A era do pensamento mágico – Amanda Montell

Este livro não é sobre magia, embora a ciência, muitas vezes, seja aplicada pra acreditarmos em efeitos mágicos. Este livro é sobre linguística, neurolinguística e quais são os vieses cognitivos que nos fazem crer em qualquer bobagem que confirme nossas crenças.

A imagem mostra a capa do livro A era do pensamento mágico, de Amanda Montell, à frente de uma estante com muitas livros diferentes uns atrás dos outros. Completa a imagem o nome do blog, As melhores partes dos livros que li, junto ao endereço da internet www.casamay.com.br/asmelhorespartes e o nome do perfil do blog nas redes sociais, que é @ A M P Livros Que Li.

Usando o formato do ensaio, Amanda Montell utiliza-se de exemplos pessoais para explicar o que vem a ser a expressão “irracionalidade mágica”, ao lado dos atalhos cognitivos:

  • efeito halo;
  • viés de proporcionalidade;
  • falácia do custo irreparável;
  • viés de soma zero;
  • viés de sobrevivência;
  • ilusão de recência;
  • viés do excesso de confiança;
  • efeito da verdade ilusória;
  • viés de confirmação;
  • declinismo;
  • efeito IKEA.

Se você já leu Daniel Kahneman (Rápido e Devagar, resenhado aqui no blog) que, inclusive, é citado pela autora, reconhecerá alguns desses vieses, como o da aversão à perda. Mas no que o livro de Kahneman, Nobel de Economia, tem de toma formal, o de Amanda tem de informal e íntimo – e não tenho certeza de que tenha ficado na medida em todos os capítulos mas, what da hell, ela é engraçada o suficiente pra relevarmos.

Se for um primeiro livro pra você se familiarizar com essas artimanhas do pensamento, vá fundo. Muitos outros autores se debruçaram sobre o que a autora traz, como Leonard Mlodinow, por exemplo, e divulgadores científicos quando escreveram pra refutar as pseudociências. Por que iniciar pelo livro desta autora? Porque você lerá sobre os “truques da magia mental” como se estivesse conversando com uma amiga e, pra muitas pessoas, a ilusão de intimidade favorece o aprendizado.

Abaixo selecionei as melhores partes.

Cara mia, è tutta un’illusione

“A nossa mente se ilude desde a aurora do processo decisório humano. A pura e simples quantidade de estímulos e informações do mundo natural sempre foi demais para a nossa capacidade; uma vida inteira não bastaria para catalogar com precisão a cor e a forma de cada ramo de árvore e entendê-lo. Assim, no início, os cérebros vinham com atalhos que nos permitiam compreender suficientemente o meio ambiente para sobreviver. A mente nunca foi perfeitamente racional, e sim racionalizadora de recursos – empenhada em conciliar nosso tempo finito, uma capacidade limitada de memorização e o evidente anseio de atribuir sentido aos acontecimentos” (p. 14)

– A capacidade racionalizante também pode estar à serviço do instinto de sobrevivência. Por exemplo, ao construir um navio, descobrimos que é melhor calcular bem suas medidas que chutá-las a fim de garantir que ele não afunde.

” (…) os norte-americanos costumam confiar em pessoas famosas porque ‘achamos que as conhecemos, pois as vemos no cinema ou na televisão e presumimos que elas são de fato como os papéis que representam’.” (p. 24)

– Não sou influenciadora, mas tenho um número suficiente de seguidores pra já ter experienciado coisas bizarras como pessoas completamente desconhecidas virem me abraçar e falar sobre mim como se fossem amigas de infância. Tenho muito medo disso, o que me fez recuar tremendamente na quantidade de vídeos e postagens que coloco na internet. Imaginar que as pessoas levem a sério tudo o que eu faço me assusta, porque nem mesmo eu me levo a sério o tempo todo.

“Embora as preferências masculinas em matéria de teorias da conspiração se direcionam com mais frequência para OVNIs e cabalas satânicas, as mulheres de certo nível de educação têm maior probabilidade de abraçar conceitos New Age do tipo banhos de lua, curas com cristais e técnicas de manifestação, entre elas a lei da atração. Combinando misticismo e todo um jargão de efeito garantido dos manuais psiquiátricos oficiais, do tipo ‘desregulado’, ‘caminhos neurais’, ‘epigenética’ e ‘resposta vasovagal’, são preceitos que parecem um delicioso cruzamento de leitura de tarô com diagnóstico médico.” (p. 44)

– Um fato que os progressistas sempre fingiram não ver é que os antivaxers nasceram, primeiramente, entre eles, lembrando também que, nos EUA, as mulheres tendem a votar muito mais nos democratas que nos republicanos.

“Diante de um problema, a maioria das pessoas naturalmente pensa que a causa deve ser algo que está faltando, e não que alguma coisa é injustificada ou não deveria estar ali. (p. 66)

– Diz-se, de hoje em dia, que todos os males são por excessos, e não mais pela falta como antigamente: obesidade em vez de fome, intoxicação por suplementos em vez de desnutrição…

“O exemplo canônico do viés de sobrevivência é encontrado na Segunda Guerra Mundial. Corria o ano de 1943 quando as forças armadas norte-americanas pediram ajuda à equipe de estatística da Universidade de Columbia para descobrir que tipo de blindagem impediria que seus caças de combate fossem derrubados por forças inimigas. Não seria possível revestir os aparelhos ineteiros com reluzentes armaduras de cavaleiros, pois ficariam com um peso absurdo, e assim era precisa se concentrar nas áreas mais vulneráveis da superfície. A abordagem intuitiva dos militares consistia em examinar os aviões que voltavam de combate e analisar as partes danificadas. E então, naturalmente, essas regiões seriam mais reforçadas. Mas um matemático percebeu uma falha importante no plano: eles não levavam em consideração os aviões que não tinham voltado. O viés de sobrevivência indicava aos oficiais precisamente a direção errada: proteger-se contra os danos que claramente não foram fatais. Os militares não tinham ideia de quais buracos de bala tinham sido os piores, pois esses aviões não retornavam.” (p. 96)

– Embora esse exemplo de viés do sobrevivente seja didático, mais difícil é percebê-lo no dia a dia. No empreendedorismo, que vive do viés do sobrevivente mais do que qualquer outra área na atualidade (exceto, talvez, a clínica médica), o sucesso é quase sempre reputado às características comportamentais e de temperamento do empreendedor. Mas, cá pra mim, os buracos que destruíram a fuzelagem dos milhares de empreendedores que ficaram pra trás é o… azar. Ninguém nunca admitirá: gente de sucesso conta muito com a sorte.

“Sempre que um comportamento humano misterioso suscita a pergunta ‘Por que somos assim?’ – e quanto mais eu vivo, mais parece que ela dá as caras -, a explicação psicológica com frequência é uma dessas duas: ou bem a tal manifestação de irracionalidade comporta alguma vantagem evolutiva ultrapassada (um dente siso cognitivo, digamos assim), ou então não passa de um inconveniente efeito colateral de alguma outra característica legitimamente útil (os cientistas às vezes dão a isso o nome de ‘enjunta’; um exemplo físico é o queixo humano).” (p. 113)

– Me parece que há mais efeitos colaterais que vantagens ultrapassadas…

“Parece que sempre está faltando tempo ou sentido, e nossos vieses cognitivos mais vertiginosos dizem respeito à maximização de ambos.” (p. 119)

– Parece um bom raciocínio-antídoto contra vieses perguntar: como isso me faz crer que tenho tempo? como isso me faz crer que existe aí uma explicação?

“Em 1955, Albert Einstein escreveu uma carta à família enlutada de seu falecido amigo Michelle Besso, dizendo: ‘As pessoas que, como nós, acreditam na física sabem que a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão obstinadamente persistente.’ “ (p. 120)

– E depois acusam cientistas de serem desprovidos de vida espiritual…

“A repetição é como um antiácido cognitivo, ajudando na digestão informativa. Quando nos deparamos com um sentimento duas vezes, e depois três, começamos a reagir a ele com mais rapidez, pois nosso cérebro erroneamente interpreta fluência como veracidade. Familiaridade gera conforto (…)” (p. 149)

– Da Janela de Overton à cheiros, passamos a considerar aceitável tudo a que antes rejeitávamos apenas por termos nos familiarizado com aquilo. (Nota da aromaterapeuta: não acredite que o fato de você hoje gostar de um OE que antes não suportava é porque “aprendeu a lição dele”: é apenas porque, agora, seu cérebro o conhece.”

“Bem cedo na vida, nós internalizamos a relação ilusória entre repetição e veracidade.” (p. 149)

– Marketeiros sabem isso desde o dia 1 da faculdade: não existe propaganda ruim, apenas propaganda.

“O cérebro tem uma relação estranha com o tempo. Seu estado normal é hiperdramatizar o presente, glorificar o passado e desvalorizar o futuro.” (p. 179)

– Céticos: desvalorizam o presente, passado e futuro.

A velha necessidade de ser amado e protegido

“Seja na esfera privada ou pública, a veneração é desumanizadora. Ser endeusado não é assim tão lisonjeiro; é uma dinâmica que pode deixar a pessoa sem espaço para a complexidade e o erro, o que abre as portas da aflição para todos os envolvidos.” (p. 30)

– Amanda citou, neste trecho, uma pesquisa feita com adolescentes chineses que revelou que aqueles que glorificavam celebridades tinham um senso de identidade debilitado. Acho essa constatação um tanto quanto óbvia. Quero acrescentar, contudo, que glorificar artistas e atletas me parece menos inofensivo que cultuar políticos (Lula, Bolsonaro…) porque apenas estes têm a capacidade de decidir quanto de imposto você pagará e se seu filho terá ou não um atendimento decente no postinho de saúde.

“Uma relação tóxica é simplesmente uma seita de uma pessoa só.” (p. 69)

– Que definição precisa.

“Um ataque de alienígenas: que delícia de pavor para aproximar as pessoas! Em comparação, a ciranda política parecia decididamente minúscula. Você pode até ter muitos inimigos na Terra, mas espere só os conflitos se tornarem intergalácticos.” (p. 111-112)

– Se crer em OVNIs é sintoma da necessidade de ser amado, “salvar o mundo mas não arrumar o próprio quarto” é sintoma de misantropia.

“Na investigação sobre seitas, aprendi que, estejamos falando de partidários políticos, amantes da astrologia, evangélicos, preparadores do juízo final ou stans de Taylor Swift, a sensação de pertencimento social é mais valiosa que qualquer crença específica. E é certamente mais valiosa que a verdade.” (p. 171)

– Pertença ou pereça.

“Meu neologismo favorito do século até o momento é ‘anemoia’, que remete à nostalgia de uma época que não vivemos. A expressão foi cunhada por John Koenig, autor de The Dictionary of Obscure Sorrows [Dicionário das mágoas obscuras, em tradução livre], fascinante compêndio de palavra imaginárias para designar emoções ainda sem nome.” (p. 176)

– Tenho certeza de que qualquer tradutor digno da profissão faria de tudo pra ter a chance de pegar este livro. Como Lia Wyler ao traduzir Quadribol, a excitação de “criar” palavras que se eternizam é inenarrável.

Perigo: influenciador à vista

“Em geral, não associamos a expressão ‘teórico da conspiração’ a imagens de terapeitas queridos, com livros publicados e seguidos nas redes como celebridades. Até recentemente, eu achava que teóricos da conspiração eram incels com cabelinho rabo de rato obcecados com OVNIs, ou então Karens que acham que óleos essenciais são um traço de personalidade e que vacinas fazem a pessoa virar gay.” (p. 40)

– Duas coisas que mais fizeram mal que bem: fórmulas de lançamento do marketing digital e doTerra.

“A paranoia é uma propensão vantajosa. Embora a crença de que o governo administra pérfidos laboratórios subterrâneos de controle da mente pareça meio fantasiosa para a maioria, dá para montar um negócio com base na ideia de que cabe ao nosso próprio cérebro dodói a culpa por nossa saúde prejudicada e conta bancária no negativo.” (p. 42)

– Pondé tem dito que a humanidade é uma espécie psicótica em surto funcional… Olhe, não acho que seja muito nova a ideia de cérebro dodói pra ganhar dinheiro. Na verdade, culpar nossa mente/alma pra vender algo me parece um business tão antigo quanto as grandes religiões…

“Depois de devorar o vídeo dos OVNIs, tomei um pavoroso porre de Google que me levou a um artigo sobre as mais frequentes causas de morte em diferentes momentos da história.” (p. 113)

– Agora que os buscadores só cospem resultados de IA, quem saberá, no futuro, a que tipo de experiência se refere a expressão “porre de Google”, aquela de ir de um hiperlink a outro e a outro e a outro?

“As pesquisas indicam que riso e repugnância estão entre as reações emocionais com maior probabilidade de tornar uma informação a um tempo persuasiva e suscetível de ser compartilhada.” (p. 156)

– Click bait fácil: te fazer rir, te fazer ficar com raiva. Não caia nessas.

Sem segredo

” ‘Autocura’ é uma abstração New Age para mercantilizar o ensinamento do budismo tibetano segundo o qual cada um de nós molda o próprio destino. Originalmente, o princípio sustenta que podemos não controlar as outras pessoas e os acontecimentos, mas, com nossas reações, somos capazes de minimizar o sofrimento. Um dos problemas da versão desse princípio embalada para o uso no Instagram é que pode levar a uma obsessão com a responsabilidade pessoal.” (p. 45)

– Como, felizmente, não existe coerência nesta vida, o conceito da autocura convive com os de “só Jesus na causa e “sou assim por causa do meu TDAH”. Estar tudo ao meu alcance ou estar tudo fora do meu alcance é nosso padrão bipolar de humanos.

“A tendência a explicar questões complexas com doutrinas metafísicas, de maneira simplista, às vezes é chamada de ‘bypass espiritual’.” (p. 45)

– Adorei a expressão. É tipo um sci-washing: quando certa explicação tem um verniz científico sem ser ciência. Só que, aqui, o verniz é espiritual: quando a questão tem causas bem materiais, mas é explicada como tendo causas espirituais. O que eu chamo de psicossomática de manual é exemplo de bypass espiritual.

“Muitas vezes queremos que a vida real transmita a sensação de um filme com uma trama amarrada. Desejamos obstáculos e drama e, em última análise, um fim brotando de bulbos plantados. Já ouvi roteiristas discutindo as vantagens respectivas de narrativas do tipo ‘mas/por conseguinte’ versus narrativas tipo ‘e então’. Os scripts ruins alinhavam acontecimentos aleatórios um atrás do outro (‘e então, e então, e então’). O que resulta numa história insatisfatória que não faz muito sentido. Em contraste, os roteiros atraentes plantam sementes narrativas e a partir daí criam conflitos e resoluções que germinam de maneira consequente (‘por conseguinte’, ‘portanto’, ‘mas’, ‘então’). Ansiamos por essa estrutura em nós do mesmo modo como a buscamos na ficção.” (p. 102)

– Sei não… Byung Chul-Han disse que a boa narrativa é o “e então”, contrária ao story telling, que é o “por conseguinte”…

“Da próxima vez que tivermos uma dúvida, seguraremos enquanto for humanamente possível para só então sair dando um Google em busca da resposta. Vai ser erótico.” (p. 144)

– E quem diria que nosso comportamento online receberia lições do Kama Sutra?!

“E [Maggie Nelson] citou James Baldwin, que tinha declarado, sessenta anos antes: ‘Não posso ser pessimista, pois estou vivo. Ser pessimista significa que você chegou à conclusão de que a vida humana é uma questão acadêmica.’ “ (p. 184)

– Pondé (de novo) diz que não cabe chamá-lo de pessimista posto ter tido filhos.

“Os exames de imagem cerebrais mostram que, quando temos lembranças agradáveis, são iluminadas as mesmas regiões cranianas que se acendem quando sonhamos acordados com o futuro. Não surpreende que eu esteja tão ligada em dinossauros, cottagecore e reuniões de fanáticos de Harry Potter. Talvez não devêssemos ter tanta má vontade com adultos fãs da Disney. Por mais piegas que sejam, o fato é que a nostalgia nos permite tolerar o presente para nos preparar para o que vem pela frente. (p. 186)

– Meu marido, que sempre me parece ter a capacidade absolutamente irritante de dizer verdades da maneira mais charmosa possível, fala que as pessoas continuam indo pra Disney porque lá é o único lugar pra férias em que realmente não se pensa em trabalho. Você está em uma praia, linda e tals: um dia depois, você estará pensando em trabalho, mas dificilmente enquanto estiver andando na Space Mountain ou vendo o Mickey.

Grande finale

“Obrigada ao amor da minha vida, Casey Kolb, compositor da trilha sonora da minha vida e seu eterno protagonista. Escrevi este livro para você. Se não gostar, por favor minta, como o marido no filme de Julia Louis-Dreyfus.

“Este é o livro que eu sempre sonhei escrever. Desculpem o drama, mas, por ter conseguido, é como se eu já pudesse morrer feliz. Obrigada a todos por lerem.” (p. 206)

– A autora é ótima, hahaha! Tenho pra mim que ninguém da geração X conseguiria escrever um ensaio de divulgação científica como se estivesse postando selfies.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2025

MONTELL, Amanda. A era do pensamento mágico: notas sobre a irracionalidade moderna. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Rocco, 2025.

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