No centro sentimos leveza – Bert Hellinger

É quase impossível ler o nome de Bert Hellinger em postagens sem, na mesma frase, a palavra pseudociência. A razão se chama “constelação familiar”, um método empregado em dinâmicas de grupo que visam revelar e, então, libertar a dinâmica familiar que pode estar impactando negativamente qualquer situação vivenciada por uma pessoa. O racional por trás da constelação são leis que regem os relacionamentos, chamadas, na abordagem da constelação, de “ordens do amor”. Quando alguma dessas ordens é rompida, instala-se o desequilíbrio com repercussão em descendentes. De minha parte, sempre que a intelectualidade científica taxa alguma episteme de pseudocientífica, eu fico me perguntando de onde tiraram tal ideia pois, para algo ser pseudocientífico, primeiro precisa se assumir como ciência – e isso é algo que a constelação familiar não declara de si.

O caso é que há muitas maneiras de se explicar as dinâmicas da alma. A ciência – com sua neurociência – é apenas uma delas. Ótima para criar medicamentos, mas muito pouco eficaz pra lidar com a angústia de alma que todos sentimos. Goste-se ou não se goste da obra de Hellinger e da abordagem da constelação, muitos que tomam contato com elas sentem que suas vidas mehoram.

Claro que se pode acusá-la de um sem número de coisas, como, aliás, vem sendo feito desde que a constelação passou a ser usada em tribunais de justiça para resoluação de conflitos, principalmente em varas familiares. De minha parte, penso que não seja ético empregá-la em locais assim. Solucionar com metafísica atos de injustiça não cabe – em minha opinião – em ambientes regidos pelo interesse público. Mas cabe perfeitamente no âmbito privado, cada um fazendo o que bem lhe entender.

Já participei de algumas constelações, além de ter constelado eu mesma. Como tendo a acreditar na aleatoriedade do universo bem mais que em algum tipo de ordem que o rege, todo o racional por trás não me seduz. Mas penso que há muitas ideias boas pra tirar do pensamento de Hellinger, que realmente tem potencial de contribuir pra uma convivência mais harmoniosa entre as pessoas. Dessas ideias, gosto particularmente daquela de que não devemos virar as costas pra ancestralidade, o que é uma heresia desde que a Revolução Industrial catapultou a sensibilidade pré-moderna e nos atirou pra sempre na chamada Modernidade. Mas não penso que essa ideia seja uma lei ou qualquer coisa do gênero capaz de gerar consequências que se assemelham, em certa medida, ao conceito de karma: como cética, tendo a achar apenas que é uma ideia sensata porque o tempo é um excelente indicator do que costuma dar certo.

Este livro me foi indicado. Achei o texto um pouco desarticulado e com um tom que me soou infantil. Mas se justifica: em vez de um longo ensaio filosófico ou metafísico, Hellinger conta histórias terapêuticas e poesias pra ilustrar uma das ordens que postulou: a da inocência e a da culpa, que basicamente diz que o culpado precisa ter a chance de expiar seus erros porque o dar e o tomar são a base das relações humanas: quem dá, tem o direito de reivindicar; quem toma, sente-se em dívida. Pra mim, que fui criada em escola salesiana e, adulta, vivenciei o yoga – sendo que o conceito de karma yoga, o da ação desinteressada, que está na base da Bhagavad Gita, me impactou muito na época -, tenho dificuldade de aceitar que o tomar e dar seja tal como Bert disse. De todo modo, a ação desinteressada é um ideal espiritual: o tomar e dar é uma constatação. E, diante de fatos, todo idealismo desmorona.

Escolhi algumas citações do livro pra comentar. Estão abaixo.

Qualidades necessárias

“Alguém perguntou a um velho mestre: ‘Como você consegue ajudar outras pessoas? Elas frequentemente o procuram e lhe pedem conselho em assuntos que você mal conhece. Apesar disso, sentem-se melhor depois.

“O mestre lhe respondeu: ‘Quando alguém para no caminho e não quer prosseguir, isso não depende do saber. Ele busca segurança onde é preciso coragem, e quer liberdade onde o certo não lhe deixa escolha (…)” (p. 14-15)”

– Bons conselhos têm a qualidade de colocar a dificuldade sob uma perspectiva diferente.

“As histórias podem dizer o que não pode ser expresso de outra forma, pois também sabem ocultar o que mostram. Encaramos sua verdade como pressentimos, por trás de um véu, o rosto de uma mulher.” (p. 35)

– As melhores histórias, sim; já o storytelling do marketing, não.

“Quando olhamos da mesma forma e sem preconceitos para a psicoterapia, vemos que algumas escolas psicoterapêuticas se tornaram semelhantes à religião que pretendiam superar e, principalmente às religiões reveladas.” (p. 160)

– Mostre-me alguma coisa que depois do Iluminismo não tenha potencial de se tornar uma religião. Se a religiosidade for constitutiva da espécie humana, seu modus operandi brotará em qualquer tipo de atividade que não a religião em si: escolas de psicoterapia, partidos políticos, marcas de produtos, times esportivos, celebridades…

Dar e tomar

“Pais e professores são basicamente doadores, enquanto filhos e alunos são primariamente recebedores. É verdade que os pais também recebem algo dos filhos, e os professores recebem de seus alunos.” (p. 20)

– Por isso a experiência de criar filhos ou de educar alunos é profundamente transformadora: porque você precisa, de fato, fazer por alguém que não de devolve na mesma medida.

“Portanto, quando os inocentes preferem sofrer a agir, aumenta logo o número de vítimas inocentes e de ofensores culpados.” (p. 26)

– Acusa-se a constelação de estimular que vítimas aceitem a violência que sofreram. Não sei como se concilia essa percepção com a citação acima.

“O que torna a culpa imposta pelo destino mais difícil de suportar é a sensação da própria inocência. Se eu fosse punido quando culpado e salvo quando inocente, poderia supor que o destino obedece a uma lei e a uma ordem moral.” (p. 33)

– Mais acima, comentei sobre as ordens do amor de Hellinger se assemelharem, em certa medida, ao conceito de karma, que é traduzido como “ação e reação”. A distribuição completamente aleatória de sorte e azar torna tentador dizer que a ação que produziu, como reação, a sorte ou azar é desconhecida ou está inacessível, de outra forma seria difícil aceitar que o karma rege a vida. Outra explicação que se busca pra aleatoriedade do destino é Deus e seus desígnios ocultos. Hellinger não me parece ter criado ordens pra controlar o destino – porque, neste livro, ele é bem claro quanto ao fato de que não controlamos. Mas suas leis servem a por as coisas no devido lugar: pais no lugar de pais, filhos no lugar de filhos, inocentes no lugar de inocentes e culpados no lugar de culpados. A esperança é que, assim, os relacionamentos fiquem menos bagunçados, o que ajuda quando vier o azar.

“Quando um membro do grupo foi excluído ou expulso pelos outros, mesmo que apenas porque foi esquecido, como frequentemente acontece com uma criança prematuramente falecida, a consciência grupal faz com que um outro membro do grupo venha a representar o excluído. Ele imita então o destino daquele, sem ter a consciência disso.” (p. 65)

– Pode-se “comprar” ou não essa ideia. Ela está na base da constelação. Como pessoas morrem ou são excluídas o tempo todo, sempre haverá alguém no chão que precisa ser olhado.

“Algumas pessoas julgam que, se tomarem os pais dessa maneira, poderá infiltrar-se nelas algo de mau que receiam: por exemplo, um traço dos pais, uma deficiência ou uma culpa. Então também se fecham ao lado bom dos pais e não aceitam a vida em sua totalidade.” (p. 94)

– Acho que só conseguimos enxergar nossos pais quando nos tornamos pais. Vem a partir da experiência de ser pai e mãe a aceitação do pai e da mãe que tivemos.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2026

HELLINGER, Bert. No centro sentimos leveza: conferências e histórias. Tradução: Newton de Araújo Queiroz. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

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