Este não é um livro sobre perfumes, nem sobre perfumaria, embora lá e cá se fale do assunto. É um livro sobre ciência. Mais especificamente, é sobre como o biofísico Luca Turin chegou à ideia de testar se o reconhecimento de odorantes pelos receptores olfativos se dá pelo tunelamento dos átomos de suas moléculas. Oi?!

Se você estiver familiarizado com meus textos e vídeos, sabe que cito bastante Luca Turin e até mesmo lhe criei um apelido: o cientista dândi – o que é um elogio. Dos livros que escreveu, faltava eu ler The Secret of Scents, tarefa que concluí no último dezembro como um presente de férias. Uma das qualidades da escrita de Luca é a erudição mesclada com ironia. Uma das dificuldades, pra mim, é seu vocabulário extenso e britânico. Então, ter um dicionário à mão ajuda a não perder nenhuma das tiradas excelentes que ele traz sobre vida, ciência, perfumes e cultura.
A história da teoria vibracional do olfato havia sido contada pelo jornalista Chandler Burr no ótimo O imperador do olfato e também virou um documentário da BBC. Então, Turin se viu famoso no mundo dos mortais, o pecado maior para uma reputação científica. Com a fama, veio o financiamento pra criar moléculas odorantes a partir de sua teoria – o que efetivamente fez. Foi por volta desse áureo período que escreveu The secret of scents como um livro de memória: a jornada intelectual desde uma ideia proposta nos 1930, por outros pesquisadores, até sua execução nos anos 1990-2000.
Essa teoria não pegou, pra falar a verdade. O modelo de receptores olfativos que funcionam reconhecendo o formato 3D de moléculas predomina sobre o suposto reconhecimento do quantum energético que decorre quando átomos pulam de um orbital pro outro. Provar uma teoria marginal quase custou a carreira de Luca, ainda mais porque, sendo biólogo, aventurar-se pelo território da física feriu algumas suscetibilidades. Mas ele continua na ativa. Leio seus textos no Substack vez em quando, onde continua resenhando perfumes no estilo que se tornou o standard depois dele. Da última vez que me inteirei de seus projetos, ele pesquisava o fenômeno da consciência em drosófilas. Como é biofísico, novamente estava lá explicando as coisas com elétrons. Aparentemente, drosófilas que são modificadas geneticamente para serem insensíveis a anestésicos possuem spins eletrônicos em suas mitocôndrias diferentes daqueles em drosófilas não-modificadas. É algo que abre pra especularmos se realmente seria possível robôs adquirirem consciência já que não possuem mitocôndrias. Você pode ouvir a entrevista dele sobre isso aqui.
Nessa mesma entrevista, ainda anotei uma fala de Luca sobre o ranking de ideias pra pesquisa científica (que ele citou na página 178 deste livro). Como um amigo (Walter Stewart) lhe disse, existem três níveis delas: as entediantes, se forem verdade; as interessantes, se forem verdade; e, no topo, as interessantes mesmo se forem falsas, porque essas ideias geram novas hipóteses e nos fazem olhar para os fenômenos de outros jeitos. Como você pode constatar, uma pessoa como Luca é divertida inclusive pelas amizades que possui.
Abaixo selecionei as melhores partes, que traduzi do inglês.
Mercado
“Munidos dos laudos [cromatográficos], os perfumistas podem copiar qualquer perfume em dias. O que é bastante útil porque aquilo que a maioria dos clientes quer, em sua infinita sabedoria, é mais do mesmo (algo de sucesso), só que diferente.” (p. 12, trad. livre Mayra C. e C.)
– Nada destrói mais a paixão de um profissional pelo que ele faz do que atender o desejo de seus clientes.

“A perfumaria funcional é coisa séria – nossas memórias olfativas são feitas dela. Justiça poética: essas composições baratas, o equivalente a um haikai de três linhas na arte da perfumaria, trazem tanto dinheiro quanto as fragrâncias finas, e são tão difíceis quanto, mas com uma fração de 10 % do orçamento.” (p. 60)
– Eu gostava mais quando os “Vejas” que passamos no chão tinham apenas uma ou duas variações de cheiro. Agora em que há tantas versões quantos perfumes numa prateleira de free shop, perdeu um pouco a graça. Memórias olfativas se tornam preciosas seja porque um cheiro é incomparavelmente incomum, seja porque é insistentemente sentido em uma fase de sua vida, que ficou pra trás. Cheiro de filho – o melhor do mundo – possui ambas as qualidades.

“Consultoria deve ser a profissão mais deprimente de todas porque você vende ideias de um valor imprevisível por um preço fixo: por 500 euros a manhã, você pode dar informações que ajudarão uma grande firma a fazer milhões – e, nesse casso, você sente que te ferraram -, ou você pode lhes dizer coisas igualmente inteligentes, mas que acabarão sendo inúteis – e, nesse caso, eles é que se sentirão ferrados.” (p. 185, trad. livre Mayra C. e C.)
– Descrição perfeita. No dia em que consultores aprenderem a cobrar como advogados (e serem um mal necessário equivalente), a descrição perderá sentido.
Financiamento
“A safra de 1982 iria se torna legendária: nunca, antes ou depois, foi tão fácil levar a vida como cientista. Eu tinha um emprego decente, tinha o tempo sob controle, acesso a uma biblioteca excelente e fiz o que se supõe que cientistas façam: começar a pensar.” (p. 4-5, trad. livre Mayra C. e C.)
– A safra de 1982 foi o ano em que o governo francês, sob Miterrand, contratou cientistas em um grande projeto de incentivo à ciência em seu governo. Eu costumava reclamar de financiamento público para pesquisa quando saí da faculdade, porque eu achava que os professores, que deveriam nos dar aulas boas, não as davam e estavam lá apenas sugando nossos impostos. Bom, há muitos desse tipo mas, sem financiamente público, não haveria pesquisa básica no Brasil. E a pesquisa básica é fundamental pra humanidade continuar criando coisas incríveis. Ainda bem que a gente envelhece e deixa de ser tapada.
“Há 10 anos, uma fragrância fina costumava custar de 200 a 300 euros por quilo. Hoje, 100 euros já é considerado caro. Tenha em mente que apenas uns 3 % do preço do perfume na loja refere-se à fragrância. O resto é embalagem, marketing e margem de lucro. Uma fórmula barata é a principal razão por que a maioria dos perfumes ‘finos’ é uma porcaria. Outras razões incluem imitações descaradas, vulgaridade grosseira, ignorância profunda, medo de ser mandado embora e falta geral de inventividade e coragem.” (p. 13, trad. livre Mayra C. e C.)
– Por isso que, hoje, os verdadeiros apreciadores de perfumes se voltaram pras marcas de nicho. Mas, encaremos o fato: aé marcas de nicho podem lançar uma bela de uma porcaria.
“Hoje, os nomes Ford e Dearborn não necessariamene conjuram visões de pesquisa básica excitante, mas no final dos anos 1950, junto com um punhado de outras grandes empresas como IBM, General Electric e RCA, a Ford tomou a decisão de imitar a Bell Labs.” (p. 144, trad. livre Mayra C. e C.)
– Deveras! É difícil acreditar que o fordismo algum dia não foi fordismo.
“Para solucionar o problema da estrutura-odor o qual, como vimos, é um problema de biologia, você precisa pelo menos de três coisas: (1) biologia, (2) estrutura e (3) odor. Cada uma dessas três coisas, tomadas individualmente, não é particularmente difícil. Um bacharelado em biologia leva três anos; ler tudo o que importa sobre a relação estrutura-odor, alguns meses; e cheirar tudo o que você precisa em um laboratório de perfumaria, alguns dias. O problema é que poucas pessoas fazem 1 e 2, e menos ainda, entre esses, sequer têm a chance de fazer o 3.” (p. 167, trad. livre de Mayra C. e C.))
– Sempre achei que as coisas mais interessantes saem da cabeça de pessoas que possuem múltiplos interesses e se aprofundam razoavelmente em cada um delas.
“A principal razão é que, com o dinheiro, vem o mecenato e o sistema feudal das ciências gosta de fazer favores onde eles possam ser devolvidos.” (p. 170, trad. livre de Mayra C. e C.))
– Nunca nenhum milionário patrocinou o que não pôde ser fotografado perto da casa dele. Bilionários não contam, já que a casa deles é qualquer lugar.
“É preciso entender que as universidades não têm fins lucrativos apenas no sentido restrito de que elas gastam tudo o que conseguem.” (p. 171, trad. livre de Mayra C. e C.)
– E tem outro jeito?! Hahaha.
“Eu nunca tinha ouvido sobre um espectrômetro não-óptico antes, então fiquei fascinado. Enquanto fui lendo como a coisa funcionava [espectroscopia de tunelamento ineslático de elétrons], uma série de surpreendentes pensamentos passava pela minha cabeça:
“1. É possível usar elétrons para fazer espectroscopia.
“2. Mas proteínas também podem usar elétrons.
“3. Os receptores olfativos são proteínas.
“4. Alguém já não disse que o nariz trabalharia como um espectrômetro?
“5. Talvez eles estejam certos.” (p. 171-172, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Não é o que o Luca diz, mas como ele diz. Consegui imaginá-lo olhando pra cima e enumerando isso com aquele ar de criança feliz no rosto.
Fun science
“O relativo abandono do olfato comparativamente aos outros sentidos também pode se relacionar com o fato de que ele não pode ser facilmente transmitido como imagens ou sons. Como um colega meu colocou, ‘você ainda não pode passar um perfume por fax’. Possivelmente, também, o olfato é erroneamente tido como menos confiável enquanto sensação que a visão e a audição. Por fim, definitivamente existe o lado de que ‘homens de verdade não se envolvem‘ com olfato e fragrâncias. Descobri que cientistas homens frequentemente enrubescem e riem baixinho como crianças na escola quando lhes damos fitas olfativas durante uma palestra, ao passo que mulheres cheiram-nas ansiosamente e comparam as notas olfativas umas com as outras. (p. 6, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Tenho impressão de que isso ficou no passado. O The Sense of Smell Institute, no início desse século, produziu bastante material pra validar o sentido do olfato como objeto digno de pesquisa e, com certeza, a pandemia de covid-19 a tornou mesmo uma necessidade. Hoje, com o olfato sendo aventado como marcador antecipado de doenças neurodegenerativas, estudá-lo pode alavancar carreiras de não importa qual gênero.

“Todos que compartilham uma afeição pela tabela periódica a imagina de formas diferentes. Eu a vejo como uma espécie de fotografia de classe escolar. Os caras grandes embaixo, os magrelas no topo, dispostos da esquerda para a direita conforme seu temperamento, com os tipos plácidos (8 elétrons) na extrema direita, sentados logo ao lado dos psicopatas de 7 elétrons. Os tipos generosamente imprudentes com 1 elétron estão seguros no canto bem à esquerda e os indivíduos bem-apessoados, aqueles que devem (e vão) ir longe na vida, se sentam em algum lugar no meio.” (p. 30, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Imagine se você tivesse aprendido química assim? Teria sido mais legal, não teria?
“Essa máquina é para os odores o que o prisma é para a luz.” (p. 39, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Anos estudando sobre cromatografia, mesmo na faculdade de farmácia, e nunca ninguém o comparou a um prisma.

“Anos atrás, fui convidado por alguns matemáticos de Cambridge para dar uma palestra sobre olfato. Conversar com matemáticos é sempre um prazer, porque eles têm bastante tempo disponível (não é possível ficar pensando em matemática o dia todo), costumam ser bem curiosos quanto às demais ciências e possuem aquela saudável atenção de quem gasta a vida sob o brilho da verdade.” (p. 44, trad. livre de Mayra C. e C.)
– De fato, gastar a vida sob o brilho da verdade confere um quê a quem quer que seja.
“Headspace não é, como o nome sugere, algo que hippies velhos fazem em seu tempo livre, mas tão somente o espaço acima e em volta de uma flor viva mantida sob um vaso. Se, em vez de extrair brutalmente o material da flor, você simplesmente sugasse ar o suficiente para conseguir identificar as moléculas nele, você teria, em princípio, uma reprodução melhor da coisa real em comparação a um extrato. Essa é a notícia boa. A notícia ruim é que não há como envazar o material porque a quantidade dele no ar é microscópica. O que você faz então é pedir para seu químico descobrir o que tem no ar e replicar a mistura o mais próximo possível usando-se materiais sintéticos. Em essência, você está tirando seu mestrado na escola de perfumaria do próprio Deus.” (p. 57, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Não espere prescindir da banca, mas saiba que ela plagiará seu trabalho imediatamente.
“Até onde sei, não existe óleo essencial de lírio-do-vale [muguet] porque o aroma natural rende muito pouco e é instável. Hidroxicitronelal não é uma imitação ruim, embora não tenha sutileza. As demais moléculas de lírio-do-vale são menos convicentes. Em cem anos de química sintética, parece que houve uma espécia de deriva linguística nessa área, o que trouxe odoranted não-lírios-do-vale a serem chamados assim. Eles são, sobretudo, variações (coreografias com um ou dos carbonos) ao redor de um esqueleto básico de benzeno com um aldeído de três carbonos substituído. Eles foram chamados Bourgeonal, Lilial e Cyclamental, uma fina ilustração do fato que químicos acham difícil largar o quimiquês mesmo quando estão se sentindo um pouco líricos.” (p. 58-59, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Sempre comentei com meus alunos que temos sorte que os químicos nomeiam os compostos dos óleos essenciais a partir de nomes comuns como limoneno (lemon), pineno (pine) , terpinoleno (turpentine), sabineno (savin), patchoulol (patchouli) e não como os astrônomos nomeiam novos objetos no espaço…
“A cristalografia é, provavelmente, a menos intuitiva das disciplinas da biologia e seus praticantes detém o mais misterioso conhecimento requerido em qualquer outro ramo científico. Ela é uma mistura de receitas empíricas (esfregar a barba em um prato para fazer o cristal crescer é um truque típico) e profundo conhecimento de teoremas matemáticos. Meu tio é um renomado cristalográfico e o quadro em sua austera sala está invariavelmente coberto com integrais triplas, uma vista incomum nas ciências da Naturea. Enquanto seus métodos são obscuros, os resultados são sensacionalmente claros. O que cristalógrafos entregam, tão simplesmente, é imagens de proteínas e seus átomos. (p. 91, trad. livre de Mayra C. e C.)
– É sempre um prazer a gente ter parentes que trabalham com coisas que parecem difíceis ou inacessíveis. Sempre me orgulhei do fato de meu pai ter sido engenheiro de aeronáutica, embora menos do fato de ele ter projetado foguetes bélicos em vez de aviões… Pra uma adolescente, foi um pouco confuso.
“Minha experiência cheirando HCN é limitada, ou eu estaria ditando esse livro em sessões da Sociedade Espírita; mas minha memória é que ele tem um odor limpo, amadeirado-amendoado, também diferente dos demais [cheiros de amêndoas-amargas]. (p. 101, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Não tem nenhuma profissão em que a gente não se arrisque em algum perigo, hahaha!

“A questão sobre agonistas e antagonistas é que são moléculas similares com efeitos diferentes. A razão é que a similaridade reside, afinal, numa pequena diferença nas estruturas entre o receptor que Liga e o receptor que Desliga. Como Roger Moore levantando uma sobrancelha para demonstrar o mais alto grau de satisfação, receptores quase não se movimentam quando estão totalmente ativados.” (p. 106, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Como a garotada não sabe mais quem foi Roger Moore (pena deles), você pode substituir a metáfora dizendo que é como alguém levantando a sobrancelha para rir depois de ter aplicado botox na testa.
“A razão está no pesadelo de qualquer experimento com fragrâncias: pureza. Mesmo a menor quantidade de um molécula não relacionada ao composto principal pode afetar o cheiro da coisa toda.” (p. 140, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Uma das perguntas que mais respondo a alunos é se OEs da mesma planta com cromatos diferentes cheiram diferente. Sim, cheiram.
“Isso me deu a oportunidade de testar o que eu chamo de Regra do Parágrafo. Em quase todo livro didático de ciência, existe um ponto, usualmente do tamanho de um parágrafo, no qual o estilo do autor bate exatamente com o nosso estilo de compreensão; então passamos a apreender tudo de modo adequado e permanente.” (p. 163, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Como grande leitora de livros didáticos em função da faculdade de farmácia, concordo com Luca; mas faço um reparo: não se aplica aos livros escritos pelos meus professores: nunca encontrei esse tal parágrafo salvador.
“Um laboratório de perfumes é um local um tanto estranho, uma espécie de farmácia do cheiro. Na empresa Quest, cinco ou seis mulheres com jalecos se sentam na bancada de trabalho com uma pipeta e balanças eletrônicas. Na frente de cada uma delas, uma grande e feia engenhoca rotaciona uma série de prateleiras através de um mecanismo elétrico de correias que traz a elas um dos mais ou menos 3 mil pequenos frascos. Há telefones em cada bancada e elas esperam o perfumista ligar com as demandas. Essas são longas listas de matérias-primas com a indicação de sua quantidade em cada fórmula. Na parte dos fundos, há uma sala refrigerada com o estoque de todo tipo de material: são prateleiras e prateleiras com amostras, latas e frascos. No ar frio paira um cheiro peculiar que acaba sendo o mesmo nas empresas de perfumaria, um tipo de tuti-fruti químico não classificado que cheira mais colorido do que bom. Durante uma semana de ‘trabalho’, além de escutar todo o tipo de fofoca sobre os perfumistas, fiz um curso intensivo em categorias e descritores de odores. Quando eu tinha dúvidas, perguntava a elas. Acabou que me senti um homem felizardo.” (p. 168, trad. livre de Mayra C. e C.)
– De onde se conclui que todos os paraísos são bibliotecas. No caso da de Luca, um biblioteca de cheiros.
“Olhando em volta, eles [físicos da extinta URSS] observaram corretamente que a maioria dos biólogos era lamentavelmente ignorante em ciências exatas e concluíram incorretamentem que essa era a razão pelo lento progresso em biologia. Na realidade, é verdade que os biólogos nunca estão entre o crème de la crème da intelectualidade científica. Eu deveria saber disso, pois sou um deles; mas o fato é que a Vida é ‘o’ fenômeno complexo mais formidável que existe. Fazer engenharia reversa com a vida é uma atividade intimidante, mesmo para os pós-graduandos do Institute Landau.” (p. 169)
– Nesse trecho do livro, Luca fala sobre o desenvolvimento da biofísica – que é sua área de atuação – a partir de um chamado (involuntário) do físico Erwin Schrodinger, um dos pais da física quântica, que, a partir da publicação do livro Whats is Life?, em 1933, atraiu físicos para o campo da biologia.

“Em ciência, existem três tipos de problemas: aqueles que interessam apenas a especialistas (99 % do total); aqueles que interessam a todo mundo (câncer, a próxima vacina de gripe, um antimalárico melhor etc.); e, um terceiro, que é uma categoria misteriosa: as questões que todo mundo gostaria de perguntar mas ninguém ousa fazê-lo.” (p. 177, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Sabe aquele medo de perguntar algo que possa parecer estúpido diante de seus colegas de escola? Então, aqueles que ousam devam ter recebido um reforço muito positivo à época, algo como a professora dizendo “mas que pergunta boa você fez!”
“Um jornal científico é em grande parte uma câmara de compensação bancária para manuscritos. Os cientistas enviam artigos; os artigos são lidos por editores juniores e enviados para árbitros que (espera-se) lerão os artigos, pensarão sobre eles e escreverão um comentário justo. O relatório desse árbitro diz que o artigo é válido ou ruim, recomendando que seja rejeitado, revisto ou aceito segundo os motivos alegados. Revisar artigos é um trabalho não remunerado e um pouco chato. Por que as pessoas o fazem? Primeiro, é legal ser solicitado e isso faz com que você sinta que sua opinião importa. Segundo, e isso é o que Don Braben chama de ‘peer preview’, você acaba sabendo o que seus colegas estão fazendo antes de todo mundo.” (p. 180-181, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Peer preview é muito bom, não é mesmo? Essas razões, sempre no limite do que é um comportamento desapegado, motivam qualquer trabalho sem pagamento dentro da área da qual você tira sua renda.
“Por outro lado, as empresas farmacêuticas estão gerando dezenas de milhares de candidatos a moléculas, geralmente através de métodos de química combinatória automatizados, e testando cada um para cada tipo de efeito. Isso, como sempre pontuo a meus colegas na indústria de flavor e fragrância, é o que você faz quando não tem uma teoria.
“Como meu colega físico Marshall Stoneham uma vez disse, é muito bom você ter uma chave e uma fechadura, mas algo precisa virar a chave! Seria a agitação termal, como biólogos supõem? Seria algo mais sutil? Por exemplo, existe uma evidência fascinante de que a potência de benzodiazepínicos tipo Valium tem mais a ver com a afinidade de seus elétrons que com sua forma. Por que motivo? Ninguém sabe, mas eu apostaria que alguma física interessante está por trás e que em breve será descoberta.” (p. 193, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Amém, Luca, amém.
Olfato
“A separação entre o efeito e sua causa é uma das maravilhas do olfato. Isso lhe dá a qualidade de uma alucinação e tomar contato pela primeira vez com odorantes sintéticos da perfumaria é uma experiência estranha.” (p. 9, trad. livre de Mayra C. e C.)
– A aromaterapia popularizou essa halucinação. É raro pessoas comuns terem contato com bibliotecas olfativas. Parte do deslumbramento com os óleos essenciais é acessar esse território estranho do olfato.
“Não, a coisa especial sobre o olfato é que ele é idiota no sentido etimológico do termo, ou seja, único. Não existem equivalentes exatos entre odores: o odor tem que bater certinho na sua cabeça ou ficará a quilômetros [de evocar uma memória]. Por isso que esse evento é raro, e por isso que, quando ocorre, você o nota.” (p. 14, trad. livre de Mayra C. e C.)
– É isso aí: é a raridade do fenômeno que torna a memória olfativa proustiana.
“Em um modelo sílabico, se uma molécula de liga em dois receptoes – por exemplo, RO e SA – para dar o cheiro de ROSA, então a molécula que é sua imagem espelho, ASOR, não teria a possibilidade de se ligar. Ao contrário, ela deveria se ligar nos receptores para OR ou AS. E então não cheiraria a rosa. O problema é que normalmente cheira. As versões espelhadas de muitas moléculas odorantes já foram feitas. Como elas cheiram? Existe, agora, um bocado de boa estatística sobre isso e a resposta é que elas geralmente cheiram o mesmo (ASOR = ROSA), embora haja alguns casos conhecidos em que não.” (p. 103-104, trad. livre de Mayra C. e C.)
– E agora você aprendeu como ensinar as implicações de enantiômeros na bioquímica de um jeito muito fácil de entender!
“Agora os cheiros. De forma parecida com medicamentos, a pesquisa na química das fragrâncias tem focado em produzir incontáveis variações de uma mesma molécula. Por exemplo, o esqueleto do beta-santalol tem sido objeto de cirurgia química milhares de vezes na busca por um sândalo melhor, mais doce, mais cremoso, mais potente. Em conjunto, químicos já devotaram centenas de anos a isso e dúzias de suas melhores descobertas são vendidas como matéria-prima para perfumes de sândalo. Mas nem mesmo um único antagonista de sândalo foi descoberto. Quer dizer, nenhum químico até agora conseguiu uma molécula que (a) pareça-se com o sândalo, (b) tenha pouco ou nenhum cheiro próprio e (c) impeça que você cheire qualquer outro sândalo. Aliás, é assim para qualquer outra categoria de cheiro. Cento e cinquenta anos de química de fragrâncias falharam em desenvolver um único bloqueador de receptor olfativo!” (p. 107, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Bom, é preciso contextualizar. Luca fala de uma molécula que não tenha cheiro nenhum ou quase nada. Hoje se sabe que alguns odorantes podem antagonizar receptores para odorantes diferentes deles, então não é que não existam antagonistas nenhuns: há, são conhecidos, mas cheiram e não possuem o formato semelhante ao do odorante que antagonizam. A questão é que o reconhecimento de um odorante funciona como se fossem acordes em um piano: há um número limitado de teclas, mas combiná-las sempre gera um som diferente. Então, não é que os odores se formam em um único receptor, mas em vários – o que dificulta tremendamente encontrar antagonistas como os descritos por Turin.
“Os problemas científicos tipicamente passam por três fases. Na primeira, poucos e bravos exploradores descobrem um novo território e mapeiam suas características básicas. Na segunda, embarcações com cientistas imigrantes chegam e colonizam a terra. Na terceira etapa, estátuas são erguidas nas praças da cidade, algumas vezes para os descobridores, porém mais frequentemente para os hábeis administradores que construíram estradas e rodovias. Com a ciência do cheiro, essa sequência de fases não ocorre. De anos em anos, um novo conjunto de cientistas alega que desbravou a selva, mas o mato acaba recobrindo suas picadas, apagando a cidade do mapa.” (p. 108-109, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Mesmo padrão que a gente aprende na teoria do marketing pra adoção de novidades.
Prós e contras
“Moléculas sintéticas quase nunca são belas sozinhas porque existe uma qualidade bruta, inacabada nelas. Ir do perfume em direção às moléculas puras é mais ou menos como amar mosaicos e ver uma caixa cheia de quadradinhos de cores únicas. É necessário fazer um ajuste mental antes de perceber a exata tonalidade, textura e aura que cada peça traz. (p. 9, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Esse tipo de decepção já vi inúmeras vezes no rosto de alunos que inalam OEs pela primeira vez e acham-nos pobres em comparação com fragrâncias sintéticas. Tipo assim: “como este absoluto de baunilha não tem cheiro de caramelo?! como este óleo essencial de rosa não é doce?! como este óleo essencial de laranja não é tuti-fruti?!”

“Existem, na verdade, dois ramos na arte das fragrâncias: perfume e flavor. Ambos ocupam uma posição peculiar quando comparados a outras formas de arte como, por exemplo, a música. O compositor de músicas não tem muita competição no mundo natural, exceto o raro recital das três da manhã de um rouxinol. As Cataratas do Niagara fazem um imenso barulho, mas não uma sinfonia, e apenas aqueles abençoados percebem sons naturais como música. Mas perfumistas e flavoristas são constantemente humilhados pelo maior perfumista de todos, a Natureza.” (p. 16, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Luca termina esse parágrafo dizendo que perfumistas se veem como artesãos, em vez de artistas, justamente por isso. Não tenho certeza. A sensibilidade olfativa das pessoas pode começar a achar as criações de laboratório mais magníficas que as da Natureza à medida que vão ficando apaixonadas pelas promessas da tecnologia.
“De certo modo, a própria existência da perfumaria se deve ao fato de as matérias-primas naturais serem réplicas pobres da coisa real. Se o óleo essencial de rosa realmente cheirasse como as rosas, o perfumista meramente poria a mão na cabeça com vergonha e desistiria.” (p. 24, trad. livre de Mayra C. e C.)
– A espécie humana só chega a níveis tecnológicos cada vez maiores porque é bastante sem vergonha.
“Cada ingrediente natural cheira de diferentes formas e elas vêm juntas. É como construir casas pré-fabricadas a partir de partes, cada qual contendo a elétrica, a hidráulica, as paredes e até mesmo os quadros das paredes, todas grudadas juntas. A casa é construída rapidamente e pode até parecer interessante no final, mas você não consegue redecorá-la, nem fazer alterações. Na perfumaria, o emprego mais difícil pertence ao perfumista-chefe da Aveda, que não apenas especifica uma paleta apenas com odorantes naturais, como está agora dobrando a aposta ao determinar que sejam orgânicos!” (p. 25, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Nunca cheirei um perfume natural interessante, embora muitos sejam bonitos como os próprios óleos essenciais e absolutos que os compuseram. Ainda preciso cheirar os de Mandy Aftel pra tirar a prova definitiva.
“Tendo dito isso, a segurança dos sintéticos é extensivamente testada antes de serem entregues aos humanos, o que é mais do que pode ser dito sobre os naturais como o espruce.” (p. 28, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Isso é verdadeiro, mas também o é o fato de que os sintéticos são novos e, os naturais, têm estado ao nosso lado por milênios – o que acaba dando uma boa ideia de sua segurança nos usos tradicionais (e aqueles que não são seguros, já se sabe).
Efeitos
“O fato é que na inédita concentração maior que 1 %, essas moléculas emprestam um brilho abstrato, marmóreo, azul-claro para o que seria, do contrário, um exuberante, porém inofensivo floral. Para entender o que os aldeídos fazem para perfumes, imagine pintar uma aquarela em fitas refletivas, como aquelas que ciclistas usam na roupa para serem vistos pelos carros: as cores florais se tornam surpreendentemente transparentes neste estranho fundo, ao mesmo tempo opaco e luminoso.” (p. 53-54, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Ninguém consegue descrever os efeitos dos odorantes como Turin. Por quê? Porque o cara tem repertório. Turin nos faz perceber a diferença entre alguém que lê e fala sobre perfumes, e alguém que fala sobre eles sem nunca ter lido sequer legendas curtas em postagens.
“Um carbono é tudo o que há entre a ionona e o odorante surpreendentemente diferente, a irona. O melhor jeito de descrever a enorme, ainda que sutil diferença, entre a ionona e a irona é compará-la com a diferença entre a escala maior e menor na música. Onde a ionona irradia um calor sentimental, a irona exala um caráter ligeriamente fúnebre da cor sépia – não o roxo místico, mas o lilás esmaeçido.” (p. 62, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Caso você não saiba, Turin é um amante da música clássica.

“Alguns ésteres definiram sua época. Quando montamos uma cápsula do tempo para os anos 1980 – assumindo-se que isso seja algo inteligente a fazer -, junto com as ombreiras e as telas de descanso do Top Gun, seria totalmente legítimo incluir uma solução a 1 % de alil-amil-glicolato. Um porcento é o máximo que alguém pode ter sem sair correndo para procurar o disco Physical de Olivia Newton-John.” (p. 65, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Apenas desdenha os anos 1980 quem confunde boomer com geração X; i.e., todos, exceto a própria geração X.
“Todo mundo já ouviu falar dos musks e alguns supõem que tenham cheiro de caça sugestivo de sua origem: a parte de trás de um animal peludo. Mas os musks são inofensivos, cheiros quietos que esperam pacientemente que todos os demais tenham evaporado para ele tocar em pianissimo. Na perfumaria, eles desempenham o papel tanto do gesso quanto do verniz. Eles atuam como um suave off-white sobre o qual as cores parecem mais luminosas e preenchem os vazios na fragrância, conferindo-lhe um brilho profundo.“(p. 67, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Outro fato que voce já deve saber sobre os musks dos quais Luca fala, chamados de “brancos”, é que todos somos anósmicos pra alguns deles – o que leva os perfumistas a colocar várias moléculas de musks juntas em mesmo perfume, pra garantir que algum trará o efeito olfativo desejado. (São moléculas pesadas, no limiar do que pode ser olfatado.)
“Os musks são um tipo de cheiro que funciona melhor à distância. Saia do ambiente no qual uma fita olfativa imersa em ambrette está secando e volte depois de alguns minutos. O odor peculiar de fruta-oleosa agora parece um murmúrio de uma coisa comestível, confortável, limpa.” (p. 68, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Sempre é assim no que tange odorantes: cheire-os depois deum tempo decorrido. Se ficar melhor, sorte sua; se ficar pior, não compre.
“Todos os nitrobenzenos foram banidos nos países desenvolvidos porque eles absorvem muita luz no espectro próximo do UV; isso causa algumas reações químicas indesejáveis em ambientes iluminados, tornando-os potenciais fotossensibilizantes. Em outras palavras, algumas pessoas que os usarem ficarão com pele irritada. Pessoalmente, eu arriscaria ter escrófula para sentir meu velho Brut de novo.” (p. 71, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Hahaha, até parece! Escrófula é um tipo de tuberculose cujos sintomas ocorrem na pele e em gânglios. Brut foi um perfume lançado em 1964 pela Fabergé, que continha nitromusks na fórmula original. Foi, durante muito tempo, o cheiro que um homem deveria ter, encarado mais como um pós-barba que como um perfume, posto que “homens” não deveriam se perfumar, entende? Ele pertence à família dos fougères e Luca já disse antes que a única família olfativa realmente decente para um homem cheirar seriam os fougères.
“Muitos ingredientes sintéticos e você acaba com esqueletos esbranquiçados; muitos ingredientes naturais e você fica preso nos invertebrados. Um bom balanço entre os dois, na minha opinião, houve até meados dos anos 1980; depois, a indústria não conseguiu mais se recuperar da moda por fragrâncias escandalosas (Poison, Giorgio, Opium), provocada por uma confiança demasiada em sintéticos de alto impacto.” (p. 190, trad. livre de Mayra C. e C.)
– E como se não bastasse o escândalo Angel, agora só se fala em orientais, orientais, orientais…
“O abstrato no sabor não é algo novo: a haute cuisine nomeadamente inicia quando você para de entender como as coisas são feitas. O grande chefe Alain Ducasse certa vez disse que visitou o restaurante de um colega e ‘não pôde entender o que estava comendo’, e por isso lhe perguntou se poderia tomá-lo como aprendiz na cozinha e lá ficou durante anos. Talvez a coisa mais próxima da perfumaria natural sejam coquetéis, que já passaram por uma série de altos e baixos desde os anos 1920. Se um dia encontrar um perfume que me cause a mesma euforia que um Negroni apenas no uso externo, serei um homem feliz.” (p. 191, trad. livre de Mayra C. e C.)
– Não bebo álcool (sim, eu sei, é uma lástima, mas não gosto do sabor). Então, sempre experimento mocktails e bebidas que, teoricamente, são feitas pra terem um sabor complexo. Quase sempre, o sabor complexo é um gengibre, uma canela-com-cravo, algo ultra azedo ou mentolado. Sem álcool, apesar do hype e das alegações, drinques são insossos. Sem sintéticos, os perfumes parecem padecer do mesmo mal.
Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2026
TURIN, Luca. The secret of scent: adventures in perfume and the science of smell. New York: Harper Perennial, 2007.
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