O diário de um livreiro – Shaun Bythell

Quem ama livros quer a companhia de livros – não necessariamente a de outros leitores. Quando um escocês compra o maior sebo de seu país, a companhia dos livros usados continua sendo ótima; a de alguns leitores, idem. Mas a de clientes parece ser um mal necessário. Então, o que resta ao livreiro é escrever sobre eles, como que para desopilar o fígado. Clientes de livrarias nem sempre são leitores e por isso rendem as histórias mais engraçadas desta pequena joia que é O diário de um livreiro, de Shaun Bythell, dono da The Book Shop, em Wigtown.

O livro acompanha o dia a dia do sebo de 5 de fevereiro de 2014 a 04 de fevereiro de 2015, quando a loja já estava há quase 15 anos com Shaun. Neste final de 2025, ela continua lá, uma década depois. À época da escrita de O diário, o dono a divulgava pelo Facebook. O perfil ainda existe e tive a alegria de me comunicar com ele, quando lhe escrevi pra elogiar o livro (veja o print de nossa breve troca de mensagens abaixo). Hoje, o sebo também possui um perfil no Instagram e parece que toda a ironia e sarcasmo que me grudaram no livro, salvando-me do tédio durante meu estágio em análises clínicas, seguem intocáveis nas legendas das imagens.

Das mensagens no meu Facebook

Shaun inicia o diário, a cada mês, com uma citação retirada do livro Bookshop Memories, de George Orwell, que antecipa os motivos vários pelos quais ser livreiro não é um negócio recomendado: não dá dinheiro, dá dor nas costas, lida-se com pessoas pretensiosas e se arrisca perder a paixão pelos livros, embora não se deixe de amá-los. A isso se somam novos desgostos – ou, melhor, um único desgosto que vale por cem: a Amazon. Mas, como todos que trabalham na cadeia produtiva do livro sabem, não há como viver sem este Caliban que, sozinho, vende mais livros que todas as livrarias juntas. Então, a relação que temos com ela é, na expressão moderna, tóxica: a Amazon faz mal ao mercado, mas vai longe a data em que fomos capturados pela síndrome de Estocolmo nesse relacionamento.

Por isso que acompanhar as vendas na The Book Shop, as libras esterlinas que entram diariamente no caixa, as compras de acervo de Shaun, as vontades de suas funcionárias, as horas em que ele consegue descansar e o esforço da comunidade de Wigtown pra se tornar a capital da literatura no país nos traz tanto alívio: constatamos que é possível sobreviver, ainda que intoxicados, desde que o antídoto seja rir de si mesmo e da vida.

Recomendo que leia este livro no exemplar físico, em vez de no digital, por um motivo muito suficiente: a editora Principis agraciou nossos sentidos imprimindo o texto em folhas que são quase da gramatura do papel Bíblia, na cor pólen, com as bordas coloridas de vermelho e margens internas que parecem simétricas, dando a impressão de que cada página está emoldurada. Ficou muito agradável tanto ao olhar, quanto ao toque.

Abaixo selecionei algumas citações. Nunca um diário comercial foi tão saboroso de ler!

Mal necessário

“Em muitos aspectos ele é o cliente ideal; não fica examinando as prateleiras e só vem quando sabe exatamente o que quer.” (p. 12)

– E sobre o vendedor ideal, vamos falar dele? Fica examinando as prateleiras e só vem quando você explicitamente o chama.

“A minha fé na decência humana fica profundamente abalada quando os clientes – a quem é oferecido um desconto sobre produtos que já estão muito abaixo do valor original – se sentem no direito de pedir ainda mais trinta por centro de abatimento, por isso recusei-me a ceder.” (p. 13)

– Minha fé é sempre abalada quando alguém crê que perguntar não ofende.

“Pessoas verdadeiramente interessadas em leitura são uma raridade, embora sejam muitas as que consideram ser. Estas últimas são particularmente fáceis de identificar – normalmente elas se apresentam quando entram na loja, alegando que ‘amam ler’. Usam camisetas ou carregam mochilas com slogans explicando exatamente quanto elas acham que adoram livros, mas a maneira mais segura de identificá-las é que elas nunca compram livros.” (p. 45)

– E a maneira mais fácil de identificar as que realmente leem é que elas o fazem em qualquer lugar, sem rituais, sem cerimônia, livros físicos ou digitais, não importa, e sempre consomem pouca rede social – ou não teriam tempo pra ler. Hoje em dia, conheço muita gente que usa a desculpa de só conseguir ler livro de papel pra não ler nada. É bem elegante e passa um ar de resistência progressista, mas quem gosta de ler o faz em qualquer suporte, porque texto é texto seja numa tela, seja num papel. Outra desculpa esfarrapada é dizer que ama ler mas não lê porque livro é caro. Esse é o tipo de argumento que não fica em pé diante de qualquer mensalidade de streaming, ainda mais porque livros emprestados podes ser lidos mesmo que o esteja abrindo em um IP diferente.

“Quando você lida com um grande número de pessoas diferentes todos os dias, começa a notar padrões de comportamento. Uma das coisas mais interessantes para mim é ver do que as pessoas dão risadas. Não faço ideia de por que aquele cliente achou tão engraçado que um livreiro estivesse trazendo caixas de livros para uam livraria. Muitas vezes não é algo engraçado que provoca risos, as pessoas dão risada de seus próprios comentários ou observações banais. Às vezes, parece ser usado como uma espécie de sinal de pontuação para finalizar uma frase.” (p. 84-85)

– Em filmes, conseguimos identificar precisamente o momento em que alguém ri do próprio comentário porque a câmera filma o interlocutor com aquela expressão de enfado. Mas, no dia a dia, inexplicavelmente, rimos de nossos comentários sem perceber como o outro está entediado de nos ouvir.

“Como já era de se prever, ela não comprou nada.” (p. 87)

– Todo dono de negócio tem clientes deste tipo. Caso não saiba, eles são apelidados de chupins, com ch, como no verbo chupar, embora eu também possa deduzir uma derivação de cupim, o inseto que se alimenta de madeira.

“Qualquer livreiro irá lhe dizer que, mesmo com 100 mil livros cuidadosamente escolhidos e organizados em uma loja bem iluminada e aconchegante, se você colocar uma caixa fechada de livros em um canto escuro e frio, os clientes irão abri-la e examinar os livros em questão de minutos.” (p. 148)

– Idem se você estiver em um supermercado e um expositor chegar com uma pilha de engradados cheios para repor a geladeira das hortaliças. Estar fresco é um chamariz de venda que, como se percebe, pode se aplicar até mesmo em livros com cem anos de idade.

“Quando o velhote de terno amarrotado foi ao balcão para pagar pelo O idiota, de Dostoiévski, eu observei discretaente que sua braguilha estava aberta. Ele olhou para baixo, como que para confirmar, depois olhou para mim e disse:

” – Pássaro morto não cai do ninho. – E saiu da loja com a braguilha aberta.” (p. 348)

– Nunca estaremos preparados para a fauna que atendemos no dia a dia.

Não contem com o fim das livrarias

“Na verdade, às vezes me pergunto por que ele encomenda os livros comigos quando poderia facilmente fazer isso na Amazon. Talvez ele não tenha computador. Talvez não queira ter. Ou talvez seja daquela espécie em extinção que sabe que, se quiser que as livrarias sobrevivam, ´precisam dar uma força.” (p. 12)

– Creio que na última temporada de And just like that, Carrie Bradshaw vai à confeitaria de seu antigo bairro encomendar tortas para o Dia de Ação de Graças. Ela chega quando as encomendas já estavam fechadas para os clientes, mas não apenas é atendida pela dona do estabelecimento, como serve de modelo para se estabelecer o tipo de cliente ideal: aquela que mesmo na pandemia encomendava tortas ainda que não fosse buscá-las para comer. É claro que nosso comportamento individual de compra não pode salvar nenhum negócio que seja, nem mesmo destruí-lo. Gostamos de pensar que sim. Como sou vegetariana, inúmeras vezes tive a sensação de que dependia de mim que um restaurante mantivesse uma certa opção sem carne no menu. Isso não impediu que excelentes hambúrgueres vegetarianos saíssem do cardápio de hamburguerias tradicionais mesmo que eu tenha ido comemorar todos meus aniversários no local.

“Ocorre-me com frequência que as livrarias podem ter um papel principalmente recreativo para a maioria das pessoas, pois são lugares tranquilos para onde escapar dos rigores implacáveis e da demandas da vida moderna (…)” (p. 60)

– Houve uma época em que eu ia praticamente toda semana em uma livraria aqui de Curitiba, que não tinha café, apenas pra papear com sua proprietária. Gastava somas consideráveis de dinheiro lá – como sempre é meu caso em livrarias -, certamente mais do que eu faria ordinariamente, apenas pra compensá-la da minha presença.

“(…) graças à ceifadeira das ceifadeiras, a Amazon.” (p. 345)

– Por esses dias, li que a Amazon precisou agir pra ceifar um criação própria, que se tornou uma ameaça por ter tomado proporções insustentáveis: a autopublicação. Com as ferramentas acessíveis de IA, autores têm “escrito” livros à razão de 1 por dia, e querido lançá-los, via KDP, na mesma velocidade . Diante de tanta porcaria no site, a Amazon detectou que os clientes podem não mais encontrar as obras realmente boas – e simplesmente vão comprar livros nos locais onde eles ainda são criações demoradas de humanos: nas livrarias.

“Não resta dúvidas, porém, de que as livrarias – a minha, pelo menos – podem ser lugares extremamente frios no inverno. No caso da minha, não pelo risco de as vitrines embaçarem, mas porque é um lugar vasto, sem portas, com pouco isolamento e com correntes de ar que passam por toda parte, como espíritos de escritors mortos.” (p. 346)

– Cafés, em livrarias, certamente varrem o mofo de nossas narinas. Graças a eles, não pensamos mais nelas como locais habitados por espíritos mortos, mas como locais onde se vai pra trabalhar no notebook.

“É certo que sinto que estou trabalhando mais do que há catorze ano, quando comprei a loja, mas suponho também que hoje eu gaste mais tempo cadastrando livros no computador, e a competição online é feroz, ao passo que no início essa parte de negócio era bem mais simples em comparação com agora. Ainda assim, o que for preciso para manter o barco navegando será feito. Esta via é infinitamente preferível a trabalhar para outra pessoa.” (p. 347)

– Sempre admirei quem acha preferível ter a liberdade de um salário à liberdade de não o ter. Empreendedores pertencem à segunda categoria. Encaixo-me nela, por temperamento. Como dizem, temperamento é destino.

Ensinando o pai-nosso ao vigário

“Possivelmente, um dos livros mais recomendados que fui aconselhado a ler seja Any Human Heart, de William Boyd. Tenho uma tendência a evitar tudo o que me recomendam, preferindo imaginar ingenuamente que cavarei minha própria mina de ouro literária, mas o entusiasmo dela era tão contagiante que depois do jantar acendi a lareira e comecei a lê-lo.” (p. 26)

– Neste ponto, sou igual a Shaun. Basta alguém me recomendar um livro, uma série, um filme que não quero consumi-lo. Não consigo recordar de muitos livros dos quais eu tenha gostado e que me foram recomendados. Anatomia de uma epidemia foi um do qual gostei. Um que detestei e se tornou emblemático da desconfiança de recomendações foi Tudo sobre o amor, junto com a série Outlander.

“Às 11h, uma cliente foi até o balcão com uma pilha de livros sobre ferrovias para o marido. Quando estava pagando, ela dissse:

“- Nunca se case com um ferroviário.

“Como se isso fosse algo que eu estivesse considerando seriamente.” (p. 114)

– Hahaha!

“Na van, no caminho de volta, Eva ficou curiosa para saber a respeito de adquirir estoque e quais fatores determinam quais livros comprar e quanto pagar por eles. Tentei explicar da melhor maneira possível, mas isso me levou a refletir sobre como o processo é complexo. Não há um regra, a regra é você quem faz.” (p. 268)

– Tenho certeza de que, em algum lugar, aguém está vendendo prompts para IA que lhe desvendarão a complexidade que você diz não saber explicar. Humpf.

Preferiria estar lendo

“Ela tem uma capacidade de falar que, tenho certeza, não tem paralelo no mundo inteiro, e abomina o silêncio da mesma forma que a natureza abomina o vácuo.” (p. 59)

– Em favor dos tagarelas, pode-ser argumentar que se tornaram assim pra compensar a companhia persistente de um taciturno.

“Dia sem grandes acontecimentos. Passei a maior parte do tempo lendo.” (p. 129)

– Como pode ser um trabalho ruim?!

“A loja ficou extremamente tranquila durante todo o dia. O primeiro cliente apareceu às 11h30 e perguntou:

” – Onde ficam os livros sobre marketing e estratégia financeira?

“Alguém vai receber um emocionante presente de Natal.” (p. 303)

– Hahaha, que maldade!

“A decoração de Natal da loja é fraquinha.” (p. 314)

– Sou do partido de que, se a decoração temática não puder ser linda, melhor nem fazer. Nada mais melancólico em um um ambiente de vendas no Natal que um esquálido pinheirinho com bolas de plástico.

“(…) eu leio pouco em comparação com antes de ter a loja, com exceção de quando viajo de trem ou avião.” (p. 320)

– O modo mais confiável de destruir um hobby é transformá-lo em um negócio. Prazer não combina com trabalho, apesar de toda a lorota dita nos livros de desenvolvimento pessoal. A segunda parte da citação, sobre ler em trens e aviões, vai se tornando cada vez mais distante à medida que as companhias implementam wi-fi durante a viagem.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2025

BYTHELL, Shaun. O diário de um livreiro. Tradução: Patrícia N. Rasmussen. Jandira, SP: Principis, 2023. 352 p.

COMPRE ESTE LIVRO NA AMAZON