Qual foi o melhor conselho sobre escrita que você já recebeu? Ouvi um de Marcelino Freire do qual nunca mais esqueci: “essa história já foi contada, mas nunca contada por alguém que é você e mora em Altônia”. Ele falava a um colega que se sentava ao lado numa oficina de escrita. Uma década depois, pipocam livros de autoficção a cada hora. Tenho certeza de que Marcelino não tinha isso em mente quando aconselhou o garoto a não se intimidar pra escrever mais uma história de detetive.

O problema de receber conselhos de escritores bem sucedidos se chama “viés do vencedor”: segui-los deu certo pra eles, mas e pra quantos não deu? O que escritores que fracassam fazem exatamente com esses conselhos? Nassim Nicholas Taleb, estatístico, autor de ensaios que são best sellers em várias línguas (como Anti-frágil, um livro beeem interessante), postou há um tempo no seu perfil do X (em tradução do inglês):
“Você quer ser um autor?
“Não tenha medo.
“Não se corrompa.
“Não ceda, mas tenha sutileza.
“Ignore as preferências e opiniões de leitores. Você não está produzindo mocassins estilosos pro verão. Se eles não gostarem do seu material, que se fodam.”
Se você escrever como ele sugere, é quase certo que não será publicado porque o primeiro leitor que cuja opinião enfrentará – e forte – será seu editor. Importará muito a preferência dele – garanto.
Então, tenho pra mim que conselhos de escritores tendem a ser menos eficazes que de… professores de escrita, esse tipo de gente que não se deslumbra fácil com o sucesso e vive cercado de aprendizes que possuem mais ambição que talento. Como Noemi Jaffe, autora deste Escrita em movimento, que é professora de USP, tendo alguns livros publicados também.
Não que ela não conviva com autores tarimbados. Convive e ainda traz seus depoimentos pro livro. Mas o ofício de professora e crítica literária deve ter forjado um olhar mais pé no chão sobre a escrita. Os sete princípios que ilustra nesta obra são acessíveis, embora não sejam fáceis. Eles são acessíveis principalmente porque podem ser ensinados, ao passo que conselhos como “seja destemido” dependem mais de temperamento que de técnica.
Os sete princípios são: 1) escolha de palavras; 2) estilo simples; 3) consciência narrativa; 4) originalidade; 5) o efeito de estranhamento causado no leitor (no sentido de surpresa); 6) atenção aos detalhes que funcionam pra história; e 7) um pouco de experimentação (mas você não precisa fazer poesia concreta nem literatura Oulipo – o nível exigido é mais brando).
Cada princípio é um capítulo; cada capítulo traz o depoimento de um escritor e finaliza com sugestões de exercícios práticos. Um livro tão bem feitinho, tão agradável de ler que já está na sua 3ª reimpressão, olha só. Parece que sempre há apetite pra saber como escrever bem.
Abaixo selecionei as melhores partes.
Tenacidade e um certo tipo de temperamento

“Escrever é individual e solitário, mas não exclusiva ou necessariamente. Pessoas que saibam ouvir e criticar com respeito e atenção são fundamentais à escrita.” (p. 10)
– Recordo um oficina na Biblioteca Pública do Paraná cujo ministrante nos pediu pra escrevermos em dupla. Ele disse que isso estava cada vez mais comum e o ano era algo como 2014 ou 2015. Mal imaginaríamos que a dupla mais constante no futuro seria o autor e um chat GPT pra chamar de seu. Bom, eu não uso: entregar um ofício do qual tiro as horas mais gostosas e com mais significado em minha vida à IA me soa ridículo. Mas, efetivamente, a escrita, em outros contextos, não é mais um ato solitário. Roteiros são escritos a várias mãos há bastante tempo. Isso sem contar no tradicional papel do editor e nos novos papéis de leitores críticos e betas – que não escrevem, mas nos dizem pra reescrever.
“Liberdade, como sabemos, não se opõe a trabalho e, ao contrário, praticamente depende dele. Apenas um instrumentista que treina muito e que adquire muita experiência pode, após certo tempo, se sentir livre para inventar, adulterar e imprimir a própria marca.” (p. 15)
– Embora essa seja uma opinião comum e que faz sentido, quem realmente ainda acredita que a liberdade criativa venha depois de anos de esforço, sinceramente? Trabalhos ruins surgem após anos de esforço, tanto quanto nos primeiros anos. As pessoas se sentem livres com bastante facilidade – isso tá patente nas redes sociais. Mas concordo que liberdade não se opõe a trabalho. Aliás, todo mundo que tem horário flexível entende que essa liberdade implica em você trabalhar quando o assalariado está descansando e por mais horas semanais também.
“É a escrita que faz o texto e é ela que empresta essa qualidade plástica às obras que escrevemos e lemos. Quem escreve literatura precisa, antes de tudo, amar as palavras e respeitar sua relativa autonomia em relação a nossas ilusões dominadoras; o escritor de literatura não é somente agente do que escreve, é também objeto da escrita. O processo literário é um exercício de controle e entrega, de atividade e recepção.” (p. 184)
– Tenho um amigo de faculdade que se tornou professor de literatura em uma universidade federal. Ele me contou que, certa vez, um aluno, ouvindo-o repetir a palavra “narrativa” diversas vezes na aula, levantou a mão e perguntou “o que significa narrativa que o professor está sempre falando?”. Mas não era uma pergunta que poderia abrir uma tese de doutorado: ele realmente não fazia ideia de que narrativas são histórias. Como uma pessoa entra no curso de Letras sem conjugar o verbo narrar? Esta maldita era dos infoprodutos tornou qualquer iletrado autor de e-books. Com a IA generativa, o iletrado também pode ser um desconhecedor do próprio tema sobre o qual escreve.
A escrita se escreve
“Para um escritor, não são as palavras que obedecem às ideias, mas o contrário. No primeiro caso, deparamos com textos explícitos, panfletários. Já no segundo, encontramos originalidade, surpresas e a relação indissolúvel entre a história e o sabor de contá-la.” (p. 27)
– Pra ver como que ideologia destrói tudo: amizades, emprego, países, arte.
Carpintaria
“Resistência, na física, é o grau de penetrabilidade de uma matéria em relação a um objeto externo. A água, por exemplo, é bastante penetrável, embora ofereça ainda certa resistência. Já o aço é altamente impenetrável, embora não totalmente. Todas as linguagens artísticas, de uma forma ou de outra, devem lidar com a resistência dos materiais com os quais trabalham.
“É fundamental que os escritores reconheçam e deem a devida importância à resistência das palavras e passem a tratá-las também como matérias que apresentam maior ou menor resistência. Com isso, entre outras coisas, trabalha-se uma questão essencial no texto ficcional: os lugares-comuns, ou chavões, aquelas construções que deixaram de impor resistência a quem os utiliza. São como a água. Um dos papéis mais importantes dos escritores inventivos é recuperar, para a língua, a impenetrabilidade das palavras e mesmos das ideias.” (p. 36)
– Tenho um pouco de bode com a ideia de que escritores tenham papéis a desempenhar, mas aqui pode ter sido apenas uma forma batida de dizer que a escrita bacana é aquela que transforma água em aço e vice-versa. A ideia da impenetrabilidade é muito legal. Já ouvi, na teorização do coaching, que as palavras devem ser “desengravidadas”. É uma ideia semelhante. A única coisa chata é que, no coaching, desengravidar palavras significa ir ao dicionário e, na escrita literária, quando uma palavra batida torna-se grávida de outro sentido, é um deleite.

“Na literatura, uma das sensações mais prazerosas e necessárias é a sensação inaugural, em que o leitor sente que está diante de alguma coisa pela primeira vez.” (p. 39)
– Os textos que eu queria ler pela primeira vez de novo são os que já reli algumas vezes: Memórias Póstumas, A tempestade, Missa do Galo, Natal na barca, Harry Potter (todos), Os três mosqueteiros, Dispersão.
“Quanto mais preciso, mais conciso.” (p. 57)
– A concisão não implica um texto curto. Implica um texto preciso.

“Narrar é, principalmente, localizar ações no tempo, e o tempo, como se sabe, são muitas coisas.” (p. 94)
– Pensando no tempo clássico, que é localizar as ações no passado ou no presente ou no futuro, quem escreve boas histórias policiais sabe fazer isso bem. Pensando no tempo contínuo, ficção científica do tipo multiverso às vezes faz obras que nos empolgam. Pensando no tempo psicológico, ensaístas que nos encantam são os que conseguem entrelaçar suas ações com as ações no mundo. Pensando no tempo onírico, desconheço quem o domine bem, porque toda obra que apela pro tempo do sonho é chata demais.
“O escritor, entre outras coisas, é alguém que reconhece, nas palavras e nas coisas, um efeito inaugural, como se as estivesse vendo pela primeira vez, e isso não é possível sem estranhamento.” (p. 133)
– Adoro essa coisa do “efeito inaugural”. Já traduzi alguns livros. É quando mais experimento efeitos inaugurais, pois traduzir é criar o novo na outra língua.
“Escrever é um ato lento e assim deve ser.” (p. 161)
– A lentidão da escrita é o que mais me atrai nela. Por isso que odeio escrever postagens em redes sociais, embora o faça regularmente. Mas a gente se acostuma. Mesmo apostilas de cursos, livros didáricos, traduções – a gente se acostuma. Pega o ritmo e é capaz de escrever bons parágrafos rapidamente. Mas o parágrafo maravilhoso, sobretudo na escrita literária, requer tempo.
“Não é sobre mim, mas a partir de mim.”
“Em outras palavras, o escritor é alguém que deve ser capaz de ‘outrar-se’ o máximo possível, e, para efeitos literários, penso que escrever sobre pessoas bem diferentes de si é mais criativo do que escrever sobre si mesmo.” (p. 132)
– Ai de mim que prefiro ensaios.
– Eis um parágrafo escrito por quem não teme o uso de vírgulas entre conjunções aditivas.
– Eis um parágrafo escrito por quem não tem medo de neologismos.
Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2026
JAFFE, Noemi. Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
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