Sofrimento não é doença – Daniel Martins de Barros

Daniel tinha uma ótima coluna no Estadão tempos atrás. Médico psiquiatra, professor na USP, escrevia sobre saúde mental de forma acessível, sempre fazendo mediação entre as promessas da psicofarmacologia e os resultados clínicos como eles realmente são. Este Sofrimento não é doença é seu mais novo livro. O título é bastante ilustrativo pra que você desconfie que esta onda de medicalizar o sofrimento não é bacana.

O primeiro parágrafo do livro resume a ideia: “Precisamos reaprender a sofrer. Fugir do sofrimento, como temos tentado, não está funcionando”. Por fugir, leia-se enfiar remédio guela abaixo. É um livro que conversa com o Anatomia de uma epidemia, do jornalista Robert Whitaker (já resenhado aqui): nele, o autor mostra como a Sociedade Americana de Psiquiatria “inventou” a hipótese química dos transtornos mentais pra manter seus associados com relevância no mercado de saúde. Anatomia… é uma obra de jornalismo investigativo, denunciativo; já o título do Daniel é mais conciliativo. Ele ensina que rótulos do que é doença e do que não é mudam com as épocas (Foucault), mas que o sofrimento não muda. Como ele existe, merece ser cuidado, e não necesariamente com psicofármacos.

De minha parte, suspeito que a medicalização da dor emocional e do comportamento iniciou nos anos 1980 com aquela onda de aeróbica e biquíni asa delta. Hoje, leio em alguma pesquisa que a geração Z está obcecada com performance física e cognitiva, deixando até de ir a baladas pra não atrapalhar o treino de amanhã. Rita Lobo, uma ex-modelo que virou cozinheira, vai a podcasts pra criticar o que chama de nutricionismo, a mania de comer alimentos tecnológicos, como whey e o que valha – uma neurose na qual a comida passa a ser encarada como medicamento. Nas redes sociais, os diagnósticos são comentados como se fossem trunfos ou, então, salvos-condutos pra todo tipo de idiossincrasia que faz com que a pessoa desempenhe com menos sucesso seu papel social e econômico. Pessoas vitoriosas sempre foram raras. Hoje, contudo, não ter sucesso passou a ser defeito moral, a menos que você tenha um diagnóstico que explique sua mediocridade.

Então, em vez de eu tentar explicar isso tudo, melhor é deixar o autor falar. Seguem citações comentadas.

Ciência, a improvável panaceia

“Uma das estratégias de fuga mais comuns é lidar com o sofrimento como se fosse uma doença, algo que pode ser curado com ciência.” (p. 11)

– Acho irônico que a ciência se dedique tanto a demonstrar que não existem panaceias e tenha, ela própria, se tornado uma.

Cuidados

“Benzedeiras, curandeiros, líderes religiosos, médiuns, tarólogos e terapeutas de práticas integrativas são exemplos de agentes de cura que, embora exerçam ofícios não baseados em ciência, podem ajudar de uma forma bastante específica, já que as curas populares começam a fazer efeito antes mesmo de qualquer intervenção concreta. Pelo simples fato de criarem uma narrativa para o sofrimento, darem um nome ao problema e sugerirem a possibilidade de existir algum controle sobre ele, elas já trazem algum alívio.” (p. 31)

– Toda encheção de saco de Natália Pasternak e cia. é que pseudociências não devem ser ofertadas no SUS. Toda ladainha do povo das PICs é que eles fazem ciência, sim. Eu acho as duas patotas entediantes. Se a gente começasse a discutir se é legítimo práticas de cuidado serem ofertadas no SUS (já que o direito à saúde está inscrito na Constituição e de forma bem ampla), avançaríamos na compreensão do que é ético ou não ético, financiável ou não financiável dar aos cidadãos.

“O agente de cura apresenta-se como alguém que domina um sistema de crenças sobre o problema, sendo capaz de interferir nele. As explicações que oferece permitem aos pacientes se enxergarem nesse sistema, fazendo a ponte entre o que estão sentindo e a teoria sobre a doença. A partir daí, a experiência do sofrimento passa por uma transformação, que é a base da eficácia das curas simbólicas. Encontrar esses sentidos muitas vezes é mais importante para a eficácia do tratamento que as ervas, rezas ou pílulas.” (p. 32)

– No excelente Por que a psicanálise?, Elisabeth Roudinesco reafirma a importância da significação no processo de cura do sofrimento emocional, dado que a psiquiatria se reduziu a uma supressora de sintomas. Enquanto houver subjetividade, diz ela, enquanto houver um ser humano desejante, o simbólico sempre desafiará o modelo de homem-máquina idealizado pela ciência.

” ‘Fazer sentido’ por vezes é apenas receber um nome.” (p. 148)

– É irritante essa nossa necessidade atávica de nomear. Se a ciência pudesse dar fim nisso, quando a dor viesse, ela seria apenas dor.

“Existem muitas estratégias cognitivas – ou mentais, se preferir – para lidar com a dor. Distração é uma delas: mudar o foco, envolver a mente em outras coisas e tentar não pensar naquilo não é fácil, mas reduz a intensidade do sofrimento. A reestruturação cognitiva, ou seja, pensar sobre a dor de uma forma diferente, também é eficaz: mudar de opinião, por exemplo, passando a encará-la como sinal de que o corpo está se defendendo em vez de definhando; ou deixar de considerá-la insuportável e se convencer de que é tolerável. Outra técnica é conhecida como ativação comportamental: a ideia é que estados emocionais e comportamentos se influenciam mutuamente, numa via de mão dupla – se estamos doloridos, ficamos presos na cama; mas presos na cama nos entristecemos e sentimos mais dor. Se conseguimos nos obrigar a agir como se estivéssemos animados, nos sentimos mais bem dispostos, melhorando o humor e reduzindo a resposta emocional negativa.” (p. 157)

“Agora, lembre-se de que dor e sofrimento andam de mãos dadas; logo, as mesmas estratégias que funcionam para uma funcionam para o outro. Distração, ressignificação, ativação comportamental, tudo isso também tem eficácia para lidarmos com o sofrimento.” (p. 157)

– Na era da saúde mental, não é à toa que fazer atividade física tenha se tornado o remédio mais prescrito.

Ganhos indiretos

“Aguentar a dor, no entanto, é uma habilidade que pode ser desenvolvida – ou perdida.” (p. 57)

– O jeito mais fácil de convencer alguém a tomar um medicamento é dizer-lhe que a dor não precisa ser suportada. Aliás, dizer que ela deve ser suportada é quase uma heresia hoje em dia. Imagine se concordaríamos que devemos suportar a dor cirúrgica sem anestesia. Claro que não. Só que eu quero chamar atenção pra uma cilada muito comum que encerra debates: estressar o argumento até o máximo, levando-o ao ponto da hipérbole, do absurdo. Não caia nisso. Tudo na vida tem graduações, tudo depende. Se concordamos que certas dores devem ser anestesiadas, não precisamos concordar que toda dor deva ser suprimida apenas pra nos mantermos coerentes. Há certas dores que vale a pena surportar. Tenho certeza de que você consegue pensar em algumas, mesmo físicas, e o benefício que decorre de suportá-las.

“Mesmo sem se darem conta, as pessoas são incentivadas a adotar o papel de doente. Porque ficar doente é ruim. Mas às vezes, mesmo sendo ruim, tem algumas vantagens” (p. 104)

– Olhe, se um dia você já observou uma criança se queixando de dor e ganhando o colo da mãe, você sabe que ficar doente rende alguns ganhos.

“De fato, uma vez que a pessoa abraça um diagnóstico como explicação para seus problemas, dificilmente abre mão dele. (p. 130)

“Ao adotar o modelo explanatório do bournout, ela tem um ganho primário claro. Inconscientemente, pensa: ‘Não estou cansada, estou doente. É errado estar cansada, mas não tem nada de mais em estar doente’. Essa distinção tras alívio. Se bournout não for doença, ela terá que admitir que está esgotada, e o esgotamento sem o rótulo médico parece inaceitável.” (p. 130-131)

– Mais do que inaceitável, sem o rótulo de doença a pessoa não consegue uma licença que a remunere enquanto descansa. Jogar nossos problemas pra instituições resolverem (no caso, pra uma instituição médica definir o que é doença) é a forma como pagadores de impostos encontraram pra lidar com a terrível lógica econômica do capitalismo, que sempre provocará injustiças a uns e benesses a outros. A gente nem precisa ir tão longe pra entender que aprendemos a escalar nossos problemas pro coletivo quando se tornou difícil lidar com ele sozinhos: veja a questão do uso de celular em escolas. Os pais têm implorado a seus governantes pra criarem leis que proíbam celulares em escolas ou acesso a redes sociais antes dos 16 anos porque será mais fácil, assim, dizer não a seus filhos.

Ganhos diretos

“As estratégias dos mascates de doenças são várias:

  • transformar experiências humanas normais em patológicas e estimular o uso de tratamento;
  • fomentar a intolerância a qualquer forma de sofrimento;
  • ampliar ao máximo as definições de doença para que mais pessoas sejam diagnosticadas;
  • supervalorizar desequilíbrios hormonais, vitamínicos ou qualquer outro parâmetro identificável apenas em exames;
  • divulgar sintomas comuns como problemas sérios.” (p. 114)

– Eu queria dizer que apenas a poderosa indústria farmacêutica e as sociedades médicas fazem isso. Mas não sou desonesta: muito terapeuta holístico se vale das mesmas estratégias safadas. A diferença é que terapeutas holísticos possuem pouca credibilidade; profissionais de saúde registrados em conselho, muita. Assim, as estratégias destes surtem mais efeito.

“A inclusão da velhice na 11ª edição da CID causou grande controvérsia: apesar de não estar arrolada como doença, ela foi incluída na seção ‘Sintomas gerais’, com a eufemística descrição de ‘Declínio da capacidade intrínseca associado ao processo de envelhecimento’, incluindo fragilidade, perda de enrgia, redução de força – coisas que se esperam no envelhecimento normal foram incluídas como ‘sintomas’.” (p. 117)

– Já desejei boa sorte à geração que acha que cabelo branco precisa de tratamento (a Natura acabou de lançar uma linha capilar para “tratar o grisalhamento dos fios” e uma pesquisa postulou que o grisalhamento é sintoma do organismo se defendendo de células anômalas que poderiam vir a se tornar um câncer). Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco dirão que ter 1,60 m é doença.

“Quanto mais os transtornos mentais forem debatidos publicamente, mais diagnósticos surgirão. Isso não é necessariamente um problema, porque tem muita gente doente sem saber (…).” (p. 134)

“Mas e quando as pessoas que não estão doentes começam a enxergar sintomas onde não existem? (…)” (p. 134)

“Nesse sentido, ter gente saudável achando que é doente é um preço que pagamos por esclarecer as pessoas doentes que acham que estão saudáveis. É um problema que a divulgação causa, mas menos grave do que o problema que ela trata.” (p. 134)

– Entendo a opinião do autor quando diz que medicar gente que não está doente é um efeito colateral pequeno face ao benefício do sobrediagnóstico, já que, com ele, os verdadeiros doentes também são alcançados. A questão é que isso é só uma opinião mesmo. Pra gente ter certeza de que o sobrediganóstico provocaria menos danos e mais benefícios, só com uma pesquisa estatística que acompanhasse por anos a vida de pessoas em pelo menos 3 grupos: não-doentes medicados, não-doentes não-medicados e doentes medicados.

Diferenças

“(…) vale lembrar que cultura é como sotaque: a gente só nota nos outros.” (p. 91)

– Descobri que eu havia me tornado curitibana em Belo Horizonte. Eu estava conversando com o vendedor em uma livraria e ele me perguntou se eu era de Curitiba. Respondi que sim, mas que eu não tinha sotaque (sou paulistana de nascença). Ele concordou; contudo, observou que eu terminava as frases usando “daí”. Neguei: eu jamais terminava as frases usando daí. Então ele se afastou e eu continuei folheando os livros. Quando surgiu um que me agradou, virei de longe e lhe pedi: você me vê o preço deste daí?

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2026

BARROS, Daniel Martins de. Sofrimento não é doença: nem todas as dores precisam de remédio, mas todas merecem cuidado. Rio de Janeiro: Sextante, 2025. 176 p.

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