A Radio France possui excelentes podcasts. Em uma série deles dedicada ao sentido do olfato, ouvi esta professora da Sorbonne, Chantal Jaquet, falar sobre uma filosofia do odor. Ao final, entrei na Amazon francesa pra comprar seu livro e descubri que já tinha o título – e traduzido no português. Então lembrei: havia comprado o título (já que compro tudo que sai sobre olfato e cheiro no mercado editorial brasileiro), mas tinha deixado a obra numa estante qualquer porque tinha achado a capa meio chinfrim, prenúncio de um texto pobre. Fiquei envergonhada de constatar meu negano, porque a escrita de uma filósofa da Universidade de Paris deve ser tudo, menos chinfrim.
Vencidas as 360 páginas, meu veredito é que o texto não é bobo, mas é enfadonho em 2 das 3 partes. Por qual razão? Raramente, em filosofia, aproveitamos um texto sem uma formação de base à altura – meu caso. Depois de um início empolgante, em que Jaquet mostra a pertinência de se estudar o olfato e de pensá-lo filosoficamente, a autora passa à elaboração de fato de tal fiosofia a partir do estudo de referências que me são desconhecidas: a obra musical de Debussy, as pinturas de Gonzales e Gauguin, as esculturas de Zumbo e Rodin, as instalações olfativas de Hiroshi Koyama, como também as obras de filosofos clássicos, Lucrécio, Bacon, Nietzsche e Condillac. Apenas algumas de suas referências literárias – Balzac, Baudelaire, Proust e Süskind – estavam ao meu alcance, embora outra, a de Huysmans, não estivesse.
Seja como for, se você for alguém que se interessa pelo olfato, aproveitará esta primeira parte do livro e ela valerá todo seu investimento, porque algumas reflexões de Chantal são puro insight. Abaixo trago as melhores partes.
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Sentido negligenciado
“Os homens sonham com um sexto sentido, mas, na realidade, eles parecem se conformar a ter apenas quatro.” (p. 1)
Tenho certeza de que a anosmia pela covid-19 alterou esta percepção, embora pouco.
“Além do mais, quem pode dizer com certeza absoluta se o uso e a utilidade de um sentido são determinantes para sua cultura ou determinados pela sua cultura, tanto que os dois processos parecem imbricados num permanente movimento de vai e vem?” (p. 25)
É a hipótese linguística: os vocábulos existem na medida em que são necessários, ao mesmo tempo que sua existência molda as realidades a que se referem.
“(…) porque antes de ser uma música, um quadro ou um sabor, o tempo e a realidade são em primeiro lugar um buquê de odores.” (p. 128)
Certamente, são, mas não percebemos isso até que sejam ou muito salientes, ou ressurjam do passado.
Sentido animalesco
“O olfato representa o resíduo arcaico da besta no homem.” (p. 26)
Não é um resíduo metafórico: o sistema límbico é anterior, na evolução, ao neocórtex.
“A desvalorizaçãodo nariz é frequentemente o sintoma de uma somatofobia profundamente enraizada.” (p. 44)
Ó, Iluminismo, que herança nos deixaste.
“Se o odor corporal convoca a naturalidade do homem e seu enraizamento biológico no mundo animal, o perfume pode contribuir para a fabricação de um corpo ideal, liberado dos miasmas e da contingência da carne. Ele subsiste ao corpo real envolvendo o homem num halo odorante num corpo sonhado que se propaga no mundo como uma essência purificada e liberada de seus acidentes carnais.” (p. 47)
O uso do perfume prenunciou o uso de filtros fotográficos.
“A todos aqueles que percebem o odor como um sentido sujo, rústico e animal podemos objetar que ele é também um sentido santo, místico e divino. O odor da sujeira se opõe ao odor da santidade como um antídoto a despeito do nariz.” (p. 52)
Sempre me pareceu interessante que o olfato se preste tanto para estar perto de Deus quanto do diabo.
“O olfato é também mais um sentido zoológico que teológico e reenvia mais a animalidade que a divindade.” (p. 61)
Alcança-se, pelo olfato, o divino, mas não se torna divinizado.
Sentido do prazer
“De outra parte, a percepção olfativa imprimiu o hedonismo no homem e pôde dar lugar a uma estética de perfumes ou pelo menos à definição de uma arte recreativa.” (p. 33)
Tenho uma colega na aromaterapia que cunhou uma expressão ótima sobre o uso de óleos essenciais pra aromatizar ambientes: “uso recreativo”. Claro que a graça reside na recordação do uso recreativo de drogas, mas descreve a dessacralização do uso terapêutico dessas substâncias ativas.
“É isso que lembra Serge Chaumier, que afirma que os ‘beijos de nariz são beijos de odores’.” (p. 42)
Na medida em que beijo de boca são beijos de sabores.
“É aliás por vezes difícil de operar uma distinção entre o uso religioso e o uso terapêutico [dos perfumes], porque a santidade e a saúde estãotão estritamente ligadas que não é pertinente querer separá-las.” (p. 55)
Do jeito que o povo defensor do método científico está histérico hoje, imagine se invocarmos a terapeuticidade da religião ao debate?!
“Cheirar o outro ou ser cheirado por ele é descobrir sempre a parte íntima de um ser e penetrar na sua interioridade.” (p. 73)
A intimidade do cheiro é suprema.
“Cheirar o outro é penetrar em sua intimidade e possuí-lo sem que ele saiba, inalando-o e incorporando-o a si.” (p. 87)
Como pensar a olfação de rastros de perfumes? A pessoa oferece-se, então, à posse? Seria o equivalente a um estupro do olfato do outro?
“A respiração do odor aparece assim como um prelúdio ideal, porque permite gozar do outro sem intimidá-lo. À intrusão brutal do tato, ela substitui uma forma de aproximação sutil e refinada que antecipa o gozo, e pelo mesmo o exarceba e o prolonga. A respiração do odor é uma espécie de tato voluptuoso a distância, um afago que serve não apenas de preliminar ao gozo, mas que o prolonga na ausência do ser amado” (p. 88)
Bravo!
“O odor é uma potência excitante que preside o nascimento do desejo.” (p. 88)
Não existe desejo sem química do cheiro. Como dizem as citações abaixo:
“Mas o odor não é somente um prelúdio ao amor, é um fator essencial na procura da relação. É o que faz valer Michel Serres: ‘Não amamos sem o improvável acordo dos odores’.” (p. 88)
“O desejo obedece, portanto, a um imperativo olfativo. É por isso que o perfume tem um papel decisivo na sedução amorosa.” (p. 88)
Já contei esssa história. Dei aulas sobre perfumaria para algumas turmas de um curso de Consultores de Imagens aqui em Curitiba. Embora eu preparasse um curso como um panorama por todas as famílias olfativas a perfumaria moderna e expusse os alunos a diferentes personas, de modo que soubessem indicar perfumes a tipos diferentes, invariavelmente eles só prestavam atenção mesmo quando eu respondia à invariável pergunta: professora, qual perfume a gente usa pra pegar?
“É o que sublinha Rousseau em Emílio: ‘O olfato é o sentido da imaginação que oferece aos nervos um tom mais forte, deve agitar muito o cérebro; é por isso que ele reaviva num momento o temperamento e o esgota. (…)” (p. 89)
Se Rousseau não falava justamente da relação dose-dependente do efeito de ativos odoríferos!
“Ora fermento de ódio, ora de amor, o odor possui uma potência ambivalente, e exerce uma influência insidiosa sobre os homens lhes ditando, às vezes, comportamentos apaixonados.” (p. 94)
Percebo que as pessoas toleram muitos desconfortos sensoriais, mas o olfativo é o menos tolerado pra maior parte delas.
“O odor exprime o afeto não em virtude de uma semelhança, mas por contiguidade, por meio de uma associação heterogênea.” (p. 137)
Isso quer dizer que o valor hedônico do cheiro não está nele, mas na experiência colada na sua experiência, se agradável ou desagradável.
“Um olhar habitado de desejo cessa de ser puramente visual para tornar-se olfativo, táctil e gustativo.” (p. 144)
O amor pode ser platônico, o desejo, quase nunca consegue sê-lo.
Sentido da alteridade
“Não importa em que língua, os homens forjaram um vocabulário estigmatizando o fedor feminino.” (p. 80)
Essa é uma frase que eu gostaria de ter lido no original para saber se realmente Chantal escreveu “homens”. Embora, tanto no português quanto no francês, homens se refira aos membros do gênero masculino como também ao conjunto de homens e mulhers que compõem a humanidade, em um livro de filosofia não devemos supor que as escolhas sejam neutras. Linguistica, antropológica e historicamente falando, como saber que homens forjaram tal vocabulário?
“Para além do preconceito de classe, o mau odor é sempre aquele do outro, do estrangeiro, do inimigo.” (p. 83)
“A alteridade é, portanto, frequentemente sinônimo de fetidez.” (p. 83)
Em que pese a abordagem sociológica da alteridade olfativa, uma explicação bastante factível seria fisiológica: o mau odor é sempre do outro porque, ao nosso, nos acomodamos olfativamente.
“Todas essas figuras olfativas do racismo, do sexismo e da xenofobia mostram que o odor funciona como um princípio de discriminação e de exclusão a tal ponto que a aceitação e a integração do outro passam por uma desodorização, até mesmo uma purificação. A asseptização olfativa, no entanto, não implica necessariamente a negação de todo odor. Por vezes, a integração à comunidade se baseia num processo de substituição de um odor por outro. O perfume que eclipsa o odor inicial opera então como um agente de assimilação. Ele abole a diferença e me torna semelhante ao outro.” (p. 85)
“O reconhecimento do outro naõ passa, portanto, necessariamente por sua desodorização, mas por sua reodorização. O perfume desempenha o papel simbólico de um batismo ou de uma reconversão.” (p. 85)
Lendo sobre esse papel do perfume, penso na entrada daqueles shoppings chiques nos quais o primeiro impacto, ao se abrirem as portas de correr, é de um perfume: passamos como indivíduos e adentramos como ungidos como consumidores por esse batismo olfativo. O marketing olfativo é o nivelamento de nosso valor pela identidade como consumidores.
“O olfato favorece as investigações num mundo longíquo da juventude porque o eflúvio mergulha o adulto repentinamente num estado afetivo puro do passado, graças a um jogo de associações espontâneas e inconscientes que não deixam tempo para mascarar a lembrança. O odor dá acesso a essa terra incógnita da infância que os filósofos frequentemente tendem a negligenciar considerando-a como o sono da razão. É preciso assim seguir os caminhos do nariz para compreender a natureza infantil, sua propensão ao devaneio e sua relação fusional ao mundo.” (p. 104)
Eu acho particularmente comoventes as recordações olfativas que emergem da infância. Nos muitos cursos que ministro de aromaterapia, sempre há relatos ternos de momentos significativos com cheiros e familiares.
“Os odores-lembranças exumem os estratos sucessivos da construção de si por meio das sensações e das emoções; eles despertam o eu adormecido e os estados de alma desvanecidos que sobem a superfície.” (p. 105)
Essa é potência da psicoaromaterapia.
Sentido do efêmero
“O odor, em razão de seu imediatismo e de sua efemeridade, não tem uma realidade própria, ele dificilmente se presta a uma definição conceitual, de modo que uma interrogação filosófica a seu respeito arrisca se esfumaçar e se volatilizar na imagem de seu objeto. Ela não tem a densidade ontológica de uma coisa nem a consistência epistemológica de uma ideia” (p. 8-9)
Também na ciência esta efemeridade do odor é um impedimento a seu estudo. Até que a família de genes que codificam cerca de 400 receptores olfativos nos humanos pudesse ser conhecida no final dos anos 1990 e início do século XXI, estudar o olfato era apenas uma exercício de imaginação e talvez mais radical que o estudo da física quântica.
A esse respeito, Chantal traz uma fórmula de São Bernardo sobre o olfato: odoratus impedit cogitationem: o olfato impede pensar. Quando li a frase, lembrei de uma palestra que dei intitulada A narrativa suficiente na psicoaromaterapia, na qual postulei que a experiência olfativa, por ser inenarrável, encapsula a intenção do momento aromaterapêutico em um significado suficiente. Você pode ver essa palestra aqui ou aprofundar no tema da palestra aqui.
“Em suma, os perfumes não estão no mundo, mas no nariz.” (p. 67)
Não há nada de novo nisso: toda a percepção do mundo está na cabeça. Essa citação vem de um longo trecho em que Chantal explana sobre as qualidades secundárias de Locke.
“O olfato permite, portanto, qualificar ou desqualificar os seres e as coisas, de instaurar as hierarquias afetivas e de traduzir as afinidades eletivas. Ele não se limita, no entanto, à expressão da subjetividade íntima e da vasta gama de afetos, ele possui uma força mnêmica que é a chave de uma experiência de eternidade.” (p. 152)
É tão paradoxal que o efêmero seja aquele que mais vivifique o passado, dando a impressão de que ele se estende ao presente, como se o tempo não tivesse acabado.
“É, então, possível indagar-se se não existe aí um ‘etos’ que predispõe para deleitar-se com uma arte dos perfumes, no sentido de que a evanescência das fragrâncias, longe de ser um obstáculo, é precisamente isso que sabe gozar aquele que se libertou do apego estrito à permanência das coisas.” (p. 243)
Costumo ser partidária da ideia de que temperamento é destino. Sempre ensinei que há pacientes que possuem o jeitão pra aromaterapia. Não vale insistir com aqueles que não têm.
Sentido pervasivo
“O odor invade, penetra, trazendo assim dano à liberdade de escolha e à intimidade. O fedor de graxa ou os eflúvios tenazes de um perfume capitoso se impõem às narinas e se intrometem na intimidade do sujeito. Tudo se passa como se incorporássemos o corpo do outro sem qualquer possibilidade de recusá-lo.“(p. 39)
“A proliferação do odor se aparenta a uma violação da intimidade muito mais cruel porque ele invade sem qualquer resistência aparente.” (p. 40)
Reside na impossibilidade de não cheirar um certo movimento de consumidores alérgicos contra a aromatização de ambientes. Dessa mesma impossibilidade nasce a crítica ao marketing olfativo.
“Kant alimenta o sonho de uma sociedade ideal onde os odores não teriam direito à cidade. Ele subentende, realmente, que uma sociedade verdadeiramente livre e respeitadora do próximo deveria colocar limite tanto ao barulho sonoro quanto à algazarra olfativa e estender isso na direção das relações sociais inodoras e assépticas.” (p. 42)
Considerando que foi a ascensão da burguesia, limpa e civilizada, ao lado das reformas sanitaristas, que desodorizaram os espaços públicos, diríamos que Kant aspirou a um ideal burguês.
“Se o paladar é um sentido social por excelência, o olfato é antissocial.” (p. 40)
Comida aproxima, cecê afasta.
“Em raras exceções, a anosmia ou a odorfobia não é um característica da natureza, mas um fato de cultura. A prova é que, contrariamente à civilização ocidental, onde o olfato é muitas vezes negligenciado, a sensibilidade olfativa desempenha um papel social fundamental em certas culturas. Existem povos odorífilos marcados por uma hiperanosmia e para os quais o odor e o perfume figuam entre as formas de expressão de convivência.” (p. 42)
Este livro tem poucos, mas irritantes erros de tradução: hiperanosmia é um desses. Não pode haver uma hiper anosmia, pois anosmia é ausência de olfato e não existe uma hiper ausência, conceitualmente falando. O correto, aqui, seria hiperosmia, que é a exacerbação do olfato. (Outro erro irritante: na página 54, escreveram aromoterapia, em vez de aromaterapia. Leia sobre essa grafia equivocada.)
“De par com seu caráter intrusivo, o odor permite aceder ao coração do ser e desarrumar sua intimidade. Ele abole as fronteiras entre o fora e o dentro e lhes faz fusionar em uma mesma imediatez perfumada. Que ele seja exalado ou inalado, ele exprime ou imprime sempre uma intimidade e carrega a marca da interioridade dos objetos e dos sujeitos.” (p. 130)
Da mesma forma que demarca o outro, aproxima-o.
“A natureza não é uma entidade estrangeira, mas uma pessoa familiar cujos contornos são reconhecíveis na sucessão de seus eflúvios singulares e sazonais.” (p. 133)
Uma das formas olfativas mais familiares da expressão da Natureza são seus sabores, que, lembro, são a união de gosto e cheiro. A natureza, nas cidades, chegam a nós principalmente através daquilo que comemos, legumes, frutas, cereais, leite.
“O olfato e o sabor se produzem em nós apesar de nós, e obedecem menos aos decretos da vontade do que a audição, a visão ou o tato.” (p. 156)
São imperativos, né, respirar e comer.
Sequestro linguístico
“Assim, a pobreza lexicológica arrisca reduplicar a pobreza ontológica do odor evanescente e redutível, sem uma palavra a dizer, a um quase nada.” (p. 112)
Cheirar e não saber falar é um experiência desconcertante. A gente se sente meio pateta.
“É, aliás, a partir do conceito de polissensorialidade que muitas vezes se opera hoje em dia a comunicação sobre o perfume, e que estabelecem as campanhas de marketing.” (p. 112-113)
Isso não tem nada de mérito ao marketing: diante de uma peça publicitária que não cheira, apela-se aos demais sentidos. Aliás, os próprios descritores olfativos sempre foram sinestésicos.
“A dificuldade de nomear diz respeito em parte à natureza do odor, em cuja ausência de uma essência estável e a singularidade instável se presta mal a abstração, à fixidez e à universalidade requerida pela linguagem.” (p. 113)
Não tenho certeza dessa hipótese, mas como Chantal conhece a obra de Constance Classen (Aroma, a história cultural dos odores), suponho que ela tenha em parte razão. Mas me parece que tais atributos podem ser superados, ou os perfumistas não teriam conseguido desenvolver seu jargão com tanta riqueza e precisão.
“Essas dificuldades, todavia, não são redibitórias porque a falta de vocabulário para exprimir as sensações olfativas tende mais à ignorância e à incultura que a uma vocação congênita do olfato ao inefável.” (p. 114)
Então, justamente. Ela acabou concluindo como eu.
Observação: “redibitório” significa “venda tornada sem efeito”. É uma escolha de tradução curiosa porque, no português, redibitório é praticamente uma figura jurídica ao passo que, em francês, significa impedimento, defeito, obstáculo insuperável. Haveria palavras mais acessíveis pra traduzir rédhibitoire. O fato do livro ter sido publicado por uma editora jurídica certamente deve ter pesado na escolha.
“Para aprender a exprimir as impressões olfativas, é preciso se voltar à poesia e à literatura. Toda questão é então saber se é verdadeiramente possível conceber uma estética olfativa de modo que o odor seja ao mesmo tempo expressivo e exprimido, porque se trata mais de criar um verbo do perfume que um perfume do verbo para acabar com uma linguagem inodora e muitíssimo asséptica.” (p. 116)
É um papo filosófico, momento em que a leitura começa a ficar menos fluida. Chantal evoca primeiro os escritores que puderam expressar o odor: Balzac, Baudelaire, Flaubert, Zola e outros. Provado ser possível expressá-lo a partir da literatura, ela vê como outras artes o expressaram.
“Condillac precisa bem que o olfato dá a noção de unidade e não de quantidade, a qual requer necessariamente a memória.” (p. 321)
O fato de não conseguirmos enumerar todas as moléculas presentes em uma fragrância, mas conseguirmos enumerar várias delas depois que as aprendemos é exemplo do que Condillac diz. Talvez, por esse motivo, a maioria não consegue descrever cheiros: porque descrição é enumeração.
Per fumum
“O olfato não é, portanto, associado sistematicamente à animalidade ou à selvageria, mas à invisibilidade e ao divino. Os perfumes servem de mediação, de princípio de comunicação e de troca entre os homens e os deuses.” (p. 56)
Você sabe, mas não custa recordar: per fumum, que deu origem a perfume, significa através da fumaça, como as mensagens são levadas ao Céu.
“Incensar é louvar, quer dizer no sentido primeiro do termo, isto é, verter os incensos para render homenagem a Deus.” (p. 56)
A partir de agora, dizer “os looks mais incensados da temporada” é sacrilégio.
“Além disso, o perfume em sua ubiquidade sensível sugere a presença misteriosa do deus oculto que se faz cheirar. O odor não se vê, mas ele impregna os fiéis de sua presença real, envolve-os em uma mesma comunidade sensorial e os faz comunicar de maneira fusional. Ele pode, assim, mais que a visão, dar o sentimento de união ao divino. O olfato é o sentido místico por excelência, porque ele abole a distância de representação para sugerir a presença.” (p. 61)
Sempre me interessou que cheiros adquiram significados, ou seja, que representem algo, quanto tornem esse algo real.
“Seu caráter frágil, mais imaterial e impalpável, sem dúvida se presta melhor para essa conversão necessária do sensível para o espiritual próprio da obra de arte.” (p. 158)
“A experiência oferecida pelo perfume da Madeleine [de Proust], com efeito, não é uma experiência temporal, mas, sim extratemporal. A felicidade que ela traz está livre do tempo porque abraça ao mesmo tempo o presente e o passado e os faz coincidir retirando deles uma comunhão de impressão.” (p. 158)
Certamente vem dessa extratemporalidade o caráter sagrado do perfume, a sacralidade que traz à vida.
Empreitadas
“A presunção de impossibilidade é uma das causas da estagnação do saber (…)”. (p. 10)
Parece-se bastante com frase motivacional, mas é por aí mesmo.
“Debussy é, em suma, o Baudelaire da música; ele maneja as correspondências com brio tal que as notas olfativas e sonoras se respondem.” (p. 173)
Não é do que fala Chantal ao citar Debussy, mas me lembrei de uma entrevista do Luca Turin em que ele atribuiu músicas clássicas a perfumes. É perfeitamente possível fazer essas correspondências entre sensações.
“A cor é a música do odor.” (p. 180)
Nos estudos olfativos que conduzo, noto que os alunos costumam ter muita fluência pra descrever cheiros em termos visuais, menos fluência em termos auditivos, táteis e olfativos.
“Como um gênio na garrafa, o espírito do perfume escapa ao ser aberto o frasco, que é seu embaixador junto ao público.” (p. 202)
Não fossem os frascos, ninguém se importaria com flankers.
“A arte dos perfumes inscreve-se, pois, em uma cultura olfativa que se exprime, primeiro, na forma de uma língua da qual é preciso aprender a dominar a sintaxe e a gramática, para compreendê-la e criar novos poemas de aromas.” (p. 222)
“A fórmula de um perfume é semelhante a uma forma literária, da qual se deve decifrar a gramática, a sintaxe e o significado.” (p. 222)
Com Septimus Piesse, criar perfumes se tornou criar músicas. Jean-Claude Ellena, contudo, preferiu comparar seu ofício a pintar quadros.
“Nesse sentido, o perfume é como o espírito do tempo que passa, em seu esplendor e sua fragilidade.” (p. 258)
“Por seu imediatismo e sua fulgurância, o perfume encarna, também, o modelo de uma verdade pensada em forma de presença e não de representação.” (p. 262)
“Ora, o odor, sempre movente e volátil, depende do múltiplo e não do Uno, do devir e não do ser. Ele partilha, assim, o destino de todas as sensações, que pertencem ao mundo da opinião e não ao da verdade.” (p. 267)
“A desconfiança a respeito dos sentidos deve-se igualmente ao fato de que as qualidade sensoriais não exprimem a natureza das coisas, mas apenas a maneira como elas nos tocam e como nós as qualificamos, por meio da linguagem.” (p. 273)
De um modo geral, as pessoas dedicadas ao método científico tendem a crer que o fenômeno olfativo poderá ser explicado pela neurociência. Em que pese que tudo, em algum momento, poderá ser explicado pela neurociência, ainda dependeremos da linguagem pra isso.
“Meio termo entre o sensorial e a inteligência, o olfato possibilita ir mais longe que o visível e serve e trampolin para a inteligência.” (p. 303)
A autora nos lembra que, etimologicamente, sagax, que originou sagaz, sagacidade, significa “aquele que possui o olfato sutil.” Cheirar e saber sempre estiveram associados no espírito humano.
“A imaginação, por conseguinte, é essa memória que dá ao passado o aspecto de presente, a ponto de usurpar-lhe o título.” (p. 316)
É um ponto de vista diferente sobre o que seja a capacidade de imaginar, não é?
Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2025
JAQUET, Chantal. Filosofia do odor. Tradução Michel Jean Maurice Vincent e Maria Angela Mársico da Fonseca Maia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. 368 p.