhos somos vegetarianos há oito anos. Meus filhos, desde que nasceram. Apenas recentemente comecei a ensinar meu menino mais velho, que tem quatro anos, que há pessoas que comem animais. Sempre digo a ele que nós somos “amigos dos animais” e é por isso que não comemos bichinho. Parte desta história ele entende e, evidentemente, porque ainda é muito novo, parte não entende.

Meses atrás, para fazê-lo compreender o que é comer um animal, parei em frente à seção de peixes do Wal-Mart e lhe disse que ali estavam os peixes, mas que estavam mortos, e que era isso que algumas pessoas comiam. Como qualquer criança, ele se assustou – porque a morte é assustadora -, chorou e pediu para ir embora. Suponho que esta imagem tenha ficado gravada no seu inconsciente e que ele a recupere quando começar a se dar motivos para continuar sendo vegetariano.

Mas, além do vegetarianismo, existem outros cuidados com a alimentação de meus filhos: eles comem alimentos integrais, quase nada de açúcar branco, pouco açúcar mascavo, comem mel, pão integral, algum arroz integral, não comem fritura, não comem normalmente óleo de cozinha refinado, não comem margarina, não comem industrializados com gordura trans; aliás, comem pouca comida industrializada, alimentando-se mais de vegetais e frutas frescas.

Por conta de nossa dieta, costumamos enxergar o que é ou não nutritivo de maneira bem diferente da maior parte das pessoas cuja dieta seja onívora. Por exemplo, não achamos que comer frango grelhado seja saudável, muito menos que bife, arroz, feijão, batata e salada o seja também. Não achamos margarina saudável, nem leite de vaca. Para nós, um bolo gostoso é um bolo vegano, feito com farinha integral e açúcar mascavo, meio amarguinho. E se as crianças passam um dia comendo apenas “besteirinhas” na rua (sim, isso acontece também), chegando em casa não queremos que eles tomem leite, mas que comam qualquer fruta crua ou um suco fresco.

E ainda temos uma preocupação com relação ao consumo de certos alimentos funcionais, como óleo de coco ou babaçu, óleo de linhaça e óleo de gergelim. Castanhas, tofu, a própria linhaça. Os grãos, como lentilha, ervilha, grão-de-bico, feijão. Fora os verdes-escuros.

Por todo este zelo – alguns diriam, por toda esta chatice – comer fora de casa é bem difícil e a ida dos meninos pra escolinha – onde convivem com os amiguinhos que comem carne – está rendendendo alguns malabarismos. Meus filhos, entre seus amiguinhos, são “minoria” e, como tal, precisamos enfrentar alguns preconceitos e desinformações. Meus meninos precisam conviver com o que as pessoas acham natural, normal e eu preciso explicar a eles que não é quando chegam em casa.

Isso ocorre, por exemplo, nas aulas de culinária. Dia destes, meu menino mais velho chegou com uma bisnaguinha de cachorro-quente. Estava todo feliz que tinha feito cachorro-quente na escola. “Mas o que é cachorro-quente, mamãe?” Felizmente, há salsicha de soja pra eu preparar um cachorro-quente em casa e lhe mostrar o que é que seus amiguinhos comeram na aula de culinária que ele não pôde comer. Mas como eu poderia ter pedido à professora para não dar a bisnaguinha cheia de gordura vegetal trans? E como eu poderia explicar ao colégio que não quero que meu filho manuseie a salsicha, mesmo que não a coma, porque não quero que ele ache divertido brincar de cozinhar um animal morto?

Festinha de aniverário também é problema. Além das crianças comerem bolo (açúcar e margarina), comem bolinha de queijo. Se ainda as professoras controlam a quantidade de bolo dada às crianças – já que existe um consenso de que açúcar não faz bem -, como explicar a elas que na maior parte das bolinhas de queijo vai caldo de carne e que por isso meu filho só come bolinha de queijo em casa ou quando eu encomendo a alguma confeitaria de minha confiança? Naquele dia, eu só soube que ele comeu bolinha de queijo quando ele chegou em casa…

E chegou em casa com uma saquinho cheio de doces, cheio de balas de morango. Algumas ele já tinha comido na escolinha e elas continham corantes feitos de insetos e corantes que induzem à hiperatividade. “Será que ninguém sabe disso? – eu perguntei ao meu marido, jogando fora algumas balas do saquinho de meu filho.

E vem outra festinha de escola e fico sabendo – apenas por acaso – que a mãe da aniversariante trouxe gelatina. Mas eu poderia nem ter sabido e daí não teria explicado à professora que a gelatina é feita de animal. Mas e as outras gelatinas que ele comeu e eu nem soube?

Finalmente, as crianças voltam de casa com a lembrancinha de Páscoa. Além do chocolate, que não contém bons ingredientes, que não é amargo, que contém gordura trans – voltam com a missão de descreverem o que a Páscoa significa pra elas. Mas não significa nada além de comer doces, porque não seguimos nenhuma religião cristã. Me pergunto por que as pessoas não pensam nisso, de que há pessoas diferentes? E a razão é que não pensamos nas minorias. Aliás, não pensamos em quase nada que não tenha como referência nós mesmos.

Quando eu era criança, estudando em colégio católico, ensinavam-nos muito sobre o preconceito contra negros, mulheres, idosos e portadores de deficiência. Mas nunca tinham nos falado de preconceito contra pessoas com dietas minoritárias nem com crenças laicas. Aliás, nem havia este termo – dietas minoritárias. O meio-ambiente era melhor, a alimentação não era tão aditivada e pronta e nossa saúde era mais forte.

Creio que hoje, quando o vegetarianismo aparece como uma das mais importantes ações ecológicas viáveis para o planeta Terra – precisamos esclarecer amplamente as pessoas sobre uma dieta sem carne. Comer carne não deveria mais ser encarado como algo natural, assim como deixou de ser natural a escravidão de negros e as mulheres não poderem votar.

Gostaria que, numa próxima festa de aniversário na escola, houvesse a preocupação de oferecer opção vegetariana e vegana às crianças, tanto quanto hoje se oferece atendimento prioritário a um idoso, gestante ou cadeirante. Por uma questão de gentileza, respeito pelas diferenças e consciência ambiental.

Por amor à vida.

Abraços veggies!

Mayra C. Castro

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